sábado, abril 25, 2009

RUY CASTRO

Mais que "MPB"

FOLHA DE SÃO PAULO - 25/04/09

RIO DE JANEIRO - Outro dia, numa reunião do Museu da Imagem e do Som, aqui no Rio, alguém sugeriu que o MIS, já pioneiro dos museus do gênero no Brasil, banisse de seus documentos e discussões a sigla "MPB". E, até pedagogicamente, voltasse a usar as palavras certas: música popular brasileira.
Ué, dirá você, não é a mesma coisa? "MPB" não é apenas uma abreviatura de "música popular brasileira"? Antes cêsse, mas não ésse. Quando foi criada, por volta de 1965 ou 1966, significava um tipo de música então emergente, que não se sabia bem o que era -mas já não era bossa nova, não queria mais ser o samba e, muito menos, iê-iê-iê.
Seu primeiro produto, ainda sem o rótulo, pode ter sido "Arrastão", de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Logo vieram "Lunik 9", de Gilberto Gil, "Upa, neguinho", de Edu e Guarnieri, "Roda Viva", de Chico Buarque, e outras que, com um certo "conteúdo" em comum, também não se encaixavam em nenhum gênero familiar. Donde só podiam ser "MPB".
Quando a "MPB" minguou, dois ou três anos depois, a sigla sobreviveu e começou a ser aplicada -até hoje- a toda música produzida no Brasil, do padre José Mauricio ao padre Marcelo e de Chiquinha Gonzaga ao É o Tchan. Com isso, deseducaram-se várias gerações quanto à memória da nossa diversidade rítmica, até então classificada por sambas (em suas mil variações), marchas, choros, baiões, frevos, valsas, foxes, baladas, cocos etc. Virou tudo "MPB".
Mas não para sempre, espero. Se o exemplo do MIS vingar, vamos passar a chamar "Garota de Ipanema" de samba, "Alegria, Alegria", de marchinha, "Domingo no Parque", de baião, "Travessia", de toada, "Caminhando", de guarânia, "Mania de Você", de rumba, "Beatriz", de valsa, ou "Como uma Onda", de bolero. Que, muito mais que "MPB", é o que eles são.

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