domingo, janeiro 30, 2011

VINICIUS TORRES FREIRE


Baixeza política, inflação e juros

VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/01/11


Tumulto na coalizão que em tese apoia Dilma coloca em risco metas econômicas de governo que mal começa


NOS PRÓXIMOS dias, vai se conhecer o tamanho do estrago deixado pelas disputas entre PT e PMDB por boquinhas. A turumbamba começou em dezembro, quando Dilma Rousseff deu uma espanada em peemedebistas que ocupavam postos de primeiro escalão. O tempo esquentou em janeiro, não apenas devido à disputa pelas bocas em estatais. O PMDB está com mais sangue na boca porque atribui aos petistas a disseminação dessa ideia tão exótica de que eles, os peemedebistas, seriam bandalheiros cavadores de cargos rendosos -ó, tanta mágoa, quanta ingratidão.
Na disputa pela Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e pela direção de Furnas, o deboche e a cara de pau costumeiros desceram ainda mais de nível. Começaram a aparecer papéis sobre sumiços de dinheiro na Funasa, um dos clássicos da rapinagem do setor público ao lado de Dnocs, Dnit, Conab. Pior, a disputa de Furnas agora envolve acusações diretas contra um dos cabeças do peemedebismo, Eduardo Cunha (RJ), que ameaçou "vendetta". O revide viria na denúncia de corrupções nas bandas do PT.
É nesse ambiente que será eleito o novo presidente da Câmara, provavelmente um petista, Marco Maia (RS), isso se a confusão criada por divergências intrapetismo, pelo "anticandidato" Sandro Mabel (PR-GO) e pelo PMDB não suscitar um episódio Severino Cavalcanti.
Muito importante, é nesse sururu que serão negociados assuntos como aumento do salário mínimo, possível reajuste da tabela do Imposto de Renda, redução de impostos para empresas e, talvez, o que mais o Congresso invente a fim de testar a nova presidente da República. No mais, não parece haver lideranças políticas no Congresso que organizem a disputa política em termos menos baixos, gente com alguma grandeza ou espírito público.
Além do PMDB, outros muitos integrantes da coalizão governista estão interessados em aumentar o gasto público. O próprio governo abre flancos no cofre ao sugerir reduções de impostos para empresas sem explicar como cobrirá o rombo restante. Sem reviravolta nesse cenário, as metas e as tarefas econômicas do governo começam muito cedo a ficar sob ameaça.
Aumentos de gastos vão impulsionar o consumo num ambiente de inflação desconfortavelmente crescente; vão avariar ainda mais o resultado fiscal do governo, que não vai atingir a meta de superavit primário (poupança do governo, exceto despesas com juros) neste ano, no mínimo. A taxa básica de juros ficará mais alta e por mais tempo. Cresce o risco de termos vários anos de deficit nominal acima dos 2% do PIB (resultado nominal: o que inclui despesas com juros).
Um dos poucos objetivos econômicos conhecidos do governo Dilma era o de conter despesas de modo a atingir o equilíbrio das contas públicas por volta de 2014, com redução veloz da dívida pública e, assim, também da taxa básica de juros, que em termos reais poderia baixar a 3% ao ano. Assim, os indicadores macroeconômicos básicos do Brasil teriam então chegado a um inédito nível de normalidade, comparável ao de economias civilizadas. Talvez aí fosse possível até iniciar um plano de redução de impostos. A anarquia política e a falta de clareza do governo, logo no seu início, podem botar tudo isso a perder.

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