domingo, novembro 01, 2009

CLÓVIS ROSSI

Pão, queijo e muito mais

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/11/09

SÃO PAULO - Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz querer uma eleição plebiscitária, um "nós contra eles, pão, pão, queijo, queijo", está apenas descrevendo uma situação que é a regra no mundo civilizado e até na América Latina, sobre cujo teor de civilização política há séria controvérsia.
Nos Estados Unidos, é o "pão" republicano contra o "queijo" democrata; na Alemanha, é o "queijo" social-democrata versus o "pão" democrata-cristão; na Inglaterra, é o "pão" conservador contra o "queijo" trabalhista -e por aí vai. Claro que, aqui e ali, aparecem terceiras ou até quartas partes, mas que são apenas coadjuvantes, ainda que por vezes relevantes. Caso, por exemplo, dos liberais alemães que desde a eleição de setembro fazem parte da coalizão governante, ao lado da vitoriosa DC.
Que haja esse mano a mano é natural: não há, no supermercado ideológico, mais do que duas prateleiras realmente dominantes. Aliás, está ficando difícil achar uma só que seja consistente.
O "plebiscito" é, pois, um avanço, ainda mais se comparado ao pleito de 1989, em que havia quase duas dúzias de candidatos. Era pão, queijo, mortadela, sabonete, melão, melancia, quase tudo, menos detergente, que é incompatível com certos nomes da vida pública.
O avanço fica embaçado no entanto pela anomalia que é a eleição congressual. Nela, entram todas as mercadorias, algumas com prazo de validade vencida, outras de procedência duvidosa. Exceto na eleição de 1986, em que o PMDB, cavalgando o Plano Cruzado, conseguiu maioria absoluta na Câmara, em todas as demais nem a soma dos dois partidos mais votados consegue 50% mais um.
Da atomização nasce inexoravelmente a compra de partidos, um dos muitos fenômenos associados a essa sopa de letrinhas que qualquer supermercado decente se recusaria a pôr à venda.

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