terça-feira, julho 29, 2014

Um milagre, papa Francisco! ROBERTO ROMANO

O ESTADÃO - 29/07



Novalis, poeta e teórico político conservador do século 19, afirma que a Igreja foi o modelo de todas as sociedades. Segundo ele, as pessoas comuns encontravam na vida católica "proteção, respeito, escuta". De fato, em milênios ela inspirou povos e governantes, nem sempre de modo esplêndido (a Inquisição, no setor judiciário). Não existe poder moderno sem que os hierarcas tenham indicado as vias e as técnicas de comando. Max Weber adianta que os processos burocráticos de governo nasceram na Cúria, com a centralização do mando pelo papa. Carl Schmitt, discípulo conservador de Weber, mostra que a catolicidade instaura a hegemonia do mando executivo, portador da suprema decisão (plenitudo potestatis papae) acima dos bispos. A máquina jurídica e religiosa, construída racionalmente, venceu as doutrinas conciliaristas que davam aos pastores reunidos peso maior do que ao romano pontífice.

A tenaz oposição ao absolutismo papal, sobretudo após Lutero, inspirou as lutas contra o mando irrestrito dos reis e gerou as teses sobre a monarquia limitada. Exemplo dessa campanha temos na Franco Gália, tratado calvinista de François Hotman (1574). O parlamentarismo sempre foi avesso ao Executivo, combatendo-o na figura católica ou na tese laica do direito divino dos reis. O cardeal Caetano (Auctoritas Papae et Concilii sive Ecclesiae Comparata, 1511) exemplificara a dificuldade de conduzir os cristãos ao acordo entre papa (iudex ordinarium omnes, juiz comum de todos) e bispos. Um defensor da Igreja contra o Estado civil, o cardeal Bellarmino (ele causou longas digressões de Hobbes no Leviatã) pondera que "a monarquia temperada é melhor do que a pura" (De Summo Pontifice). O poder petrino sobre as igrejas é reforçado em 1870, no dogma da infalibilidade. Weber nele enxerga a base da organização curial, cujos diplomatas modelaram o acordo entre a Santa Sé e Mussolini, mais a desastrosa Concordata de Império com Hitler.

O absolutismo do papa sofre quebras no Vaticano II, mas é refeito pela mente cálida de João Paulo II e mostra sua fragilidade sob Bento XVI, o que possibilita a eleição de Bergoglio.

Marco Politi, respeitado na academia e na imprensa, acaba de publicar um estudo sobre os desafios do novo líder (Francesco tra i Lupi - Il Segreto di una Rivoluzione). Ele expõe o pontificado de Bento XVI e narra a conduta de Bergoglio à frente da Igreja argentina. No argentino ressalta o trabalho do bispo com seus padres e leigos. Após sumarizar os eventos que abalaram o trono pontifício, Politi descreve com saber maquiavélico o que chama de "golpe de Estado" cometido por Ratzinger. Maquiavélico: poucos cientistas políticos perceberam, com semelhante acume, os atos de um papa contra a Cúria tingida pela corrupção, sede de poder, baixa cortesania. Ao perder o controle, Bento XVI, no sigilo e com frio cálculo do tempo (O Príncipe teoriza esses elementos de modo ímpar), aplica o golpe perfeito. Se o Vaticano está dividido entre potentados da púrpura, terminemos as escaramuças entre eles e o trono. Com a renúncia, todos devem entregar os cargos, o que permite ao novo líder administrar a guerra intestina.

Após a descrição do golpe papal, digna de Gabriel Naudé, Marco Politi analisa a rede das Igrejas nacionais e seus líderes no conclave. Ele expõe o desejo dos hierarcas de atenuar o centralismo católico. Capítulo importante é o quinto, O fim da Igreja imperial. A escolha de Francisco significa a retomada do colégio eclesiástico, porque não é mais possível admitir que os "bispos sejam meros prefeitos, subordinados a um pontífice monarca". Politi mostra o projeto, assumido por Bergoglio, de refazer o programa conciliar, estabelecendo comissões de consulta às Igrejas locais na busca de apurar temas da fé, da disciplina, costumes. Questionários foram distribuídos pelo mundo católico para ouvir os fiéis e sua hierarquia. O autor exagera a novidade de tais procedimentos.

Em texto publicado na Revista de Economia Mackenzie (Reflexões sobre Impostos e Raison d'État, 2003), exponho o caso dos questionários presentes no Livro do Estado de Almas, feito sob a égide de Carlos Borromeu (1538-1584). Neles a Igreja tem um guia para saber a condição econômica, higiênica, social e religiosa dos católicos. As fichas são bem elaboradas e, diz um especialista de hoje, "só falta o computador" para sintetizar rapidamente os resultados. Depois, a técnica dos questionários serve aos soberanos civis como instrumento de sondagem para fins de impostos, controle e segurança, etc.

Mesmo com a crise do Dictatus Papae, mudar o sentido do mando é difícil. Como observa Politi, "a ideia de uma hierarquia onipotente, que nunca erra, está profundamente enraizada na autocompreensão da Igreja Católica. Pio XII, no exercício do seu poder, gostava de enunciar: 'Não quero colaboradores, quero executores'". É a dura realidade que analiso em minha tese de doutoramento, Brasil, Igreja contra Estado (1979), odiada pela direita e pela esquerda eclesiásticas. Ainda em 2014 haverá um Sínodo com agenda precisa e, nele, emissários das conferências episcopais, "vindos de vários continentes, poderão exprimir-se com clareza sobre pontos específicos".

Francisco deve responder, com atos e doutrina, ao repto do conservador De Maistre: "Se não há centro nem governo comum, não pode existir unidade nem, por conseguinte, Igreja universal (ou católica), pois nenhuma igreja particular tem o meio constitucional de saber se ela está em comunhão de fé com as outras"(Du Pape). O pastoreio deve manter a universalidade da Igreja, protegendo as nações e os indivíduos. A Igreja é modelo de toda sociedade.

Caso Francisco seja bem-sucedido, talvez Brasília, demoníaca cúria sem Deus nem lei, bastião do absolutismo centralizador, escute os povos que habitam suas terras. Então, poderemos falar em democracia e federalismo. Por tal milagre, Francisco mereceria a glória dos altares...

Dilma e seus fantasmas - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 29/07


Presidente volta a culpar 'pessimistas' por economia ruim, mas não dá nome a bois nem trata de motivos


"ESTÁ HAVENDO o mesmo pessimismo que aconteceu com a Copa com a economia brasileira. E com a economia é mais grave, porque economia é feita com expectativa", disse a presidente na sabatina promovida por esta Folha.

Quem é pessimista? Falta um sujeito na afirmação. Dilma Rousseff jamais deu nome aos bois ou a seus fantasmas desde que essa sua queixa se tornou recorrente, no ano passado.

O que é pessimismo? No discurso de final de ano de 2013, a presidente insinuou que pessimistas promovem "guerra psicológica", "instilam desconfiança, especialmente desconfiança injustificada" no país.

Desde o final do ano passado, cerca de 60% dos eleitores entrevistados pelo Datafolha estimam que a inflação vai aumentar. São "pessimistas", acreditam que o futuro será pior do que é razoável esperar?

Caso se aceite a hipótese do "pessimismo", o eleitorado teria sido influenciado por campanhas de "setores" que promovem "guerra psicológica"?

Os principais disseminadores de estimativas são economistas de consultorias e bancos, uma centena deles ouvidos semanalmente pelo Banco Central (aliás, precisam acertar seus chutes informados a fim de ganhar a vida). A previsão mediana deles é de ligeira queda da inflação em 2015. É verdade que, desde o início do ano, o pessoal cortou a estimativa de crescimento pela metade, perto de 1%, neste 2014.

De certo modo, pode-se dizer que, na mediana, os economistas estavam mais "otimistas" em janei- ro. Aliás, é o que ocorreu nos anos Dilma, a cada início de ano: os economistas subestimaram a infla- ção e superestimaram o crescimento do PIB.

Pode-se não gostar desses economistas "do mercado" por motivos teóricos, políticos, estéticos ou sabe-se lá. Mas está difícil de dizer que suas estimativas difundam pessimismo. Sim, a maioria deles, os mais vocais, atribui parte dos maus resultados a Dilma. Essa, porém, é outra história (a "culpa"). O fato é que a realidade é ruim.

O grosso do eleitorado ficou inseguro com a economia, temendo mais inflação, depois de anos de alta do nível de preços de comida e bebida, em especial depois do pico de 14% de inflação desses itens, em abril de 2013. É mais fácil acreditar que o brasileiro sentiu na carne o efeito da carestia do que imaginá-lo deprimido com o noticiário econômico.

Redução da expectativa de lucro (devido a alta de custos) e tabelamentos de preços e ameaças de fazê-lo, fatos do Brasil dos últimos três anos, são assombrações para empresários. Baixo crescimento, fatos de 2011 e 2012, quando não havia "pessimismo" (ou queixas da presidente a respeito), também assustam.

Quando o Brasil crescia a 4%, anos Lula, mesmo a elite que detesta o PT (larga maioria) sorria ou ficava quieta em relação ao governo do partido. Dinheiro (quase) não tem cheiro. Aliás, mesmo nas internas do "empresariado", pouco se ouvia falar mal de Dilma até fins de 2012. O humor azedou em 2013.

Obviamente, muita gente quer aproveitar a má ocasião para dar cabo político do PT. Mas acreditar que houve surto de histeria coletiva ou conspiração é desprezar as durezas da vida e a inteligência da maioria da população.

Drama argentino - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 29/07



As últimas horas foram de tentativa desesperada de evitar o calote argentino. O país pagou antecipadamente os US$ 650 milhões da primeira parcela devida ao Clube de Paris, organismo que reúne os representantes dos governos credores. É uma forma de provar que não quer ficar inadimplente. O gesto de alguns credores privados, de abrir mão da cláusula que os favorece, ajuda a negociação, mas não resolve.

É mais importante continuar a negociação em Nova York do que tentar conseguir em Caracas mais uma declaração do Mercosul a favor do país. Mas é isso que a presidente Cristina Kirchner tentará hoje. E seu ministro da Fazenda não foi a NY. Há algumas saídas para a Argentina evitar a terceira moratória de sua história recente, mas ela tem poucas horas.

Concretamente, esse grupo de credores que acenou com a possibilidade de abrir mão da cláusula que obrigaria a Argentina a dar a eles as mesmas vantagens que tiverem os fundos abutres não representa a totalidade da dívida reestruturada. Além disso, os fundos que atualmente ganharam na Justiça americana o direito de receber o valor total dos títulos que têm em mãos são apenas 10% dos que ficaram de fora da dívida reestruturada. Ou seja, a vitória deles incentiva esses outros credores a exigir o mesmo na Justiça. Explicando melhor: 93% da dívida foram renegociados, 7% ficaram de fora e, desses, 10% são os fundos que venceram na Justiça.

A boa notícia é que esse calote não tem o poder de contágio. Em outras crises da dívida, havia sempre uma fila de países em situação similar e, portanto, ocorria o efeito dominó. Agora, a situação da Argentina é isolada.

Por outro lado, o fato de um juiz distrital dos Estados Unidos ser capaz de levar um país à moratória cria em torno do caso argentino um interesse que vai muito além das suas fronteiras. Está em jogo também a confiança nos Estados Unidos como foro para a discussão judicial em acordos de reestruturação de dívida soberana. Como a Suprema Corte decidiu que não é tema para ser levado à última instância, os países ficam ao sabor de decisões de juízes regionais.

Em qualquer renegociação de dívida, um grupo sempre fica fora do acordo de renegociação. Ele, em geral, é formado por investidores que compraram os papéis quando o valor estava no fundo do poço, apostando no confronto. Se a Justiça lhes der ganho de causa, eles têm alto lucro. Tradicionalmente, a Corte de Nova York tem sido escolhida nos processos de renegociação de dívida em que há conflito.

O caso da Argentina cria insegurança jurídica para qualquer renegociação de dívida soberana, porque o que o juiz está determinando é o pagamento imediato e pelo valor de face à minoria que apostou na briga judicial. Os credores que brigaram terão mais benefício. O precedente criado pelo juiz Thomas Griesa pode fazer com que credores e devedores, em futuros processos de negociação, fujam da Justiça americana como foro de eventuais conflitos.

O lado tranquilizador da dívida é que o calote não será o estopim de uma crise regional. Seu peso recairá sobre os argentinos e pode também afetar a Venezuela, que tem muitas vulnerabilidades econômicas, mas não há motivo para que seja uma crise regional.

O Brasil terá mais dificuldades de exportar para a Argentina, o que reduzirá ainda mais a venda de manufaturados, aumentando a recessão da indústria. Mas o efeito será limitado a isso. Nós temos um déficit em transações correntes de quase 4% do PIB, mas US$ 370 bilhões de reservas cambiais e uma conjuntura econômica totalmente diferente daquela na qual se encontra o nosso parceiro e vizinho.

A Argentina está na kafkiana situação de tentar pagar aos credores privados americanos com os quais renegociou a dívida e a Justiça de Nova York bloquear o dinheiro, ameaçando arrestá-lo para o pagamento dos credores que não negociaram. O pagamento ao Clube de Paris está fora desse risco porque é em outra jurisdição. O risco de Default continua alto nas próximas horas. No cenário do calote, a situação da economia argentina piora mais um pouco, mas ela já é ruim o suficiente com uma inflação acima de 30% e o PIB estagnado. O governo argentino tenta uma saída para esse labirinto.

Penúltima badalada - CELSO MING

O ESTADÃO - 29/07


Ainda há quem acredite que, antes da última badalada, a Argentina possa fazer um acordo com os credores que recusaram os termos da renegociação da dívida e, assim, escapar de novo default (calote), que, desta vez, pode ser mais desastroso; Mas essa hipótese é difícil de acontecer, pela camisa de força que o próprio governo argentino se impôs

Ainda há quem acredite que, antes da última badalada, a Argentina possa fazer um acordo com os credores que recusaram os termos da renegociação da dívida e, assim, escapar de novo default (calote), que, desta vez, pode ser mais desastroso. Mas essa hipótese é difícil de acontecer, pela camisa de força que o próprio governo argentino se impôs.

Apenas para quem está chegando agora, nesta quarta-feira, 30 de julho, vence o prazo imposto pelo juiz Thomas Griesa, de Nova York, para que a Argentina pague US$ 1,6 bilhão aos holdouts, os credores que recusaram as condições das renegociações da dívida que começaram em 2005. Correspondem a menos de 7% dos credores. Os demais aceitaram a troca de títulos que impôs perdas de 63% sobre o total devido.

Esses holdouts, que o governo Argentino chama de fundos abutres, recorreram à Justiça para serem pagos pela totalidade da dívida.

A presidente Cristina Kirchner avisou que não há concessão a fazer aos abutres e, nesta segunda-feira, uma nova delegação argentina viajou para Nova York com o recado de que só vai conversar com o mediador, Daniel Pollack, nomeado pelo juiz, e não com os credores.

A restrição original é a de que toda emissão de títulos de dívida deve definir um tribunal para dirimir eventuais conflitos de interesse. Nesse caso, foi acertado que o foro para isso é o de Nova York. Poderia ser outro, como o de Londres, Frankfurt ou de outra capital financeira.

Argumentar que o juiz Griesa, designado para presidir esse processo, violou a soberania do Estado Argentino ou tomou decisões inaceitáveis, implica exigir que a Justiça americana só profira sentenças favoráveis à Argentina e, nesse caso, não seria necessário juiz.

Não há, para casos de dívidas soberanas, nenhum acordo internacional que preveja procedimentos judiciais e critérios de prioridade de pagamento para casos de incapacidade de resgate de títulos, como acontece em casos de falência ou de recuperação judicial de empresas.

O próprio contrato dos títulos da Argentina inclui a cláusula Rufo (Right Upon Future Offers) com validade até 31 de dezembro de 2014. Ela determina que qualquer benefício acertado com uma parcela de devedores deve ser estendido para os demais. Os próprios advogados da Argentina vêm garantindo que não cabe flexibilidade na aplicação dessa cláusula.

Se concordasse em pagar mais aos abutres, como determinou o juiz, a Argentina estaria sujeita a um dilúvio de processos judiciais dos outros credores, que exigiriam igualdade de tratamento. Nesse caso, os termos da renegociação da dívida perderiam validade. Além de problemas com a nova quebra (default), a Argentina teria de enfrentar outro processo de renegociação.

As trancas a um acordo com os abutres não terminam aí. A Lei Ferrolho (Ley Cerrojo), aprovada pelo Congresso argentino, tratou de fechar todas as portas para um entendimento. Impede pagamentos a credores que não aceitassem a reestruturação da dívida. Além disso, o governo argentino está proibido, também por lei, de oferecer quaisquer benefícios não previstos na renegociação anterior.

Essas razões sugerem que não há nem saídas fáceis nem saídas rápidas. Mas ainda não soou a última badalada.


Carnes vivas - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 29/07


Casais devotam aos filhos a mesma atenção obsessiva que um pesquisador dedica aos seus ratinhos de laboratório


Tive uma infância de príncipe. Passei longas horas na rua, sem supervisão parental, a fazer coisas que não lembram ao diabo. Isso na cidade.

No campo, o cardápio era melhor: torturava bichos, primos, vizinhos. Parti o braço (uma vez) e o pulso (idem). Tudo porque teimava em subir nas árvores, como um Tarzan de nove anos.

E, por falar em árvores, cheguei a construir uma casa rudimentar no cimo de uma oliveira --o supremo cliché, tirado de um romance de Mark Twain-- que aguentou apenas duas horas. Findas as duas horas, já eu estava no chão, com os joelhos em carne viva.

Às vezes pergunto o que aconteceria aos meus pais se o pequeno selvagem que eu fui pudesse reaparecer agora, neste 2014, sem freio nem controle. Provavelmente, seria exibido em uma jaula, como um King Kong pré-púbere, só para horrorizar a burguesia.

"Minhas senhoras e meus senhores, vejam com os próprios olhos, uma criança que gosta de brincar!"

Imagino a plateia, horrorizada, tapando os olhos dos filhos --ou, melhor ainda, ligando os tablets e anestesiando-os com a dose apropriada de pixels.

E a minha mãe, a única sobrevivente da minha biografia juvenil, estaria obviamente presa. Exagero? Não creio. Conta a "Economist" dessa semana que Debra Harrell, da Carolina do Sul, foi detida por deixar a filha de nove anos brincar no parque sem vigilância apurada.

Engraçado. Na década de 1950, uma criança tinha cinco vezes mais possibilidades de morrer precocemente (por doença, acidente etc.) do que uma criança do século 21. Mas os pais da "baby-boom generation" deixavam as suas crianças à solta, talvez por entenderem que uma criança é uma criança. Esses pais não eram, como diz a revista, "pais-helicóptero".

Expressão feliz. Conheço vários: casais que devotam aos filhos a mesma atenção obsessiva que um pesquisador dedica aos seus ratinhos de laboratório. Gostam de saber onde estão os filhos. O que fazem. Em casa de quem. E com quem. Como os helicópteros, estão constantemente a planar sobre a existência dos petizes.

E quando finalmente descem à terra, é a desgraça: correm com eles para aulas de música, caratê, natação, matemática, talvez física quântica. No regresso à casa, é ver esses pequenos escravos arrumados a um canto, mortificados e exaustos, antes de se recolherem aos quartos e as luzes serem apagadas como nos presídios.

Não sei que tipo de crianças os "pais-helicóptero" estão a produzir. Deixo essas matérias para os especialistas. E, confesso, a minha selvageria juvenil não é exemplo para ninguém: também eu já estou corrompido pelos ares do tempo e um filho meu jamais subiria a uma árvore sem eu chamar de imediato a associação de bombeiros para o tirar de lá.

Digo apenas que a profusão de "pais-helicóptero" é uma brutal amputação da infância e da adolescência. Para além de corromper a relação entre pais e filhos.

Sobre a amputação, não sei que adulto eu seria se nesses primeiros anos não houvesse a sensação de liberdade, mas também de percepção do risco, que me acompanhava todos os dias. Apesar dos ossos que quebrei, dores foram compensadas pela confiança que ganhei e pela intuição de que o mundo não é uma ameaça constante, povoado por sequestradores, pedófilos ou extraterrestres.

Mas os "pais-helicóptero" corrompem a relação essencial entre eles e os filhos. Anos atrás, o filósofo Michael Sandel escreveu um magistral ensaio contra o uso da engenheria genética para produzir descendências perfeitas.

O ensaio intitula-se "The Case Against Perfection". Dizia Sandel que se os pais pudessem manipular os fetos para terem superfilhos, estaria quebrada a qualidade essencial da parentalidade: o fato de amarmos os filhos incondicionalmente. Sejam ou não perfeitos. Os filhos são "dádivas", escrevia Sandel; não são um produto que obedece aos nossos caprichos.

Igual raciocínio é aplicável aos "pais-helicóptero": é natural desejar o melhor para os filhos. E um professor particular de matemática nunca fez mal a ninguém.

Não é natural ter com os filhos a mesma relação que existe entre um treinador e o seu atleta, como se a vida --acadêmica, pessoal, emocional-- fosse uma mini-Olimpíada permanente.

Na minha infância, as únicas medalhas que colecionei são as cicatrizes que trago no corpo. Não as troco por nada.


P.S. - Essa coluna sai de férias. Regressa a 26 de agosto

Memórias do futuro - ARNALDO JABOR

O GLOBO - 29/07



Estou na clínica especial do Nada aqui neste ano remoto do futuro. Futuro de quê? Futuro de um futuro que o Brasil esperava havia vários séculos. Essas clínicas são chamadas hoje de “zonas de esquecimento”; viraram “hype” há mais de um século e hoje abundam. Os sujeitos entram para perder todos os sentidos. Fica apenas a memória, que, aos poucos, sem ajuda de tato, gosto, cheiro, visão e audição, vai se transformando numa leve fonte de murmúrios, em lapsos de visões, em tênue brilho de lembranças, e depois, o silêncio do nada. Muitas clínicas são arapucas, e as mais baratas apenas jogam os pacientes numas salas vazias e deixam-nos na mistura de restos de comida e excrementos. Ninguém reclama. Mas eu vivo na melhor: “Le Néant”, que as famílias visitam para verificar o tratamento – é impecável no trato dos corpos sorridentes, murchos e mudos.

Hoje, inexplicavelmente, me encontro na rua com sol batendo em meus olhos, e volta a mim uma enxurrada de memórias que eu sempre evitara. Como saí? Em que ano estou? Minha lembrança mais antiga jaz no deserto, quando o Califado Islâmico tomou conta do Oriente Médio, chegando até as bordas de Israel-Palestina, já considerada “área insolúvel” e que virou parque temático.

Muitas terras viraram temáticas também: a desolação de Nueva Iork, depois das nuvens de “antrax” na Broadway, o Buraco Iraque, depois da bomba do ex-Paquistão – hoje Talibânia –, e o deserto de Tokyorama, província da China...

Mas vou me ater às memórias do Brasil.

Sei que há muitos anos o futuro do país se delineou. Foi logo depois da reeleição de uma mulher...

Esqueço-lhe o nome... Sei que, depois, o famoso Lula sucedeu-lhe em 2018, continuando em 2022, criando uma dinastia de si mesmo, reeleito em vários mandatos, até 2034, quando ele já não falava mais e tinha sido mumificado num carro móvel de vidro que desfilava entre a multidão de fiéis ajoelhados. A maioria do povo semianalfabeto celebrava a realização do projeto do seu partido, uma espécie de populismo pós-moderno (como chamavam) feito de pedaços de getulismo, chavismo e outras religiões. Quando se iniciou a decomposição, seu corpo foi entronizado no Museu Bolívar, um palácio de mármore vermelho desenhado por Oscar Niemeyer, tendo como curador Gilberto Carvalho, 108.

Nesta época, o velho Brasil tinha renascido como rabo de lagarto. Voltara a correção monetária sob uma inflação de 2.200%, um flashback do período Collor, agora representado por seu neto na grande aliança ainda presidida por Sarney, 117, que visava unir partidos no programa nacional de “decrescimento”, já que a democracia se revelara um antigo sonho grego impossível. Todo o projeto do “lulismo” tinha dado frutos depois de tantos anos no poder. “Podres poderes!” – rosnavam alguns poucos inimigos, urubus complexados. Tinha-se atingido o sonho glorioso de socialismo “puro”, onde só havia o Estado sem sociedade em volta. Era assim.

O MST tinha finalmente desmontado a maldita agroindústria, as manifestações de junho viraram uma data popular, como festas juninas animadas por black blocks, considerados agora “guarda revolucionária”; a imprensa tinha acabado, graças à proibição de papel, enquanto ex-jornalistas gritavam nas ruas e distribuíam panfletos mimeografados.

Foi nessa fase que houve o Segundo Crash da Bolsa de Nueva Iork, entre nuvens de suicidas e filas de desempregados.

Aqui foi uma surpresa. O Brasil quebrou, e nada aconteceu. Houve, claro, legiões de famintos atacando os supermercados, mas logo ficou claro que a miséria é autorregulável. Muito simples: a fome diminui a população, dado benéfico para a incrível falta de comida, provocada pela decisão do governo de jamais cortar gastos fiscais. Nossos aviões e navios passaram a ser confiscados regularmente pelos países do Império Neoliberal, o que foi bom para desonerar gastos de manutenção.

Foi então que se começou a falar em um novo lema: “Ordem sem Progresso”, no seio de um novo movimento de salvação nacional: o “Recua Brasil!”. Entendêramos finalmente que o Brasil é um “acochambramento” secular e que isso não é um defeito, é nossa grandeza fabricada por séculos de escravismo, de burocracia e de corrupção endêmica.

A nova “república” proclamava: “Vamos assumir nosso atraso, chega de progresso!”. Foi outro grande alívio o fim da angústia de progresso que oprimia os brasileiros: a Paz é a desistência dos sonhos de felicidade.

Daí, veio o movimento “Desiste Brasil”, organizando o antigo caos em ilhas, em zonas de atraso. Um dos sucessos foi o PEP, “Plano de Extermínio de Periferias”. No início, alguns humanistas protestaram, mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muros de concreto, como em Gaza-Auschwitz. Outro grande programa foi o PROCU (Projeto de Criminalidade Unificada), que mapeou as máfias todas, a evangélica, a ruralista, a hospitalar, a de traficantes, formando um arquipélago de áreas exclusivas com regras de matança mais controláveis. Sem falar em iniciativas de vanguarda moral como a COPUT (Cooperativa de Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual de que tanto dependemos.

Isso, além do PROCRACK e do PROMERD (cagadas genéricas) e a PROLIM (venda de liminares “a priori”). Criou-se o “Orçamento Espoliativo”, que os congressistas adoraram, com sete novos necrotérios em Alagoas e nove clínicas essenciais de cirurgia plástica no Piauí, de onde veio também a bela ideia da “Comunidade Sossegada”, que distribui Lexotans aos retirantes da seca.
Mas foi aí que comecei a tremer. Olhava os outros do meu canto: pareciam tão felizes...

Sim, mas de vez em quando eles entravam num choro meloso, um uivo desesperado como as sirenes que circulavam em Nueva Iork, no século XXI. Meu terror foi aumentando. Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso. Corri de volta à minha “zona de esquecimento”, a “Le Néant”, mergulhei no silêncio dos cinco sentidos e cego, surdo e mudo, pude finalmente descansar no nada.

O que pretendem os radicais? - JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE

O ESTADÃO - 29/07


Estamos presenciando a recaída de nosso pretenso partido hegemônico, o PT, na radicalização. Não resta dúvida de que Lula está radicalizando, o PT também está e Dilma está aos poucos cedendo às pressões para radicalizar. O que resta é a questão de saber por quê. Dúvida pouco relevante nas eleições de 1982, 1989, 1994 e 1998, quando Lula foi derrotado por causa do caráter radical de seu programa.

Já a vitória de Lula em 2002 deveu-se a fatores que amainaram as aparências mais radicais da campanha. Primeiro foi a substituição de seu programa por uma "carta de princípios" que comprometia um futuro governo petista com o Estado Democrático de Direito e, sobretudo, com a manutenção da política econômica até então vigente.

Segundo, a adoção de um estilo de comunicação e um novo discurso acomodatício, de uma personalidade inteiramente nova, com expressão corporal e vestuário "executivo" - tudo diametralmente oposto ao estilo raivoso e confrontacional do passado. E, terceiro, a aliança "pragmática" com seus adversários ideológicos mais opostos, inclusive ícones do regime autoritário e donos dos currais eleitorais mais atrasados do País.

Ninguém precisou se enganar. A esquerda petista não precisava ser enganada porque entendeu o compromisso como sendo apenas uma diversão tática para chegar ao poder e, em seguida, assumir a hegemonia e impor seu programa aos aliados incômodos, às elites dominantes e às classes médias alienadas. Após as eleições de 2002, todas as bandeiras do partido continuaram vigentes, com parte da linguagem mais radical substituída por eufemismos.

As chamadas raposas e os "picaretas" também não se enganaram, porque confiavam em sua lendária capacidade para manipular o jogo parlamentar e os corações e mentes da classe dirigente em proveito próprio. Com isso, esperavam lucrar duplamente, primeiro, barrando as iniciativas inconvenientes do governo, seja as mais audaciosas agressões às instituições vigentes, seja as ameaças aos interesses vitais da maioria ou de setores relevantes da classe política. Em segundo lugar, tornando-se livres para chafurdar sem pejo no lodaçal da República, convenientemente rebatizado de "governança".

Seria a quintessência da aliança espúria, o perfeito win-win game, o jogo em que todos ganham mais do que perdem, com exceção do povo. Afinal, o PT teve de ceder quase todos os anéis, mas ficaram os dedos com os quais por 12 longos anos tem-se aferrado ao poder com todas as suas pompas e todas as suas glórias. E nem todos os anéis se foram. Eles retornam intermitentemente em pronunciamentos oficiais e oficiosos do PT e de suas organizações paragovernamentais.

Percebe-se hoje a insatisfação generalizada que corrói até a medula o pacto pelo imobilismo e a mediocridade que mantém a "governabilidade" da aliança lulo-dilmista. E pela razão muito simples de que talvez, mais ainda do que o povo, os stakeholders da aliança são precisamente os mais insatisfeitos.

O PT está insatisfeito porque, ao fim de 12 anos de tão ardentemente esperada hegemonia, muito pouco ou quase nada se concretizou dos esperados atributos de um partido hegemônico. O monopólio da "direção intelectual e moral" da sociedade, o controle da luta ideológica por meio da submissão da imprensa, a subordinação dos demais poderes e a conquista de prerrogativas supraconstitucionais para o partido vêm sendo, a cada revés, adiados para os "amanhãs que cantam".

Do outro lado, os "picaretas" e as raposas também estão insatisfeitos, porque receberam os anéis, mas não podem ostentá-los nem foram convidados ao baile. Recolhem do butim as migalhas, mas se sentem permanentemente ameaçados - e traídos - pela ganância hegemônica do PT. Sua participação no poder serve para limitar as perdas, mas não os exime de ceder às chantagens e compartilhar a culpa pelos fracassos do governo e a impopularidade que daí resulta.

A popularidade vinha mantendo essa aliança dos insatisfeitos. Mas a insatisfação do PT só era contida pela certeza da reeleição. Sem ela, os amanhãs que cantam não seriam apenas adiados para o próximo quadriênio, mas sine die.

A insatisfação da classe política, do empresariado, das classes dirigentes em geral, já não é contida pela falta de alternativas atribuída à inevitabilidade do continuísmo. A alternativa agora é possível: por que, então, as classes dirigentes optariam pelo suicídio?

Se a radicalização e o clima polarizado que ela implica levaram no passado à derrota eleitoral, e se a alternativa de uma coalizão dos insatisfeitos está fazendo água, então essa radicalização não seria para evitar a derrota, mas para evitar a ameaça da alternância no poder. A radicalização do PT não seria um erro tático, mas uma estratégia deliberada para conquistar sua almejada hegemonia fora das urnas e apesar delas.

Como? Criando um clima conflagrado que contrapõe a legitimidade das ruas à legalidade das instituições; impondo o controle "social" à pura e simples liberdade de pensamento e de expressão; concitando a convocação de assembleias constituintes oportunistas para submeter a Carta a maiorias de ocasião; dissolvendo no dia a dia o direito à propriedade individual para satisfazer os interesses dos militantes organizados; invocando a liberdade de manifestação como desculpa para agredir a liberdade de ir e vir, o patrimônio e até a integridade física das pessoas. O resultado seriam eleições tumultuadas, pondo em risco uma transição pacífica de governo.

A posse de Lula marcou a primeira alternância real entre elites no poder depois do período autoritário, como demonstra Leôncio Martins Rodrigues em suas pesquisas recentes. Resta saber se a atual elite governante e seu partido dominante acatarão o veredicto das urnas e a alternância entre elites no poder que daí deverá decorrer: será o teste de fogo para a democracia brasileira.


O estado e o capitalismo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 29/07

Concordo com a presidente Dilma, que classificou ontem o que está acontecendo no mercado financeiro de inadmissível e lamentável , mas tenho a visão oposta à dela: o que é inaceitável é um governo, qualquer governo, interferir em uma empresa privada impedindo que ela expresse sua opinião sobre a situação econômica do país. Sobretudo uma instituição financeira, que tem a obrigação de orientar clientes para que invistam seu dinheiro da maneira mais rentável ou segura possível.

Numa democracia capitalista como a nossa, que ainda não é um capitalismo de Estado como o chinês - embora muitos dos que estão no governo sonhem com esse dia -, acusar um banco ou uma financeira de terrorismo eleitoral , por fazerem uma ligação óbvia entre a reeleição da presidente Dilma e dificuldades na economia, é, isso sim, exercer uma pressão indevida sobre instituições privadas.

Daqui a pouco vão impedir o Banco Central de divulgar a pesquisa Focus, que reúne os grandes bancos na previsão de crescimento da economia, pois a cada dia a média das análises indica sua redução, agora abaixo de 1% este ano.

Outro dia, escrevi uma coluna sobre a influência da economia nos resultados eleitorais, e o incômodo que a alta cúpula petista sentia ao ver análises sobre a correspondência entre os resultados das pesquisas eleitorais e os movimentos da Bolsa de Valores: quando Dilma cai, a Bolsa sobe.

Essa constatação, fácil de fazer e presente em todo o noticiário político do país nos últimos dias, ganhou ares de conspiração contra a candidatura governista e gerou intervenções de maneiras variadas do setor público no privado. O Banco Santander foi forçado a pedir desculpas pela análise enviada a investidores sugerindo que prestassem atenção às pesquisas eleitorais, pois, se a presidente Dilma estancasse a queda de sua popularidade ou a recuperasse, os efeitos imediatos seriam a queda da Bolsa e a desvalorização cambial. E vice-versa.

O presidente do PT, Rui Falcão, já havia demonstrado que o partido governista não se contenta com um pedido de desculpas formal, como classificou a presidente Dilma: A informação que deram é que estão demitindo todo o setor que foi responsável pela produção do texto. Inclusive gente de cima. E estão procurando uma maneira de resgatar o que fizeram . Ontem, na sabatina do UOL, a presidente Dilma disse, em tom ameaçador, que terá uma conversa com o CEO do Banco Santander.

Mas não foi apenas o Banco Santander que sofreu esse assédio moral por parte do governo. Também a consultoria de investimentos Empiricus Research foi acusada pelo PT de campanha eleitoral em favor do candidato oposicionista Aécio Neves, tendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acatado o pedido para que fossem retirados do Google Ads anúncios bem-humorados do tipo Como se proteger de Dilma e E se Aécio ganhar .

Justamente é este o ponto. A cada demonstração de autoritarismo e intervencionismo governamental, mais o mercado financeiro rejeita uma reeleição da presidente Dilma, prepara-se para enfrentá-la ou comemora a possibilidade de que não se realize. Isso acontece simplesmente porque o mercado é essencialmente um instrumento da democracia, como transmissor de informações e expressão da opinião pública.

Atitudes como as que vêm se sucedendo, na tentativa de controlar o pensamento e a ação de investidores, só reforçam a ideia de que este é um governo que não tem a cultura da iniciativa privada, e não lida bem com pensamentos divergentes, vendo em qualquer crítica ou mesmo análise uma conspiração de inimigos que devem ser derrotados.

Um dos sócios da consultoria Empiricus Research, Felipe Miranda, afirmou em entrevistas que não se intimidará, e fez uma constatação óbvia. O que já vínhamos falando aos nossos clientes sobre a gestão do governo e a condução da política econômica só piorou com esse cerceamento .

Dividindo os erros - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 29/07


BRASÍLIA - Dilma comparou a atual má vontade com a economia com a má vontade que precedeu a Copa.

"O mesmo pessimismo que ocorreu com a Copa está havendo com a economia brasileira. E com a economia é mais grave, porque economia é feita de expectativa", reclamou na sabatina desta segunda (28), no Palácio da Alvorada.

Há, porém, uma diferença enorme entre a disposição negativa diante da Copa e da economia. A da economia é calcada, não em impressões e em manifestações de rua, mas sim em dados concretos feitos por especialistas --do Banco Central e da área econômica, inclusive, além da indústria e de agências de avaliação.

Todos eles, num movimento simultâneo e sempre na mesma direção, vêm reduzindo a expectativa de crescimento da economia mês a mês, implacavelmente. E não é apenas um problema de expectativa, mas de constatação. Tanto devem ter lá seus motivos que a própria Dilma tratou de arranjar motivos e justificativas.

Depois de passar três anos e meio sob críticas e levando bronca do ex-chefe e padrinho Lula, ela distribuiu a responsabilidade pelos fiascos: "Todos nós erramos", disse, admitindo que Lula e ela própria avaliaram mal a crise internacional de 2008. O então governo minimizou o impacto da crise no Brasil e se limitou a medidas administrativas. (Na época, Lula chegou a dizer quer era só "uma marolinha", lembra?)

O resultado é que a presidente e candidata tem efetivamente resultados pífios. Para Lula, são culpa dela; para Dilma, foi erro de avaliação de ambos. Agora, ela nega crise, mas não corrigiu as previsões de PIB e declarou que a inflação vai ficar no teto da meta (logo, fora da meta de 4,5%).

Dilma menosprezou sua rejeição: "Temos mudanças e reversões muito rápidas; 45 dias antes da Copa mais de 70% dos brasileiros achavam que seria um desastre. Depois, 80% achavam que tinha sido uma boa Copa".

Bem, Copa é Copa, economia é economia, eleição é eleição...

Desculpas por nada - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 29/07


Francamente, não deu para entender a razão da polêmica em torno da análise do Banco Santander, enviada a um grupo seleto de clientes, apontando risco de piora da situação econômica caso a presidente Dilma Rousseff venha a ser reeleita.

O incompreensível nesse episódio não foi a reação do PT. Ofendido, o partido falou em entrar na Justiça (contra o quê?) e aludiu logo ao já batido “terrorismo eleitoral”. Isso sempre acontece: qualquer coisa diferente de elogios é vista sob o prisma da ilegalidade e da conspiração.

Esquisito mesmo foi o banco considerar que devia “esclarecimentos” e desculpas às autoridades em geral, à presidente Dilma em particular, por uma análise de conjuntura que nem novidade é. Faz constatações que estão todos os dias nos jornais e estão no radar de praticamente todos os agentes políticos e econômicos.

Se essas previsões são acertadas ou não, são outros quinhentos. Fato é que o desenho de cenários é algo absolutamente normal. O traçado sempre será mais favorável ou desfavorável a alguém.

Se formos ver as coisas por essa ótica, ficam em princípio interditadas quaisquer formas de manifestações porque todas significariam pernicioso engajamento, interferência na decisão do voto. O presidente do Santander houve por bem se manifestar isentando a instituição pela elaboração do informe, acrescentando que os responsáveis serão todos demitidos. Acrescentou que considera o Brasil um “país importantíssimo”.

E o que um cenário de risco com base em dados sobre a condução que esse ou aquele governo dá à política econômica tem a ver com a percepção sobre as potencialidades do país e a capacidade de outras forças que não aquelas momentaneamente no poder têm de geri-lo?

Os analistas do banco traçaram um cenário – trabalho para o qual se imagina que devam ter sido contratados – e serão demitidos por isso. Por quê? Porque o governo não gostou.

E se a situação fosse oposta: se o informe dissesse aos clientes que o risco de deterioração na economia estivesse justamente na possibilidade de vitória de algum dos candidatos da oposição?

Dificilmente essa ou qualquer outra instituição ver‑se-ia obrigada a pedir desculpas aos oposicionistas que, porventura, se sentissem prejudicados. O gesto de retratação decorre da força de intimidação do governo.

Isso, sim, é uma vantagem e não o contrário, como quis fazer crer o presidente do PT, Rui Falcão. Para ele o que houve é proibido. “Não se pode fazer manifestação em uma empresa que por qualquer razão interfira na decisão do voto”, disse. Por essa lógica as consultorias não poderiam se manifestar, as pesquisas de opinião não deveriam ser publicadas, muito menos interpretadas pelos especialistas, veículos de comunicação estariam proibidos de explicitar suas posições e o governo estaria impedido de usar suas prerrogativas para se dedicar em tempo integral a procurar interferir na decisão do voto.

Sub do sub. Na opinião do ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia, a conjugação de três fatores levou ao episódio do diplomata israelense que chamou o Brasil de “anão diplomático”.

A posição francamente pró-árabe dos governos do PT, a convocação do embaixador brasileiro em Tel-Aviv de volta a Brasília e a impetuosidade inexperiente do autor da declaração, “um rapaz querendo mostrar serviço”.

Utilidade. Discussão mais fértil que o debate até então estéril dos candidatos à Presidência seria a elevação do Brasil a um patamar mais decente que o 79.º lugar no ranking mundial do Índice de Desenvolvimento Humano, como meta a ser alcançada em tempo determinado.


Antissionismo é antissemitismo - CLAUDIO LOTTENBERG

FOLHA DE SP - 29/07


Após o Holocausto, o antigo antissemitismo foi substituído pelo antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida


O debate sobre o Oriente Médio parece atualmente querer regredir ao pré-1947, quando a ONU decidiu dividir a Palestina em dois países, um árabe e um judeu. Aqui e ali, volta-se a negar o direito à autodeterminação nacional do povo judeu em sua terra ancestral.

A tentativa de demonização do sionismo é apenas isto: a negação do direito de um povo à autodeterminação. Nenhum outro movimento nacional sofreu ou sofre essa campanha contrária avassaladora.

É moda dizer que o sionismo e Israel são entidades coloniais. Nem como piada serve. Os falsificadores da história precisariam explicar por que a URSS votou na ONU em 1947 a favor de um "empreendimento colonial". Votação em que o maior colonizador da época, o Reino Unido, absteve-se. Aliás, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel.

Nós mesmos somos cidadãos de um país cuja independência foi apoiada pelo Império Britânico. E daí? E daí nada. É comum que nações em busca da autodeterminação explorem as contradições intercolonialistas e interimperialistas.

A divisão de um país em dois aconteceu também em outra descolonização, na mesma época da partilha da Palestina, na joia da coroa britânica, quando Índia e Paquistão viraram dois países. E o critério para a delimitação também foi étnico-demográfico. Incluindo transferências de populações --que hoje viraram sinônimo de limpeza étnica.

O direito à separação de povos e nacionalidades que não desejam viver juntos foi também assegurado, mais recentemente, no desmembramento da ex-Iugoslávia e na extinção da Tchecoslováquia.

Os argumentos deslegitimadores do sionismo mal disfarçam o preconceito e a discriminação.

Guerras têm vencedores e perdedores. O final da Segunda Guerra Mundial assistiu a dramáticos e trágicos deslocamentos populacionais, consequências de realidades produzidas no campo de batalha.

Um caso bastante conhecido é o palestino. Infelizmente, até hoje os palestinos pagam a dívida que seus líderes de então contraíram, ao aliarem-se à Alemanha nazista. Países árabes também invadiram o nascente Estado judeu logo após sua independência, em 1948.

Outro argumento contra o sionismo é que os judeus não seriam um povo, mas apenas uma religião.

Cada nação deve definir sua identidade. Se judeus definem-se por uma religião (o judaísmo), uma língua (o hebraico) e uma terra (Israel), ninguém tem nada a ver com isso.

Imagine-se o escândalo se Israel mudasse de nome, para "Estado Judeu de Israel". Mas não ouvimos reclamações contra, por exemplo, o "Islâmica" em "República Islâmica do Irã" ou "Árabe" em República Árabe do Egito.

O sionismo foi e é apenas isto: a expressão moderna da autodeterminação nacional judaica. E Israel surgiu na descolonização no pós-guerra, beneficiado pelas alianças corretas na vitória sobre o nazismo. Essa é a verdade histórica.

O único caminho para a paz é o reconhecimento das realidades históricas e a divisão em dois países por critérios demográficos. Dois Estados para dois povos.

O antigo antissemitismo saiu de moda após o mundo ter descoberto o Holocausto. Foi substituído por uma nova forma de discriminação: o antissionismo. A máscara é nova, mas a alma horrenda é velha conhecida. Uma verdadeira aberração.

Diplomacia partidarizada sob encomenda - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 29/07


O governo evita qualquer condenação à Rússia e faz o mesmo com a Síria de Assad, ditador já com mais de 150 mil mortos na biografia. A ideia é fazer-se tudo que contrarie os americanos



A política externa é uma das que mais foram alteradas desde que o PT chegou ao Planalto, em janeiro de 2003. Ficou visível que o Itamaraty como instituição deixou de ter peso nas decisões, ao mesmo tempo em que uma visão de mundo condicionada por um nacionalismo de esquerda, antiamericanista, do pós-guerra, passou a ser preponderante. Foram engavetadas características da diplomacia profissional: a busca pelo equilíbrio, a não intervenção em crises políticas de outros países, o bom relacionamento com americanos e europeus, sem se afastar do mundo emergente.

O curioso é que onde se esperavam alterações de fundo, na política econômica, nada aconteceu. E ainda bem, porque foi a manutenção de princípios da administração tucana que evitou o descarrilamento da economia, atingida por uma séria crise de confiança causada pela perspectiva de chegada do próprio PT ao poder. Consta que, para manter as fileiras petistas unidas, a política externa foi cedida, em contrapartida, às frações mais à esquerda do partido.

E no momento observa-se mais um surto de esquerdização da diplomacia, quando o Planalto necessita de um PT unido, às vésperas da que deverá ser a mais árdua batalha eleitoral que o partido enfrentará, desde a vitória de Lula, em 2002.

O último sintoma do surto foi a decisão do governo Dilma de convocar o embaixador em Tel Aviv , Henrique Sardinha, “para consultas", devido ao “uso desproporcional da força” por parte de Israel em Gaza. Havia formas menos estridentes de comunicar o justificável mal-estar com as mortes de civis em Gaza — mas também sem deixar de registrar a contrariedade com os constantes ataques de foguetes feitos pelo Hamas contra cidades israelenses, incluindo, agora, Tel Aviv.

A atitude gerou a resposta, também desequilibrado, da chancelaria israelense, com o uso do deplorável termo “anão diplomático” para qualificar o Brasil. O ministro das Relação Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, embaixador de carreira, respondeu dentro dos códigos da atividade, enquanto Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência, militante petista, uma espécie de ministro das Relações Exteriores “do b", manteve o nível do porta-voz israelense, classificando-o de “sub do sub do sub do sub do sub” — copiando o ex-presidente Lula na resposta a um comentário de autoridade americana de que não gostou.

Mais uma prova de que os profissionais da diplomacia estão em segundo plano é a tíbia posição brasileira diante do ataque ao jato comercial por grupos de rebeldes ucranianos apoiados pela Rússia de Putin, outro aliado preferencial do Planalto. O avião, malaio; o míssil, russo. Morreram 298 pessoas.

O governo evita qualquer condenação à Rússia e faz o mesmo com a Síria de Assad, ditador já com mais de 150 mil mortos na biografia. O conceito é simples: faz-se tudo aquilo que contraria a política externa americana. Parece birra, mas há quem considere eficaz para conseguir votos.

Contradição econômica - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/07


Ao incentivar crédito logo após ter preferido não cortar juros, Banco Central reforça o capítulo das confusões na atual administração


Duas medidas consecutivas e com o sinal trocado reforçaram, na semana passada, os questionamentos sobre a independência do Banco Central e sua clareza ao tomar decisões relevantes para o futuro da economia brasileira.

Na última quinta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária) reconheceu que há importante desaceleração da atividade econômica, mas optou por não diminuir a taxa básica de juros (Selic), hoje em 11%. Ou seja, o órgão indicou que por ora não pretende estimular um fluxo maior de dinheiro na praça.

A justificativa foi a inflação persistente, que, nas projeções do comitê, só convergirá para a meta de 4,5% em 2016 (atualmente está em torno de 6,5%, o limite máximo estabelecido pelo próprio governo).

No dia seguinte, contudo, o Banco Central veio à carga com medidas de incentivo ao crédito, para surpresa geral dos analistas. A parcela dos recursos de clientes retida na autoridade monetária (os depósitos compulsórios) será menor. Com isso, haverá mais verba disponível para novos empréstimos.

O BC, ademais, reduziu o montante de capital exigido para empréstimos de prazo longo em modalidades como consignado (desconto em folha), compra de veículos e outros bens de consumo.

As novas regras aliviam principalmente os bancos públicos. Com a expansão acelerada na concessão de crédito nos últimos anos, começavam a esbarrar em limitações patrimoniais que os impediam de manter a mesma orientação.

Na prática, o BC reverte as restrições prudenciais que adotou em 2010, quando havia o temor de que os bancos exagerassem no volume de financiamentos e se envolvessem numa bolha --o aperto, entretanto, deixou de ser necessário.

Em conjunto, as medidas injetam cerca de R$ 45 bilhões na economia, ou perto de 3% do total de crédito existente. Nada colossal, portanto. Alguns nichos até podem melhorar, mas, ao contrário da euforia de quatro anos atrás, agora o clima é de desalento. Com clientes endividados, a demanda por crédito anda baixa.

Ainda que defensável tecnicamente, a ação do Banco Central para incentivar o crédito logo após ter deixado claro que não via espaço para juros menores soou contraditória, sobretudo por sua rapidez.

Não chega a ser surpresa. Reportagem desta Folha publicada no domingo apontou cinco ocasiões, todas nos últimos sete meses, em que o Ministério da Fazenda acabou recuando de decisões tomadas e tornadas públicas.

O Banco Central, na melhor das hipóteses, contaminou-se pelo ambiente de confusão na gestão da economia. Na pior, não consegue resistir às pressões do Planalto.

Quanto custa chegar lá - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 29/07


Foi um escândalo quando, nos anos 1990, horrorizado com a disparada dos custos das campanhas eleitorais, o governador paulista Mário Covas (1930-2001) defendeu o fim da exibição de cenas externas no horário de propaganda - cuja produção é o item singular mais caro do rol de despesas dos aspirantes a cargos executivos nos três níveis da Federação. Se dependesse dele, cada candidato usaria os seus minutos para explicar, apenas com a cara e a coragem, por que vinha pedir o voto do eleitorado. A fatura ficaria reduzida a uma sombra do que era.

Os primeiros, nem de longe os únicos, a ridicularizar a ideia foram os políticos com os bolsos decerto mais fundos do que os do tucano, ou talvez menos desconfortáveis do que ele com a servidão de retribuir, uma vez no poder, à largueza dos grandes financiadores - construtoras e bancos, notadamente. A boa vontade de seus controladores variava e jamais cessaria de variar na razão direta da expectativa de rentáveis oportunidades de produzir bens ou prestar serviços aos futuros governantes. Os valores dos depósitos, evidentemente, acompanhando à risca as variáveis chances de êxito dos principais candidatos: mais pontos nas pesquisas, doações mais gordas. Mas, se aos políticos com prósperos amigos incomodava a perspectiva de um terreno de luta aplainado praticamente por igual, outros se puseram a protestar para defender o pão doce de cada dia.

De um lado, os marqueteiros pagos com ouro em pó, por cima e não raro por debaixo dos panos, pela requisitada capacidade de transformar cada fração do tempo à disposição de seus clientes no rádio e na TV em um espetáculo de imagens gloriosas para esses e desabonadoras para os seus rivais, sem falar na transfiguração midiática dos ditos cujos - de que os mais memoráveis exemplos foram Collor, o caçador de marajás, na campanha de 1989, e o Lulinha, paz e amor, de 2002. De outro lado, mas próximos dos ases da publicidade política como a unha e a carne, os muitos profissionais envolvidos em pesquisar e interpretar não apenas as intenções de voto dos eleitores, mas também, a cada dia, as reações dos espectadores e ouvintes a cada inflexão dos programas e do desempenho dos atores em torno dos quais tudo gira.

Repassados aos marqueteiros, os resultados dessas sondagens os orientavam e aos candidatos a fazerem mais do mesmo ou mudar de rota - rigorosamente como acontece, com a mesma finalidade, nas novelas. Contra tantos interesses entrelaçados, a sugestão foi rebarbada pelos detratores. Imagine, diziam, ele quer ressuscitar a Lei Falcão, de triste memória. Ministro da Justiça no governo do general Geisel, o da abertura lenta, gradual e segura (de 1974 a 1979), Armando Falcão limitou a propaganda na TV à projeção da foto do candidato com o nome e a filiação partidária e à leitura de seu currículo. Mas Covas sabia o que dizia. A campanha nacional de 1994, que o levou ao Palácio dos Bandeirantes e o seu correligionário Fernando Henrique ao Planalto, foi a primeira em que empresas puderam financiar candidatos presidenciais.

Graças a isso, os partidos gastaram - em valores atualizados - R$ 190,4 milhões. Covas seguramente reagiria à altura de sua fama de "espanhol" se estivesse vivo para saber que agora o total das despesas oficialmente projetadas pelos 11 presidenciáveis é de R$ 916 milhões, ou quase o quíntuplo de 20 anos atrás. Em valores corrigidos, repita-se. No Brasil, o custo per capita do voto beira os US$ 11, três vezes mais do que no México, a segunda maior economia latino-americana, e pouco menos da metade do que se torra nos Estados Unidos - com a diferença de que o PIB americano é mais de 7 vezes maior que o nosso. Só há um modo de acabar com a esbórnia: acabando com as doações eleitorais de pessoas jurídicas e impondo um teto baixo às doações de pessoas físicas, as únicas que votam.

A extinção das contribuições empresariais, pedida pela OAB ao Supremo Tribunal Federal (STF), empacou. O ministro Gilmar Mendes, favorável ao status quo, pediu vista do processo quando cinco de seis de seus colegas já tinham votado pela mudança - os quatro que faltam devem acompanhá-los. Até lá, a farra continua.


A nova ameaça - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA 29/07


Nas estatísticas, os índices de desemprego continuam estáveis, mas a falta de fôlego da atividade econômica no país ao longo dos últimos anos começa a delinear uma situação que é sempre preocupante: a redução de vagas. Os resultados da última Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de junho, confirmam a manutenção da taxa de emprego. Mas, apesar desse indicador ainda se mostrar favorável, as estatísticas oficiais já revelam perda de qualidade do emprego e maior tempo de desocupação. Diante do esgotamento de alternativas como férias coletivas e banco de horas, o país precisa agir logo para evitar que a retração no emprego industrial _ recorde no Rio Grande do Sul, onde o percentual foi de 4% de janeiro a maio _ venha a se transformar em desemprego.
Em todo o país, a estimativa é de que 88 mil vagas formais tenham sido fechadas entre maio e junho na indústria, atividade responsável pelas vagas de melhor qualificação. No Estado, as admissões no setor fabril continuam superando de longe as demissões, mas a situação começou a se inverter de forma preocupante em maio e junho. Simultaneamente, as estatísticas já revelam em todo o país um aumento na precariedade do mercado de trabalho. O fenômeno é consequência da diminuição do número de empregos formais e do aumento do total de pessoas ocupadas sem carteira assinada ou que atuam por conta própria, o que é igualmente motivo para inquietação.
As razões são conhecidas. No discurso oficial, o Planalto alega que, embora a economia brasileira enfrente dificuldades, o nível de emprego se mantém. Na prática, o que os números oficiais começam a mostrar é uma deterioração acelerada da oferta de trabalho. Isso demonstra que medidas pontuais de alto custo para o país, como o estímulo fiscal a setores específicos da atividade fabril, já não conseguem mais contribuir para respostas imediatas e eficazes. Os indicadores chamam a atenção, também, para a necessidade de o Brasil enfrentar de vez os altos custos da contratação de mão de obra.
Os sinais são preocupantes, pois o pleno emprego foi uma conquista importante para o país. A busca de alternativas contra o risco de desemprego deveria envolver todos os setores da sociedade e ser desvinculada da campanha eleitoral. Todos perderão se o país entrar efetivamente numa recessão.

Reduzir e simplificar - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 29/07


No Brasil há um imenso desperdício de recursos decorrente de um sistema tributário arcaico, superado e disfuncional


O padrão de bem-estar da população depende, inicialmente, do tamanho do Produto Interno Bruto (PIB) e de como a renda nacional é distribuída entre os habitantes da nação. Em 2013, o PIB brasileiro foi de R$ 4,83 trilhões (lembrando que a renda nacional é apenas a outra face da mesma moeda e, portanto, seu valor é exatamente igual ao PIB). Esse número representa a quantidade de bens e serviços produzidos, multiplicada pelos preços de cada item. Dividindo o PIB pela população de 201 milhões (dado do IBGE referente a junho/2013), obtém-se a renda anual por habitante, a qual dá o padrão de bem-estar médio possível.

Para comparar com outros países, é necessário que as medidas sejam feitas com a mesma metodologia e na mesma moeda. Comparando Brasil e Estados Unidos, e usando o dólar como moeda básica, chega-se à renda por habitante de US$ 11 mil/ano no Brasil e US$ 53 mil/ano nos EUA. Essas cifras sugerem que o padrão de vida nos EUA é praticamente cinco vezes o do Brasil, portanto, muito melhor. Mas isso é apenas parte da verdade. Para medir o real padrão médio de bem-estar é necessário conhecer como a renda nacional é gasta e em que é gasta.

Se dois países têm a mesma renda por habitante e a mesma carga tributária como porcentual do PIB, mas um deles gasta o dobro do outro com atividades burocráticas da máquina pública, o padrão médio de vida será inferior naquele em que o governo gasta mais para fazer a mesma coisa. Se um país tem máquina pública inchada, excesso de funcionários, alto custo de seu sistema federativo (municípios, estados e União), elevados gastos para arrecadar e fiscalizar tributos e altos salários na burocracia estatal, o padrão de bem-estar de sua população será necessariamente inferior ao padrão do outro em que esse conjunto de gastos é menor.

A arrecadação tributária é destinada a sustentar a máquina de governo, os serviços públicos (incluindo as transferências de renda em aposentadorias e programas sociais), os investimentos governamentais e os juros da dívida pública. Parte desses gastos não é de benefícios diretos à população. O acréscimo de um médico em um posto de saúde ou um professor em sala de aula representa um benefício social adicional. O mesmo não vale para o acréscimo de mais um fiscal de tributos ou mais um assessor burocrático. O governo precisa de fiscais e de burocratas, isso é óbvio. O problema está no excesso, no inchaço e no tamanho desproporcional desse tipo de gasto, sobretudo quando se compara com os países desenvolvidos.

Tomando como exemplo o custo com o sistema tributário na União, nos estados e nos municípios, e lembrando que o dinheiro da tributação destina-se a prestar serviços públicos e demais gastos que beneficiem a população, quanto maior o custo da máquina de arrecadar e fiscalizar, menos dinheiro sobra para beneficiar a sociedade naquilo que é a finalidade do governo. Logo, o custo de cobrar e fiscalizar impostos deve ser o menor possível. Os economistas chamam esses ônus burocráticos de “custos de transação”, entre eles os “custos de obediência”. Um exemplo de alto custo de obediência está na reclamação constante dos empresários, afirmando que gastam demais com funcionários, sistemas tecnológicos e advogados para obedecer ao insano sistema tributário brasileiro, dinheiro que em nada ajuda a produzir bens e serviços destinados a atender às necessidades da população.

Nenhum país vive sem tributos e sem estruturas destinadas a registrar, arrecadar e fiscalizar. Entretanto, no Brasil há um imenso desperdício de recursos materiais, humanos e financeiros decorrente de um sistema tributário arcaico, superado e disfuncional. Em uma eventual reforma tributária (que nunca chega), será necessário reduzir as estruturas fiscais; diminuir o número de leis e normas; reduzir a quantidade de impostos, taxas e contribuições; simplificar o sistema de registro, pagamento e cobrança; e simplificar a forma de impor tributos sobre a produção e a renda.

É sabido que apenas essas medidas não resolverão o problema, como também não existe solução simples e fácil para o tamanho das distorções do sistema tributário brasileiro. Mas um dia o país terá de começar a consertar esse monstrengo, caso queira entrar no clube dos países desenvolvidos.

O fiasco dos incentivos - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 29/07


Mais um dado negativo - uma nova redução da atividade medida pelo Banco Central (BC) - reforça as apostas em um mau resultado em 2013. Em mais um ano de baixo desempenho, a economia brasileira deve ter crescido entre 1,9% e 2,3%, segundo as melhores projeções conhecidas até agora. Nada, por enquanto, permite uma avaliação mais otimista. As últimas informações cobrem o período até novembro e reforçam as apostas em um número final pífio. Em novembro, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) foi 0,31% menor que em outubro e 1,94% maior que um ano antes, nas séries com desconto dos fatores sazonais. O crescimento acumulado em 12 meses chegou a 2,61%. O IBC-Br é considerado uma prévia, embora imperfeita, do Produto Interno Bruto (PIB). As contas nacionais de 2013, com os dados finais do PIB, só serão publicadas em 27 de fevereiro, segundo a pauta do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O recuo da atividade apontado pelo BC combina com os últimos números da indústria divulgados neste mês. O setor industrial - em outros tempos o mais dinâmico da economia brasileira - perdeu vigor nos últimos anos, ficou estagnado nos três anos deste governo e perdeu espaço tanto no exterior quanto no mercado interno. Os dados mais novos confirmam as dificuldades de recuperação do setor. A produção industrial diminuiu 0,2% de outubro para novembro, ficou 0,4% acima da observada um ano antes e cresceu 1,1% em 12 meses.

A pesquisa mensal da Confederação Nacional da Indústria (CNI) proporciona uma perspectiva a mais para o exame do fraco desempenho do setor. O faturamento real, isto é, descontada a inflação, caiu 7,2% de outubro para novembro. As horas de trabalho diminuíram 5,3% e o emprego encolheu 0,4%, mas a massa de salários reais aumentou 5,9% e o rendimento médio real dos trabalhadores, 6,3%. A combinação dos dados pode parecer estranha, à primeira vista, mas a maior parte do mistério logo se dissipa.

Apesar do recuo em novembro, o faturamento real de janeiro a novembro foi 4% maior que o do período correspondente de 2012. A explicação deve ser dada principalmente por um aumento de preços bem superior à média observada nos demais setores. A segunda prévia do IGPM de janeiro, publicada sexta-feira, apontou uma alta de 8,09% para os produtos industriais no atacado. No mesmo período, a alta geral dos preços por atacado ficou em 5,38%, e os preços dos produtos agropecuários diminuíram 1,32%. O mistério parece resolvido, embora os últimos dados do IGPM e da pesquisa mensal da CNI cubram períodos com diferença de um mês e meio.

Há um evidente descompasso entre a evolução do faturamento e a de outros indicadores de atividade. Enquanto a receita aumentou 4%, o número de horas de trabalho na produção ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% quando se comparam os períodos janeiro-novembro de 2013 e 2012. Além disso, o uso da capacidade instalada, embora tenha aumentado 0,5% durante o ano, oscilou ao longo de 2013 e caiu 0,2% de outubro para novembro. Neste mês ficou em 82%, descontados os fatores sazonais. Um ano antes estava em 82,4%.

A massa real de salários entre janeiro e novembro foi 2% maior que a de um ano antes. O salário médio real, 1,2% superior ao de igual período de 2012. Os ganhos salariais continuaram, portanto, com a média inflada pelos grandes aumentos concentrados em alguns setores, como o da indústria de derivados de petróleo e biocombustíveis (19,9%) e de produtos químicos (23,2%). Em 11 dos 21 segmentos cobertos pela pesquisa o salário médio real encolheu. Em outros 3 o aumento real foi inferior a 1%. Esse quadro é explicável em parte pela inflação e em parte pelo crescimento moderado do emprego. Em 8 dos 21 segmentos houve redução do pessoal empregado.

Os dados da CNI referem-se apenas à indústria de transformação. Na indústria geral, segundo o IBGE, entre janeiro e novembro o pessoal ocupado foi 1,1% menor que em igual período de um ano antes. É evidente o fracasso da política de estímulos à indústria e à recuperação econômica.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O que são dez mil reais?”
Presidente Dilma, desdenhando o valor que renderia por ano caso aplicasse o seu dinheiro na poupança



LULA USA TÁTICA DE DILMA PARA PROTEGER ‘OLHEIRO’

Do mesmo jeito que a presidente Dilma usou a mídia para queimar os homens de Lula – Gilberto Carvalho e Franklin Martins –, o ex-presidente usou a mesma tática. Partiu dele a iniciativa de criticar atitude de Aloizio Mercadante (Casa Civil) com o secretário-geral Gilberto Carvalho, seu olheiro no Planalto. E Lula já avisou: se a fritura de Gilberto e Franklin não parar, ele dará entrevista que criará problemas à reeleição de Dilma.

GULOSO

Lula anda irritado com a gula de Mercadante por poder no Planalto, e com a omissão de Dilma, que não dá um “chega pra lá” no ministro.

DÉJÀ VU

O atual ocupante da Casa Civil tem mais influência nas decisões do que José Dirceu nos seus melhores dias. E isso é um perigo, prega Lula.

FOGO AMIGO

Mercadante chegou a sondar nomes para substituir Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral da Presidência, mas Lula abortou a operação.

NÃO PERDOA

A presidente Dilma não engole Gilberto Carvalho, que declarou que as vaias dirigidas a ela na abertura da Copa não partiram só da elite.

MINISTROS DO STF DUVIDAM DA RENÚNCIA

Como já adiou uma vez a sua aposentadoria, o ministro Joaquim Barbosa caiu na desconfiança de colegas do Supremo Tribunal Federal, que já duvidam se ele renunciará mesmo na sexta (1º) ou continuará na presidência até novembro, quando termina o seu mandato. A única certeza dos ministros é que Joaquim não aceita se submeter ao comando do seu principal desafeto, o atual vice-presidente Ricardo Lewandowski.

FIM DO ÓCIO

As férias do presidente do STF, Joaquim Barbosa, terminam na sexta (1º). Durante o período, ele curtiu o ócio no Rio, onde tem apartamento.

ELE É CARIOCA

Barbosa circulou pela Lapa – sempre cercado de seguranças – e foi até a lançamento de livro do Corinthians na livraria Travessa, no Rio.

HORA DA VERDADE

A aposentadoria de Barbosa está prevista para sair no Diário Oficial da União no próximo dia 6, mesmo dia em que o STF volta aos trabalhos.

NADA DE REAÇÃO

A presidente Dilma mandou o marqueteiro João Santana – responsável por sua campanha à reeleição – apanhar calado e não partir para o ataque contra os desafetos Duda Mendonça e Franklin Martins.

PAGAM O PATO

A cúpula do PMDB acha que tanto Paulo Skaf quanto Alexandre Padilha (PT) serão prejudicados pela briga entre os marqueteiros Duda Mendonça e João Santana. Sem estratégia de grupo, é difícil levar a eleição a 2º turno.

UNIÃO FEZ A FORÇA

Dirigentes do PMDB veem nas eleições ao governo paulista um espelho da briga pela prefeitura em 2012, quando Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB) se uniram para liquidar Celso Russomanno (PRB).

DESLOCADO

Candidato ao governo do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB) bem que se esforça para enturmar o seu candidato ao Senado, César Maia (DEM), com a equipe de campanha, mas o ex-prefeito não relaxa.

BOQUINHA

O PT baiano já dá como certo que Dilma nomeará Marcelo Junqueira Ayres Filho, genro do senador Walter Pinheiro (PT-BA), para o TRE da Bahia. Mas só depois das eleições.

DUAS CARAS

Candidato ao Senado, Geddel Vieira (PMDB) cobra coerência do PT, que considera séria pesquisa do Ibope que põe Dilma na dianteira, mas não admite quando o instituto mostra petistas “embaixo de peia” na Bahia.

FIM DO CICLO

O senador Ricardo Ferraço (PMDB) prevê tempos difíceis para Dilma no Espírito Santo: “Lá, faremos a nossa parte. Que os outros estados façam o mesmo”. Todo esse otimismo se refere a impedir a reeleição da petista.

ESCOLA

Não é novidade o nepotismo do senador Ivo Cassol (PP-RO), que cravou a irmã e a mulher em disputas majoritárias. Há quatro anos, ele fez do pai Reditário primeiro suplente, que chegou a assumir o Senado por 121 dias.

PENSANDO BEM...

... a coisa está tão feia no Distrito Federal que votos inválidos levariam ao 2º turno, e candidato do PCO tem 2,4% em pesquisa eleitoral (DF 18/2014 – TRE).


PODER SEM PUDOR

FAÇA O QUE DIGO

O ex-presidente José Sarney, que não é dado a brigar com ninguém, passou vários anos sem dirigir a palavra a outro ex-presidente, Jânio Quadros.

Tudo começou em 1978, quando o Congresso discutia um projeto concedendo pensão vitalícia aos ex-presidentes da República. Sarney era o relator do projeto no Senado, e foi procurado por Jânio:

- Considero odioso e discriminatório o artigo que exclui desse benefício os ex-presidentes que tiveram decretada a perda dos direitos políticos.

Sarney achou que Jânio tinha razão e excluiu o dispositivo. Meses depois, o mesmo Jânio Quadros concedeu uma entrevista em que atacava a pensão, a que chamou de "mordomia". A briga só acabaria em 1985, com a morte de Tancredo Neves.