domingo, novembro 20, 2011

Um plano para 2012: ler sobre a China - ELIO GASPARI


FOLHA DE SP - 20/11/11

Henry Kissinger dá uma aula de história, expõe um tesouro de lembranças e mostra os perigos à frente

Quando chega o fim do ano surgem os projetos: emagrecer, fazer exercícios, segurar as compras. Para 2012 algumas pessoas podem acrescentar outro: entender o que está acontecendo com a China. Quem gosta de opinar sobre assuntos internacionais e acha que não precisa, pode fazer um teste: liste cinco cidades chinesas e cinco políticos chineses vivos.

Tratando-se da segunda economia do mundo e do maior parceiro comercial do Brasil, vale a pena. O problema é como começar. Na primeira confusão entre Guangzhou e Fuzhou, ou entre Hu Jintao (o atual presidente) e Xi Jinping (seu provável sucessor), a pessoa desiste. É duro, mas, visto da China, o Brasil, onde Rousseff é Dilma e Guido é Mantega, também não é fácil.

Para quem quiser remediar a lacuna, o livro "Sobre a China", do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, é um bom remédio. Na realidade, são três livros num volume. O primeiro é um passeio pela história e cultura do Império do Meio. Ensina coisas assim: "Os chineses nunca produziram um mito de criação cósmica. Para eles, o universo foi criado por eles". Essa civilização que se vê como o centro do mundo passou por 150 anos de humilhações, com fomes e guerras que consumiram 100 milhões de pessoas. Quem tiver saído dessa parte confundindo Zeng Guofan com Wei Yuan, não deve se preocupar. No século 20 ficará mais à vontade.

O segundo livro conta a essência da virada ocorrida nos anos 70, quando Mao Zedong aproximou-se do Ocidente. Como Kissinger foi um personagem relevante nesse jogo, sua narrativa é rica, até quando reconhece seus erros, produzidos pela ignorância. Por exemplo: como os vietcongs jamais se renderiam, eram invencíveis e Mao falava sério quando dizia que não tinha medo de uma guerra nuclear.

A terceira parte de "Sobre a China" é a mais valiosa. Kissinger, que fez mais de 50 viagens a Pequim, constrói um cenário no qual a incompreensão do Ocidente e o nacionalismo chinês serão fatores de futuras tensões. Quando o companheiro Obama vai à Ásia acertar alianças estratégicas e militares, sabe que estimula o receio do Império do Meio de se ver cercado pelos "demônios estrangeiros".

Ao final do livro, como um mandarim, Kissinger lembra a situação europeia de 1907, quando um diplomata inglês fez um trabalho sobre as relações com a Alemanha. Nessa época, os dois países eram grandes parceiros comerciais, e tudo o que o kaiser fazia era visto em Londres como uma ameaça estratégica. Em Berlim havia o mesmo sentimento em relação aos ingleses. Sete anos depois, começou a Grande Guerra. Kissinger apresenta esse risco com extrema cautela. Seu interesse é mostrar que existe o perigo do "desfecho infeliz".

INÉPCIA

Alguém precisa avisar a Chevron que se ela se comportar no Estados Unidos como vem se conduzindo no Brasil desde que começou a vazamento de petróleo no campo do Frade, arrisca sair do mercado.

Passou seis dias calada e, quando abriu a boca, limitou-se a dizer que "respeita as leis dos países e está mantendo diálogo constante com as agências competentes do governo brasileiro".

Para a patuleia incompetente, nem uma palavra.

EXEMPLO

A doutora Dilma deveria nomear o mecânico João Leite dos Santos para a primeira vaga do seu ministério. Ele entrou na ilha dos macacos-aranha do zoológico de Sorocaba. Tendo feito o que não devia, foi atacado por seis deles. Depois do incidente perguntaram-lhe se bebera:

- Bebi um pouquinho.

Aprendeu alguma coisa?

- Levei uma baita surra. Agora estou arrependido. Não faço mais. Macaco, só aquele de erguer carro. Daqueles outros não passo mais nem por perto. Peço desculpas ao pessoal do zoológico. Se machuquei algum macaquinho, peço desculpas para ele também.

Se os ministros da doutora parassem de culpar a macacada, o governo melhoraria de qualidade.

PARARAM O JOGO

Os comissários que giram em torno do movimento estudantil da USP manobraram o adiamento para março da eleição para o Diretório Central marcada para esta semana porque sentiram o cheiro de derrota. Na assembleia havia 3.000 pessoas, e na universidade há 75 mil alunos.

Com quatro chapas de esquerda, a derrota é certa. Com uma só, os comissários acham que têm chances.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo acreditava ter resolvido a crise da banca europeia com o lançamento dos TTBs, ou Títulos do Trem-Bala. Eles se valorizam sempre que o governo revê seu custo, que passou de US$ 9 bilhões para US$ 21 bilhões em menos de quatro anos.

Como ele é um idiota, ainda não disse quem garantiria os papéis. No entanto, ocorreu-lhe um freguês.

Quando a doutora Dilma foi à China, sua charanga anunciou que a Foxconn investiria US$ 12 bilhões no Brasil, para produzir equipamentos eletrônicos.

Semanas depois a oferta caiu para algo entre US$ 4 bilhões e US$ 6 bilhões. O restante viria do velho e bom BNDES e de sócios brasileiros.

Agora o repórter Valdo Cruz revelou que a Foxconn negocia um projeto de US$ 4 bilhões, mas não quer entrar com dinheiro, só tecnologia. Nele o BNDES colocará US$ 1,2 bilhão, e o empresário Eike Batista poderá investir US$ 500 milhões. Faltam US$ 2,3 bilhões, e começou a caça a empreiteiras interessadas.

Eremildo quer se encontrar com Terry Gou, o dono da Foxconn, para oferecer-lhe a emissão de US$ 12 bilhões em papéis do TTB.

DINASTIA

O petista Agnelo Queiroz diz que o depósito de R$ 5.000 feito por um lobista na sua conta foi um empréstimo. Questionado, ensinou: "A palavra de um governador de Estado já é, por si, uma prova".

O companheiro foi antecedido no governo de Brasília pelos doutores José Roberto Arruda e Joaquim Roriz. Um renunciou ao governo e o outro a uma cadeira de senador porque aninhavam recursos alheios inexplicáveis. Ambos diziam que o dinheiro vinha de operações legítimas.

A NOVA TROPA PETISTA

O PT preparou uma nova geração para substituir os quadros que chegaram ao poder em 2003 com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Enquanto uma oposição de marqueses confunde renovação com estorvo, o comissariado investe em nomes novos. Cinco exemplos:

1) Na disputa pela Prefeitura de São Paulo, Lula tirou do boné o ministro Fernando Haddad, de 48 anos.

2) Para a eleição do governador de São Paulo, em 2014, o PT arma a candidatura de Luiz Marinho, de 52 anos, atual prefeito de São Bernardo do Campo.

3) Para o Rio de Janeiro, articula-se a candidatura do senador Lindberg Farias, de 42 anos, ex-prefeito de Nova Iguaçu.

4) No Paraná, os companheiros armam a candidatura da atual chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, de 46 anos.

5) O mais velho do lote é o comissário baiano Sérgio Gabrielli, atual presidente da Petrobras, com 62 anos.

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