sábado, março 13, 2010

BETTY MILAN


REVISTA VEJA
Betty Milan

Atos perversos

"Entre os tantos abusos dos adultos, estão os que eles
praticam com as palavras, maldizendo a sexualidade - e, 
mais que isso, emporcalhando-a. Uma só frase e o
outro poderá ficar marcado para sempre"

Quem faz um consultório sentimental, como o meu em VEJA.com, confronta-se repetidamente com a irresponsabilidade de adultos em relação ao corpo da criança. Toda delicadeza é pouca, e qualquer aproximação que não seja dessexualizada é abusiva. Manipular o pênis do menino ou tocar, com segundas intenções, o sexo da menina são atos que podem dar origem a uma fantasia contrária ao desenvolvimento normal, ora precipitando na infância um comportamento sexual próprio do adulto, ora comprometendo a sexualidade do sujeito para o resto da vida, tornando-a inclusive impossível.
Sandra Speidel/Getty Images

Não é preciso tocar para abusar da criança. Um olhar voyeurista é suficiente para induzir ao exibicionismo na infância ou depois. A exibição do sexo pelo adulto basta para induzir ao voyeurismo, o que não significa que a nudez deva ser proibida. Uma coisa é o exibicionismo e outra é a nudez.
Entre os tantos abusos dos adultos, estão os que eles praticam com as palavras, maldizendo a sexualidade - e, mais que isso, emporcalhando-a. Uma só frase e o outro poderá ficar marcado para sempre. Em geral, os atos perversos permanecem impunes. Quem tiver uma suspeita fundada e ficar em silêncio deve ser responsabilizado por deixar o adulto infrator livre para exercer a sua violência contra a criança e o jovem. Denunciar o comportamento perverso é a forma de impedir que ele se reproduza.
Foi o que fez Kathryn Harrison no romance O Beijo, publicado originalmente nos Estados Unidos e traduzido no Brasil. Kathryn narra com detalhes como o pai, um pastor, a seduziu, alegando que obedecia à vontade de Deus. Ela foi cúmplice dele durante quatro anos, mas teve a coragem de revelar a verdade e mostrou, assim, os efeitos nefastos do incesto. Com isso, emergiu como escritora. Converteu um trauma num trunfo, protegendo possíveis vítimas.
Decerto, escreveu para superar o desespero. Mas o livro fez dela uma cidadã exemplar e um modelo a ser seguido. Porque soube dizer não ao pai usurpador. Aquele que desprezou a lei ao transformar o prazer na única lei do seu desejo.

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