sexta-feira, dezembro 02, 2011

Depois da transfusão, ressaquinha - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 02/12/11


Um dia após a transfusão de dólares para a Europa, volta a ansiedade sobre asfixia do sistema financeiro



Como de costume, uma rotina, aliás, cada vez mais perigosa, passou a euforiazinha a respeito da "ação coordenada dos bancos centrais" do mundo rico para dar um copo de dólares para a banca europeia, sob risco de sede terminal.

Não podia ser de outro modo. O problema emergencial de financiamento em dólares dos bancos europeus é apenas um sintoma.

A doença vai continuar a piorar a não ser que as lideranças políticas e econômicas da União Europeia tomem alguma medida mais decisiva, nas reuniões que terão na semana que vem.

Caso não façam nada, ou empurrem o problema com a barriga, como o têm feito desde dezembro de 2009, o caldo vai engrossar mesmo.

O mal europeu vai contaminar de vez negócios como, por exemplo, financiamento do comércio mundial, espalhando a crise ainda mais rapidamente pelo resto do mundo.

Isso, claro, se não se fizer uma bobagem ainda maior, como deixar alguma grande instituição financeira mergulhar no vinagre.

Os bancos estão secos de dinheiro porque: 1) governos europeus, devedores da banca, estão quebrando. Logo, bancos podem quebrar;

2) parte da "riqueza" dos bancos, de seus ativos, está valendo cada vez menos (trata-se dos papéis da dívida desses governos);

3) depositantes dos bancos europeus estão fugindo deles;

4) as autoridades supervisoras europeias estão exigindo mais capital dos bancos (isto é, os bancos podem fazer menos negócios, dado um certo patrimônio; logo, eles "emprestam" menos, inclusive entre eles mesmos, os próprios bancos);

5) ninguém quer emprestar dinheiro a bancos que sofrem de sangria de dinheiro, sob risco de calote de seus grandes devedores e numa economia arrochada.

O que, se espera, que se faça? Que o Banco Central Europeu (BCE) baixe sua taxa de juros (que havia elevado neste ano, de modo espantosamente idiótico). Que o BCE expanda e barateie seus empréstimos para os bancos asfixiados. Além do mais, que passe a aceitar quase qualquer coisa dos bancos como garantia para esses empréstimos.

A esperança maior é a de que o BCE financie, quase sem mais, governos e bancos. A esperança é a última que morre. Mas morre.

Tal solução, até agora rejeitada pelos "donos" do BCE, os alemães, dependeria, de qualquer modo, de um esquema de "calote organizado", de refinanciamento dos governos quebrados ou semiquebrados e da expansão do fundo de socorro a governos quase falidos.

Nada disso ainda está arrumado ou nem mesmo acertado. Para piorar, o BCE apenas assumiria o papel de "emprestador-mor e geral de última instância" caso a União Europeia tivesse poderes de intervenção sobre despesas e dívidas dos governos da eurozona. Mario Draghi, presidente do BCE faz apenas um mês, deu essa dica de novo, ontem. Mas foi vago e, no fim das contas, não se sabe se vai ouvir um "nein" furibundo dos alemães.

Segunda-feira alemães e franceses se encontram para discutir o que vão apresentar na cúpula europeia de sexta-feira. Na quinta, o BCE decide a taxa de juros. Não se trata de dizer que o mundo acaba na segunda, dia 12, se nada for feito. Mas a crise vai se espalhar com uma mancha de óleo pela economia mundial.

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