sexta-feira, setembro 23, 2011

LUIZ GARCIA - Casco duro


Casco duro
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 23/09//11

Em outras profissões, quem se aposenta vai para casa ou para a praça, brincar com os netos ou jogar conversa fora, matando o tempo à espera da aposentadoria, digamos assim, definitiva. Na política, é comum que os sem mandato continuem ativos, nos partidos e na mídia. Transformam-se em conselheiros - ou, diriam pessoas menos gentis, palpiteiros -- emitindo opiniões e sugestões, que muitas vezes não têm preço. Isto é, ninguém os compra.

Nos Estados Unidos, criaram para ex-presidentes a expressão elder statesmen (estadistas mais velhos) e costumam ser respeitados. Principalmente se a longa experiência produziu sabedoria e um razoável nível de isenção.

Por aqui, o estadista mais velho mais visto e ouvido, possivelmente porque fala sem parar, é o ex-presidente Lula - que pelo jeito não se considera aposentado de jeito nenhum. O que torna necessário dar atenção ao que ele diz. Outro dia, na Bahia, ele se manifestou sobre um sério problema enfrentado pela presidente Dilma Rousseff: a quantidade de ministros e outros altos funcionários detonados por denúncias de corrupção.

Na visão de Lula, os ministros de Dilma recentemente detonados deveriam ter resistido às denúncias de corrupção em suas pastas. Caíram, na sua opinião, por lhes faltar "casco duro" - seja isso o que for. Não lhe passou pela cabeça a possibilidade, ou alta probabilidade, de que as denúncias seriam mais fortes do que o desejo dos ministros de continuarem nos cargos.

Não se tem notícia, aqui ou em qualquer país, que ocupantes de altas funções públicas costumem correr para casa quando vítimas de denúncias injustas. E a presidente Dilma, que se saiba, não fez qualquer esforço para impedir a revoada dos ministros acusados - mesmo sabendo que isso, para a opinião pública, era a prova definitiva de que as denúncias tinham procedência.

O governo atual tem certamente tempo suficiente - desde, claro, que a presidente capriche mais na escolha de seus auxiliares - para recuperar a boa imagem de sua administração. E deve isso ao fato de que os ministros acusados saíram rapidamente de cena. A falta de "casco duro", que Lula lamentou, deu à presidente oportunidade e tempo para limpar a imagem de sua administração.

Fora isso, o episódio tem relevância por outro lado: ele ajuda consideravelmente a definir como episódios de corrupção na máquina do Estado eram tratados no governo do antecessor de Dilma.

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