sexta-feira, setembro 09, 2011

MONICA B. DE BOLLE - Abandono


Abandono
MONICA B. DE BOLLE
O Estado de S. Paulo - 09/09/2011

Às vezes essa palavra designa um ato - o abandono das regras, das amarras que cerceiam, mas que também norteiam. Outras vezes é utilizada para caracterizar um estado de espírito - a sensação de liberdade que acompanha a percepção de não se ater a nada, de poder agir sem restrições. Mas a palavra ainda tem conotações mais sombrias. Dependendo das circunstâncias, significa desleixo, negligência, renúncia, desistência. Os bancos centrais no mundo, hoje, se caracterizam pelo abandono. Seja por não poderem mais se amarrar às regras predeterminadas de outrora, em razão do ineditismo dos problemas que enfrentam; seja por quererem se libertar das restrições impostas por certos regimes monetários em meio à exacerbação da incerteza. Ou, ainda, por terem resolvido renunciar ao passado, desistindo dos modelos que geraram grandes benefícios, mas que também trouxeram custos. Como tudo na vida.

A crise global mudou radicalmente a "cara" da política monetária. Se antes os regimes adotados por grande parte dos países haviam encontrado um equilíbrio entre a orientação proporcionada pelas regras e a flexibilidade garantida pela discricionariedade, isso já não existe mais. Os regimes de metas de inflação explícitos, como o implantado no Brasil, ou implícitos, como o seguido pelo Fed e pelo Banco Central Europeu (BCE), foram abandonados por diversas razões. Nos EUA, porque, diante da necessidade premente de combater os efeitos nefastos da quebradeira bancária, cujas sequelas crônicas são muito graves, foi preciso mudar radicalmente a execução da política monetária. Não se sabe muito bem em que ela consiste hoje - ora é usada para compensar o mau funcionamento do mercado de crédito, ora para influenciar a estrutura a termo das taxas de juros, sempre torcendo para que surta algum efeito sobre o nível de atividade. Torcer é o verbo adequado. O abandono dos instrumentos tradicionais de política monetária imposto pela crise forçou o Fed a tatear no escuro, lançando mão de manobras convolutas, conhecidas pelo nome rebuscado de "afrouxamento quantitativo". Já passamos pelo primeiro e pelo segundo. Agora, aguardamos o terceiro.

Na Europa, o ato de "entrega" tem sido mais difícil. O BCE resistiu aos impulsos discricionários, agarrando-se, até excessivamente, às amarras do controle rigoroso sobre a inflação. Mas os países de espírito mais libertário - ou libertino - estão forçando a sua mão. Já não é mais aquele BCE esculpido à imagem retilínea do Bundesbank. É algo mais sinuoso, encurvado às necessidades de salvaguardar o euro, de impedir que as travessuras de alguns países conhecidos por seu apetite dionisíaco implodam o projeto político de unificação.

Os bancos centrais e seus dirigentes fazem parte de um clã, no sentido antropológico do termo. Aquele que abandona os rituais predominantes e as normas de comportamento prevalecentes se torna um pária, um excluído - um abandonado. E o comportamento que hoje predomina no mundo rarefeito da política monetária incita a romper com as regras, a cortar as amarras, a permitir-se a total liberdade de atuação. Por esse prisma, é compreensível que o BC brasileiro tenha resolvido renunciar - temporariamente? - ao regime de metas de inflação. A decisão de reduzir os juros em meio à elevada taxa de inflação brasileira, aos modestos sinais de desaceleração da atividade doméstica e a uma recessão mundial que ainda não se materializou, e que talvez nem sequer se materialize, foi um ato de abandono.

Há circunstâncias em que a ousadia do abandono é admirável. Quando é presciente, quando sabe explicar por meio de uma lógica impecável as razões que motivaram as suas ações "fora de padrão". Mas há outras em que o ato é simplesmente negligente e descuidado, perseguindo falsos deuses - o crescimento de improviso, sem um plano para a infraestrutura e para a educação, sem uma visão congruente de longo prazo sobre o que se quer para o desenvolvimento do País -, em vez de combater problemas reais: a inflação. Neste caso, o abandono tem outro significado. Quer dizer retrocesso.

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