segunda-feira, março 08, 2010

FRIEDMANN WENDPAP


Cuba libre

GAZETA DO POVO - 08/03/10
Sociedades plurais, abertas, produzem a modernidade e se modernizam. Sociedades monodóxicas, monárquicas, estagnam, estacionam no acostamento da história e se tornam museus

Quando se misturava rum, limão e coca-cola para beber moderadamente porque a mama cheirava o hálito de cada um que entrava em casa, Fidel tinha barba negra e Raul era desconhecido. Cuba embriagava os sentidos como se fora o paraíso latino em construção; magnetizava pela altivez de Davi diante do Golias imperialista e também pela sensação de que os cucarachos ti nham capacidade de empreender a marcha superior da civilização rumo ao comunismo. Mesmo nos anticomunistas dava pontinha de orgulho a petulância irônica diante dos Estados Unidos. Contudo, a crise dos mísseis em 62 começou a mostrar que o rum era pirata: de plataforma de veraneio e turismo sexual de americanos, Cuba estava se transformando em aríete soviético. Câmbio de pa trão, não de status. Alguns perceberam a má qualidade e abandonaram a be bida; outros, mitoadictos, se enebriaram nas promessas a perder o senso e deixaram de ouvir estalos nos porões de tortura.
Fidel apostou na monocultura da cana, traçando metas de produção de açúcar sem levar em conta eventuais excessos de oferta e a economia foi se estiolando. A igualdade miserável se instalou. Investimento em ciência e tec nologia, para escapar das agruras da dependência de um único item para comerciar, não foi sequer cogitado porque as facilidades de comunicação ad vindas de rádios, televisores, com putadores, propiciariam a difusão da “con trarrevolução”. Na ver dade, Fidel pensou pe queno e a supressão manu militari da diversidade de ideias fez da sua pequenez o pensamento único. O país, transformado numa ha cienda do Comandante em Chefe, se tornou cada dia menor. A onisciência presunçosa de quem suprimiu a diversidade de pensamento foi acentuando a mediocridade usual da classe política. O século 20 foi passando e o castrismo, ficando. Sociedades plurais, abertas, produzem a modernidade e se modernizam. Sociedades monodóxicas, monárquicas, estagnam, estacionam no acostamento da história e se tornam museus. Cuba seria apenas nota de rodapé, peculiaridade curiosa, não fosse a violência real, pesada, sufocante, que rompe os limites do privado, oprimindo o espaço e o tempo dos indivíduos que são compelidos a se entregar a manifestações de apoio aos donos do Estado.
Orlando Zapata Tamayo, ho mem comum em qualquer so ciedade democrática, ameaçava a gerontocracia cubana porque pensava por conta própria e ou sou dizer não à polícia do pensamento. Mártir, como o foram Herzog e Manuel Fiel Filho, não recebeu da intelligentsia brasileira o mesmo apreço. Dignificá-lo é quase impossível para quem sucumbiu à atração mórbida do marxismo-leninismo e permanece acreditando que filosofa no nível de Marx. Reco nhe cer que Zapata foi vítima de persecução do Estado porque pen sava de modo di ferente do governo dos Castro significa dizer que Cuba é ditadura. Essa do se de realidade arrancaria os viciados em mitos do seu torpor e os obrigaria a enfrentar a dura realidade. Ah... deixa para lá, afinal, todo mundo tem problemas com direitos humanos! Za pata morreu em greve de fome! Culpa de quem? Claro, dos americanos. O governo revolucionário, amante do po vo, é perseguido pela águia imperialista. Za pata, um pedreiro pobre, pouco escolarizado, não foi vítima da intolerância da família real de Cuba; ele morreu por culpa do embargo à Ilha.
Raul, Fidel, podem falar tonterías à vontade; isso faz parte da autodeterminação dos cubanos. Gravíssimo é o silêncio das forças políticas brasileiras que creem, como fiéis religiosos, nas desculpas esfarrapadas. Qual será a conduta desses partidos se chegarem ao governo do Brasil? Oxa lá, as instituições e os eleitores nos livrem de algo parecido com Cuba; o Atlântico é muito largo para atravessar de balsa feita de pneus velhos.

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