terça-feira, junho 09, 2009

ARNALDO JABOR

Dois virgens na noite dos anos 50

O GLOBO - 09/06/09

J%C3%A1" style="color: rgb(51, 51, 51); text-decoration: none; "> escrevi que, em anos remotos, meus professores de sexo foram Bené, o pipoqueiro conquistador de empregadas, e seu ajudante Alfredinho, um aleijado de tórax musculoso e perninhas secas.

Esse texto foi para o celuloide, pois ontem rodei esta cena no filme "A Suprema Felicidade", que estou fazendo no Rio de Janeiro, a antiga cidade delicada e docemente atrasada em que amei e sofri minha adolescência.

Eu era um garoto querendo aprender sobre os terríveis "pecados" daquele tempo.

Pois bem, numa noite ventosa que fazia silvar a luz da carrocinha de pipocas de Bené, eu ouvi a palavra nova: "rendevu". A palavra vinha do oblíquo francesismo "maison de rendez-vous" (casa de encontros) ou, em português mais clássico: bordel, lupanar ou prostíbulo. Senti que, talvez ali, tudo que me era escondido pela família estaria decifrado no contato com a crueza do pecado.

Bené e Alfredinho discorreram longamente sobre os tipos de "rendevus" mitológicos que existiriam, como a casa das menininhas do colégio de freiras, a célebre e inexistente casa dos espelhos e o palácio das mulheres casadas…

Assim estimulados pela ficção, fui ao meu primeiro "rendevu" com meu amigo Cabeção, também virgem, deixando o Bené e o Alfredinho olhando-nos, descrentes, na carrocinha.
E lá fomos nós, topetes penteados com "quina petróleo", camisa nova dobrada na manga curta e pente no bolsinho. Eu não tinha um tostão e Cabeção, com boa mesada, declarou cruelmente que eu iria "só para olhar" e que se alguma mulher me quisesse "no amorzinho", tudo bem; senão, "azar o meu".

Ali na rua Correa Dutra tinha um "rendevu". Hoje, os bordéis são "sauna relax for men", com nomes em neon tipo "Crazy Love", cheios de meninas de maiô de oncinha; mas, naquele tempo, o prostíbulo se disfarçava de "casa de família".

Minha primeira surpresa foi encontrar uma grande sala-de-visitas, de assoalho encerado, quadros na parede e um silêncio espantoso. Não havia sinal de pecado, nem sombra de "artes do demônio".

Em volta da grande sala, como num velório sem caixão, sentavam-se umas 20 mulheres, de perna cruzada, olhando para fregueses de terno, bigodinho, amontoados na porta do corredor, travados em constrangimento, como numa antessala de dentista.

De vez em quando, um deles se adiantava e fazia um sinalzinho disfarçado em direção a uma menina. A moça se erguia com visível enfado, como para um sacrifício; seu "mau humor" fazia parte do ritual - era uma homenagem à virtude perdida. Nós olhávamos o casal subindo, com a mulher na frente, de vestido justo "tomara-que-caia", rebolando profissionalmente.

Nessa época, o animador do bordel era a figura obrigatória do "veado", o "pau-para-toda-obra" dos bordéis: gerente e conselheiro das mulheres. O "veadinho" de bordel era boa dona de casa, fazia as compras, se metia com fregueses e, estranhamente, fazia um tipo coquete, como se fosse uma mocinha virtuosa no meio das "decaídas".

Olhava com desprezo os bofes, sempre com a língua afiada para uma resposta: "Sai para lá, cafajeste! Eu sou pobre, mas tive boa educação". E andava pela casa toda, catando sua felicidade entre vasos sujos e papel higiênico, para suportar sua solidão terrível dos anos 50 (bruta época para os gays...). Era faxineiro e mãe substituta para as "mulheres da vida", como diziam minhas tias.

O "veadinho" passou, atirando-nos a língua aguda: "Chiiii!... hoje isto está um jardim de infância!" A gargalhada da boneca e dos bofes próximos queimou os brios do Cabeção que, com o dinheiro do pai no bolso e um requebro que imitava o Bené, chamou uma moreninha com cara de índia paraense. Sem ar, vi o Cabeção subir as escadas com ela, me jogando um olhar de triunfo.

Fiquei ali embaixo, sem um tostão, esperando o Cabeção perder a virgindade lá em cima. Estava desamparado sem ele, mas tive um surto de coragem e apareci à frente do grupinho de otários atravancando o corredor.

As mulheres notaram minha súbita "allure" e me enviaram sorrisinhos e piscadas de olhos. No entanto, cada sorriso e piscadela me doía fundo, fazendo mais vazio meu bolso, onde só estavam as moedinhas do ônibus, o que me desarmou logo a pose, diante dos rapazes de terno...(ia-se ao puteiro de terno!...).

Foi quando uma das mocas, uma lourinha magrela de vestido saco, se enrabichou por mim... Levantou-se, passou faceira a meu lado e sumiu nos fundos da casa, sorrindo-me, convidativa. Gelou-me a alma sem dinheiro: que fazer?

Fiquei por ali, enquanto a bichinha reclamava da aglomeração de homens: "Ihhh! Isso aqui não é fila do açougue, não!..."

Eu disfarçava a aflição com Continentais-sem-filtro, apalpando o dinheiro da condução. Nada do Cabeção aparecer. Onde estaria minha lourinha magrela e triste? Fui me esgueirando até uma porta no fundo do corredor. Fingindo de bobo, abri a porta. Era uma cozinha escura onde, numa mesa com linóleo quadriculado, umas putinhas jantavam. Estavam comendo um triste macarrão nos pratos de alumínio.

A lourinha me sorriu: "E aí, não vai fazer um amorzinho?..." Sorri amarelo. "Está servido?" "Não, obrigado, já jantei..." "Experimenta a sobremesa, então..."

De repente, me vi comendo um pedaço de goiabada num pratinho, mudo de medo. Foi quando ouvi uma gritaria lá em cima. O Cabeção estava descendo a escada atarantado, escorraçado pelo veadinho. Saímos de cambulhada, enquanto a índia, com cara guerreira e xavante, berrava do alto da escada: "Não pagou! Pega ele! Que desaforo!" E o veadinho-gerente fazia coro: "Pega ele... Vou navalhar vocês! Eu sou mau! Mau!"

Fora, o Cabeção me explicou que brochara e quisera pagar só a metade do "miché", para indignação da xavante e xingamentos do veado.

E no ônibus vazio da madrugada íamos nós: o Cabeção chorando, virgem e humilhado, e eu com gosto de goiabada na boca.

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