quarta-feira, outubro 26, 2011

ANTONIO PRATA - Alforria


Alforria
ANTONIO PRATA 
FOLHA DE SP - 26/10/11

Sei que no escândalo do lixo hospitalar americano eu deveria me surpreender é com os lençóis sujos de sangue, que por caminhos escusos vieram dar aqui nestes costados. Acontece que nós, os cronistas, somos uns sujeitos meio zarolhos, como essas crianças que tiram o carrinho da caixa e passam a brincar, entusiasmadas, com a caixa. Pois me chamou menos atenção a origem criminosa dos lençóis do que o seu particularíssimo destino: virar forro de bolso, no "Império do Forro de Bolso".
Confesso que, em meus 34 anos sobre a Terra, jamais havia dedicado um único pensamento a este obscuro rincão do vestuário. Até duas semanas atrás, quando toda a história foi divulgada, achava que a parte mais ínfima de nossas roupas fossem as meias: condenadas a suportar pisões e joanetes, frieiras e chulés, escondidas dentro de sapatos. Mas eis que surge o forro de bolso, espremido entre as coxas e o anonimato, escravo das galés, e perto dele as meias parecem-me pequenas celebridades; exibem listras e losangos sob a barra das calças, a cada cruzada de pernas, saracoteiam entre tatames e sushis, nos restaurantes japoneses, gozam o êxtase sagrado das mesquitas, ganham o Oscar de melhor coadjuvante ao participarem do sublime espetáculo de uma mulher nua, a não ser pelos pés envoltos em algodão, lã, cashmere... Já o forro de bolso: ouviríamos falar dele, não fosse a tragédia sanitária? Ah, lumpenvestuariat!
Se a Pixar fizesse uma animação em que as roupas ganhassem vida, os forros de bolso poderiam ser dublados por Steve Buscemi, Woody Allen ou Jason Alexander (o George Constanza, de "Seinfeld"). Tristes e sarcásticos, com vozes hesitantes e anasaladas (longe da luz do sol, pouco ventilados, sem dúvida sofrem de rinite, bronquite e outros problemas alérgicos), reclamariam de suas sinas: nunca um elogio, nunca uma palavra amiga, lembrados apenas se, puídos pelo mau uso de seus donos, deixam cair uma moeda, perdem a chave de casa.
A existência desses pobres-diabos só não é uma penúria completa pois dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, há um refúgio feliz: o "Império dos Forros de Bolso". Quanta beleza e melancolia, nessas três palavras! Chego a ouvir ecos do Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles será o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados". Bem-aventurados os que se humilham sob a soberba das calças, porque a eles será destinado um Império.
Imagino que mamãe e papai forro digam coisas parecidas para o forrinho, quando, diante de malhas coloridas e cachecóis esvoaçantes, de botas de couro e blusas de seda, as primeiras luzes da consciência iluminam no rebento as trevas de sua condição. Esperançosos, os progenitores falam do fim do longo cativeiro, do dia em que os últimos serão os primeiros, o avesso será o correto e o correto será o avesso, as calças pagarão pela vaidade e todos os forros de bolso sentirão em suas faces os raios do sol, e receberão de graça a água da vida. Eis o que lhes dá forças para seguir em frente -ou melhor, embaixo, até o momento da prometida alforria.

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