domingo, janeiro 23, 2011

EVANDRO ÉBOLI

Conab: cargos de confiança crescem
Evandro Éboli
O GLOBO - 23/01/11


Nos últimos três anos, comando da companhia se revezou entre PMDB e PTB



BRASÍLIA. Alvo da cobiça de partidos aliados, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) está sob o comando, nos últimos três anos, de um consórcio do PMDB com o PTB. Nesse período, a empresa foi generosa na distribuição de cargos a apaniguados de políticos ligados a esses partidos. Fundamental na comercialização e na distribuição de alimentos - como cestas básicas a populações vulneráveis -, a presidência da Conab saltou de doze cargos de confiança disponíveis, em junho de 2007, para 37, no início de 2011. Um aumento superior a 200%.

Esses funcionários recebem salários que variam de R$5 mil a R$12 mil e ocupam cargos de assessor da presidência, com contratos especiais. Outros são assessores de programas e coordenadores.

Em comum, a falta de perfil técnico

Boa parte destes cargos é ocupada por pessoas que não têm vinculação com a área agrícola. Um exemplo, é o atual presidente da empresa, Alexandre Magno Aguiar, um advogado especializado em Direito do Trabalho. Aguiar é genro do deputado federal Armando Abílio (PTB-PB), que o indicou para o posto.

Ao longo desses três anos, a companhia foi ocupada também pelo atual ministro da Agricultura, Wagner Rossi, ligado ao vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB). Rossi esteve à frente da Conab entre junho de 2007 a abril de 2010. Foi principalmente na sua gestão que registrou-se aumento no número de servidores da presidência do órgão.

Setores do PMDB e do PTB querem manter o comando da Conab. Já ocorreu bate-boca dentro do governo sobre essas indicações. O PT quer emplacar na presidência do órgão o atual diretor de Política de Planejamento da Conab, o petista Silvio Isopo Porto.

Alexandre Aguiar quer se manter no posto. Ele disse que está fazendo um papel importante na Conab, em prol do Brasil, e que está à disposição da presidente Dilma para servir ao país. Aguiar faz uma auto-avaliação positiva de sua gestão.

- Sei que existe uma briga política, uma queda de braço. Mas estou tranquilo quanto ao meu trabalho e sou elogiado em todo lugar. Vai depender (continuar ou não) do nosso amigo Michel Temer e do nosso amigo Rossi - disse Alexandre Aguiar.

O presidente da Conab afirmou que não há distribuição indevida de cargos na companhia.

- É uma empresa enxuta. Nem 1% dos cargos é de confiança - disse. - Distribuímos 14 mil cestas básicas no Rio, nessa catástrofe. Fui elogiado publicamente pelo Pezão (vice-governador). Isso é que deve ser publicado - afirmou o presidente da Conab.

O ministro Wagner Rossi afirmou que já está definido dentro do governo que a Conab continuará nas mãos do PTB e os diretores serão indicados pelo PT e PMDB.

- Pode continuar o Alexandre ou não. Mas será um nome do PTB - disse Rossi.

O ministro também negou que houvesse loteamento dos cargos na Conab e que autorizou realização de vários concursos públicos quando esteve no comando da empresa.

- Isso não existe. São pessoas altamente qualificadas. Claro que nunca pedi atestado ideológico e nem carta de filiação partidária. Pode se ter a impressão de que alguém está lá politicamente, mas não é verdade. São poucos os cargos de nomeação na Conab. Fiz uma gestão profissional e técnica na Conab, que me credenciou para ser ministro em dois governos distintos (de Lula e de Dilma) - disse Wagner Rossi.

A Conab tem um orçamento de R$5,2 bilhões e cerca de 4.300 servidores. Mas, nos últimos quatro anos, a companhia foi alvo de cerca de 6 mil ações trabalhistas. E foi obrigada a pagar judicialmente aos servidores mais de R$40 milhões nesse período.

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