quarta-feira, março 30, 2011

RUY CASTRO

Que sirva de lume
RUY CASTRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/03/11

RIO DE JANEIRO - A UFRJ, cuja capela queimou na segunda-feira, na Praia Vermelha, no Rio, é a sucessora da Universidade do Brasil, a primeira universidade federal, "do Brasil", criada em 1920. O prédio, de que só ficaram as paredes, é parte do conjunto arquitetônico levantado em 1852 por d. Pedro 2º para servir como um hospital de "alienados", o que então abrangia qualquer desvio da norma, incluindo alcoolismo -não por acaso, Lima Barreto foi um de seus hóspedes.
Passo sempre por ali e, além de admirar a beleza do conjunto, vivo lamentando seu abandono. Pela lateral da avenida Venceslau Brás, pichada, descascada e com o paisagismo arruinado, pode-se imaginar suas condições estruturais.
Tudo no Rio que era "nacional" e continuou aqui na mudança da capital para Brasília, em 1960 -a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, o Observatório Nacional, o Colégio Pedro 2º, a floresta da Tijuca e muitos outros próprios federais, incluindo uma rede de hospitais-modelo-, foi mantido a pão e água por Brasília nos últimos 50 anos. Era como se a morte por asfixia fosse uma disposição federal contra essas instituições -na verdade, contra o Rio, para este ver quem mandava no país.
Nesses 50 anos, o Rio (às vezes, seu governador; em outras, seu povo; com frequência, ambos) foi oposição a quase todos os presidentes em Brasília: Jânio, Jango, Castello, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Sarney e Collor, pelo menos. Foi bonito, mas nos custou caro. Eles nos tiraram indústrias, serviços e bancos, fundiram a Guanabara com o Estado do Rio e dilapidaram nosso patrimônio histórico. E o Rio também errou.
Bem ou mal, e graças apenas a si próprio, o Rio sobreviveu. Está hoje mais vivo do que nunca. Que o fogo na capela sirva de lume para que se salve o muito que aqui ainda se guarda de história do Brasil.

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