quarta-feira, março 30, 2011

CELSO MING

Mais uma tentativa
CELSO MING

O ESTADO DE SÃO PAULO - 30/03/11

Medida macroprudencial passou a ser um balaio onde cabe muita coisa, inclusive medidas macroprudenciais.
Por medidas macroprudenciais entendam-se procedimentos obrigatórios destinados a reduzir o risco de certas operações. No caso, trata-se de operações financeiras. Mas poderiam ser de outra natureza: exposição (excessiva) de um patrimônio qualquer a moedas estrangeiras, a ações, a investimentos de risco ou, até mesmo, ao mercado imobiliário, etc.
Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a imposição de um IOF de 6% na tomada de financiamentos estrangeiros. E deu à providência o tratamento de "medida macroprudencial". Dessa vez, ela serve, em princípio, para atuar simultaneamente sobre duas áreas: a do câmbio e a do crédito. Na prática, não reduz risco nenhum.
A tomada de empréstimos externos pelas empresas vem crescendo vigorosamente. No período de 28 de março de 2010 a 28 de março de 2011, eles saltaram de US$ 20,6 bilhões para US$ 38,5 bilhões ou 87%. Essa forte entrada de financiamentos externos foi recebida pelo governo como fator que contribui para derrubar o preço do dólar no câmbio interno.
O ministro Guido Mantega avisou que, com essa decisão, o governo trata de reduzir o risco cambial das empresas brasileiras. Mas não dê muita importância a essa afirmação. Quem sai na chuva é para se molhar. Bancos e empresas que captam recursos externos sabem o que estão fazendo. Não precisariam de guarda-chuva e galochas de Brasília para se abrigarem de eventual risco cambial.
Mantega quer segurar o dólar e, também, evitar alta dos juros para atacar a inflação. Além de evitar pressão sobre o câmbio, a intenção é desestimular o endividamento dos bancos para moderar o crescimento do crédito e para que o consumo se retraia e a inflação possa ser controlada.
O Banco Central divulgou ontem os números mais recentes (até fevereiro) sobre a evolução do crédito. Apesar de todas as medidas macroprudenciais anteriores, cujo objetivo era limitar a expansão do crédito bancário, essas operações continuam crescendo. Seu estoque foi de 46,3% do PIB em janeiro e avançou para 46,5% do PIB em fevereiro. Em 12 meses, cresceu 21%. Há uma semana, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, avisou que um crescimento superior a 15% neste ano seria indesejado, porque trabalharia contra a política de juros que está aí para derrubar a inflação.
O problema é que as tais medidas macroprudenciais tomadas para conter o crédito (aumento do compulsório dos bancos e exigência de mais capital para operarem no crédito) não estão fazendo efeito. Tanto não estão, que o crédito vem aumentando, como ficou dito, quando teria de diminuir.
Também aí, o governo é dúbio. Dá a impressão de querer segurar o crédito, mas faz pouco para isso e deixa que o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica (bancos oficiais) continuem deitando e rolando, especialmente nesse segmento.
As decisões tomadas ontem para conter a expansão da dívida externa dos bancos e das empresas são de baixo alcance. Desencorajam operações de até 365 dias, mas não de 366 ou mais. E, do ponto de vista tanto dos bancos e empresas como da economia brasileira, é discutível se convém desestimular o endividamento externo, justamente quando os recursos são abundantes, disponíveis e baratos.

CONFIRA
José Alencar

Na década de 1980, o polo têxtil de Americana (SP) continuava sendo o mais importante do Brasil. Mas pairava sobre ele a ameaça do sucateamento, na medida em que ficou quase 30 anos sem renovação. "O setor têxtil está desaparecendo, porque o governo não ajuda em nada" - era o que diziam os empresários na Americana de então. Mas não se mexiam.

Empresa modelo
Zé Alencar quebrou essa escrita, porque reconstruiu, quase do nada, em 1975, em Montes Claros (MG), a Coteminas, indústria têxtil que se tornou modelo e cujo sucesso calou muito empresário que pretendia sobreviver só com subsídios, tarifas protecionistas e juros favorecidos distribuídos pelo governo. 

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