domingo, setembro 06, 2009

DANUZA LEÃO

O gigolô leve

FOLHA DE S PAULO - 06/09/09


Ele se aproxima das que têm um bom emprego, moram sozinhas e sofrem -claro- de uma certa solidão

O GIGOLÔ clássico todo mundo conhece: ele só se interessa por mulheres ricas. Mas existe um tipo novo de homem ao qual as mulheres devem ficar bem atentas: o gigolô tipo leve.
Ele se aproxima das que têm um bom emprego, moram sozinhas e sofrem -claro- de uma certa solidão. Ele tem uma profissão meio vaga, ligada a cinema, o que significa, em outras palavras, que não tem emprego fixo -nem salário, claro.
E nem domicílio; está sempre procurando um apartamento para se mudar. Enquanto não encontra, um dia está na casa de um amigo que viajou, no outro com a mãe, no outro hospedado na casa da ex-mulher, com quem tem, aliás, uma excelente relação. Resumindo: é um eterno hóspede.
Ele vai chegando devagarzinho e, aos poucos, se instalando. E como você batalha para pagar suas contas e mora num sala e dois quartos, nem passa pela cabeça que está, de repente, sustentando mais um; muito pelo contrário, fica é bem feliz de ter um companheiro que sabe fazer uma massa e até desce para comprar cigarros, se for preciso.
Dormir é sempre na sua casa, o que já significa que o sabonete, o xampu, a gilete, o desodorante e a água de colônia estão garantidos. E o café da manhã, com o queijo e a geleia que ele gosta e que você compra, encantada. Uma garrafa de uísque sempre se tem, e um vinho branco na geladeira também -metade do caminho andado.
Eles são prestativos, habilidosos e conhecem um pouco de eletrônica, o que significa que qualquer pequeno problema na televisão, no vídeo ou no telefone é com eles mesmos. E se você tiver um filho pequeno, aí é a felicidade total. São capazes de ficar horas juntos, jogando videogame ou discutindo futebol, o que garante a você tempo para fazer uma bainha ou ler um livro -e isso não é bom?
As pequenas despesas ele banca: cinema, pipoca, um chope; tudo baratinho, mas quanto carinho. E quando traz um boné para seu filho, não é a felicidade total?
Ele começa chegando à noite (para o jantar), mas um dia você se distrai, dá a chave da casa, e ele, que também é distraído, começa a chegar mais cedo e vai ficando. O tintureiro passa a ser por sua conta, o supermercado fica duas vezes mais caro, e um dia ele pede o carro emprestado; tem um negócio para ver na Barra, e afinal, o carro não ia ficar mesmo parado o dia inteiro? E custa?
Custar não custa, mas é bom não ter ilusões: o tanque vai voltar vazio. No primeiro dia, quando você sai do trabalho, ele já está parado na porta, esperando com um sorriso. No 20º, você é quem está parada na porta, esperando que ele chegue. Ele começa a atrasar -mas tem mais é que se sentir feliz de não ter que dirigir cansada, depois de um dia de trabalho.
Mas um dia você resolve ir jantar na casa de sua mãe e, quando diz que não vai dar para emprestar o carro, sente um certo mau humor no ar; chegou a hora de pensar na vida.
Hora de pensar na vida e saber que mesmo não sendo rica, está sustentando um marmanjo que fica vendo filme na TV enquanto você pega às 10h e larga às 6h -o que não tem a menor graça.
Como não quer ficar sozinha, tem que ir com jeito; pode inventar uma viagem, que vai pintar o apartamento, que o ex-marido está implicando, qualquer coisa, mas cuidado. Ele pode perceber que é hora de arranjar um canto para morar e pedir para você ser fiadora do apartamento que ele, enfim, encontrou.

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