domingo, março 27, 2011

J. R. GUZZO

Amigo, irmão, líder
J. R. GUZZO
REVISTA VEJA

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LYA LUFT

Um povo heroico
LYA LUFT
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SUELY CALDAS

Poder autoritário
SUELY CALDAS
O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/03/11

Quando Lula tomou posse em 2003 muita gente festejou com o argumento de que era necessário passar pela experiência do PT no poder para o País apressar o passo na construção do futuro com mais harmonia e menos beligerância. Em seus 23 anos de existência até então, o PT fizera oposição agressiva, belicosa e sistemática a todos os governos que passaram pelo Planalto. Foi contra a Constituição de 1988, contra a eleição de Tancredo Neves, contra o Plano Real, contra o pagamento da dívida pública, contra as privatizações, contra o fim dos monopólios, contra as políticas monetária e cambial de FHC, contra o Proer, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra a reeleição, enfim contra tudo o que não vinha do PT. E, é preciso reconhecer, na maioria das vezes foi bem-sucedido na adesão popular ao estilo "sou contra".

Ao chegar ao poder o partido tratou de esquecer os seus "contras" e renegou seus credos: não mudou uma vírgula na política econômica de FHC, que tanto combatera, não desfez as privatizações, respirou aliviado com o Proer, aprofundou o Plano Real, elevou juros, pagou e multiplicou a dívida pública, para alegria dos banqueiros, que tanto xingara no passado. Aprendeu? "

A prática é o critério da verdade", ensinou Karl Marx. Foi a prática de governar que levou Lula e o PT a enxergarem a verdade que repudiaram quando eram oposição. E aprenderam. Algumas vezes bem rápido, como ao conduzir a política econômica de FHC. Outras, nem tanto. Do acervo de lento aprendizado faz parte o estilo autoritário na relação com a sociedade, que explica o apoio político de Lula a ditadores e o desprezo pelos direitos humanos violados em países como Irã e Cuba. O autoritarismo está também na tentativa de Lula de criar conselhos para controlar a imprensa, a cultura e a liberdade de expressão e criação. Nisso sua sucessora aprendeu mais rápido. Para não deixar dúvidas, ela vive repetindo preferir "o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras". E critica abertamente a violação dos direitos humanos no Irã.

Por isso, se partiu de Dilma Rousseff, surpreendeu a tentativa de interferir na diretoria de uma empresa privada, a Vale, e tirar da presidência um executivo que já foi e deixou de ser o preferido do governo. Lula tentou e não conseguiu degolar Roger Agnelli desde a crise financeira de 2008, que levou a Vale a demitir funcionários. Por mais que as novas contratações na empresa tenham superado as demissões, alguns meses depois, Lula persistiu na degola porque a direção da Vale se recusou a instalar usinas siderúrgicas em Estados governados pelo PT e onde não fazia nenhum sentido econômico construí-las.

Se o desempenho de Agnelli não é satisfatório, cabe aos acionistas da Vale decidirem afastá-lo. Para o governo é constrangedor seu ministro da Fazenda, de quem se espera conduta séria e transparente, procurar às escondidas o dono do Bradesco, maior acionista da empresa, e pedir a cabeça de seu presidente. Não se sabe se o ministro da Fazenda foi incentivado por Lula, por Dilma ou se agiu por sua conta e risco. Mas, das três alternativas, a que causa surpresa e decepção seria ter a iniciativa partido da presidente Dilma. Trata-se de um descabido gesto autoritário que se imaginava página virada em sua conduta.

Se o governo não respeita o direito de uma empresa privada ser administrada por seus acionistas, imagine como age em empresas públicas, onde o acionista controlador não é identificado - porque são todos os brasileiros - e o presidente da República se considera o dono, por ter sido eleito pelo voto. Por isso as empresas estatais são usadas para abrigar políticos derrotados nas urnas (vide Geddel Vieira Lima, do PMDB, que acaba de ser nomeado vice-presidente da Caixa), privilegiar empresas amigas com empréstimos e prestar favores a políticos. Servem, enfim, a toda sorte de negociação de interesse de quem está no poder. Uma empresa pública deve servir ao interesse público, à população. No livro Em Brasília, 19 horas, o jornalista Eugênio Bucci narra sua saga em levar à Radiobrás o conceito de empresa pública. Não conseguiu.

FERREIRA GULLAR

A espada de Dámocles
FERREIRA GULLAR 
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11

A ameaça maior que restou está no uso pacífico da energia atômica, que se mantém nas usinas nucleares pelo mundo

ESTA MINHA mania de dizer que a vida é inventada pode nos ajudar a ver mais claro algumas coisas. Por exemplo, a energia atômica sempre existiu, mas era como se não existisse, até que cientistas a descobriram e inventaram meios de utilizá-la. Isso poderia não ter acontecido, ou ainda não ter acontecido, dependendo de uma série de fatores. Tanto assim que, durante milênios, o homem viveu sem se valer desse tipo de energia.
Afora a força de seus braços, recorreu à tração animal, à força dos ventos e das águas, até que inventou modos de utilizar o vapor e a eletricidade. Mas lá um dia descobriu-se que a desintegração dos átomos poderia gerar uma energia muito mais poderosa do que todas as energias conhecidas. E poderia ser usada tanto bélica quanto pacificamente.
O uso bélico teve precedência: construíram-se bombas que, em Hiroshima e Nagasaki, mataram centenas de milhares de pessoas.
Isso foi em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Aí começou a Guerra Fria e o equilíbrio de terror determinado pelos arsenais atômicos norte-americanos e soviéticos. O mundo viveu, então, décadas de pânico permanente, temendo todos os dias que algum fato aleatório provocasse a guerra nuclear e, com ela, o fim da humanidade, uma vez que aquelas duas potências militares dispunham de poder atômico capaz de liquidar várias vezes a vida no planeta. Bastaria que um foguete extraviasse, acidentalmente, e tomasse a direção de um daqueles países.
Por sorte, isso não aconteceu, a Guerra Fria acabou e com ela a corrida atômica. Não obstante, os arsenais nucleares não foram inteiramente destruídos. Além disso, outros países também possuem esse tipo de arma, e há ainda os que trabalharam para tê-la. De qualquer modo, a possibilidade de uma guerra atômica mundial parece descartada. Mas não a ameaça nuclear em si mesma.
Paradoxalmente, hoje, a ameaça maior, que restou e se mantém, está no uso pacífico da energia atômica, isto é, nas usinas nucleares espalhadas pelo mundo.
É evidente que o que me leva a escrever sobre esse tema, agora, é o terremoto que atingiu o Japão. Dele decorreu um tsunami devastador que atingiu a usina nuclear de Fukushima, a cerca de 240 quilômetros de Tóquio. Em poucas horas, o grau de radiação, provocada pela explosão de um dos reatores, subia mil vezes acima do nível normal. Duzentas e dez mil pessoas tiveram que ser, imediatamente, evacuadas da região.
Depois disso, apesar das providências tomadas pelos técnicos, mais três reatores explodiram, vazando vapor, cujas consequências, até o momento em que escrevo, ameaçavam contaminar a população da capital japonesa.
Esse fato trouxe, inevitavelmente, à memória de todos, a explosão do reator central da usina de Tchernobil, em 1986, na antiga URSS, tido como o maior desastre nuclear já ocorrido. O total de mortos, ao logo dos anos, calcula-se entre 30 e 50 mil.
Se no caso atual da usina japonesa, a causa foi natural, o acidente de Tchernobil, segundo os técnicos, foi provocado por erros humanos. Como afirmar que não voltarão a ocorrer em qualquer outra usina? A alta tecnologia das usinas japonesas não impediu o desastre, cujas consequências últimas ninguém pode prever. Tudo isso prova que não há garantia de segurança. E o lixo atômico, onde iremos sepultá-lo? Já se fala em pô-lo na órbita da Terra! Já pensou?
A pergunta que, inevitavelmente, as pessoas se fazem é: por que manter funcionando tais usinas, que são um risco permanente para todos os seres vivos do planeta?
Não está escrito em nenhum livro sagrado que a energia atômica tem que ser mantida, a qualquer preço. Há outros tipos de energia no mundo, cuja produção é inofensiva. Se a utilização das energias solar e eólica, em escala capaz de atender as necessidades atuais da humanidade, terá alto custo, não será maior que o das usinas nucleares, não apenas com sua segurança e manutenção, mas, sobretudo, com a perda de vidas humanas, a destruição do meio ambiente e os desastres econômicos, como o que agora atinge o Japão: cerca de US$ 250 bilhões.
Por que teremos que viver com essa espada sobre nossa cabeça?

ANCELMO GÓIS

Alô, Dilma
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 27/03/11

Tem gente no Rio que sonha, em nome da paz, que as Forças Armadas, quando concluírem em junho os trabalhos no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro, rumem para a Rocinha. A ideia é que fiquem ali também sete meses, dando tempo para preparar a UPP da favela. Mas o Exército não gosta da ideia. É pena.

Rumo ao interior
Vem aí a primeira UPP numa cidade do interior fluminense. 

De partida 
O ING deve mesmo deixar o capital da SulAmérica. A decisão é do governo holandês, que andou injetando dinheiro na seguradora há dois anos. O banco Goldman Sachs já conversa com eventuais interessados nesta fatia. 

Mas...
Qualquer decisão passa, entretanto, pela família Larragoiti, que controla a seguradora brasileira. 

A reação militar 
Os presidentes dos três clubes militares no Rio (Naval, Militar e da Aeronáutica) redigiram uma carta conjunta em que defendem a comemoração do 31 de março de 1964, abolida pelo Exército, como saiu aqui outro dia. No texto, dizem que o golpe de 1964 foi “em defesa da democracia” e “contra a tomada do poder por um regime ditatorial comunista”.

No mais...
Há controvérsias.

Há testemunhas 

Outro dia, ao ler um discurso na Câmara, talvez escrito por um assessor, o presidente da Casa, Marco Maia, embananou-se com as abreviaturas. Na hora de ler “excelentíssimo”, sapecou: — E.X.M.O. senhor Fulano! E.X.M.O. senhor Sicrano... 

Febre espanhola

Por causa de 2014 e 2016, os espanhóis, que já sediaram Copa (1982) e Olimpíadas (1992), estão de olho no Brasil. Segundo o economista José Roberto Afonso, que está num seminário em Barcelona sobre nossa economia, os espanhóis acham que, só com marketing e mídia, a Copa, sozinha, acredite, “renderá, por baixo, US$ 45 bi”. 

E mais... 
Afonso conta que o interesse no Brasil é tanto que espanhóis já estabelecidos aqui ensinam aos que querem vir como agir: — Eles dizem que o brasileiro não gosta que falem alto e tratem direto de negócios. Quer papear primeiro, contar piada, falar de futebol... e só depois tratar de negócios.

Aliás...
O economista ainda conta: — Eles acham que a gente finge não saber espanhol, mas entende tudo, meio que engana. É. Pode ser.

Bicho tecnológico
A tecnologia mudou o velho bordão do jogo do bicho, criado na invenção da loteria, há 119 anos. No lugar de “vale o escrito”, entrou “vale o impresso” nos talões (veja a reprodução), já que, agora, são eletrônicos. 

AI-5 
O documento original do Ato Institucional no- 5, assinado no dia 13 de dezembro de 1968, que mergulhou de vez o Brasil nas trevas da ditadura, vai ser exposto pela primeira vez, no Arquivo Nacional do Rio, dia 1, na exposição “Registros de uma Guerra Surda”.

Trovão azul
Quinta à noite, no metrô do Rio, na altura da Estação Saens Peña, dois jovens de uns 20 anos dividiam umas pílulas azuis. Era Viagra, remédio que a terceira idade usa para a saliência. 

Só love
Adriano, o Imperador, voltou para sua ex-futura namorada Joana Machado. 

Dilma e o tucano 
O desenho “Rio” ainda nem estreou, mas, em Brasília, Dilma já é chamada de Blu, a ararinha azul do filme. É que, numa entrevista recente, a presidente se comparou a uma arara. É. Pode ser. Mas, em “Rio”, o melhor amigo da arara é um... tucano.

ZONA FRANCA
 Isabel Lustosa participa hoje de bate-papo sobre Nássara em Paquetá.
 Celso Athayde e MV Bill lançam hoje a Cufa Filmes e um livro sobre os dez anos da Cufa, em Madureira.                   Med-Rio Check up fará exames preventivos aos sábados, a partir do dia 2.
 O Bucsky, em Nova Friburgo, vai promover, dia 2, a Festa Alemã. 
 A vereadora Teresa Bergher foi reeleita presidente do Conselho de Ética da Câmara do Rio.
 Fausto Galvão abre terça oficina de roteiro para TV, no Tempo Glauber.
 Hoje, a ONG Arte de Viver vai dar minicursos de meditação em Ipanema.
 Thiago Monteiro é o assessor da Cris Roberto, que lança nova coleção.
 Leonardo Boff faz palestra amanhã na Escola Edem.

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA

Fantasmas poderosos
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/03/11

Nenhum ‘ex’ dorme em paz depois de ter entrado em contato com os prazeres do poder 

Fantasmas e pesadelos costumam atormentar todos os que tiveram poder um dia. O universo dos "ex" é heterogêneo, mas nenhum deles dorme inteiramente em paz depois de ter entrado em contato com os prazeres que integram o cotidiano de um poderoso. Mesmo suas agruras e aborrecimentos são de um tipo especial. Viciam, causam dependência. A maldição não perdoa ninguém, ainda que nem todos reajam do mesmo modo. Há os que sofrem em público e os que se recolhem, os discretos e os escandalosos, os que retomam a vida de antes e seguem em frente e os que não se conformam e não sabem o que fazer. Quanto mais alto o grau de poder, maior o problema. Quem já foi presidente da República tem mais dificuldade para assimilar a perda súbita ou anunciada de poder do que um chefe de seção desalojado do cargo. O filósofo inglês Thomas Hobbes escreveu no século 17 que a tendência geral dos humanos era "um perpétuo e irrequieto desejo de poder, que cessa apenas com a morte". Segundo ele, isso acontecia não porque os homens buscassem um prazer sempre mais intenso, mas porque intuíam que a conservação e a ampliação constante do poder eram essenciais para que mantivessem o que possuíam. Maquiavel, na Itália, se inquietava diante da dificuldade para "determinar com clareza que espécie de homem é mais nociva numa república, a dos que desejam adquirir o que não possuem ou a dos que só querem conservar as vantagens já alcançadas". Não economizaria palavras: "A sede de poder é tão forte quanto a sede de vingança, se não for mais forte ainda". Idêntica preocupação teria Max Weber, que dizia que quem mexe com o poder faz um "pacto com potências diabólicas" e vai descobrindo que o bem e o certo nem sempre têm significado unívoco. O poder tem razões que a razão desconhece. Alguém que deixa o poder defronta-se antes de tudo com o fantasma daquilo que perde: os rituais, a vida distinta, os mimos e mesuras dos subordinados, o conforto do palácio. Precisa se acostumar com os ruídos alheios e esquecer o som da própria voz. Há quem diga que sente certo alívio ao voltar ao anonimato e se libertar da agenda carregada, das liturgias cansativas, do excesso de exposição. Mas a ausência disso pode se assemelhar a uma crise de abstinência, que termina por levar o ex-poderoso à busca inglória de um lugar ao sol semelhante ao que desfrutava nos dias de fausto. Talvez para compensar tais dissabores, mas também para dignificar personagens que tiveram um papel na história, a República brasileira concede regalias vitalícias aos ex-presidentes: automóveis, funcionários e homenagens, além dos salários. Algo semelhante ocorre nos Estados Unidos. Uma vez presidente, sempre presidente. Um fantasma mais assustador é saber o que fazer com as longas horas do dia, dar rumo à vida, retomar a atividade anterior ou iniciar novo percurso. O esforço para recuperar o que ficou para trás quase sempre é em vão. Muito tempo se passou, novos hábitos se cristalizaram, carreiras profissionais foram interrompidas. Aí mora o desejo de permanecer ativo na mesma área em que obteve fama e prestígio, falando e agindo como se ainda fosse o mandatário. É instigado a analisar falas e estilo de quem está no lugar que um dia foi seu. Chovem-lhe oportunidades para que atue como sombra ou alter ego, alguém que pode ser conselheiro, ponderar, sugerir, auxiliar. Ex-presidentes costumam valer muito no mercado das palestras e conferências, por exemplo. Precisam se esforçar para não cair em tentação. Nesse ponto, o ex-poderoso depara-se com seu pior pesadelo: o de sair perdendo ao ser comparado com o sucessor. As comparações são inevitáveis. Inimigos as incentivam, rasgam elogios ao rei posto para despertar o ciúme do rei morto e intrigar os dois. Não é, portanto, acidental que o ex-presidente Lula esteja repetindo que "o sucesso da Dilma é o meu sucesso; seu fracasso é o meu fracasso". Ele não pode correr o risco de ser visto como estando a ofuscar sua sucessora, nem deixar que sugiram que a nova presidente o supera em algum quesito. Tem razão em reclamar da malandragem de seus adversários, que, depois de terem passado anos dizendo que ele dava continuidade ao governo FHC, agora não param de falar que a gestão Dilma - carne de sua carne - está rompendo com os oito anos da sua Presidência. Mas também é verdade que ele, ao fazer isso, procura se aproximar da imagem positiva que Dilma possa estar obtendo junto à opinião pública. Não se trata só de mágoa, há muito cálculo no gesto. Amado e odiado indistintamente, o poder perturba, corrompe e alucina. Reprime, castiga e prejudica, mas também acalenta, protege e beneficia. Costuma ser utilizado para conservar e para transformar. É instrumento e objeto de desejo, encargo e meio de vida. Sua "face demoníaca" não perdoa os que com ela convivem, sejam eles presidentes da República, governadores de Estado ou CEOs de uma multinacional. O poder sobe à cabeça, cega, embriaga. Pode ser letal. Marco Aurélio Nogueira é professor de Teoria Política da UNESP. Autor de O encontro de Joaquim Nabuco com a política (Paz e Terra)

DANUZA LEÃO

Tão bela e tão brega 
DANUZA LEÃO

FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11

ELIZABETH TAYLOR foi a mulher mais bonita do cinema; existiram outras, também deslumbrantes, mas que não tiveram seu brilho de estrela. Até tiveram, mas por um tempo curto. Ava Gardner, Garbo, Kim Novak e outras beldades, aos primeiros sinais de envelhecimento, se trancaram em casa -em muitos casos bebendo- para não serem mais vistas, mas não ela.
Elizabeth, depois dos sets de filmagem, continuou no palco da vida, e nunca desistiu de ser feliz; foram oito casamentos, um recorde.
Uma de suas declarações: "nunca dormi com homem algum, a não ser com meus maridos; que mulher pode dizer a mesma coisa?"
Se disse a verdade, nunca vamos saber, mas é bem possível. No fundo, ela era conservadora -à sua maneira.
A beleza de Elizabeth não se limitava aos olhos: tinha um nariz perfeito e seus traços eram de uma harmonia de tirar o fôlego.
Um rosto tão bonito fazia esquecer sua baixa estatura, os seios grandes demais para seu tamanho -e sempre foi gordinha.
Tendo passado a vida inteira em estúdios de filmagem, sempre como grande estrela, ela nunca soube o que era a vida normal. Achava que tinha direito a tudo, como uma menina mimada.
Uma vez uma fã chegou perto dela e disse as coisas convencionais, tipo "você é linda, te adoro" etc. Essa mulher tinha na lapela um broche com um magnífico diamante; Liz olhou e disse, candidamente: "quer me dar de presente?"
Para ela, isso seria normal. Detalhe: a mulher não deu.
De outra vez, estava no baile Proust, no fabuloso castelo Ferrières, dos Rothschild, e quando a anfitriã, Marie Helène, se queixou da despesa para manter a imensa casa, ela perguntou: "por que você não dá para mim? Eu e Richard (Burton) poderíamos cuidar dela". A realidade, para Elizabeth, não existia, ou melhor, ela não conhecia.
Muito álcool, muitas drogas, muitas plásticas, muito botox. Em sua última imagem, a deslumbrante atriz estava quase irreconhecível; seu rosto estava deformado, inchado, uma desolação. Mesmo assim, nunca se escondeu dos fotógrafos nem deixou o palco, não mais do cinema, mas dos acontecimentos.
E era uma boa amiga: quando Peter Lawford foi internado na clínica Betty Ford por seus excessos, ela se internou também, para dar uma força, e seu copeiro ia todos os dias servir a refeição predileta de seu amigo. Elizabeth passou a vida rodeada por gays, e não ouvi falar que tenha tido nenhuma amiga mulher, a não ser Debbie Reynolds, de quem roubou o marido sem a menor cerimônia.
Ela era tão bonita que ninguém nunca notou o quanto era cafona. À medida que o tempo foi passando, seus penteados e suas roupas eram o suprassumo da breguice de Hollywood, cidade campeã no quesito. Mas sua beleza era tão grande que ela podia se dar ao luxo de se vestir absurdamente mal.
Dependendo dos papéis que representava, quanto mais despojada, mais natural e mais simples, mais deslumbrante era.
E corajosa: tinha uma saúde frágil, e depois de uma cirurgia na qual foi submetida a uma traqueostomia, saiu do hospital direto para uma festa, com um colar que era um fio de platina e um grande diamante cobrindo a cicatriz do pescoço. E passou a noite dizendo, sorrindo: "é uma espécie de band-aid que eu inventei".
Foi a última estrela de uma época que com sua morte acabou para sempre.

GILBERTO DIMENSTEIN

Livros 
GILBERTO DIMENSTEIN

FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11

ERAM VÁRIAS filas de meninos e meninas, quase todos negros e de famílias pobres, que organizadamente saíam da escola. Um detalhe fez com que essa fosse para mim uma das mais inesquecíveis imagens de indivíduos que se transformam, apesar de todos os obstáculos, em seres apaixonados pelo prazer de aprender.
Muitas daquelas crianças, embrulhadas em imensos casacos e carregando pesadas mochilas, tinham dificuldade de caminhar. E por um simples motivo: estavam entretidas lendo livros enquanto andavam. Nem quando desciam as escadas interrompiam a leitura, segurando o corrimão com a mão livre.
Naturalmente, ninguém tinha pedido a eles que lessem coisa alguma, afinal isso seria um convite a tropeções.
A imagem se torna ainda mais interessante quando sabemos que o bairro onde fica essa escola em Nova York, chamado Crown Heights, é povoado de gangues, drogas, casos de gravidez precoce e famílias desestruturadas. A maioria dos adolescentes não consegue completar o ensino médio e os que conseguem têm notas ruins, o que os impede de ir para as melhores faculdades.

Não é difícil entender a cena quando se está sentado diante do diretor dessa escola pública, chamada Always Mentally Prepared Academy (traduzindo livremente, Academia das Mentes Sempre Preparadas).
Negro, com cabelos trançados, Ky Adderley foi treinado durante um ano em algumas das melhores universidades americanas para desenvolver a habilidade de gestão. Assim, aprendeu a recrutar equipes, estimular os professores, economizar dinheiro e trabalhar com metas. "As notas não são minha grande meta, apesar de serem o jeito de sermos avaliados. Nossos alunos têm notas altas. Minha meta é que sejam pessoas autônomas e com gosto por aprender."
A melhor tradução do sucesso dessa escola está num simples número: 70% dos alunos conseguem entrar na faculdade.

Desde o primeiro dia na escola, a criança recebe uma camiseta com um número grande escrito nas costas. É o ano em que ela vai entrar na faculdade. "Não é apenas o estudante que entra na nossa escola. A família entra junto", conta Ky, dizendo que é feito um trabalho especial com os pais para compartilhar os desafios.
As salas de aula têm nomes de universidades. Durante os feriados ou nas férias, são programadas viagens para várias dessas instituições.

Como está numa escola pública independente (recebe dinheiro do governo, mas pode escolher o currículo e os professores), Ky pode demitir o professor que não funciona.
Muitas vezes, ele fica no fundo da sala assistindo às aulas e, depois, conversa com os professores para ajudar a explicar as matérias. "Como sempre gostei de esporte, trouxe esse técnica inspirado nos técnicos", conta.
No dia em que eu estava lá, ele protagonizou uma cena insólita. No fundo da sala, Ky dava dicas em tempo real usando um quase imperceptível microfone para se comunicador com o professor, que tinha um receptor no ouvido. "Aprendi que, se cuidamos diariamente dos pequenos problemas, mesmo que pareçam insignificantes, eles não ficam grandes."

Os sinais da busca da excelência, da necessidade de esforço e do encanto do aprender estão em todos os lugares. Estão nas salas arrumadas e coloridas, estão nos corredores onde se pode ouvir tanto o som de jazz contemporâneo como obras clássicas e até música brasileira. "Sou louco pelo Brasil, especialmente pela Bahia."
As paredes dos corredores estão forradas de frases e ensinamentos de pensadores e escritores, como se fossem um livro aberto.

Assim, fica fácil explicar aquela cena na fila: se o livro entra vida das pessoas, as pessoas entram na vida dos livros.

PS- Uma ironia. Naquela escola, existe um professor baiano (Sabiá Silveira) que dá aula de capoeira. Ele transformou nossa luta-dança em fonte de ensinamentos sobre diversidade cultural, equilíbrio emocional, física e geometria. Ainda dá aula de português. Tive de viajar para tão longe do Brasil para ver o melhor uso da capoeira na educação.

MÔNICA BERGAMO

Restaurantes japoneses
MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11 

estão estocando produtos que importam do país devastado por um terremoto e um tsunami há duas semanas, e que agora convive com o fantasma da contaminação dos alimentos por radiação. Algas, arroz, saquê e ovas de salmão têm sido comprados em dobro para garantir que os cardápios de casas orientais renomadas de SP não sejam desfalcados. Importadores já temem que o Japão suspenda por completo as exportações para o Brasil.

Koji Yamasaki
gerente do Tanuki, na Vila Madalena, revelou à repórter Thais Bilenky que já gastou R$ 8.000 a mais do que costuma (R$ 20 mil) com produtos importados por mês. E diz que gastará ainda mais. Ele dobrou seu estoque, garantindo o abastecimento por cinco meses das massas Udon e Lamen, de arroz japonês, moluscos, algas e temperos feitos à base delas.

A tragédia 
já provoca aumento de preços. O saquê Takashimizu, importado do Japão, sofreu reajuste de 30%: passou de R$ 70 a garrafa para R$ 90. O preço já foi repassado para a clientela.

Chefs e gerentes reclamam
O encarecimento do saquê, por exemplo, não se explicaria pela tragédia. O Takashimizu é fabricado no sul do Japão, a região menos afetada pelo desastre.

Lauro Suzuki
gerente da Yamato, uma das principais importadoras asiáticas em São Paulo, afirma que os preços podem subir ainda mais. A prioridade dos produtores japoneses hoje é o consumo interno. "O Japão vai ter que fechar um pouco o mercado. Pode até faltar produto para exportação."

Mercearias 
tradicionais da Liberdade estão fazendo estoque. Famílias que costumavam comprar um litro de shoyu por lote na Yamato compraram seis. E os restaurantes pequenos que têm comprado acima de sua capacidade de estocagem estão pedindo à empresa que armazene para eles o excedente. O que a importadora tinha de saquê, farinha de tempurá e wasabi em pó guardado acabou. Os produtos vieram em contêineres que saíram do Japão em dezembro, antes da tragédia. Estão, portanto, imunes a eventuais contaminações. Mesmo assim, clientes dos restaurantes demonstram receio. Deoclecio Benicio, maître do restaurante Kinoshita, na Vila Nova Conceição, foi abordado por um freguês sobre o saquê. Teve que explicar que os produtos pós-tsunami ainda não haviam chegado ao Brasil.

O risco de desabastecimento existe
O vinagre de arroz japonês, por exemplo, já sumiu das prateleiras. "Tenho rodado a Liberdade e não acho", diz Kazuo Harada, chef do Kinu, no hotel Hyatt. No restaurante Hideki, em Pinheiros, o gerente Marcelo Mitiaki gastou R$ 4.000 em vez dos habituais R$ 2.000 em produtos como filhote de enguia e peixes marinados. Com isso, espera aguentar até quatro meses sem novas levas. Caso haja desabastecimento, o gerente diz que vai "apelar para "genéricos" nacionais, americanos, chilenos e europeus".

Já o Shintori
na alameda Campinas, triplicou a compra de macarrão Udon para se garantir até maio. E tem estoque de saquê Hakushika até junho. Luis Carlos Gomes, gerente administrativo da casa, diz que se, até lá, o abastecimento não for normalizado, importará a bebida da Califórnia.

Jun Sakamoto
em Pinheiros, segue linha oposta. O chef não quer comprar nada a mais do que costuma para que não faltem produtos no Japão, onde mora grande parte de sua família. "Não vou superestocar. Acho uma prática errada. Prefiro fechar o restaurante e esperar [o abastecimento] se restabelecer. Tenho uma hamburgueria [a Hamburgueria Nacional] que pode me sustentar por um tempo", afirma.

Uma amiga de Sakamoto que mora em Tóquio 
contou a ele que, há alguns dias, estava no supermercado quando viu uma senhora carregando dois galões de água. Se ofereceu para ajudá-la se quisesse levar mais. Mas a senhora teria se recusado. "Muita gente vai precisar dessa água", respondeu. Sakamoto diz que vai seguir o exemplo: "Isso é o Japão".

DORA KRAMER

Itamaraty, o retorno
DORA KRAMER

O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/03/11

Soa algo simplista a interpretação de que o voto do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU em favor de uma investigação sobre violações cometidas no Irã seja mera expressão de divergências entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor.
As coisas postas assim dão a entender que o governo se mova pela dinâmica da disputa entre o governo anterior e o atual. O raciocínio absorve como correta a lógica maniqueísta, muito ao gosto do ex-presidente Lula, de que as circunstâncias obedecem a regras de fidelidade ou infidelidade partidária e, sobretudo, ignora a atuação da diplomacia brasileira até o advento da pirotecnia presidencial em vigor nos últimos oito anos.
Nesse período, tudo no governo girou em torno da figura de Lula, inclusive a condução da política externa por um chanceler também obcecado pela posição de protagonista permanente dos fatos.
O que tivemos com Lula e Celso Amorim é que foi o ponto fora da curva. O que temos agora, com Dilma e Antonio Patriota, é a retomada de retórica e atuação mais condizentes com a tradição do Itamaraty: a tomada de posições externas coerentes com os interesses internos do país sem brigar com a realidade nem adotar um ativismo em desacordo com as condições objetivas do Brasil para por vezes defender o indefensável.
O que se prega lá fora não pode ser diferente do que se pratica aqui dentro, é a conduta institucional preferida por Dilma e que havia sido substituída pelo personalismo de Lula.
Se o país subiu de patamar não foi apenas porque se fortaleceu economicamente, mas porque fez isso em regime democrático, o que inclui obviamente a defesa do respeito aos direitos do homem. Em todas as nações sem distinção.
Com os dados à disposição parece precipitado afirmar que a política externa do país tenha sofrido uma guinada. Por ora o que se vê é uma mudança nas ênfases e nos procedimentos tendo em vista a retomada de valores essenciais em regimes de liberdade, a volta, digamos assim, à normalidade.
É o que está dito no voto na ONU: “O Brasil acredita que todos os países, sem exceção, têm desafios a serem superados na área de direitos humanos e espera que os principais copatrocinadores dessa iniciativa (o envio de um relator especial ao Irã) apliquem os mesmos padrões a outros possíveis casos de não cooperação com o sistema de direitos humanos das Nações Unidas”.
A ideia não é divergir de Lula, mas restabelecer a coerência que se espera, quando a oportunidade surgir, se aplique também a aliados caros ao Brasil. Cuba e Venezuela, por exemplo.

Útil ao agradável
A respeito de supostas divergências entre Lula e Dilma convém prestar atenção ao seguinte: enquanto ele certamente se mantém absoluto no que tange ao paladar dos mais pobres e dos remediados emergentes, ela vai conquistando a classe média dita assim tradicional, que vê na conduta da presidente um salto de qualidade em relação ao antecessor.
Na hora de uma disputa eleitoral, Lula e Dilma estarão juntos no mesmo projeto de poder e será muito útil a ambos a conjunção desses eleitorados.
Se essa percepção não estiver equivocada, nas próximas eleições a oposição terá de cortar um dobrado para reunir condições não de vitória, mas de competitividade.

Carne ou peixe?
O prefeito Gilberto Kassab discorda da avaliação aqui exposta, segundo a qual seu PSD nasce sob a égide da falta de identidade por se declarar ao mesmo tempo disposto a “ajudar” o governo e manter a parceria com o PSDB, maior partido de oposição.
Kassab insiste no conceito da “independência” e argumenta que o partido não tem identidade definida porque ainda está em fase de formatação. “A partir de agora é que vamos definir o perfil doutrinário da legenda”, diz.
Convenhamos, porém, que a apropriação (indevida, segundo a família Kubitschek) da sigla JK não tenha sido um primeiro passo que propicie uma boa imagem. 

MÍRIAM LEITÃO

No mar, de novo 
MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 27/03/11

Não é, como bem sabemos, a primeira vez que Portugal está endividado e sem governo. O jornal "Financial Times" sugeriu, em aberta provocação, que o país se torne um dos estados brasileiros. De novo, com antecedentes históricos: os ingleses incentivaram um evento assim há 203 anos. Portugal tem números assustadores e é mais uma pedra que cai no caminho da Europa.
O que de novo é triste é que o país passou por um momento de prosperidade que produziu um salto nos últimos 20 anos. E agora se afunda numa conjuntura de difícil saída. Para ser resgatado, precisará pedir ajuda à Europa e ao FMI que pode chegar a 50% do PIB; para ter essa ajuda, precisará aprovar um programa de ajuste, que semana passada foi rejeitado levando à queda do primeiro-ministro José Sócrates.
Portugal é pequeno para o tamanho da Europa, mas sua capacidade de contágio é grande. A Espanha, que tem também seus próprios problemas, está exposta ao risco português. Além disso, ele será o terceiro país a precisar de socorro depois de Grécia e Irlanda. Quem viveu os anos 1980 na América Latina sabe o fim da história: terminará havendo um grande processo de renegociação da dívida de um grupo de países europeus, com a ajuda dos países centrais, como a Alemanha, e perdas para os credores e dor para a população. A saída nunca é fácil.
O PIB português é de US$247 bilhões, a 50ª economia do mundo, menos da metade do PIB do estado de São Paulo. A população é um pouco menor do que a do estado do Rio. Atualmente, o nível de endividamento das famílias supera 100% do PIB, porque houve muito incentivo ao crédito imobiliário, e os imóveis caíram 30% em relação aos níveis de 2008. Há brasileiros aproveitando os altos preços aqui e comprando imóveis no país. A dívida pública é 87% do PIB, mas com vencimentos pesados a curto prazo. Como o mercado acha que o país não conseguirá fazer o ajuste necessário, tem pedido juros cada vez mais altos, em 7,7% de taxa e isso leva a rebaixamentos das agências de risco, elevando mais os juros: um círculo vicioso que o Brasil conheceu bem nos seus momentos de alto endividamento externo.
O empresário português Jaime Gomes, do setor farmacêutico, conta o clima do país:
- A situação não está fácil, os impostos estão elevadíssimos. Os bancos estão endividados, como o governo, e por isso há pouco crédito e com spreads altos. As empresas não conseguem empréstimos. O desemprego está mais alto que nunca, em 11%. A entrada na Zona do Euro foi demasiado boa para o país. Criou uma ilusão tanto para o governo quanto para a população. Foram concedidos muitos benefícios salariais, de aposentadorias, além de saúde e educação de graça. Estímulos insustentáveis que elevaram o déficit público. Foram dados estímulos à compra de imóveis com juros baixos na época da bonança. Neste momento, Portugal já está sob intervenção internacional, embora não admita. É um embuste para enganar as pessoas.
Os economistas ouvidos aqui no Brasil apontam que é o mesmo caso da Grécia. Com um déficit comercial de US$22 bilhões, pouca competitividade, o país precisaria desvalorizar sua moeda para exportar mais. Amarrados ao euro, que lhes deu crescimento e sensação de prosperidade, eles agora não têm o recurso da desvalorização. A ajuda da Europa nos anos 90 e a moeda comum a partir de 2002 elevaram a situação social e econômica do país, mas agora o euro virou camisa-de-força.
Paulo Elísio de Souza, presidente da Câmara Portuguesa de Comércio do Rio de Janeiro, conta outra semelhança com o caso grego:
- Temos uma crise econômica que virou crise política. O governo precisava aumentar a arrecadação e subiu impostos. Isso virou queda de produção. O governo tomou medidas que reduziram salários e aposentadorias. Os salários dos servidores sofreram quedas de até 10%. O povo sentiu e foi para as ruas protestar.
Os analistas dos bancos dizem que a queda do governo era um risco no radar. No ano passado, a oposição ameaçou votar contra, mas no fim aprovou o primeiro pacote de medidas. Na semana passada, um novo pacote foi derrubado no Parlamento, e o primeiro-ministro renunciou. O problema é que o pacote de ajustes é a exigência para o socorro internacional BCE-FMI. E está cada vez mais difícil cumprir qualquer promessa. Só em abril, vencem 5,3 bilhões; em junho, 6,9 bi, até o fim do ano, 23,6 bilhões. No ano que vem, outros 21 bi.
A população está envelhecida: apenas 16% têm menos de 15 anos; e acima de 65 anos são 20% da população. O déficit público está acima de 8%, segundo a Eurostat. A pauta de exportação é pequena e o país não tem vitalidade econômica. Numa história de grandes feitos e colapsos, de riquezas súbitas e dívidas desmoralizantes, Portugal vai de novo atravessar o mar salgado do empobrecimento. E os credores são implacáveis quando o devedor está se enfraquecendo.
Os economistas brasileiros e os relatórios das empresas de auditoria dizem as mesmas coisas: medidas profundas de austeridade, para reconquistar a confiança dos bancos que financiam a dívida, para assim reduzir o custo de carregamento.
O sonho de país europeu próspero cobra uma conta amarga. Em vez de falar de mais um relatório de banco ou empresa de risco de crédito, melhor é ler Fernando Pessoa: "Talvez que amanhã/Em outra paisagem/Digas que foi vã/Toda essa viagem/Até onde quis/Ser quem me agrada?/Mas ali fui feliz/Não digas nada."
A história parece a mesma: a queda de Portugal torna mais difícil a situação da Espanha. O país é pequeno, mas é um novo passo da grande encrenca europeia. Ou como diria, de novo, Pessoa: "Cada um de nós é uma sociedade inteira." Não há pequenos países no mundo conectado de hoje. 

CAETANO VELOSO

Bethânia 
CAETANO VELOSO

O GLOBO - 27/03/11

Não concebo por que o cara que aparece no YouTube ameaçando explodir o Ministério da Cultura com dinamite não é punido. O que há afinal? Será que consideram a corja que se "expressa" na internet uma tribo indígena? Inimputável? E cadê a Abin, a PF, o MP? O MinC não é protegido contra ameaças? Podem dizer que espero punição porque o idiota xinga minha irmã. Pode ser. Mas o que me move é da natureza do que me fez reagir à ridícula campanha contra Chico ter ganho o prêmio de Livro do Ano. Aliás, a "Veja" (não, Reinaldo, não danço com você nem morta!) aderiu ao linchamento de Bethânia com a mesma gana. E olha que o André Petry, quando tentou me convencer a dar uma entrevista às páginas amarelas da revista marrom, me assegurou que os então novos diretores da publicação tinham decidido que esta não faria mais "jornalismo com o fígado" (era essa a autoimagem de seus colegas lá dentro). Exigi responder por escrito e com direito a rever o texto final. Petry aceitou (e me disse que seus novos chefes tinham aceito). Terminei não dando entrevista nenhuma, pois a revista (achando um modo de me dizer um "não" que Petry não me dissera - e mostrando que queria continuar a "fazer jornalismo com o fígado") logo publicou ofensa contra Zé Miguel, usando palavras minhas.
A histeria contra Chico me levou a ler o romance de Edney Silvestre (que teria sido injustiçado pela premiação de "Leite derramado"). Silvestre é simpático, mas, sinceramente, o livro não tem condições sequer de se comparar a qualquer dos romances de Chico: vi o quão suspeita era a gritaria, até nesse pormenor. Igualmente suspeito é o modo como "Folha", "Veja" e uma horda de internautas fingem ver o caso do blog de Bethânia. O que me vem à mente, em ambas as situações, é a desaforada frase obra-prima de Nietzsche: "É preciso defender os fortes contra os fracos." Bethânia e Chico não foram alvejados por sua inépcia, mas por sua capacidade criativa.
A "Folha" disparou, maliciosamente, o caso. E o tratou com mais malícia do que se esperaria de um jornal que - embora seu dono e editor tenha dito à revista "Imprensa", faz décadas, que seu modelo era a "Veja" - se vende como isento e aberto ao debate em nome do esclarecimento geral. A "Veja" logo pôs que Bethânia tinha ganho R$1,3 milhão quando sabe-se que a equipe que a aconselhou a estender à internet o trabalho que vem fazendo apenas conseguiu aprovação do MinC para tentar captar, tendo esse valor como teto. Os editores da revista e do jornal sabem que estão enganando os leitores. E estimulando os internautas a darem vazão à mescla de rancor, ignorância e vontade de aparecer que domina grande parte dos que vivem grudados à rede. Rede, aliás, que Bethânia mal conhece, não tendo o hábito de navegar na web, nem sequer sentindo-se atraída por ela.
Os planos de Bethânia incluíam chegar a escolas públicas e dizer poemas em favelas e periferias das cidades brasileiras. Aceitou o convite feito por Hermano como uma ampliação desse trabalho. De repente vemos o Ricardo Noblat correr em auxílio de Mônica Bergamo, sua íntima parceira extracurricular de longa data. Também tenho fígado. Certos jornalistas precisam sentir na pele os danos que causam com suas leviandades. Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto "máfia do dendê", expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um "Verdade tropical"). Pensam o quê? Que eu vou ser discreto e sóbrio? Não. Comigo não, violão.
O projeto que envolve o nome de Bethânia (que consistiria numa série de 365 filmes curtos com ela declamando muito do que há de bom na poesia de língua portuguesa, dirigidos por Andrucha Waddington), recebeu permissão para captar menos do que os futuros projetos de Marisa Monte, Zizi Possi, Erasmo Carlos ou Maria Rita. Isso para só falar de nomes conhecidos. Há muitos que desconheço e que podem captar altíssimo. O filho do Noblat, da banda Trampa, conseguiu R$954 mil. No audiovisual há muitos outros que foram liberados para captar mais. Aqui o link: http://www.cultura. gov. br/site/wp-content/up loads/2011/02/Resultado-CNIC-184%C2%AA.pdf. Por que escolher Bethânia para bode expiatório? Por que, dentre todos os nossos colegas (autorizados ou não a captar o que quer que seja), ninguém levanta a voz para defendê-la veementemente? Não há coragem? Não há capacidade de indignação? Será que no Brasil só há arremedo de indignação udenista? Maria Bethânia tem sido honrada em sua vida pública. Não há nada que justifique a apressada acusação de interesses escusos lançada contra ela. Só o misto de ressentimento, demagogia e racismo contra baianos (medo da Bahia?) explica a afoiteza. Houve o artigo claro de Hermano Vianna aqui neste espaço. Houve a reportagem equilibrada de Mauro Ventura. Todos sabem que Bethânia não levou R$1,3 milhão. Todos sabem que ela tampouco tem a função de propor reformas à Lei Rouanet. A discussão necessária sobre esse assunto deve seguir. Para isso, é preciso começar por não querer destruir, como o Brasil ainda está viciado em fazer, os criadores que mais contribuem para o seu crescimento. Se pensavam que eu ia calar sobre isso, se enganaram redondamente. Nunca pedi nada a ninguém. Como disse Dona Ivone Lara (em canção feita para Bethânia e seus irmãos baianos): "Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?"

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Um itaparicano em Paris
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 27/03/11

Já estive em Paris algumas vezes, mas, cretino topográfico que sou, nunca aprendi a andar na cidade. Assim como em relação a outras grandes e famosas cidades estrangeiras onde também já estive ou morei, sempre escolho o lado errado. "É por aqui", digo eu, e é invariavelmente por ali, jamais por aqui. Não falha e creio mesmo que eu talvez até pudesse servir de guia para visitantes, porque, para fazer indicações corretas, teria somente que me dirigir ao lado oposto do que me parecesse certo, embora a experiência pessoal me tenha demonstrado ao longo da vida que a escolha não é simples, porquanto, depois de levar em conta essa deficiência, penso, penso e, voilà!, erro outra vez. Ou seja, não importa o tempo gasto no exame do rumo a tomar, a conclusão é invariavelmente errada, acho que se trata de uma espécie de lei científica ou imposição de um carma ingrato.

No caso de Paris, nunca conversei com ninguém que tenha estado aqui que não conheça intimamente todos os cantos da cidade, com a familiaridade de quem fala sobre seu quintal. "Ali na feirinha do Marais", diz um, com o ar de um carioca mencionando a feira hippie da Ipanema. "Esse restaurante fica pertinho da estação Vavin, é lá que eu costumo bater um papo com o pessoal de Montparnasse, é uma turma ótima que eu tenho lá", relata outro, até com um certo tédio por não haver canto de Paris que já não haja desbravado.

Esse quadro, para mim tão humilhante, é ainda composto pelo que meus colegas escritores e jornalistas costumam borbotar em crônicas e reportagens, ou seja, o conhecimento absoluto da obra de todos os artistas cuja vida é ligada a Paris. A maior parte, imagino eu, só não descreve sua amizade estreita com Toulouse Lautrec, Edith Piaf, Sartre ou Picasso porque eles já morreram. Se vivos estivessem, sairiam todos para jantar na Jupe Gonflante (nome que acabei de inventar) velhíssima taverna de que os Dumas eram frequentadores habituais, onde se bebe absinto e se come um fantástico canard aux sanglots longs (prato cujo nome também acabei de inventar), contanto que se seja amigo do Gilles Bavard, mitológico cozinheiro que só prepara esse prato para seus amigos pessoais e tem ataques de fúria quando alguém pede o vinho errado, pois que só admite alguns tintos do vale do Loire (tampouco sei se há vinhos tintos produzidos no vale do Loire, que também não sei direito onde fica e só sei que é na França, porque me ensinaram no ginásio) e qualquer outro deve ser rejeitado com indignação.

Que vontade eu tinha de estacar diante de um prédio centenário perto da Place de la Concorde e entrar numa epifania em que me viesse à mente a obra dos grandes arquitetos e urbanistas que povoam a história de Paris e da França! Os que escrevem sobre viagens a Paris conhecem todos eles e são capazes de explicar o seu trabalho em minúcias técnicas e estéticas fascinantes, não cessando de, aqui e ali, salpicar uma palavrinha sobre os detalhes de certa cariátide que mira o Sena, ou a pequena estatueta de Baco encarapitada na cimeira no prédio carinhosamente conhecido, desde o tempo de Napoleão, como le petit Capitole (de novo, tudo inventado por mim agora mesmo), que só não conhece quem nunca saiu de Niterói. E como eu gostaria de fazer comentários como "este vinho tem uma linhagem plebeia, mas seu buquê meio sonso denuncia certa fanfarronice inocente, que cativa os paladares mais ingênuos e ocasiona uma condescendência indulgente em quem o experimenta".

Pensei em mentir um pouco, depois de passar a noite consultando o Google, para em seguida escrever qualquer coisa como "Conversando com Monet na rive gauche", mas acabei desistindo, não consigo a familiaridade que nos outros é congênita. Nem mesmo algo mais modesto, tal como "Uma visita ao Louvre", até porque nenhum dos outros sequer se digna a falar no Louvre, por se tratar de coisa de iniciantes, já que, para os conhecedores, nada mais cafona do que visitar o Louvre, esse museu tão batido e algo passé, aonde só vai quem nunca esteve em Paris e aprecia a companhia de turistas americanos e japoneses. A Torre Eiffel, nem pensar, o Arco do Triunfo só com um bocejo distante, a avenida Champs Elysées apenas para mostrá-la entediadamente a um parente do interior, o Moulin Rouge exclusivamente para suscitar um risinho de mofa contra quem ousa perguntar por ele.

Tristes circunstâncias, que fazem com que eu me recolha às minhas limitações e, envergonhado, reconheça que não tenho nada a acrescentar ao que já escreveram e ainda escrevem os meus colegas que visitam Paris. Estou passando uma semana aqui e não me apareceu nada para escrever que não possa vir a ser tido como uma embaraçosa demonstração de insipiência terminal e completa falta de traquejo.

Dessa forma, peço desculpas a todos os que desaponto com essas observações e solicito vênia para dedicar as últimas linhas desta crônica às dúvidas que talvez ainda assaltem alguns amigos e contemporâneos lá da ilha. Ary de Maninha certamente ficará decepcionado em saber que, aqui em Paris, não vi nem sinal de mulher de peito de fora, como nos levavam a crer os filmes com Martine Carol, Françoise Arnoul e, mais recentemente, Brigitte Bardot. A Toinho Sabacu, faço saber que diferentemente do que contava o finado Maneco Brilhantina, depois de sua propalada e nunca provada viagem a Paris, nenhuma francesa tarada quis me agarrar após saber que eu era brasileiro. E, para encerrar, comunico a Zecamunista que, diferentemente do Brasil, onde todos os políticos são de esquerda, aqui muitos deles se declaram de direita. Deve ser por isso, Zeca, que a França não vai para a frente e aqui não tem nada que não seja melhor no Brasil.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Reformando a casa
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11

Relator da segunda fase do "Minha Casa, Minha Vida", André Vargas (PT-PR) introduzirá no texto da medida provisória um conjunto de mudanças com potencial de dor de cabeça para o Planalto.
No momento em que Dilma Rousseff pede atenção especial à "nova classe média", o deputado quer limitar o atendimento do programa para famílias com renda mensal de até seis mínimos -o texto do governo, do agrado das construtoras, prevê teto de dez salários. "Como houve cortes orçamentários, temos de priorizar quem mais precisa", argumenta Vargas, que também defende a extensão do "Minha Casa", hoje concentrado nas regiões metropolitanas, para os rincões.

No telhado 1 
O relatório da Controladoria Geral da União sobre o caso Erenice Guerra abalou as chances de recondução de Antonio Bedran à Anatel. Para a CGU, a agência privilegiou a empresa de telefonia dirigida pelo marido da então ministra na concessão de frequência.

No telhado 2 
Quando procurador da Anatel, Bedran primeiro fez parecer contrário à outorga. Depois, recuou. Conduzido ao conselho da agência, votou a favor.

No telhado 3 
Defendida pelo PMDB, a recondução de Bedran contava ainda com aval de setores petistas. Agora, o Planalto teme ressuscitar o "fantasma Erenice".

Adivinhe quem... 
Lula contou a amigos que, dias atrás, resolveu tirar um cochilo depois do almoço. Ao acordar, seguiu do quarto para a sala e lá deu de cara com três rapazes que nunca tinha visto antes. O ex-presidente tomou um susto -não maior do que o deles, até então desavisados sobre a identidade do dono da casa.

...chegou 
Passado o momento de suspense, Lula descobriu que Marisa Letícia havia saído, deixando no apartamento a turma encarregada de ligar internet e TV a cabo. Tudo terminou numa profusão de fotos do trio ao lado do morador ilustre.

Como 
está Aldemir Bendine permanecerá na presidência do BB. E, apesar de pleito do PMDB, o ex-governador José Maranhão (PB) não será abrigado no banco.

Disciplina 1 
Sabedores da preferência de Dilma pela forma "presidenta", alguns ministros se referem à chefe em torpedos não como "PR", mas sim como "PRa".

Disciplina 2 
Mesmo quando ociosos, auxiliares de Geraldo Alckmin (PSDB) não arredam o pé das secretarias antes das 19h. É que o governador tem o hábito de telefonar, após o expediente, numa espécie de rodízio de verificação de presença.

Cedo demais 
Caiu mal no Itamaraty a entrevista à Folha na qual Celso Amorim disse que "provavelmente" não teria votado contra o Irã no Conselho de Direitos Humanos da ONU, como fez o Brasil na quinta passada. Argumenta-se que o ex-chanceler, há apenas três meses fora do governo, deveria ter esperado mais para falar.

A regra... 
O Ministério Público Eleitoral pretende apresentar ao STF ação declaratória de constitucionalidade para garantir a vigência da Ficha Limpa na eleição de 2012. "É para que ninguém esmoreça e a lei seja implantada em definitivo", diz o procurador André de Carvalho Ramos, de São Paulo.

...é clara? 
O tema será debatido em seminário na sexta. Para os procuradores, conspira contra a aplicação plena da lei a complexidade da disputa municipal, com a multiplicação de candidaturas a vereador e prefeito, o que dificulta o pente-fino.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio


"O país precisa investir em educação e saúde, não na construção de um trem-bala. Isso é a corrupção das prioridades."
DO DEPUTADO JOSÉ ANTONIO REGUFFE (PDT-DF), que, embora da base aliada, declara a intenção de votar contra a MP 511, que destina R$ 20 bilhões de recursos do BNDES ao projeto do TAV (Trem de Alta Velocidade).

contraponto

Pequeno e estridente


Deputados foram convidar Marco Maia (PT-RS) e José Sarney (PMDB-AP) para o ato de instalação da Frente Parlamentar pela Reforma Política. O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) resolveu brincar:
-E então, presidente Marco Maia: a bancada do PSOL está dando muito trabalho ao senhor?
Diante dos deputados do partido, o petista brincou:
-E como! Você nem imagina...
-E eles são três. Imagine se fossem 30...
-Se eles fossem 30, seriam mais moderados.

MERVAL PEREIRA

Desafios na gestão 
MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 27/03/11

Um dos pontos fundamentais da discussão política nos últimos anos, principalmente durante as campanhas presidenciais, tem sido o antagonismo entre o "choque de gestão", que defende um Estado menos inchado, e por isso mais ágil, com indicadores que meçam sua eficiência, e o Estado forte, que estende seus tentáculos em todas as direções.
A presidente Dilma Rousseff passou a campanha eleitoral garantindo que não faria nenhum ajuste fiscal, que seria desnecessário. Mas, nos primeiros dias de governo, já anunciou um inevitável corte de gastos, além de ter criado uma comissão coordenada pelo empresário Jorge Gerdau para introduzir no governo o sistema de gestão por metas.
É justamente o caminho sugerido pelo trabalho conjunto do cientista político Fernando Abrucio, o coordenador do programa "Estado para resultados" do governo de Minas Gerais, Tadeu Barreto, e o diretor da Macroplan, Gustavo Morelli, em um dos capítulos do livro "2022 Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário", que está sendo lançado na próxima quinta-feira no Rio.
Os autores apresentam uma agenda para o aperfeiçoamento da gestão pública no país, com o objetivo de corrigir fragilidades históricas ainda perceptíveis, de modo a conseguir que o Brasil possa crescer mais rapidamente de forma sustentável.
Complementando as análises dos cenários possíveis para o futuro do país, abrangendo os próximos 11 anos, quando o Brasil completará 200 anos de independência, o livro "2022 Propostas para um Brasil Melhor no Ano do Bicentenário", organizado pelos economistas Fábio Giambiagi , do BNDES, e Claudio Porto, da consultoria Macroplan, dedica esse capítulo inteiramente à questão da gestão pública, destacando a importância central de políticas públicas competentes para a superação de uma série de desafios nacionais.
Para os organizadores da obra, não há dúvidas de que alguns dos velhos dilemas e problemas da economia brasileira estão presentes no cenário atual e precisam ser enfrentados.
O Brasil, segundo Giambiagi, "se encontra em plena transição, de uma situação ainda com problemas próprios de países emergentes, para outra que poderá alcançar uma maior abertura e inserção global da nossa economia".
Os autores destacam que a evolução recente da gestão pública tem marcos muito positivos, como a reforma da gestão pública de 1995, o PPA de 2000-2003 e a Lei de Responsabilidade Fiscal, no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Os avanços da agenda de gestão pública no governo Lula ocorreram de forma fragmentada, segundo os autores. Enquanto bons resultados foram alcançados na gestão do Bolsa Família e com a criação de fóruns de discussão das prioridades governamentais, como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e as conferências setoriais, "não houve diretrizes gerais para toda a administração pública".
Um dos maiores retrocessos, na minha opinião, ocorreu na gestão da máquina do Estado, e não é à toa que os autores sugerem uma maior profissionalização do serviço público, com intercambio de talentos com o setor privado - "para oxigenar a administração pública" -, intensificação dos processos de avaliação de desempenho e a redução de cargos comissionados.
O caso da interferência do governo na direção da Vale, forçando a demissão do seu presidente, Roger Agnelli, por suposto desentrosamento entre os planos da companhia privada e os objetivos econômicos estratégicos do governo, mostra que, ao contrário, é o governo que quer interferir nas empresas privadas.
Outra questão grave é o aparelhamento da máquina estatal com indicações políticas, com a vergonhosa divisão de cargos entre os partidos da base aliada, especialmente PT e PMDB.
Segundo Abrucio "não é possível ter, em pleno século XXI, mais de 20 mil cargos comissionados na administração pública direta e múltiplas indicações políticas nas empresas públicas e nos fundos de pensão. O montante de indicações de livre provimento por parte do Executivo não encontra paralelo em nenhum país desenvolvido, abrindo brechas para ineficiência e corrupção".
O desafio, dizem os autores, está em avançar nos resultados com os mesmos recursos materiais, humanos e financeiros disponíveis, sendo a inovação na gestão um elemento fundamental para produzir impactos positivos.
Entre algumas inovações que poderiam ser assimiladas para a melhoria da gestão pública no Brasil, estão a disseminação do modelo da administração pública por metas e indicadores, "uma inovação que ainda tem uso restrito e é de pequena assimilação junto à classe política", assim como a forte expansão do chamado "governo eletrônico".
Os autores recomendam ainda a efetivação de parcerias público privadas. Nesse aspecto, o governo parece ter acordado para a impossibilidade de realizar sozinho as obras de infraestrutura nas estradas, aeroportos e portos do país, necessárias não apenas para a realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, mas também para o desenvolvimento sustentável da economia.
A atuação conjunta, ou o repasse de tarefas ao setor privado, pode ser uma maneira de fortalecer a ação governamental, em vez de enfraquecê-la, analisam os autores do artigo sobre gestão pública. "É preciso superar o debate privatismo versus estatismo".
Já Claudio Porto adverte que a possibilidade de um futuro otimista ou desastroso pode ser sintetizada em um conceito: gestão estratégica. "Uma década é tempo suficiente para que certas políticas amadureçam e apresentem resultados", afirma. E isso requer uma concertação entre as principais lideranças públicas e privadas do país em torno de uma visão estratégica de longo prazo para o país.