quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Questão de autoridade - ROGÉRIO GENTILE


FOLHA DE SP - 02/02/12


SÃO PAULO - "Ninguém vai me fazer refém dentro do meu gabinete." Geraldo Alckmin, pelo jeito, se esqueceu da lição que ouviu em 2000 de Mário Covas, seu padrinho polí tico, quando o então governador paulista foi questionado por jornalistas sobre o motivo de ter ido à sede da Secretaria da Educação, mes mo sabendo que havia um protesto de professores no local.

Diferentemente de Covas, Alckmin (PSDB) modificou por duas vezes nos últimos dias sua agenda a fim de se desviar -para usar um eufemismo- de manifestantes.

Primeiro, deixou de participar da missa na catedral da Sé pelo aniversário da cidade, ao saber que estava previsto um ato contra a reintegração de posse do Pinheirinho, em São José dos Campos. Achou melhor solicitar ao seu vice, Guilherme Afif, que o representasse. Foi na saída dessa missa que o prefeito Kassab acabou virando alvo de ovadas e palavrões.

Depois, Alckmin preferiu faltar à inauguração da nova sede do MAC (Museu de Arte Contemporânea da USP), um dos principais projetos de seu governo na área da cultura, por temer um novo protesto. Andrea Matarazzo, seu secretário, pagou o pato, sendo alvejado por frutas e legumes.

É óbvio que ninguém precisa bancar o machão, como Covas, que, à época dos protestos, resolveu intempestivamente furar o cerco organizado pelos professores acampados na frente da Secretaria da Educação, na praça da República, e acabou covardemente agredido. Mas será que simplesmente abdicar de seus compromissos resolve o problema?

Como já é praxe no Brasil, em ano de eleição, os protestos ditos populares se multiplicam, instrumentalizados por partidos políticos. Manifestações pacíficas fazem parte do jogo. As agressivas, claro, são um problema para a polícia resolver.

Se optar simplesmente por evitá-las, Alckmin corre o risco de se apequenar no cargo e acabar como uma espécie de anti-Covas, sem poder sair do seu próprio gabinete.

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