quarta-feira, abril 18, 2012

Sobre heróis e tubas - ANTONIO PRATA


FOLHA DE SP - 18/04/12

Ninguém escolhe a tuba; o cara devia almejar o saxofone, a guitarra, mas chegou atrasado à aula de música

ALI ESTAVA ele, segurando sua tuba; ali estava eu, a observá-lo. Não, não éramos só nós dois: ao meu redor, na plateia, havia centenas de pessoas; no palco, junto a ele, toda a orquestra, mas aos poucos, logo após a assombrosa constatação de que no cosmos, entre cometas e guerras civis, bromélias e ortodontistas, há também tubas e tubistas, os músicos e o público foram gradualmente se apagando de minhas retinas, até que ficássemos só eu e aquele homem -baixinho, meio careca, bochechudo-, lendo a partitura e esperando o momento de tocar seu desengonçado instrumento.

Impossível não se perguntar: que soma de escolhas, acasos, sortes e azares haviam feito com que o sujeito viesse a ganhar a vida assoprando o ar de seus pulmões pelos intestinos daquele luminescente alambique, até sair em forma de cômicas flatulências pelo enorme lírio metálico?

Convenhamos: ninguém escolhe a tuba. Nenhuma criança se senta à mesa do café e comunica: "Mamãe, papai, desisti de ser astronauta, agora quero ser tubista!". A tuba é um acidente de percurso. O cara devia almejar o saxofone, a bateria, a guitarra, mas chegou atrasado à primeira aula de música, todos os instrumentos já haviam sido escolhidos, sobrou apenas a tuba e -fazer o quê?-, se só tem tuba, vai tu mesmo.

Lembrei dos recreios no ginásio. Dois garotos selecionavam os jogadores dos seus times e eu, sempre um dos últimos a ser escalado, invariavelmente acabava como goleiro. Como goleiro, aquele sujeito também ficava no fundo, também passava longos períodos inerte: os violinos, sempre requisitados, correm como artilheiros, o contrabaixo e o piano, no meio-campo, fazem a ponte incessante entre a defesa e o ataque, mas meu companheiro permanecia em silêncio, solitário em sua espera, uma parte de seu cérebro acompanhando a partitura, outra pensando nas contas a pagar, no carro novo do cunhado, nos peitos da Scarlett Johansson.

Os goleiros correm menos, mas correm: pois uma hora também chegou a vez do tubista; ele pôs a boca na palheta, arqueou as sobrancelhas e mandou uma meia dúzia de fons, funs e fãns. Ao ouvir aquelas poucas notas, caro leitor, um curioso processo ocorreu: toda a pena que eu sentia se foi e eu ri. Não da tuba, mas dos outros instrumentos que, subitamente, passaram a exibir-me suas ridículas pretensões. Os petulantes violinos, os pedantes violoncelos, a harpa -meu Deus! A harpa! Quem ela pensa que é?!-: todos aspiram a outras realidades, buscam a transcendência. Só a tuba, em seu cômico desconjunto, é sincera. Como seus companheiros Chaplin e Mr. Hulot, Sancho Pança e Dom Quixote, não busca a piada fácil e estridente, de caixa e prato, mas faz um humor grave, capaz de nos mostrar o avesso do mundo sem um sorriso no rosto. Em sua compleição, caçoa do engenho humano: tantas contorções pra tão pouco! Cruzamento de ganso com locomotiva, sua solar epiderme não esconde a alma de hipopótamo. E o que é um solo de tuba senão a dança dos hipopótamos, de colares havaianos, em "Fantasia"? Pesados, desengonçados, feios: e, no entanto, dançam.

Quando eu crescer, quero ser tubista.

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