quarta-feira, março 16, 2011

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

A importância das importações
ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/03/11

O aumento de importações desempenha papel central no sentido de moderar as pressões inflacionárias

EM MEIO às comemorações sobre o crescimento do PIB de 7,5% em 2010, ficaram em segundo plano características importantes do desempenho da economia brasileira no ano passado, em especial seu comportamento em cada semestre.
O PIB, que crescera a um ritmo anualizado de quase 9% no primeiro semestre, desacelerou-se para pouco mais de 3% ao ano na segunda metade de 2010. Já a demanda interna, cuja expansão anualizada atingira 8%, reduziu modestamente sua velocidade para cerca de 6,5% ao ano no segundo semestre.
Tais números deixam claro que a desaceleração do crescimento da produção interna não pode ser atribuída à fraqueza da demanda doméstica. Entretanto, se não foi a demanda interna, o que levou à desaceleração do PIB?
O primeiro suspeito é o crescimento das importações (líquidas das exportações). Dessazonalizadas e medidas a preços constantes do quarto trimestre de 2010, as importações líquidas saíram de R$ 2,5 bilhões negativos no primeiro semestre para R$ 8,8 bilhões positivos no segundo, um aumento superior a R$ 11 bilhões, que teria -tudo o mais constante- "roubado" esse valor da produção interna.
Entretanto, se, como experimento mental, repuséssemos esse valor no PIB do segundo semestre, observaríamos que este passaria deR$ 1,967 trilhão para R$ 1,978 trilhão, ou seja, em vez de crescimento anualizado de 3,2% no período, teríamos 4,3%. Por essa métrica algo arbitrária, pode-se dizer que o aumento das importações líquidas "custou" 1,1% ao ano no segundo semestre.
A segunda suspeita é a variação de estoques, com redução de R$ 36,3 bilhões na primeira metade do ano para R$ 15,8 bilhões na segunda (sazonalmente ajustados e medidos a preços constantes). Caso a variação dos estoques tivesse permanecido inalterada, chegaríamos a um PIB de R$ 1,987 trilhão na segunda metade de 2010, equivalente a um crescimento anualizado de 5,3%.
A redução do ritmo de acumulação de estoques, portanto, teria "custado" 2,1% ao ano no segundo semestre, papel aparentemente mais importante na desaceleração do crescimento do que o aumento das importações líquidas.
A conclusão acima, é bom notar, não está imune a problemas, a começar porque a variação de estoques, como o IBGE nos alerta, é uma conta de resíduo, isto é, toda a diferença entre as estimativas do valor da produção e do valor da demanda final é lá contabilizada.
Na ausência de observações independentes do valor dos estoques, não sabemos dizer quanto a estimativa captura de fato as variações dos estoques e quanto é apenas ruído estatístico. De qualquer forma, as magnitudes envolvidas sugerem que o efeito pode ser relevante.
Isto dito, alguém ainda poderia notar que, independentemente do resultado dos estoques, as importações líquidas teriam ainda "roubado" pouco mais de 1% ao ano do crescimento do segundo semestre. Não seria o caso de limitar as importações para permitir que o crescimento da demanda interna se transformasse integralmente em aumento da produção?
No entanto, se o PIB (sem importações adicionais) tivesse crescido na proporção que calculamos acima, uma estimativa simples sugere que o produto efetivo da economia teria superado seu valor potencial em 0,7% do PIB no final de 2010, valor superior ao estimado (0,3% do PIB) com o aumento observado das importações, isto é, a pressão sobre a capacidade produtiva do país teria sido ainda maior que a observada, indicando, como destaquei na minha última coluna, que as pressões inflacionárias também aumentariam.
Em outras palavras, sem as importações, o dinamismo da demanda interna teria que ser menor, e os juros, mais altos. Essas considerações devem, portanto, deixar claro que o aumento das importações desempenha papel central no sentido de moderar as pressões inflacionárias. Não é, nem poderia ser, a solução final do problema, mas sabemos agora por que limitá-lo é uma péssima ideia.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 48, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central do Brasil

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