sexta-feira, outubro 15, 2010

MARCOS SÁ CORRÊA

Mateiro por ofício, quilombola por acaso 
MARCOS SÁ CORRÊA
O GLOBO - 15/10/10

As perneiras de couro, contra picadas de cobra, são inseparáveis do ritual de ingresso na Linha Martins. Mas vêm do estoque cheirando a mofo, apesar da discreta espanada que lhe deu o guia, antes de entregá-la. E não adianta dizer que sabe andar no mato, não tem medo de cobra ou faz calor.

É a norma, Miro responde.

Ele se chama Almiro Marcelino Pereira.

Mas avisou de véspera que não adiantava procurá-lo por esse nome nos confins do parque nacional com o município de São Miguel do Iguaçu, onde uma estrada de terra magra como um aceiro costeia a floresta e a soja: "Aqui, todo mundo só conhece Miro." A divisa do parque com o município é um corte reto, traçado a máquina.

E tão estreito, que a sombra das copas se projeta na margem das plantações. É seu único anteparo contra o sol que cai sobre os campos como uma praga dos céus. Aprender o apelido é indispensável porque sem Miro não se pisa na Linha Martins.

Não basta procurá-lo diretamente no portão de entrada, porque ali ele vai pouco. É um escritório caprichado, feito com toras de eucalipto.

Tem pórtico na frente, varanda nos fundos, virada para floresta, e até enfermaria. Mas turista é a coisa que Miro menos vê na Linha Martins, desde que passou a operá-la lá vão mais de cinco anos.

Onça, sim, é visita que não lhe falta.

Cada avistamento de onça, pintada ou não, está metodicamente inscrito, com dia, hora e local, na planilha da administração. O resto da fauna não merece tamanha consideração.

Miro perdeu a conta das varas de porcos do mato, dos bandos de macacos, das antas e das jaguatiricas com que topou em suas andanças, capinando regularmente uma trilha que, por falta de uso, está sob o risco permanente de invasão pelo mato.

A prática tirou-lhe o pavor que tinha das jararacas, cascavéis e outras serpentes que lhe atravessam habitualmente o caminho.

Mas as perneiras continuam sagradas. Miro cresceu do lado de lá da cerca, sem nunca se meter no mato. Criou-se num fundo de fazenda loteado em pequenos sítios de um alqueire, a maioria comprada por negros, em geral vindos de fora. São 25 pessoas.

O bastante para, em terra de louros, virar a Vila dos Pretos.

Como tal, uma comissão de Curitiba reconheceu-a como Comunidade Quilombola da Sanga Funda.

Com o título vieram promessas de mais terras, sementes gratuitas e outras prerrogativas oficiais de quilombo. Nem tudo saiu. Nem por isso Miro deprecia as vantagens de virar quilombola. "As pessoas assim nos tratam com mais consideração", ele garante.

A picada corta o parque de um lado a outro, em menos de quatro quilômetros, a menor distância entre seus limites. Já se pensou em extirpar essa verruga florestal da unidade de conservação, encravada como está numa fronteira agrícola sempre em avanço. A demarcação definitiva preservoua. E a Linha Martins foi uma compensação, para calar as críticas de que o parque fica de costas para quem mora longe de seus portões.

Nisso, fracassou. Ela recebe raros visitantes E da vizinhança, até hoje, não veio ninguém. Só o prefeito de São Miguel do Iguaçu passou por lá na inauguração, sem parar para ver o que havia além do pórtico. Miro, no entanto, mantém a picada pronta para o que der e vier. Aplica ao pé da letra o regulamento para grupos, mesmo se atende um visitante que lhe sugere, à falta de testemunhas, esquecer aquela história de calçar perneiras. É um mateiro cioso e tarimbado, que só conheceu o mato na Linha Martins. Mas vive num país que só consegue enxergálo como quilombola

MARCOS SÁ CORRÊA é jornalista.

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