quinta-feira, agosto 25, 2011

CARLOS A. DÖHLER - Pacote econômico, férias coletivas e o consumidor


Pacote econômico, férias coletivas e o consumidor
CARLOS A. DÖHLER
VALOR ECONÔMICO - 25/08/11
Aplausos e elogios acalorados de um lado, críticas e chiadeiras incisivas de outro. Ambos unilaterais e um tanto exagerados. O maior mérito do pacote econômico Brasil Maior, apresentado pelo governo federal, não foi o de ter beneficiado este ou aquele setor, mas o de finalmente abrir espaço nos palácios de Brasília para debater a desoneração da indústria nacional. O pacote sinalizou a disposição do governo de mexer em temas adiados há anos. Isso, sim, foi um grande avanço.

A alta carga tributária brasileira associada a uma política que favorece a importação vem abalando as estruturas da indústria. Enquanto a produção brasileira vai se acumulando nos estoques, os produtos chineses entram, diariamente, sem pagar impostos e, o que é pior, trazendo nas embalagens um "selo" de desqualificação, falta de ética, irresponsabilidade ambiental, desrespeito aos funcionários e descaso com os consumidores.

No último mês, mais uma vez, acompanhamos pelo noticiário as fabricantes dando férias coletivas aos funcionários. A bola da vez foram as empresas de linha branca (geladeiras, fogões, lavadoras etc), que suspenderam a produção e pediram para milhares de trabalhadores "descansarem".

O aumento dos estoques nas empresas nada mais é do que um reflexo da diminuição da demanda. As corporações que se preparavam para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 5%, em 2011, ao que tudo indica terão de se contentar com um crescimento próximo a 3,5%. A indústria brasileira também já sente com mais força o impacto das crises econômicas internacionais, que têm levado os países a ampliarem suas barreiras comerciais.

Para o setor têxtil, a situação está especialmente mais complicada. Neste ano, as notícias sobre férias coletivas no segmento tornaram-se tão corriqueiras que sua exclusão do pacote econômico federal causou comoção. Evidentemente que a percepção do poder público é fundamental para modificar um quadro desfavorável. Entretanto, empresas com administrações criativas, corajosas e atentas ao mercado muitas vezes conseguem encontrar alternativas para driblar as dificuldades, antes mesmo da interferência governamental.

A crise nas exportações, por exemplo, podia ser prevista há tempos. Por outro lado, também há alguns anos já era possível vislumbrar um vigoroso crescimento da classe média brasileira - pois esse movimento vinha amadurecendo desde a ascensão das mulheres no mercado de trabalho. A renda do homem brasileiro classe C passou a ter o acréscimo da renda da mulher classe C, possibilitando uma renda familiar classe B.

As fabricantes brasileiras que conseguiram perceber essas variações nos mercados interno e externo adaptaram sua estratégia administrativa e têm conseguido, não só contornar a crise, mas alcançar ótimos desempenhos, produzindo a todo vapor, com 100% dos funcionários e aumentando o faturamento mês a mês. Até mesmo no tão prejudicado setor têxtil brasileiro, a transferência de foco das exportações para a demanda nacional, com enfoque na nova classe média, fez total diferença nesse momento de dificuldades.

Para superar conjunturas adversas, o administrador não deve contar apenas com a sensibilidade do governo. Ele precisa estar atento ao seu consumidor momentâneo e, sobretudo, ao cliente em potencial. Saber quem são aqueles que não compram a sua marca hoje, mas que poderão vir a comprar é fundamental, bem como buscar estratégias para alcançar esse público. O mercado é dinâmico.

Agora, por exemplo, é fundamental perceber as novas transformações que estão a caminho. O consumidor brasileiro de hoje não será o mesmo daqui a 10 anos. A população está envelhecendo com saúde. O mercado consumidor será formado por uma grande gama de pessoas com mais de 40 anos, exigentes, estabelecidas financeira e profissionalmente. Ninguém irá comprar por comprar, apenas para satisfazer uma vaidade. O consumidor do futuro buscará empresas com os seus mesmos ideais. Empresas que saibam criar valores emocional, social, ambiental, de experiência e, lógico, financeiro para o produto.

Também é fundamental aos administradores estarem antenados à facilidade de mobilização da nova geração. Qualquer informação passou a estar ao alcance de todos e com a rapidez de um click. Ainda não se sabe até que ponto poderá chegar essa facilidade de comunicação, mas já é possível imaginar o perfil do nosso próximo consumidor, que acreditará ter o mundo aos seus pés, confiará em seus pontos de vista e disseminará informações o tempo todo.

A sorte, mais uma vez, está lançada. Ou melhor, a sorte não, o desafio. Sociedade, indústria e governo estão amadurecendo juntos. A população passará a dar as cartas do jogo, exigindo respeito e responsabilidade dos gestores; o setor produtivo briga contra o tempo para adaptar suas práticas corporativas, colocando assuntos como equilíbrio ambiental e ética na pauta do dia; e o poder público dá mostras de que pela primeira vez passará a defender o patrimônio interno. Com essas três frentes integradas e atuando com firmeza, certamente temos motivos para confiar na possibilidade de um Brasil Maior.

Carlos Alexandre Döhler é diretor comercial da empresa Döhler S/A e pós-graduado em Comércio Exterior pela Univille-SC

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