quarta-feira, dezembro 07, 2011

O PIB embala sonhos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 07/12/11

O binômio PIB baixo-inflação acima da média anunciado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deixou os operadores políticos do governo Dilma Rousseff em estado de alerta máximo. A ordem entre eles é manter o que o dito popular chama de um olho no gato e outro no peixe. O peixe, no caso, os números da economia, que precisam de cuidados e de um ambiente estável e sem sobressaltos para que não piorem ainda mais. O gato ou os gatos em questão são os políticos que observam tudo, só esperando a hora de "fisgar" o poder.

O PIB nulo do último trimestre - e a perspectiva de um 2012 bom, mas não ao ponto do que foram 2009 e 2010 no Brasil em comparação ao dito primeiro mundo - leva vários atores políticos a prepararem jogos diferentes rumo às eleições municipais do ano que vem e à sucessão presidencial de 2014.

A primeira peça que se remexe quando o assunto é PIB é o ex-governador de São Paulo José Serra, que mantém as esperanças de concorrer à Presidência da República daqui a três anos. Em conversas reservadas, Serra tem avaliado que a economia fará com que Dilma chegue enfraquecida à própria sucessão e que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) terminará abrindo mão da candidatura. Nesse quadro, sobrará para ele, Serra, representar os tucanos.

Do ponto de vista gerencial, a aposta é a de que a administração em 2011 foi devagar quase parando - uma tese que o PIB corrobora. Além da série de escândalos, a oposição acredita que várias áreas estão um marasmo - por exemplo, há tempos não há rodadas de licitação para lavra de petróleo e a regulamentação da concessão de energia até agora não chegou ao Congresso.

A parte serrista do PSDB, entretanto, esquece de combinar o jogo com os demais atores. Dilma mantém uma boa avaliação perante o eleitorado e entende de economia. Não por acaso, seu governo baixou impostos da linha branca, com a esperança de desovar estoque e recuperar um pouquinho da atividade econômica. E ainda tem três anos pela frente. Vale lembrar que, em 2005, quando houve o escândalo do mensalão, todos davam Lula como liquidado. Para completar, Aécio Neves está cada vez mais candidato, o que não deixa a Serra outra opção a não ser concorrer à Prefeitura de São Paulo e torcer para que o atual quadro econômico prejudique o PT e seus aliados na eleição municipal.

Há ainda outros atores nessa história. Ainda que Serra tente anular a novidade Aécio dentro do PSDB, nem o governo nem o ex-presidente Lula estão parados esperando o gato fisgar o peixe do seu aquário. Assim como os tucanos, o petista tem consciência de que seu partido não governará o país para sempre. Por isso, tem trabalhado como um leão para evitar a fadiga de material petista - a própria candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República no ano passado e a de Fernando Haddad a prefeito de São Paulo são prova disso.

Mas a amigos Lula tem dito que o PT tem que se preparar para ser parte da vitória de alguém. E esse alguém, na visão do próprio Lula, pode ser o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Quem acompanhou com atenção o discurso de Eduardo Campos na última sexta-feira percebeu que ele falou muito de economia - não só da crise europeia, como dos reflexos no Brasil. Ele não tinha o dado do PIB. Mas, ontem mesmo, seus aliados diziam que ele já estava se preparando para passar o fim de semana estudando os números, como um aluno bastante aplicado.

Assim como o PT, o PSDB e o PSB, todos os partidos se debruçam hoje sobre o PIB nulo na tentativa de prever um futuro ainda incerto do ponto de vista econômico e político. O PT, para segurar o poder. Os outros, de olho em conquistar prefeituras e preparar uma carreira solo rumo a 2014. Até o DEM, que reuniu sua comissão executiva ontem, planeja concorrer à Presidência da República embalado no sonho de oferecer um futuro melhor do que o PIB nulo desse trimestre - afinal, se do ponto de vista social, muitos se julgam incapazes de bater o time de Lula, o segredo talvez esteja mesmo na economia. Essa novela começa agora.

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