quinta-feira, março 24, 2011

CORA RÓNAI

E la nave va
CORA RÓNAI
O GLOBO - 24/O3/11
 
FOSB, fundação que administra a Orquestra Sinfônica Brasileira, conseguiu, enfim, o que queria: tornar a OSB uma orquestra conhecida internacionalmente. Ao longo das últimas semanas, desde que foi anunciada a avaliação de desempenho individual num período crítico, quando os músicos voltavam de férias, ela virou assunto em todas as rodas musicais, e e-mails chegam de todas as partes para os administradores e para o maestro Roberto Minczuk. Do que tomei conhecimento - do Conselho Executivo da Organização Canadense dos Músicos de Orquestra Sinfônica, que representa nada menos de 1.100 profissionais, ao Sindicato dos Músicos e Bailarinos da Hungria, passando pelos sindicatos dos músicos de Israel, da Noruega e da Bulgária - a maioria manifesta repúdio à atitude da FOSB e solidariedade aos músicos da OSB. Sobrou até para mim, de uma forma inusitada.

No começo da semana, recebi o e-mail de um amigo de longa data do Flickr, uma comunidade de fotografia. Este amigo atende por Ranabass, e nunca o conheci por outro nome - até a chegada dessa correspondência. Ele me pediu que defendesse os seus colegas da OSB, naturalmente sem saber que eu já o tinha feito. Estava horrorizado com o que soubera através de malas diretas da International Conference of Symphony and Opera Musicians e da FIM (Federação Internacional de Músicos). Meu amigo Ranabass, vim a saber, chama-se George E. Dimitri e é contrabaixista da Orquestra Sinfônica de Fort Worth, Texas.

Este, como eu disse, foi um e-mail inusitado, pela procedência; mas recebi muitos outros daqui mesmo. Destaco dois, pelo conhecimento e pela importância indiscutíveis dos remetentes.

"Como cantora e, de acordo com a informação do livro da OSB (pág. 168), a que mais atuou com esta orquestra, não poderia deixar de manifestar o meu aplauso a esta coluna que hoje disse o que muitos pensam e não têm coragem de expor", escreveu Ruth Staerke, a quem já aplaudi tantas e tantas vezes. Pouco depois, entrou na caixa postal o e-mail de Nelson Portella, outro dos meus ídolos líricos:

"Seu artigo de hoje é absolutamente definitivo a respeito da OSB. Na minha carreira de tantos anos, vivi constantemente nos maiores teatros de ópera do mundo, sobretudo na Europa, e tive o privilégio não só de trabalhar sob a batuta de grandes diretores, como também de vê-los trabalhar. Parabéns!!! Nós, músicos que lutamos pela seriedade e honestidade sem as quais não se pode fazer boa música, precisamos demais de artigos como esse."

Enquanto isso, na Urca, ainda na sexta-feira passada, o colegiado de professores do Instituto Villa-Lobos, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, UniRio, produzia um documento a respeito do caso. Transcrevo na íntegra, pelos sérios problemas apontados:

"Os professores do Instituto Villa-Lobos da UniRio, por meio deste documento, querem expressar sua preocupação com os critérios que vêm determinando as relações entre a direção artística e os jovens músicos que compõem a OSBJ (Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem).

"Os alunos têm sido levados a atuar em lugar da orquestra profissional, expondo-se sem preparo adequado a situações que poderão acarretar efeitos negativos no seu desenvolvimento. A truculência com que são tratados os instrumentistas da OSBJ; as lições de antiética implícitas na obrigatoriedade de substituir músicos profissionais, alguns dos quais seus professores; os critérios pedagógicos utilizados na solução de problemas que não deveriam ser da alçada de uma orquestra jovem, utilizada como substituta da orquestra principal; a pressão exercida pela direção da OSBJ através da manipulação de bolsas de estudos, para assegurar a presença e a obediência dos jovens são, a nosso ver, atitudes inaceitáveis por parte de quem trabalha com formação profissional. Preconizado como "Projeto Pedagógico da OSB" por seu diretor artístico em diversas manifestações na mídia, este conjunto de ações soa ridiculamente cômico, não fosse maléfico. Os professores do Instituto Villa-Lobos da UniRio se posicionam frontalmente contra este estado de coisas e pedem aos responsáveis que voltem à razão e ao bom senso, deixando que as desavenças com os músicos profissionais sejam resolvidas em seu âmbito, sem envolver os alunos que já estarão, nesta altura dos acontecimentos, suficientemente marcados por decisões autocráticas desequilibradas e indefensáveis, sobretudo quando afetam jovens que procuram - dentro de um mundo que privilegia e incentiva não o SER mas o TER - o caminho correto para a realização dos seus sonhos."

Recebi também um telefonema muito cordial de Eleazar de Carvalho, presidente da FOSB. Ele me explicou que as avaliações não seriam realizadas para efeitos de demissão, coisa que os músicos não entenderam, e reconhece que houve um problema de comunicação na raiz da crise. O fato é que os músicos que faltaram às avaliações - entre eles alguns dos mais conceituados instrumentistas brasileiros - estavam em vias de demissão, "não por motivos artísticos, mas por insubordinação". De forma que, por paus ou por pedras, a FOSB parece ter chegado ao ponto que levou à revolta inicial dos instrumentistas: demissão em massa. Uma nova mesa-redonda estava marcada para ontem, quarta, mas como escrevo na terça, não sei o que ficou acertado. Eleazar de Carvalho me disse que tanto as avaliações quanto as demissões têm o respaldo da lei. Não duvido disso. O problema é que nem sempre o que é legal é justo ou correto. 

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