terça-feira, fevereiro 08, 2011

VINICIUS TORRES FREIRE

Corte na carne e corte de vento
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/02/11

Governo tem dificuldade até para chegar a corte de gasto insuficiente para conter alta maior de juros


PARA QUASE todos os observadores da economia, o anúncio mais importante deste início do governo Dilma Rousseff é o tamanho do corte dos gastos federais. Os ministros do Planejamento, Miriam Belchior, e da Fazenda, Guido Mantega, ainda não apresentaram um número à presidente. Segundo assessores da própria Dilma, isso deve acontecer hoje. Os assessores dizem que o corte pode ficar entre R$ 40 bilhões e R$ 60 bilhões. Se fôssemos viajar com essa precisão, saindo de São Paulo e mirando o Rio a gente poderia acabar em Belo Horizonte, mas passemos. Há outras complicações. Num estudo divulgado ontem, o economista do Santander e colunista desta Folha Alexandre Schwartsman pergunta: corte de uns R$ 50 bilhões em relação ao quê? Em relação ao Orçamento inflado pelo Congresso? A previsão de aumento de despesa em relação a 2010 é de R$ 100 bilhões. Um corte de R$ 50 bilhões na previsão de despesa do Orçamento significa, pois, um aumento de gastos de R$ 50 bilhões sobre o ano passado. Ou seja, um crescimento da despesa de cerca de 1,2% de um PIB em valores correntes de R$ 4,1 trilhões em 2011. Nessas contas, pressupõe-se um crescimento otimista do PIB de 5,5%, o número que consta do Orçamento, e inflação de 6,1%, média das previsões dos departamentos de pesquisa que mais acertam a estimativa.
E daí? O economista padrão e agora até o núcleo dos economistas do governo acreditam que gastos menores do governo reduzem, é óbvio, o total do consumo no país e que isso, em tese e muito provavelmente, tem algum efeito na velocidade da alta de preços, na taxa de inflação. Qual redução de gastos, pois, seria relevante para a redução do consumo de modo que a inflação ficasse mais ou menos na meta?
Estimativas de inflação do próprio Banco Central para 2011 preveem IPCA um tanto acima da meta de 4,5%. Nessa conta do BC, pressupõe-se um superavit primário (poupança do governo) de 3% do PIB.
Nas contas de Schwartsman, um superavit "oficial" de 3% significa, na prática, para o que importa em termos econômicos, um superavit de 2,7% do PIB (o economista deixa de lado os décimos de porcentagem obtidos graças às mágicas contábeis que o governo tem utilizado para dizer que cumpriu a meta).
Desse modo, o corte de gastos teria de alcançar 1,4% do PIB, ou cerca de R$ 85 bilhões, a fim de que se atinja o superavit pressuposto pelo Banco Central em suas estimativas de inflação. Em tese, quanto mais longe o governo ficasse desse número, mais o BC teria de aumentar os juros a fim de entregar uma taxa de inflação mais ou menos na meta.
Como o próprio Schwartsman observa, há várias estimativas de superavit necessário na praça. Além do mais, há incertezas várias nessas contas: o crescimento do PIB, a taxa de inflação e o efeito do corte de gastos na inflação.
Ainda assim, dados os descontos de imprecisões e metodologias diferentes, parece difícil acreditar que um corte de R$ 50 bilhões baste. Na verdade, as melhores estimativas na praça sugerem que o gasto do governo teria ser reduzido, em termos reais, para dar conta do recado de reduzir demanda, inflação e tamanho da alta de juros. Tal coisa, redução de gasto público, costuma acontecer apenas em anos de crise bem ruim, como em 2003.

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