domingo, novembro 20, 2011

A bandeira - UGO GIORGETTI


O Estado de S.Paulo - 20/11/11

Voltava para casa tarde da noite. No caminho, pouco antes da Avenida Pacaembu, um carro passou pelo meu. O fato nada tinha de notável a não ser que, da janela do carro, desfraldada ao vento, saia uma bandeira da Portuguesa. Lembrei imediatamente que nessa noite a Lusa poderia matematicamente se sagrar campeã da Série B.

Conclui que o carro com a bandeira voltava do Canindé e que a Série B tinha um campeão. Não havia outros carros na rua, como convinha àquele horário de uma noite fria. Só o carro com a bandeira verde e vermelha que alguém agitava com o entusiasmo de quem estivesse no meio de um numeroso cortejo, numa avenida repleta de torcedores. Não saia do carro nenhum grito de "é campeão'' tão comum entre torcedores de futebol. Quem estava lá dentro talvez achasse que só a bandeira exibida para a noite era a homenagem mais adequada à grandeza do seu time. A majestade da bandeira era suficiente.

Tentei ver quem a empunhava, mas não consegui e o carro seguiu em frente com sua alegria solitária e quase incompreensível para quem acompanha futebol de longe. Pensei que, à primeira vista, aquele espetáculo poderia parecer triste. Um time é campeão e a festejar seu título apenas um carro, uma bandeira, e nenhuma alma nas calçadas. Mas, de repente, me peguei com inveja daquele torcedor que não conseguia dividir sua alegria com ninguém. Inveja não do título que tinha acabado de conquistar, mas inveja dele ser torcedor da Portuguesa. Se fosse torcedor de qualquer dos outros grandes de S.Paulo, seu desfile, sim, seria triste e melancólico. Seria o atestado de que um dos grandes perdeu seus torcedores e, finalmente humilhado e ofendido, só alguns excêntricos ainda teimavam em torcer para ele.

Me passou um frio pela espinha de que isso realmente pudesse acontecer a times entregues a toda a sorte de incompetentes. Cruzou minha mente a aterradora imagem do meu próprio time, no futuro, comemorando um improvável título com apenas um torcedor melancolicamente exibindo uma bandeira que não significasse mais nada. Esse é o risco de times que acumularam títulos, vitórias, glórias e parecem não saber o que fazer com elas.

Os outros grandes vivem de títulos e vitórias constantes, mas a Portuguesa vive de outra coisa. Sua grandeza não vem do numero de torneios conquistados, não vem de estrelas estampadas na camisa, não está em filmes nem em museus. Sua grandeza é a própria luta pela grandeza. É o caminho que escolheu trilhar, é a vida que escolheu viver. Sua grandeza é atirar-se na perseguição de uma ideia teimosa e infatigavelmente. O fato de alcançá-la ou não, é pouco importante. O resultado, isto é, uma glória feita de títulos que se empilham preguiçosamente, não chega nunca. Porque não é esse o objetivo. "Navegar é preciso, viver não é preciso.''

A Portuguesa não tem o que têm os outros grandes. Jamais teve uma grande torcida e aparentemente nunca se importou com isso. E daí se seguem todas as suas dificuldades. É frequentemente prejudicada pelas arbitragens, tem dificuldade em aparecer na mídia, tem dificuldade em conseguir facilmente patrocinadores, tem dificuldade em segurar suas revelações. É um clube que faz da luta um fim em si.Por isso invejo seus torcedores. Quem escolhe a Portuguesa escolhe o caminho mais árduo. E não a abandona nunca. A um time assim vale a pena ser fiel, por mais dolorido que seja. Porque seu objetivo é claro, é uma escolha, é um modo de se colocar no mundo do futebol.

Em nome disso suporta-se tudo e quando a vitória chega não importa que se comemore só, numa avenida solitária, numa noite gelada. Tudo faz parte do trajeto, de como construir a própria grandeza. A grandeza da Portuguesa é dessa forma. E os boleiros, os que vão pro campo jogar, sabem disso.

No fim do último Campeonato Paulista quando as partidas finais se iniciavam, tocou ao S.Paulo enfrentar a Portuguesa em duas partidas decisivas. Lembro de um jornalista perguntando a Rogério Ceni o que ele achava do jogo que tinha pela frente. Resposta do goleiro: "É..., é duro. Logo de cara um clássico''.

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