sexta-feira, dezembro 09, 2011

GLP: o gás de botijão - RODOLFO LANDIM

FOLHA DE SP - 09/12/11


O que se observa é um novo crescimento do consumo de GLP no Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste e em Minas


Existem inúmeros indicadores indiretos que servem para avaliar a melhoria da qualidade de vida da população de menor poder aquisitivo no Brasil e um deles pode ser considerado o consumo de gás de cozinha para o preparo de alimentos.

Até a título de curiosidade, vale explicar que essa designação geral na verdade engloba dois produtos distintos, ambos geralmente obtidos do óleo e do gás natural produzidos nos poços de petróleo.
O primeiro é o GLP (gás liquefeito de petróleo), mais conhecido como gás de botijão, fruto da retirada das frações mais pesadas (propano e butano) do gás natural, e que consegue ser liquefeito a pressões relativamente baixas e assim colocado em botijões e vendido ao consumidor final.

O segundo é o gás canalizado, popularmente chamado de gás de rua, que é a parcela do gás natural que sobra (metano e etano) após a retirada do GLP. Esse é o gás que chega aos lares, indústrias e postos de gasolina através de rede de dutos.

O consumo de GLP esteve por muitos anos estagnado e até mesmo em queda no país.
Com a chegada de grandes volumes de gás da Bolívia no final dos anos 90 e o aumento das redes de transporte e distribuição de gás canalizado em diversos Estados, chegando a cidades importantes, uma parcela significativa do consumo de GLP foi sendo substituída pelo gás canalizado, o que perdurou até meados da década passada.

Além disso, o peso no bolso do consumidor de baixa renda contribuía para que o fogão a lenha continuasse a manter uma presença forte no consumo residencial.
Hoje o que se observa é um novo crescimento do consumo de GLP, principalmente no Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste e em Minas Gerais, associado em boa parte ao aumento do poder aquisitivo das classes D e E.

Esse é um fator que traz benefícios colaterais importantes já que o GLP está nesse caso deslocando exatamente a lenha. Além de reduzir impactos ambientais associados a desmatamento, a prática elimina um enorme problema de saúde pública associado à inalação de gases tóxicos dentro das residências, responsável por várias doenças respiratórias como enfisema pulmonar, pneumonia aguda, asma e outras.

A rápida mudança de lenha por GLP é possível por dois motivos. Primeiro, pelo fato de a distribuição do GLP chegar à quase totalidade dos municípios e, depois, por termos uma situação muito interessante em uma grande quantidade de lares brasileiros que é a cozinha flex. Nelas, o fogão funciona tanto a lenha como a GLP.

Algumas iniciativas de marketing também estão sendo responsáveis pelo aumento do consumo.
Novos botijões, menores do que o principal padrão adotado desde a década 50, que armazena 13 kg de produto, passaram a ser ofertados e têm feito sucesso por levar o consumidor a um desembolso menor na hora da compra e de serem mais fáceis de transportar.

Apesar de não deixar de ser um competidor, o GLP pode ser considerado um combustível complementar ao gás canalizado por poder alcançar mercados ainda não atendidos por redes de dutos.

Seu uso, quase que totalmente voltado para o consumo residencial, poderia ser significativamente maior não fossem as restrições impostas a diversos usos do GLP, principalmente em motores e caldeiras.
Tais impedimentos existem desde 1991, época em que quase 80% do produto consumido no país era importado, situação que foi bastante alterada até os dias de hoje, quando a dependência externa foi reduzida para algo em torno de 20%.

Com o crescimento previsto para a produção de petróleo e gás natural no Brasil, em boa parte proveniente dos campos do pré-sal, certamente teremos também o crescimento da produção de GLP.
Isso poderá levar a ANP e a Petrobras, em médio prazo, a revisitarem as decisões do passado, buscando novos mercados para o GLP.

Apesar de contribuir com apenas 3,5% da matriz energética nacional, o GLP é um combustível de enorme importância para o Brasil. Ampliar a utilização residencial é uma questão estratégica e de justiça social.

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