quarta-feira, outubro 26, 2011

RUY CASTRO - Ela iria ouvir



 Ela iria ouvir 
RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 26/10/11 

RIO DE JANEIRO - Tom Jobim era exigente com as casas em que morava. Cuidava de que as janelas deslizassem nos encaixes, sem emperrar; que os corredores fossem espaçosos e iluminados; as escadas, com corrimão; os abajures se acendessem por interruptores nas paredes, para não ser preciso tatear no escuro; as torneiras, em formato de orelha de Mickey, fáceis de usar por mãos ensaboadas; a garagem, ampla para manobras.

O que importava era o conforto dos moradores. Donde nada de copos quadrados, pias baixas ou degraus altos, que podiam ser "modernos", mas, no fundo, eram falsas boas ideias. Sentado ao piano, bastava-lhe estender a mão para pegar o de que precisasse: pautas, partituras, lápis, um ou dois dicionários, fósforos, caixa de charutos, copo. A harmonia, parte tão importante da música, era essencial também para uma casa funcionar.

Pergunto-me o que Tom, morto em 1994, estaria achando do complexo aeroviário que desde 1999 leva o seu nome e que ele não pediu para batizar: o Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim/Galeão. E não vamos sequer considerar as frequentes notícias de que a Polícia Federal apreendeu "200 kg de cocaína no Tom Jobim" ou que "traficantes de aves e animais silvestres operam pelo Tom Jobim" -ligando seu nome a práticas e produtos opostos a tudo que ele representava.

Basta ver o que o Tom Jobim significa hoje em termos de eficiência: aviões que demoram a receber autorização de pouso, desembarque demorado, péssima sinalização, alfândega e imigração caóticas, bagagem que leva uma hora para chegar, esteiras e escadas rolantes paradas, elevadores enguiçados, banheiros em mau estado, cheiro de urina no estacionamento, taxistas que se atiram.

Sorte da Infraero que Tom não seja mais usuário do aeroporto de que ela se diz administradora. Ela iria ouvir.

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