domingo, dezembro 12, 2010

LUIS FERNANDO VERISSIMO

O fim de pressupostos
VERISSIMO
O GLOBO - 12/12/10


Em poucos dias, duas certezas científicas tiveram que ser abandonadas. Pesquisadores da NASA descobriram que pode haver vida sem os componentes químicos até hoje considerados indispensáveis para a sua formação, e astrônomos descobriram que há muito mais estrelas além da Via Láctea do que se imaginava. Ou seja: aumentou a possibilidade de haver formas de vida desconhecidas em outros planetas e aumentou (triplicou, dizem os astrônomos) a quantidade 
de planetas em que elas podem existir.
Os novos cálculos sobre a quantidade de estrelas, se entendi bem, o que eu duvido, partem da constatação de que muitas das outras galáxias são elípticas, e não espirais como a Via Láctea, e que a proporção de estrelas-anãs para estrelas grandes, ou sóis, que é de cem anãs para cada sol na nossa galáxia, e de 2 ou 3 mil para cada sol nas galáxias elípticas. As estrelas-anãs de galáxias distantes não são vistas, são inferidas, mas calculam que haveria pelo menos um trilhão de estrelas a mais do que se supunha no Universo. O que significa mais alguns trilhões de planetas em volta dos sóis e quatrilhões de satélites em volta dos planetas. Isso sem levar em conta – para não enlouquecer – que o Universo visível talvez seja só uma fração do Universo real, cuja luz ainda não chegou até aqui.
O que as duas revelações significam é que pressupostos básicos como o de que só a nossa composição química permitia a vida e que todas as galáxias de comportavam como a Via Láctea não eram mais do que presunção. Sua desmoralização é mais um capítulo no lento afastamento da Humanidade das suas certezas que começou com Copérnico e a prova de que a Terra circundava o Sol, e não o contrário. O que virá agora? Quando descobriram o comportamento esquizofrênico das partículas sub-atômicas, há alguns anos, foi um aviso para desconfiar de todos os pressupostos até aqui, das bactérias ao cosmo. Aguardam-se novas surpresas.
Quanto à vida em outros planetas, ainda é cedo para imaginar a FIFA organizando o primeiro campeonato interplanetário. Mas já dá para prever problemas com o anti-doping: o que é tóxico para um time pode ser vital para a seleção da lua de Saturno, por exemplo. 

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