sábado, outubro 01, 2011

EDITORIAL O ESTADÃO - A austeridade do governo federal é apenas um mito


A austeridade do governo federal é apenas um mito
EDITORIAL 
O ESTADÃO - 01/10/11

O Relatório de Inflação deu grande destaque à normalização das finanças do governo federal, apontada como um fator que permitiu às autoridades monetárias reduzir a taxa básica de juros. Os Resultados do Tesouro Nacional, divulgados anteontem, e as contas do setor púbico, publicadas ontem, recomendam que os diretores do Banco Central contenham seu entusiasmo.

Os resultados do governo não podem ser avaliados apenas pelo superávit primário obtido para pagar uma parte dos juros. Maior atenção merecem o déficit nominal e o volume das despesas efetivas, que refletem uma menor ou maior liquidez do sistema financeiro. O governo está dando destaque ao fato de que, com um superávit primário de R$ 96,5 bilhões, 72,4% da meta para 2011 já está cumprida - e com isso quase se pode ter a certeza de que, neste ano, a meta será ultrapassada.

É preciso, porém, qualificar esse resultado. Em agosto, o superávit primário foi o pior registrado desde 2003 - para o mês -, enquanto os gastos com juros, de R$ 160,2 bilhões, foram os maiores da série histórica. Além disso, o superávit do governo central caiu de R$ 10,9 bilhões, em julho, para R$ 2 bilhões, em agosto, enquanto o superávit dos governos regionais (Estados e municípios) aumentou de R$ 1,6 bilhão para R$ 2,6 bilhões.

O déficit nominal do setor público, de R$ 17,1 bilhões, cresceu 241,5% em um mês, e o governo central é o grande responsável por ele (déficit de R$ 17,2 bilhões), pois os governos regionais foram superavitários.

Se em oito meses o superávit primário equivale a 3,65% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 2,06% no mesmo período de 2010, isso não ocorreu em razão de uma política de austeridade, mas graças ao aumento da arrecadação do governo central, cujas receitas líquidas cresceram 18,8%, no período, enquanto as despesas aumentaram 10,6%.

As despesas que menos aumentaram foram as de capitais, como notou um diretor do Banco Central, por causa da incapacidade do governo de administrar proficuamente os investimentos na infraestrutura. O governo concentra suas despesas em custeio e no pagamento do funcionalismo, o que causa uma liquidez excessiva.

O superávit primário cobre em oito meses apenas 53% dos juros do governo central, que, a despeito de seu endividamento custar cada vez mais caro, não consegue imprimir maior velocidade aos investimentos em infraestrutura que poderiam aumentar a capacidade de concorrência da indústria brasileira.

JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém - Efeito Kassab


Efeito Kassab
JORGE BASTOS MORENO - Nhenhenhém
O GLOBO - 01/10/11

O político importante do país, hoje, é Kassab. Metade dos governadores conseguiu maioria graças a ele. A outra metade está atrás dele.

Kassab vive de imagem. Vai apoiar Dilma, mas rejeitará cargos. Essa é a imagem que quer passar à sociedade.

Mas é no plano municipal que está a chave do poder.

Os dois vices de Alckmin, no governo anterior e no atual, foram indicados por ele.

E Kassab quer fazer do atual, Afif Domingos, candidato do PSD a prefeito de SP.

Se Alckmin topar, Kassab dará sua palavra de honra de que o PSD apoiará o candidato tucano à Presidência, seja ele quem for. Sonhei com Kassab me dizendo às sete da manhã de ontem:

— Acordo de 2012, Kassab cumpre em 2014.

Engole o choro!

Dilma recebeu, fora da agenda, a senadora Marta Suplicy. Marta deve ter chorado feito Gabrielli da Petrobras.

O poder da Dilma

Lembram o João Paulo, não o deputado paulista, mas o ex-prefeito de Recife?

Vou clarear vossas memórias: é aquele que quase causou um incidente diplomático de tanto falar que não tinha medo de "Suriname", quando, na verdade, queria dizer tsunami?

Sim, ele mesmo. O coitado foi tão perseguido pelo senador Humberto Costa, que, finalmente, resolveu sair do PT e anunciar sua filiação ao PCdoB. Foi chamado pela Dilma e, em 20 minutos de conversa, desistiu.

Depois neguinho vem dizer que a Dilma não tem envergadura política e que Lula, sim, é que era o sedutor.

Dona Flor

Dilma inicia amanhã um roteiro de viagem a três países: Bélgica, Bulgária e Turquia.

E, mais uma vez, Pimentel e Mercadante serão os únicos ministros partidários da comitiva. Não tem mais para ninguém. Só dá os dois.

Onde está o veado do Palácio do Planalto?

O Itamaraty exigiu do governo búlgaro documentação minuciosa dos candidatos a parentes da presidente Dilma que querem cumprimentá-la durante sua visita ao país.

Vai que de repente aparece um Stevie Wonder por lá dizendo que é primo da Dilma. Aqui, no Rock In Rio, foi um vexame: autoridades e celebridades caíram que nem patinhos.

Mas a maior preocupação da nossa diplomacia é com o presente que Dilma vai receber do governo da Bulgária. Sim, porque, na posse, recebeu uma estatueta enorme de um veado dourado, que não cabia nem no gabinete (gozado, acho que a reforma do Palácio reduziu a sala da Dilma, porque nos governos FH e Lula caberiam vários).

Só que o veado sumiu do Palácio. Não ouso dizer que foi roubado, mas alguém levou o bicho para casa. Só notaram isso durante uma reunião ministerial, quando alguém perguntou: onde estava o veadinho? Foi um silêncio constrangedor.

Nessa época, Jobim ainda era ministro, mas, graças a Deus, não acusou nenhum colega de nada.

Permanece o mistério: onde está o veadinho búlgaro? Espero que o Eduardo Cunha, que vive se preocupando com o meu armário, não invente que a estatueta esteja lá. Se estivesse nos cofres da República, Cunha, com certeza, saberia.

Tilápia & Macadâmia

Se inveja matasse, Sérgio Cabral e Eduardo Paes estariam mortos.

Pezão, como o melhor governador em exercício (claro, no Brasil só tem ele na função), e Zelão, de Silva Jardim, como o melhor prefeito do Estado do Rio, estão sendo homenageados na Espanha.

Só que, por praga dos invejosos, sumiu a mala do Zelão. Ele reclamou no Ancelmo que ficou até sem cuecas.

Coitado do Zelão. Essa é a única peça do Pezão que não cabe nele.

O resto é tudo do Pezão, até os sapatos.

Aécio In Rio 2014

Aécio Neves vai hoje, pela primeira vez, ao Rock In Rio.

Está atrasado apenas 26 anos, quando uma chuva o impediu de desembarcar no palco e ler uma mensagem do avô eleito naquele dia.

A vitória coincidiu com a apresentação do Barão e foi saudada por Cazuza, no "Pro Dia Nascer Feliz".

Por um triz

E quase que o Barão não se apresenta, conta-me Lucinha Araújo.

Cazuza, Frejat e outros da banda foram de jipe e, no caminho, foram fechados por um motorista maluco. E gritaram: Veado! Veado! Veado! De arma nas mãos, o motorista perguntou:

— Quem é o veado aqui?

— Eu! Eu! Eu!

Contraste
No jantar dos deputados, Aécio alega que não se lançou. Apenas mostrou que o PSDB tem projeto, aproveitando para cutucar Lula:

— Não sei quem serão os candidatos, mas o debate bom seria com meu amigo Lula. As diferenças ficariam mais claras. Seria a gestão eficiente versus o aparelhamento do Estado: a política pragmática a favor do Brasil versus a política ideológica a favor dos amigos: o futuro versus o passado.

Eu posso até acreditar.

Mas o Serra não!

TUTTY VASQUES - A vida como ela não é!


A vida como ela não é!
TUTTY VASQUES
O Estado de S.Paulo - 01/10/11


Ah, bom!

O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, deu uma explicação convincente para a votação relâmpago em sessão-fantasma da Comissão de Constituição e Justiça: "É assim mesmo!"

O Guido do Medvedev

A presidente Dilma devia dar graças a Deus pelo Guido Mantega que tem! O similar russo foi demitido dia desses por "insubordinação".

Boletim médico

Parentes e amigos de Aloizio Mercadante estão preocupados! A notícia de que a produção de iPad no Brasil subiu no telhado deixou o ministro em estado de choque. O tablet de Jundiaí é praticamente um filho para ele!

Passo a passo

Estrategista nato, o ministro Celso Amorim, da Defesa, traçou para as tropas brasileiras no Haiti uma retirada nem tão rápida que pareça fuga nem tão devagar que possa parecer provocação.

Inútil

Muamar Kadafi deu de ombros para a prisão de seu porta-voz pelas forças rebeldes da Líbia. Pra que diabos ele precisa de um porta-voz agora, caramba?

Mal comparando

Quem é melhor: Lula ou Pelé? Só se fala disso nos corredores da Science-Po de Paris. Os acadêmicos franceses perderam inteiramente a noção das coisas!

De novo!

Periga ser a notícia enguiçada da década: a Justiça Federal mandou suspender outra vez o leilão de licitação do trem-bala Campinas-SP-Rio.

Por mais sem sentido que seja a vida de celebridade, certas coisas na biografia da Gretchen que se escreve no noticiário não resistem a uma simples conferência de datas.

Como pode alguém que no dia 12 de julho internou-se numa clínica de SP para turbinar bumbum e seios no embalo de uma lipoaspiração de barriga reaparecer nesta semana no Facebook trabalhando de garçonete num café de Orlando (EUA)?

Diz ela que não se envergonha disso - provavelmente nem daquilo -, coisa que em nenhuma circunstância vem aqui ao caso.

O fato é que, em sã consciência, ninguém recorre à cirurgia plástica para servir hambúrguer numa lanchonete qualquer da chamada "Flórida profunda".

Seguindo as pegadas que deixou no Google, descobre-se que, entre o pós-operatório e o bico de trabalho na vizinhança da Disney, a rainha do rebolado se apaixonou, se casou e se separou de um chef de cozinha conhecido como Fernandez.

Para a irmã - a cantora Sula Miranda -, Gretchen disse que foi morar nos EUA para "fugir do assédio e ter uma vida normal".

Pense nisso antes de sair por aí reclamando da própria rotina. Melhor a vida como ela é!

Iriny nela!

Luana Piovani usou o Twitter para criticar o anúncio de lingerie de Gisele Bündchen mas, na mesma rede social, admitiu que já aplicou botox entre as sobrancelhas. Deixa a ministra de Políticas para Mulheres saber disso! Capaz de tirar a atriz do ar.

PAULO SANT’ANA - O papel de Deus


O papel de Deus
 PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 01/10/11

Ouvi na televisão, num desses programas religiosos, um fiel fazer a seguinte prece: “Deus, sei que és o criador do Céu e da Terra. Sei que és a síntese de todas as compreensões e que deténs todas as misericórdias. Sei que é de ti que provêm toda a luz, toda a sabedoria. Mas, cá para nós, Deus, tu não estás me atendendo, tu estás me sacaneando.

Há tempo que venho te pedindo para solucionar a minha grande aflição e tu te finges de desentendido, Deus. Pô, Deus, te flagra que eu estou necessitado de ti!”.

Já ouvi outras preces iguais a esta. Há pessoas que acham que Deus foi feito para servi-las e solucionar todos os seus problemas.

E, assim, se frustram com Deus.

Por sinal, o mesmo aconteceu exatamente com Jesus Cristo, filho de Deus, filho único de Deus, unigênito, também Jesus Cristo se decepcionou com Deus. Quando estava pregado ao lenho e antes de desfalecer diante da crucificação, disse, segundo consta na Bíblia: “Pai, por que me abandonaste?”.

Ocorre-me que, fosse tarefa precípua de Deus socorrer os homens quando estes estivessem em dificuldade, o mundo seria um campo maravilhoso de lazer, ninguém mais teria qualquer problema.

A qualquer dificuldade, o fiel oraria a Deus e este viria em seu socorro, acabando com o problema.

Evidentemente que não é assim, e as pessoas não podem colocar na conta de Deus as suas frustrações.

A relação entre os homens e Deus tem de ser colocada noutro plano.

Não pode ser vista como imediatista, quando Deus estaria de plantão para socorrer todas as emergências dos homens.

Melhor que se tenha Deus como fonte de meditação sobre a nossa condição filosófica perante a vida, o passado, o futuro do que como quebra-galho eventual das nossas dificuldades.

Da minha parte, erigi Deus como reserva nas minhas meditações. Ele está lá, distante, remoto, como um ímã oculto no infinito e eu estou aqui na luta da vida, me virando para sobreviver.

Envio-lhe minhas orações para que me auxilie na façanha de viver, mas não sou direto com ele, cobrando-lhe sobre determinados problemas.

A relação que tenho com Deus, em quem creio, é, digamos assim, institucional. Ele lá no infinito, eu aqui na Terra. Ele como espírito supremo, eu como mero terráqueo sujeito a todas as intranquilidades da vida.

O caso daquele fiel que diz que Deus o está sacaneando ao não atender o seu pedido é literalmente o da pessoa que elegeu Deus como parceiro: a cada tropeção seu, ele pede que Deus interceda e normalize o seu caminho.

Será que pode ser assim? Será que Deus é um pronto-socorro? Será que Deus é como uma emergência de hospital, capaz de nos curar de todas as doenças, males, infortúnios, de todas as urgências danosas que nos atacam?

Se fosse assim, seria uma barbada viver: toda vez que tivéssemos qualquer contrariedade, fosse ela suave ou de vulto, chamaríamos por Deus, que viria nos socorrer e nos livraria de todos os contratempos, desde os menores até as desgraças.

Não é assim.

Deus é um grande reforço. Mas não é remédio pronto para todos os males.

Tem de haver uma melhor conscientização do papel de Deus.

ANCELMO GOIS - Volta da pasta rosa



Volta da pasta rosa
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 01/10/11


Um dos mistérios do remake de O Astro é o conteúdo de uma “pasta rosa” que sumiu do cofre de Salomão Hayalla.
Na vida real, em dezembro de 1995, houve um mistério envolvendo o mesmo objeto, da mesma cor. O BC, na intervenção no Banco Econômico, descobriu numa “pasta rosa” uma lista de 25 políticos que receberam doações ilegais para a campanha de 1990 de US$ 2,4 milhões. 
Na lista, os atuais senadores José Sarney e Renan Calheiros.

MAS... 
Como é comum na realidade brasileira, o escândalo da pasta cor-de-rosa não deu em nada.

PUXA, THIAGO 
A ONG Fala Bicho fez uma campanha, com sucesso, para tirar Thiago Gagliasso, irmão do global Bruno, de A Fazenda. 
É que o ator confessou ter batido e dado chutes em animais.

BELOS OLHOS AZUIS 
A princesa Madeleine, 28 anos, terceira na linha de sucessão da Suécia, estará segunda agora em Pernambuco, em viagem particular. Os belos olhos da moça são sucesso entre reis e plebeus.

VOCÊ ABUSOU 
Não foi surpresa Stevie Wonder cantar Você abusou, de Antônio Carlos e Jocafi.
O samba, de 1971, também é um sucesso internacional, e esteve no repertório de Ella Fitzgerald, deusa do jazz, no Festival de Montreaux de 1975.

LINGERIE VERMELHA 
Hildete Pereira de Melo, do Fórum Feminista do Rio, discorda da coluna, que ontem pediu um pouco mais de calma e humor, ao comentar a reação do governo, através da Secretaria das Mulheres, sobre o anúncio da Hope com Gisele Bündchen:
– Essa crítica de falta de humor das feministas é recorrente. Mas como ser bem-humorada com desrespeito? Toda vez que se protesta contra brincadeiras machistas, esta crítica é jogada em nossa cara.

ANÚNCIO CHOCHO 
Para Hildete o anúncio é “chocho” e só reforça a tão lamentada submissão feminina:
– É pena que a Gisele tenha se submetido a isso. Além da má qualidade, o anúncio é ofensivo à dignidade das mulheres.

NO MAIS 
Calma, gente...

ELA É DO RIO 
O brasileiro Carlos Ghosn, 57 anos, presidente mundial da Renault e Nissan, se encontra hoje com Dilma.
Anuncia a expansão da Renault no Paraná e a nova fábrica da Nissan em Resende, RJ.

CASO MÉDICO 
Antônio Pedro de Souza Silva, o Russo, famoso assistente de palco do Chacrinha, está internado no hospital Rio Mar desde o último dia 23.
Russo, 80 anos, teve um infarto e vai ser operado nos próximos dias.

COMIDA DA ONU 
A Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) recebeu, quinta, representantes do Itamaraty e da ONU para entender os processos de concorrência e contratos da entidade internacional, que atinge US$ 2.4 bilhões.
Quase tudo é enviado para forças pacificadoras e grupos civis, em ações humanitárias.

RUY CASTRO - Menos um



Menos um
RUY CASTRO 
FOLHA DE SP - 01/10/11

RIO DE JANEIRO - Outro dia, um amigo me disse que levaria para o túmulo uma chaga impossível de cicatrizar: a de, por estar fora do Rio ou fora de si (ele não se lembra), ter perdido o show dos Rolling Stones na praia de Copacabana, em fevereiro de 2006. Aquele que reuniu 1,3 milhão de pessoas, para a polícia, ou 2 milhões, para os organizadores, e que, dizem, foi a maior multidão num espetáculo de rock.
Precisei me refrear para não lhe contar que, embora não tenha assistido ao show, fui um daqueles 1,3 milhão ou 2 milhões em Copacabana, e que isso não me alterou a mínima -exceto tornar-me desconfiado desses números que as pessoas apresentam segundo suas conveniências. Afinal, quem conta -e como?
Eu sei, os observadores estabelecem a metragem do cenário, calculam sete pessoas por metro quadrado e tiram um número para a posteridade. Mas isso não é uma ciência exata. E se houver crianças montadas em garupas? E os obesos que ocupam, cada um, um metro quadrado?
Lembro-me de ter ido do Leblon a Copacabana, a pé, pela orla, naquele dia. Às duas da tarde, havia muita gente na praia, mas concentrada diante do Copacabana Palace, onde ficava o palco. Prossegui até o Leme e, pelas seis horas, passei de volta pelo palco. A turba dobrara de tamanho, mas já ia ficando rala ali pelo posto 5. Fui embora. Mais tarde, em casa, espiando de relance pela TV, ficou claro que os fãs dos Rolling Stones nem de longe ocupavam a areia e a rua como fazem os de Iemanjá que, todo Réveillon, tomam Copacabana de ponta a ponta, do Leme ao posto 6.
E, ah, sim. Se os propalados 1,3 milhão ou 2 milhões incluem os que apenas flanaram pela praia em algum momento do dia, rogo em nome do rigor histórico que cancelem minha presença. Não assisti ao show. Portanto, é 1,3 milhão ou 2 milhões menos um.

RUTH DE AQUINO - A lingerie de Gisele


A lingerie de Gisele
RUTH DE AQUINO
REVISTA ÉPOCA
A ameaça de censura ao comercial com ela rodou o mundo. Só que, no anúncio, o objeto é o homem...

RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
Certo ou errado? Gisele Bündchen, de lingerie e salto alto, seduz seu homem (e os nossos também) no comercial de TV. A modelo dá más notícias para o marido. “Amor, mamãe vem morar com a gente.” “Estourei seu cartão de crédito.” “Bati com seu carro.” Gisele séria, de vestido comportado. E sensual, de calcinha e sutiã. “Você é brasileira, use seu charme”, diz a publicidade. A Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) do governo Dilma achou a mensagem “preconceituosa e discriminatória” e quer tirar Gisele do ar.
Desconfio que a Hope, marca da lingerie, tenha contratado as mulheres de Dilma para bombar a campanha. O anúncio com a modelo mais bem paga do planeta virou uma sensação. Em inglês, francês, italiano, espanhol. A ameaça de censura do governo rodou o mundo. Vídeos legendados em diversos idiomas mostram Gisele no duplo papel. A esposa recatada. E a gata provocante. Tudo para vender lingerie... para as mulheres.
Acho o anúncio divertido, leve, maroto. Não me senti ofendida. E olha que sou chefe de família, como 30% das brasileiras. Fico boba com a falta de humor e rebolado da tal secretaria do governo. A nota de repúdio ao Conar, conselho que regulamenta a publicidade, usa uma linguagem pesada como a burca. Inspire. “O anúncio reforça o estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual e ignora os grandes avanços alcançados para desconstruir práticas e pensamentos sexistas.” Expire. Conseguiu ler até o fim? Ah, falta explicar que o governo recebeu 15 – quinze! – queixas de telespectadores indignados com a publicidade. Uma multidão. Por isso, a ministra Iriny Lopes foi à luta contra a lingerie incorreta.
Que tal uma teoria inversa? O anúncio na verdade mostraria o homem como objeto de manipulação das mulheres e não o contrário. O homem é um tolo que cai de quatro para o poder da sedução feminina. Em vez de macho fulo de raiva com o cartão de crédito estourado, o carro batido e a vinda da sogra, o marido invisível se submete, dócil, ao charme de sua mulher.
Quem achou Gisele apelativa? Luana Piovani! A atriz, que vive semipelada no cinema, na televisão e no teatro, disse: “Sei lá, sou meio feminista”. “Não curto mulher de fio dental vendendo cerveja.” Depois de processar Dado Bolabella (ops, Dolabella) por ter levado uns tapas dele na boate, Luana vai ser mãe e acha que “representa as mulheres brasileiras”. Diz que só usa lingerie em festinhas para o marido e que “faz mulher-objeto, mas só na dramaturgia”. Senti uma pontinha de inveja da mulher invisível pela diva brejeira e simpática.
Fui saber a opinião do publicitário Armando Strozemberg, presidente da 3ª Câmara do Conar, do Rio de Janeiro. “Quando vi o comercial, fiz o seguinte exercício: eu colocaria um homem no lugar da Gisele? Nas mesmas duas situações? Claro que colocaria”, diz ele. “A sedução, no Brasil, é mútua. É coisa nossa. E o comercial é uma brincadeira que lida com esse universo. Não desmerece a mulher.”
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A ameaça de censura ao comercial com ela rodou o mundo. Só que, no anúncio, o objeto é o homem...  
Penso nas cenas de novela com atores sem camisa, mostrando o peitoral, de sunga, de cueca, tomando banhos demorados, ou mesmo de bundinha de fora. Uma exibição deliberada de músculos, barriga tanquinho e testosterona. As mulheres gostam e suspiram. E ninguém reclama que os homens sejam objetos sexuais – eles até gostam. Não gostam?
Não somos Giseles. Estamos longe disso. Mas cada uma de nós tem algo especial para seu homem – nem que seja o sorriso aberto, o olhar sugestivo, um colo ou... E vice-versa. Há 16 anos, eu fazia mestrado em Londres, não havia internet e, em vez de gastar palavreado em cartas para o namorado artista plástico no Brasil, eu mesma fiz uma série de fotos minhas de lingerie e salto alto. Enviava a ele pelo correio uma vez por semana, toda segunda-feira. Eram cartões-postais personalizados. Um “teaser”, na linguagem publicitária. Ele se dizia ansioso a cada novidade semanal do correio.
Quando contei isso a algumas amigas, me olharam incrédulas. E como ficava a imagem de jornalista séria e “meio feminista”? Por que fez isso, Ruth ? Para brincar, seduzir, surpreender e agradar ao namorado. Estamos juntos até hoje.

MERVAL PEREIRA - O STF e a sociedade



O STF e a sociedade
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 01/10/11


O Supremo Tribunal Federal (STF) tem pela frente pelo menos três julgamentos que o colocarão no centro das atenções da opinião pública: o que definirá o poder do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de punir e fiscalizar juízes, tema que provavelmente voltará à pauta na próxima quarta-feira; o da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa; e o do mensalão.


Os casos do CNJ e da Ficha Limpa têm semelhanças, já que são representações do anseio da sociedade por uma atuação ética e eficiente do Legislativo e do Judiciário. O caso do mensalão é o maior escândalo de corrupção política já ocorrido no país, que, segundo o procurador-geral da República, colocou em risco o próprio regime democrático brasileiro.


O que parecia ser uma tendência majoritária do Supremo contra a capacidade do CNJ de julgar e eventualmente punir juízes, independente da ação das corregedorias regionais, já não parece ser tão majoritária assim, diante da reação negativa da opinião pública, e procura-se uma saída para não esterilizar a ação do CNJ em benefício de um corporativismo que está na raiz da criação do próprio Conselho.


E está também na origem do desentendimento entre o ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo e do CNJ, e a corregedora Eliane Calmon, que em entrevista disse que havia bandidos protegidos pela toga.


As palavras fortes de Eliana Calmon surgiram como pretexto para fragilizar o CNJ, do qual ambos fazem parte, quando o fulcro da questão era outro.


Que há bandidos escondidos em todas as profissões, não resta dúvida, e os muitos processos que o CNJ já julgou, condenando juízes por tráfico de influência, desvio de verba pública, favorecimento a terceiros, e os diversos processos que envolvem até mesmo denúncias de venda de sentenças mostram que o Judiciário não é, e nem poderia ser, um poder infenso a esse tipo de ação, já que é formado por humanos, e não por super-homens acima do bem e do mal.


Caberia à maioria dos juízes honestos batalhar pela punição dos que, acobertados pela toga, agem como criminosos, com o agravante de que se utilizam dos poderes de magistrado para perpetrarem seus crimes.


A defesa da corporação está com os que querem um Conselho Nacional de Justiça mais ativo, refletindo os anseios da sociedade por mais justiça, mais rapidez nos processos, um Judiciário, enfim, que inspire confiança aos cidadãos.


Foi justamente esse sentimento que fez com que a ideia de um controle externo da magistratura prosperasse e fosse vitoriosa, depois de anos de negociação em que foi fundamental a atuação do então presidente do Supremo, ministro Nelson Jobim.


Sua composição revela justamente essa preocupação de espelhar a sociedade. Ele é presidido pelo presidente do Supremo e composto por um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ); um ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST); um desembargador de Tribunal de Justiça; um juiz estadual, indicado pelo Supremo Tribunal Federal; um juiz de Tribunal Regional Federal (TRF), indicado pelo Superior Tribunal de Justiça; um juiz federal, indicado pelo Superior Tribunal de Justiça; um juiz de Tribunal Regional do Trabalho; um membro do Ministério Público da União; um membro do Ministério Público estadual, escolhido pelo procurador-geral da República dentre os nomes indicados cada instituição estadual; dois advogados, indicados pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; dois cidadãos, de notável saber jurídico e reputação ilibada, indicados um pela Câmara dos Deputados e outro pelo Senado Federal.


Ao contrário da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), que impetrou a ação direta de inconstitucionalidade no Supremo contra a ação do CNJ, a Associação dos Juízes para a Democracia (AJD) soltou uma nota em que o juiz José Henrique Rodrigues Torres, presidente do Conselho Executivo, afirma, entre outras coisas, que "na cultura política brasileira há longa e nefasta tradição de impunidade dos agentes políticos do Estado, dentre os quais estão metidos a rol os membros do Poder Judiciário, notadamente os desembargadores dos tribunais estaduais e federais, e ministros dos superiores".


Ao mesmo tempo, o senador Demóstenes Torres, do DEM, apresentou uma emenda constitucional que garante ao Conselho Nacional de Justiça o direito de julgar e punir juízes.


Na verdade, essa emenda remete ao espírito da lei que criou o CNJ e seria dispensável se não fosse essa reação corporativa. O CNJ não foi criado como um órgão revisor, e tem amplos poderes para receber denúncias contra juízes, mesmo diretamente, sem a necessidade de que a reclamação passe pelos tribunais locais.


Os poderes são tão amplos que ele pode mesmo agir por conta própria, mesmo sem que haja uma denúncia de terceiros.


O que pode sem dúvida explicar essa reação da AMB é o número crescente de processos contra corregedores dos tribunais de Justiça, presidentes dos tribunais de Justiça do país, presidentes de tribunais regionais federais, desembargadores, enfim, a cúpula dos tribunais anda sob a vigilância do CNJ.


Um caso emblemático de como o corporativismo encontra sempre meios de proteger os seus está registrado num relatório do CNJ sobre o julgamento de punição administrativa de um juiz pelos desembargadores do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Pernambuco.


Como não houve consenso sobre o tipo de pena, embora nenhum dos 13 desembargadores tenha votado pela absolvição do juiz (seis votaram pela pena de censura, cinco pela aposentadoria compulsória, e dois pela remoção compulsória), o tribunal optou pelo arquivamento do caso.


São casos assim que fazem com que o Poder Judiciário como um todo caia no descrédito da população, e a ação moralizadora de um Conselho Nacional de Justiça com plenos poderes é fundamental para a recuperação da credibilidade do Poder Judiciário, que continua sendo a garantia final da democracia.

MIRIAM LEITÃO - Nova política velha



Nova política velha 
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 01/10/11

A política econômica mudou. Ela foi mudando devagar como aquela água que vai esquentando e o sapo não percebe. Começou discretamente em 2005; a crise de 2008-2009 foi entendida como licença para mudar; a disputa eleitoral ampliou o relaxamento fiscal e agora com as recentes guinadas já se pode dizer que não é a mesma política econômica dos últimos 18 anos.

O sistema de metas de inflação foi flexibilizado para se aceitar um pouco mais de inflação; o regime fiscal só fecha na meta quando há receitas extraordinárias ou truques contábeis; o fechamento comercial está no discurso supostamente nacionalista e nas medidas que se apresentam como defesa do emprego.

A política mantida desde 1994 deu ao país crescimento, inflação baixa, inclusão social, ampliação do mercado consumidor, e o grau de investimento. Mesmo adversários na arena política, o governo Fernando Henrique e o primeiro governo Lula foram complemento um do outro. No segundo, o governo começou a sair lentamente das premissas que mantiveram a estabilidade. Esse caminho é perigoso e velho. Na área comercial, a escolha de setores e os privilégios das montadoras são equívocos bem conhecidos do Brasil.

O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, alinha os sintomas dessas mudanças.

- O IPI dos automóveis é uma volta à economia fechada que protege um setor empresarial com tarifas. O Plano Brasil Maior é um projeto típico dos anos 1970, em que o país protege e subsidia setores escolhidos pelo governo - diz Camargo, lembrando que a indústria automobilística no Brasil tem 70 anos e não consegue competir com a coreana, que tem 30 anos.

Até o mês passado se dizia que ninguém poderia competir com aquele câmbio. Bom, o dólar subiu 18% em setembro. A maior alta em nove anos para um único mês. Isso não só tornou mais absurda ainda a elevação do IPI como também acelerou as pressões inflacionárias.

Camargo admite que a situação do governo não é fácil. O contexto internacional está muito ruim e em algum momento teria que ser feita uma escolha entre inflação e crescimento, na opinião dele:

- Não é um momento simples. O que preocupa é essa tendência da política econômica de reverter a melhoria institucional que vem desde os anos 90. O ponto é que temos uma arrecadação tributária de 37% do PIB e o país tem déficit nominal de 2%. O Estado consome 39% do PIB e presta serviços péssimos.

Em 2005, quando a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, impediu a proposta de déficit nominal zero, por achar que era rudimentar, a política econômica estava começando a fazer a guinada para mais expansionismo fiscal. A chance era aquela, porque 2005, 2006, 2007 e 2008 até setembro foram anos bons, de crescimento, de mais arrecadação e o país poderia ter feito esforço maior para ajustar as contas, derrubar juros e perseguir metas menores de inflação.

Naquele momento a escolha foi não avançar em reformas, mudanças, aceitar a reprodução da mesma meta de inflação e continuar expandindo gastos. A crise de 2008-2009 produziu a escalada do intervencionismo estatal e a escolha de setores beneficiados pelo BNDES, que passou a ser financiado por recursos de endividamento. Tudo lembra fortemente a politica econômica do governo militar dos anos 1970.

Nos primeiros meses do governo Dilma o projeto de volta para o passado ganhou musculatura. A guinada da política monetária foi o momento em que todas as fichas caíram. É preciso derrubar mais os juros, e eles são a última fronteira da economia anormal que o Brasil teve até que a dupla Itamar Franco e Fernando Henrique mudaram o país. O problema é fazer isso tirando a âncora, como disse ontem em artigo magistral neste jornal o economista Rogério Werneck.

A inflação está acima da meta e muito provavelmente ficará acima no final do ano. As pressões inflacionárias do câmbio vão neutralizar qualquer pressão deflacionária que venha de fora por causa da crise. As matérias-primas que mais subiram no Brasil em setembro foram minério de ferro, soja e café. Isso apesar da crise internacional ter provocado uma enorme sangria nas bolsas do mundo inteiro. O índice Dow Jones perdeu 12% no trimestre, a maior queda desde 2009. A bolsa inglesa caiu 14,5%, a francesa e a alemã caíram 26%. O Ibovespa caiu 16%.

Tudo isso no entanto não derrubou os preços das commodities no Brasil, que é o argumento do Banco Central para justificar a queda dos juros mesmo com a inflação em alta. O índice CRB, que mede uma cesta de commodities, caiu 6,6% em dólares no mês de setembro, mas subiu 7,8% em reais. O dólar que estava cotado a R$1,59 no dia 31 de agosto ontem fechou em R$1,88. O fato é que na nova política econômica o governo aceita um pouco mais de inflação, no pressuposto de que isso garantirá algum crescimento, e amplia gastos com setores escolhidos que são também protegidos com política comercial. A ideia é que isso permitirá o desenvolvimento do mercado interno.

Como os últimos 17 anos mostraram, o mercado interno cresce, com ampliação da classe média, é com o trabalho incessante de manter a inflação baixa. É ela que corrói salários e mina a estrutura econômica do país.

JORGE MARANHÃO - Alô, alô, Marco Maia!



Alô, alô, Marco Maia! 
JORGE MARANHÃO


O GLOBO - 01/10/11

Como todos os cidadãos sensatos já constataram, depois da internet, não existe mais a comunicação em off. O mundo todo está in. Só não sabe disto a nossa ultrajante classe política que tenta se esconder nas práticas imorais das sessões-fantasma, do voto secreto, do voto simbólico, dos quóruns "regimentais", nas viagens às bases, das missões oficiais, diplomáticas, das simples gazetas e todo um arsenal de mazelas e embromações que abalam a credibilidade das instituições democráticas junto aos cidadãos pagadores de impostos.

Diz o presidente da Casa que vai apurar as denúncias documentadas pelo repórter Evandro Éboli com um simples celular. Cogita mesmo de anular a sessão da CCJ que aprovou 118 projetos em três minutos com apenas dois parlamentares presentes. E ajunta, para o espanto estarrecido dos cidadãos, que a nota oficial da assessoria de imprensa da Casa defendendo o fato não representa a sua opinião e que poderá anular a sessão. É o caso de se perguntar ao deputado Marco Maia se ele preside ou não a instituição e o que ele entende por moralidade como princípio maior da administração pública. Ou mesmo pela conduta exemplar que deve ser seguida pelos membros das instituições de estado para garantir a paz e a normalidade democrática da vida social. Pois tal desculpa esfarrapada afronta o senso comum do mais pacato cidadão! Ou a mãe de família que agora ouviu tamanha infâmia vai desculpar daqui por diante os filhos que resolverem gazetear as aulas? Ou os trabalhadores das empresas privadas vão poder alegar as mesmas desculpas para faltar com suas obrigações sem o devido desconto em seus ordenados?

Alô, alô, seu presidente! Anular a sessão não basta! É prejuízo em cima de prejuízo aos cofres da Viúva! Já não basta o privilégio acintoso de uma semana de trabalho de três dias que nenhum trabalhador tem? Já não são suficientes as mordomias de auxílios, jetons, verbas de gabinete, cotas de serviços e todos os penduricalhos aos subsídios dos nossos parlamentares que vários levantamentos que circulam na internet dão conta como os mais caros do mundo? É preciso restaurar o decoro de suas excelências, senhor presidente! É a sua grande oportunidade de dar um basta aos maus costumes da corporação parlamentar, mostrar a que veio e deixar o marco de sua nobre passagem pela Casa do povo. Sob o risco de que aumentem ainda mais o descrédito institucional do parlamento e a insegurança jurídica de toda a sociedade. Pois sua excelência bem sabe que a violência social é fruto direto da violação legal. E a cultura de impunidade, cinicamente confundida com a prerrogativa da imunidade parlamentar, só contribui para a desmoralização da ação política e das incipientes iniciativas da cidadania brasileira. Do jeito que está, senhor presidente, esta CCJ não é Comissão de Constituição e Justiça, senão de Cambalacho e Jeitinho!
JORGE MARANHÃO é diretor do Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão.

JOSÉ SIMÃO - Socuerro! O Brasil vai explodir!


Socuerro! O Brasil vai explodir!
JOSÉ SIMÃO 
FOLHA DE SP - 01/09/11

Tá assim: bueiros explodem no Rio, shopping explode em SP e Luan Santana explode nas paradas de sucesso


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E adorei o cara carregando uma faixa no Rock in Rio: "Edir Macedo, meu dízimo é do Metallica". E o visual da Ke$ha estava tipo "Pablo, qual é a música?".
E a manchete do Sensacionalista: "Justiça condena Claudia Leitte a devolver todos os presentes que recebeu no Dia do Cantor". Rarará!
E o Brasil está assim: bueiros explodem no Rio, shopping explode em São Paulo e Luan Santana explode nas paradas de sucesso. Desse jeito o Brasil vai acabar explodindo antes do fim do mundo. Brasil explode antes do fim do mundo!
E quem explode primeiro, o Center Norte ou o Ronaldo Fenômeno? O Ronaldo Fenômeno, porque emite muito mais gases.
E o Eramos6 revela que agora a gente escolhe shopping como água mineral: com gás ou sem gás. É proibido soltar pum no Center Norte! Senão: PUM! BUM!
E ontem foi dia de Gostosas in Rio: Ivete e Shakira. Ivetão Coxão Gostosão e Shakirão! A Shakira é gostosa até no telão! E rebola mais que minhoca em anzol. Vocês já viram liquidificador de padaria batendo vitamina de banana? É a Shakira no palco! Rarará!
Não tenho inveja nem da voz, nem da fama, nem da grana da Shakira. Tenho inveja da barriguinha da Shakira! Ela não precisa encolher a barriga na hora de transar! É o que uma amiga chama de barriguinha-ódio: você vê e fica com ódio!
Em 2012, vou lançar o Rock in Rio Pirata! Megaevento China-Paraguai. Com o apoio dos selos de CDs piratas, roqueiros covers e afônicos e guitarras da Galeria Pajé. Para quem não puder pagar o original!
E tenho uma teoria: a China não é pirata! Temos de fazer uma revisão histórica! A China não falsifica tudo, apenas compensa os royalties!
A China inventou o macarrão, a Itália leva a fama. A China inventou a pólvora e os Estados Unidos usaram e abusaram. A China inventou a seda e Paris brilha nas passarelas. Tão pagando royalties pra China? Não!
Então, por mais que a China falsifique, ainda está no prejuízo. Rarará! E esta: "Juiz nega pedido de prisão de pedófilo de Bauru". Como é o nome do juiz? Jaime Ferreira MENINO! Rarará!
E sabe como se chama o presidente do Conselho Europeu pra conter a crise? José Manuel DURÃO! Rarará! O euro está durão! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

WALTER CENEVIVA - Lutas de uma corregedora


Lutas de uma corregedora
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 01/10/11

Sempre fui a favor de um conselho disciplinar voltado para as condutas dos magistrados


A CORREGEDORA-GERAL ministra Eliana Calmon disse que há bandidos ocultos sob a toga de juízes.
Admitido que o leitor não trabalhe na área das profissões jurídicas, cabe explicar que a função de corregedor ou corregedora inclui o controle da atuação administrativa e financeira de órgão ou de pessoa do Judiciário, do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes, além de outras indicadas no Estatuto da Magistratura. Fiscalizar, investigar, processar administrativamente e punir aqueles que saiam da linha de comportamento compatível com a dignidade da função.
O CNJ (Código Nacional da Justiça) é órgão federal, encarregado na forma do art. 103-B da Constituição de verificar e corrigir o andamento das mesmas funções em todo o território nacional. É presidido pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e, nas suas ausências e impedimentos, pelo Vice-Presidente da mesma corte. Embora referido no título dedicado ao Poder Judiciário, os demais membros do CNJ são nomeados pelo presidente da República, em face de indicações feitas na forma do mesmo art. 103-B.
Acrescente-se, por fim, que a Corregedoria Geral estará sempre a cargo do ministro do STJ, caso de Eliana Calmon. Sua missão é sumulada em três incisos do § 5º do 103 - B, compreendendo as funções executivas do CNJ, de inspeção e de correição geral, receber as reclamações e denúncias, de qualquer interessado, relativas aos magistrados e aos serviços judiciários, além do exercício das funções executivas do CNJ. Tudo sem prejuízo de atribuições que lhe forem conferidas pelo Estatuto da Magistratura.
Em face dessa colheita de elementos inseridos na Constituição da República pode-se compreender as preocupações da ministra Eliana Calmon quando afirmou a existência de bandidos sob a toga de magistrados. Claro que ela não se referiu à maioria dos juízes brasileiros, mas ao pequeno número daqueles que se comportaram mal.
Cada leitor comum que tenha lido a declaração por certo compreendeu seus limites que, mesmo antes dela dizer que referido número de magistrados, é menor que 40.
Aceita a explicação dada, o STF imediatamente paralisou as providências das quais se falou muito na última quarta feira. Passou-se a pensar nas etapas seguintes.
Tenho posição antiga a respeito e lealmente devo informar o leitor: sempre fui a favor de um conselho disciplinar voltado para as condutas dos magistrados, preservando a dignidade pela punição dos abusadores, depois de rigorosa verificação de suas condutas.
Assim, será possível dizer que essa verificação não vinha sendo feita com o rigor necessário.
Veja bem o leitor que o banditismo, com o sentido da violência, é quase nenhum. O banditismo da sentença negociada, do favorecimento indevido do afortunado em face do desprovido, do doce convencimento de que as vantagens oferecidas pelos poderosos não sacrificam a lisura de suas decisões, esse normalmente passa sem ser apurado. Nem mesmo quando evidente que o magistrado acusado tem padrão de vida superior ao que razoavelmente se pode aceitar com seus rendimentos.
Quando mais de uma pessoa confiável atribuir o mesmo mau comportamento a alguém, a corregedoria tem o dever de interferir. É sua missão.

MARTA SUPLICY - GISELE


GISELE
MARTA SUPLICY
FOLHA DE SP - 01/10/11

Por achar que o anúncio de lingerie com Gisele Bündchen é preconceituoso e discriminatório, a Secretaria de Políticas para as Mulheres pediu sua saída do ar. O Instituto Patrícia Galvão diz não passar de estratégia para criar constrangimento e a propaganda ser mais vista e falada, o que de fato já está acontecendo, como atesta esta coluna e outras.
De manhã, vi a foto de Gisele de biquíni. Minha reação imediata foi: "Que beleza!". Pose natural, solta, sutiã e calcinha normais. Poderia estar na praia que estaria mais vestida que qualquer outra. Logo percebi que se tratava de algo mais. Uma polêmica. Fui ver na internet.
Vi Gisele com shortinho de ir ao supermercado e ela diz: "Amor, estourei meu cartão de crédito". Carimbo de "Errado". Com lingerie azul básica, mas com Gisele dentro nada é básico, declara: "Amor, estourei meu cartão de crédito e o seu também". "Certo". O texto varia em três tons, pregando a sensualidade como arma.
Em off, ouve-se: "Você é brasileira, use seu charme".
A crítica refere-se ao reforço dado ao estereótipo que todos combatemos: exploração da subserviência ligada à sexualidade.
Muitas são as formas femininas de se posicionar no mundo machista, nas diferentes áreas de trabalho e no privado. Existem as "armas femininas", além da sensualidade, como a percepção mais sensível e perspicaz da vaidade, do medo, da intolerância que fazem frequentemente da mulher uma interlocutora mais hábil.
Por que ela não utilizaria, do jeito que as coisas são e enquanto durarem, uma das mil qualidades e possibilidades que tem?
Quão bom seria se, em vez de propagandas que põem uma âncora no nosso pé, não utilizassem a imagem de Gisele, que é uma mulher independente, para mostrar o mundo novo e engraçado que essas mulheres estão criando.
Gisele pode pagar seu cartão de crédito e de quantos maridos tiver. Com a criatividade do quilate da peça em debate e sem estereótipos machistas, poderiam vender até mais calcinhas e sutiãs. O que certamente ajudaria a reforçar, cada vez mais, de forma positiva, esse gigantesco mercado feminino de consumo.
Falta um olhar para essa nova mulher, falta ousadia, falta ajudar a chegar no século 21.
Continuando, mude a Gisele para um bonitão. Vejamos: talvez na primeira cena ele teria de vir de bermuda mal ajambrada, com um copo de cerveja e, nesse momento, apareceria "Errado".
Depois, ele apareceria como? Um bonitão, um cara de inteligente, de gentil/doce, de intelectual... Ih! A mulherada é bem mais complexa. Este novo comercial, no masculino, não daria certo. Preconceito?

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Do malufismo à malufização


Do malufismo à malufização
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 01/09/11

SÃO PAULO - O STF abriu mais uma ação penal contra Paulo Maluf. Agora ele é réu com outras dez pessoas (mulher e filhos inclusos), acusado de lavar quase US$ 1 bilhão no exterior. O valor é superior ao PIB de Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, por exemplo. Maluf lembra mesmo um ditador africano.
Os indícios são de que a dinheirama foi desviada de obras públicas durante a gestão na prefeitura, de 1993 a 1996. Bem avaliado, Maluf tinha, àquela altura, pretensões de ser candidato à Presidência.
O fiasco da administração Celso Pitta, seu pupilo, e a derrota para Mário Covas, em 1998, marcam o ponto de inflexão em sua carreira. Em 2000, derrotado por Marta, ainda chegou ao segundo turno, sete mil votos à frente de Alckmin. Mas a sua trajetória já era declinante. Desde então, Maluf só consegue reinar nas eleições ao Legislativo, o que lhe dá imunidade parlamentar.
Há muitos anos essa figura autoritária da antiga direita está associada às páginas policiais. Grudou em Maluf o bordão pelo qual Adhemar de Barros ficou celebrizado.
Mas nem a atrofia do malufismo nem as acusações que pesam sobre o personagem são suficientes para fazer dele carta fora do baralho.
No governo Alckmin, o titular da CDHU -área propícia à prática do malufismo- foi indicado por ele. Maluf também mantém relações estreitas com expoentes do PT e negocia com o partido várias alianças em cidades do interior para 2012. Entre os políticos, o réu do STF ainda tem ótimo trânsito e goza de prestígio.
De alguma maneira, assistimos nos últimos anos à malufização do PSDB e do PT. Não significa que sejam todos iguais, mas que a distância entre eles diminuiu. Significa ainda que os partidos de quem se poderia esperar algum compromisso ético, feitas as contas, toleram e patrocinam qualquer negócio. A degradação moral dos "progressistas" e a avacalhação generalizada da política não são obra de Paulo Maluf.