quarta-feira, junho 08, 2011

LYA LUFT - Conceito e preconceito


Conceito e preconceito
LYA LUFT
Revista Veja 

Preconceito e campanhas antipreconceito são o item da moda. Porque tudo é moda, mania, às vezes obsessão passageira. Sempre, também em meus romances e contos, combati preconceito: contra os de pele diferente ou outros olhos, cabelo assim ou assado, baixinhos, gordos, menos inteligentes, com qualquer dificuldade física ou lesão mental, ou jeito de amar. Preconceito é inato no ser humano, nasce do medo do diferente, exige lucidez e esforço para ser vencido. Em meu mais recente livro, A Riqueza do Mundo, tenho um capitulo inteiro falando nisso. Se alguém diz que "brancos de olhos azuis" são responsáveis por problemas do país, eu me sinto grandemente atacada. Não posso ser questionada porque há quase três séculos meus antepassados vieram da Europa, não da África, e também não eram índios.

Não acredito em campanhas governamentais pró-anti-qualquer preconceito. Penso que o governo não deve fazer campanhas nesse sentido, mas garantir, de saída e por princípio, o direito de qualquer pessoa ao respeito e dignidade próprios, em todas as questões, desde comida, saúde, escola, moradia, até privacidade e intimidade. Aos diferentes sobrerudo, mas a questão inicial é: quem estabelece o padrão do "diferente", e "diferente" do quê? Aliás, nossa intimidade anda em segundo plano nesta sociedade, nesta cultura do escrachado, da calça arriada, do olhar devassador (e devastador) estimulado pela internet que eu tanto uso com outros fins.

Por que não tentamos ser simplesmente naturais? Por que achar que somos melhores que os outros, que nossas ideias, postura ou tendências são as que todos deviam seguir? Por que não aceitamos o outro como ele é, quem sabe gago, tímido, gordo, baixo, alto demais, magro demais, talvez lento de raciocínio, possivelmente de outra raça ou credo, ou pobre, ou amando lá do seu jeito? Sem o tratar como coitadinho, que é o que em geral as campanhas fazem - algumas bem - intencionadas. Posso estar errada. Muitas vezes me engano. Não tenho todas as informações. Mas tenho voz nesta coluna, então tento partilhar minhas inquietações. Por isso, aliás, escrevo.

Precisamos preparar nossas crianças, em casa - onde tudo começa, repito mais uma vez, eu que sou repetidora do que me apaixona ou assusta -, na escola, nos grupos, mesmo na universidade, para a aceitação, a parceria em relação a tudo e todos - menos o crime, a corrupção, o mau caráter, o cinismo e a violência. Isto deveria ser natural, até banal, cotidiano, caseiro, constante: respeitar o outro. E começar respeitando a si próprio, sua dignidade, seu corpo, sua natureza, suas possibilidades. Suas dificuldades.

De propósito não estou me prendendo a questões de orientação sexual, mas a tudo: assexuados, sexuados demais, pobres, ricos, obtusos ou de cérebros sofisticados, com tênis de grife ou cambaios, de pele escura ou clarinha - filhos de doutor ou de catador -, todos somos pobres humanos querendo apoio e valorização, tantas vezes submetidos a interesses não confessados de quem no fundo está desinteressado ou expostos à futilidade alheia. A vida já é bem difícil, sobretudo para os jovens que entram neste mundo atrapalhado no qual alguns ditam as regras (que muitas vezes eles mesmos não seguem), comandam o circo, enveredam por caminhos sem conhecer direito o destino e inventam modas sem saber as consequências. O poder, o mando, são pesada carga. Deviam nos fazer, a cada passo, parar um pouco para refletir: sei do que estou falando, conheço o que estou ordenando, entendi qual será o efeito disso que permito ou que estimulo em cada momento?

Não é difícil iniciar e comandar alguma campanha. Há quem grite que não se deve ter "nenhum preconceito, contra coisa nenhuma". Vamos com calma. Não se pode igualar tudo. Não simpatizo com o dono da verdade, o libertário sem causa, o herói sem preconceitos, o discurso fácil. Eu, sinceramente, tenho - mantenho - preconceito contra algumas coisas: a desonestidade. a arrogância, a irresponsabilidade, o culto do poder estão entre elas.

ELIANE CANTANHÊDE - A líder sumiu


A líder sumiu
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA ONLINE

Vamos pensar positivamente? Dilma sai enfraquecida e zonza da crise Palocci, mas tem pelo menos um grande trunfo: tudo foi muito cedo, ainda no primeiro semestre de governo, e a tempo de tirar várias lições do vendaval e aprender sobretudo com os seus próprios erros.

O pecado original foi destacar para o cargo mais importante do governo justamente um sujeito de precedentes nada recomendáveis. A crise, portanto, tinha um intrigante lado de previsibilidade. E, apesar da versão do Planalto e dos governistas, não é uma crise só política. É, antes de tudo, uma crise ética.

Cá para nós, Antonio Palocci é provavelmente o único ministro todo-poderoso que consegue cair duas vezes, uma no governo Lula, outra no governo Dilma. E, em ambos, ocupou funções decisivas. Logo, as quedas foram estrondosas.

Mas, além disso, Dilma errou ao desdenhar da política, trancar-se nos palácios, deixar a coisa correr muito frouxa entre aliados. Com aliados como esses, nunca é bom brincar em serviço. O resultado é que a crise ética de Palocci rapidamente descambou para a política: o PT se engalfinhou com o PT, o PT se engalfinhou com o PMDB, o PMDB se engalfinhou com o Palácio do Planalto... Virou uma bagunça.

Dilma, portanto, tem de aproveitar a queda de Palocci para ajustar muita coisa. A escolha da senadora Gleisi Hoffman, do PT do Paraná, é um ótimo começo --ou recomeço. Gleisi, advogada com especialização em gestão e em finanças, ocupou secretarias em Mato Grosso do Sul e a diretoria financeira da poderosa Itaipu Binacional.

Ela é uma mulher inteligente, preparada, aplicada e que vinha sendo elogiada a torto e a direito na sua estreia no Senado. E é, evidentemente, uma novidade na política. O PT anda precisando desesperadamente de boas novidades. A própria política nacional, também.

Agora, é compor o resto do tabuleiro político, fortalecendo ministro das Relações Institucionais, seja ele quem for (desde que experiente, hábil e com acesso direto a Dilma), azeitando as lideranças no Congresso e chacoalhando o PT. O líder do governo tem de parar de viver às turras com o do PT, que tem de parar de viver às turras com o do PMDB e assim por diante.

Mas, para isso tudo, é preciso um líder. Ou melhor, uma líder. E falta a Dilma até agora exatamente isso: o papel de liderança.

ANTONIO PRATA - Depois do açougue, antes da banca


Depois do açougue, antes da banca
ANTONIO PRATA 
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/11

Não está longe o dia em que o brasileiro deixará de dar informações de trânsito com tanto júbilo


SE TEM uma coisa que o brasileiro gosta é de ensinar um caminho. Pode reparar: você encosta o carro no meio fio, diz "ei, amigo, p'favor, sabe onde fica a rua Fulano de Tal?", e, passado aquele sustinho inicial, o patrício se entrega, de corpo e alma, ao discurso e à gesticulação.
Por ser a informação no trânsito, entre nós, quase um ritual, segue um elaborado protocolo. Começa com a análise do pedido: o sujeito ouve o nome da rua, endireita a postura, limpa a garganta e repete, com a cabeça levemente erguida, os olhos semicerrados, vasculhando os mapas da memória: "Rua Fulano de Tal...
Rua Fulano de Tal...". Abre então os olhos, enche o peito, apoia uma mão no carro, a outra, com o indicador fazendo jus ao nome, aponta o horizonte e, com método e seriedade, começa a explanação: "Amigão, cê vai ter que fazer o seguinte...". Terminado o colóquio, ele te toma a lição, repetindo os pontos mais traiçoeiros: "Cê entendeu, né? O cotovelo é depois do açougue, antes da banca, tá? Não tem erro!".
Ouso dizer, sem querer desmerecer-nos tampouco falar mal dos outros, que nos países ditos "desenvolvidos" não se encontra essa genuína alegria auxiliatória. Não é que no "primeiro mundo" todos sejam antipáticos. Muito pelo contrário. Já perguntei caminhos nos EUA, na Inglaterra e na Holanda e fui muito bem tratado. Mas lá onde a grama é verde e os ônibus passam na hora marcada, você repara que a gentileza é uma imposição da cultura sobre o mau-humor natural do indivíduo: no fundo, o cidadão preferia não ter sido importunado em sua caminhada. Afinal de contas, qual o propósito de todo o processo civilizatório, com seus exércitos e carimbos, constrangimentos e premiações, senão garantir que as pessoas não encham muito o saco umas das outras, que cada um possa tocar a sua vida como queira, sem esbarrar nas arestas alheias? Aí vem um sujeito desgovernado, "Hello, monsiuer, s'il vous plaît, dónde está la estación?" e pronto, bagunça-se o coreto.
Já em nossa "pátria tão despatriada", é diferente. Aqui, a civilização nunca desfez as malas. Vamos por aí meio assustados, uma mão na frente e outra atrás, a desconfiança no canto dos olhos, esperando a bala perdida, o sequestro relâmpago, a enchente, o insulto.
Quando surge, portanto, um "ei, amigo, p'favor", não encaramos co-mo um desvio na organização, um imprevisto atrapalhando nosso bem traçado plano. É o contrário: uma proposta de parceria no meio desta barafunda. Um ponto de inflexão no desmantelo. Enquanto estamos ali, dizendo ou ouvindo "direita", "esquerda", "segundo farol, faz o contorno", abrimos uma tênue brecha na guerra de todos contra todos, escrevemos, por linhas tortas, um rascunho de contrato social.
Se tudo der certo e minha sociologia de botequim estiver correta, não está longe o dia em que o brasileiro, bem alimentado, educado, assistido e organizado, deixará de dar informações com tanto júbilo. Não lamentemos. Talvez a perda da espontaneidade seja um efeito colateral inseparável do desenvolvimento, e é aceitável um pouco de mau-humor, se cada um puder escolher o seu próprio caminho.

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO - Emenda Peluso e direito de defesa


Emenda Peluso e direito de defesa
ALMIR PAZZIANOTTO PINTO
O Estado de S.Paulo - 08/06/11

Em meio à polêmica desencadeada pelo projeto de novo Código de Processo Civil, o exmo. sr. presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Cezar Peluso, sugere emenda à Constituição que visa a permitir a execução imediata e definitiva de decisões judiciais de segundo grau, mesmo pendentes de julgamento recurso especial no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou extraordinário no STF.

Na hipótese de promulgação, as partes em litígio terão amputado o direito ao "contraditório e amplo direito de defesa, com os meios e recursos a ela inerentes", em nome da bandeira da celeridade desfraldada por Sua Excelência após assumir a presidência do STF. A morosidade jamais foi objeto de defesa. Imprensa, advogados, membros do Ministério Público, juízes, ministros dos tribunais superiores e do Supremo apregoam a necessidade de se imprimir rapidez aos processos. A dificuldade está na combinação da celeridade com o direito de defesa e em fazer que magistrados, desde o primeiro ao máximo grau, velem pela rapidez, a começar pelos respectivos gabinetes.

O Código de Processo Civil de 1939, obra magistral de Pedro Batista Martins, livrou o processo civil de minúcias legadas pelas Ordenações Filipinas. Foi substituído pelo código de 1973, elaborado pelo professor Alfredo Buzaid. Costuma-se dizer que o Código Buzaid foi escrito para advogados. Ainda que verdadeira, a afirmação não o desmereceria. Aos advogados, indispensáveis à administração da Justiça (Constituição da República, artigo 133), cabe a missão de expor a causa ao juiz, fundamentá-la e convencê-lo de que o bom direito é o do cliente.

A frondosa árvore do Judiciário cinde-se, grosso modo, em dois grandes ramos: o dos juízes e tribunais dos Estados e o dos juízes e tribunais federais. À esfera da Justiça Federal pertence a Justiça do Trabalho. Por princípio deve ser observado o duplo grau de jurisdição, encerrando-se na segunda instância o reexame de matéria fático-probatória.

Acima da Justiça dos Estados e dos Tribunais Regionais Federais paira o Superior Tribunal de Justiça, ao qual compete "julgar, em recurso especial, as causas decididas em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou tribunais dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios, quando a decisão recorrida (...) der à lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal". Tal como sucede com o Tribunal Superior do Trabalho (TST), o STJ é Corte consagrada à uniformização da jurisprudência. Não lhe cabe debruçar-se sobre depoimentos pessoais, testemunhais e documentos para decidir sobre acerto ou erro em matéria fática. As responsabilidades são outras, entre elas, preservar o respeito à Constituição e à legislação federal e assegurar harmonia entre julgados conflitantes, originários de distintos Tribunais Regionais Federais, ou do Trabalho.

O Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do Trabalho são compostos, respectivamente, por 33 e 27 ministros, os quais julgam divididos em turmas e seções especializadas. Disso se segue que o recurso especial e o de revista percorrem tramitação complexa dentro de uma única Corte, até serem julgados de maneira definitiva. Na realidade, não temos quatro instâncias, mas cinco e às vezes seis, e cada julgamento depende da maneira de proceder de cada ministro. Há os de estilo objetivo e direto, ao passo que outros consomem meses e anos em filigranas, desprezando o fator tempo.

À medida que as partes impulsionam a causa às instâncias superiores, os gargalos afunilam-se, os requisitos de admissibilidade tornam-se rigorosos, as chances de o vencido obter sucesso reduzem-se. O menor número de demandas no STJ, como no TST e no STF, resulta de obstáculos legais à interminável reapreciação do feito. O Relatório Geral da Justiça do Trabalho relativo a 2009, por exemplo, revela que, nesse ano, foram ajuizados 2.107.445 dissídios individuais e coletivos, dos quais cerca de 50% se encerraram mediante conciliação. Aos 24 Tribunais Regionais subiram 537.448 e ao TST, 157.335. Isso significa que aproximadamente 7% atingem a derradeira instância. A quantidade mais diminui quando pesquisamos os recursos extraordinários impetrados, no TST, ao Supremo: cerca de mil por mês ou 12 mil ao ano.

O provimento dos recursos pode ser considerado mínimo diante do volume representado pelos que conseguem galgar os degraus superiores da escada. Disso não se deve concluir que sejam inúteis ou revestidos de intuito meramente protelatório. Como antigo advogado e ex-juiz, sei que são frequentes as situações em que a correta qualificação jurídica do caso foi alcançada quando as esperanças se achavam quase perdidas.

Ao dispor sobre recursos, a Constituição federal não o fez para serem figuras decorativas. Teria sido mais apropriado e elegante se a Emenda Peluso propusesse diretamente, sem tergiversar, a revogação do inciso III do artigo 102 e a do inciso III do artigo 105, pois, de qualquer maneira, se promulgada, tornar-se-ão letra morta.

Se a "nenhum título será concedido efeito suspensivo aos recursos", causa-me certa perplexidade que se permita ao relator, "se for o caso", pedir preferência de julgamento. A medida talvez nunca venha a ser deferida àquele anônimo advogado do interior remoto, para quem Brasília é Olimpo inacessível.

Atribuir ao recurso especial e ao extraordinário a culpa pela morosidade, com todo o respeito, sugere isolamento do mundo real.

O Estado de S. Paulo está sob censura judicial há quase dois anos. A responsabilidade cabe à lei ou à morosidade do juiz que retém o processo?

MARCELO COELHO - O leão e a minissaia


O leão e a minissaia
MARCELO COELHO 
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/11

Acontece que o "machão" sente-se pessoalmente interpelado pela minissaia de uma mulher belíssima


POR MAIS opostas que sejam, manifestações e marchas em defesa disso ou daquilo têm pelo menos uma coisa em comum: suas palavras de ordem são bastante previsíveis.
Um movimento por maiores salários de professores certamente terá cartazes dizendo "reajuste já", ou coisa parecida. Se for contra a presença americana no Iraque, o velho "yankee go home" e suas variantes terão de aparecer.
Uma manifestação contra a homofobia terá, aposto, placas de "abaixo a homofobia". Você pode ser contra ou a favor, mas dificilmente uma frase de passeata vai ajudar você a mudar de opinião.
Vi na internet várias fotos da chamada "Marcha das Vagabundas", ou "Marcha das Vadias" (qual será o correto?), ocorrida sábado passado em São Paulo.
Ali, aconteceu uma coisa rara. Slogans criativos e frases que, a mim pelo menos, fizeram pensar.
O movimento afirma o direito de as mulheres se vestirem de modo "provocante" (e o termo já assume agora conotações machistas para mim), sem terem de passar por constrangimentos ou coisa pior.
Eis o que dizia um dos cartazes da marcha: "Acredite ou não, minha saia curta não tem NADA a ver com você".
A ficha caiu, não sem alguns arranhões internos, no meu cérebro de meia-idade.
Nada a ver comigo? Nada mesmo? Rememorei brevemente várias das saias curtas que vi ao longo da vida. E era verdade: por mais que eu quisesse, não queriam nada comigo. Fui ignorado, fui desprezado na maior parte das vezes; confesso que frequentemente tomei isso como ofensa pessoal.
Minha reação, na teoria pelo menos, foi reagir como todo machista padrão. "Se elas se vestem assim, como é que não querem que eu me interesse?"
Mas a ficha, ao cair, deu sua resposta a essa questão. Há muitas razões, fiquei pensando, para uma mulher usar uma minissaia espetacular. Pode estar se mostrando linda para o namorado, para ela mesma, ou para o mundo -o mundo em geral...
Acontece que o "machão", ou, arrisco-me a dizer, a maioria dos homens, sente-se pessoalmente interpelado pela minissaia da mulher belíssima. "É comigo", pensa ele. "Afinal, não sou o centro do mundo?"
Não é um jogo de palavras dizer que, ao longo de séculos, o homem se viu sempre na situação de "sujeito" das ações, de "sujeito" da frase. Na maioria das vezes, e quase automaticamente, quem dizia "eu" já estava ocupando a posição masculina.
Eu te quero, eu te amo, eu vou, eu faço, eu digo. Você diz sim, você dá, você fica, você ouve, você obedece. Alguma dúvida de que, ainda hoje, associamos esse "eu" ao homem, e esse "você" à mulher?
O slogan da marcha foi eficaz, acho, porque seguiu precisamente o modelo da "interpelação". O homem que se sente interpelado pela minissaia foi, agora, interpelado pelo slogan: a minissaia não tem nada a ver COM VOCÊ.
O "sujeito-macho" ainda tem, contudo, uma resposta alternativa. Não, nunca me senti o centro do mundo, não acho que a minissaia traga alguma mensagem específica para mim.
O problema é que, ora bolas, não sou apenas um sujeito individual. Sou um sujeito "da espécie" masculina. Um internauta, citado no blog "Escreva Lola escreva", argumenta nesses termos.
Imagine que um leão faminto se vê, de repente, diante de uma picanha. Pior: que alguém ofereça a picanha para ele. Seria pedir demais que ele dominasse os seus instintos e "respeitasse" a picanha.
Há diversas respostas a essa linha de argumentação, a começar pela de que somos seres humanos (e não leões) exatamente porque domamos o instinto sexual e o de sobrevivência. Não fosse assim, faríamos sexo com pai, mãe, irmãos e irmãs, e todos se matariam depois.
O principal, contudo, está no fato de que o raciocínio pressupõe que homens e mulheres são espécies biológicas diferentes. Predador e presa, leão e gazela.
Mais ainda: sempre desconfio quando alguém se diz dotado de instintos poderosíssimos. Ele os governa, claro, senão já teria sido preso. E pode até ser que ele, no fundo, duvide de seus superpoderes. A cada minissaia que ele não agarra, sente-se menos macho do que gostaria.
O leão faminto nem sempre está com seus dentes muito afiados. A minissaia sabe disso também -e provavelmente é por esse motivo que o leão a xinga tanto.

JOSÉ NÊUMANNE - Chutar o balde da ética e pisar na jaca da gestão


Chutar o balde da ética e pisar na jaca da gestão
JOSÉ NÊUMANNE 
O Estado de S.Paulo - 08/06/11

Vão muito além das licenciosidades com a regência verbal cometidas no texto da professora Heloísa Ramos no compêndio Por uma Vida Melhor os desafios enfrentados pela "última flor do Lácio, inculta e bela" mercê da novilíngua implantada pelos militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Ainda não deu para perceber direito, mas o recente escândalo do recorde de velocidade de enriquecimento pessoal e desempenho empresarial que derrubou Antônio Palocci da chefia da Casa Civil exigiu um esforço criativo extraordinário para definir em palavras, ou expressões, e explicar com base em conceitos republicanos nos textos o êxito de Sua Excelência como consultor. Não há verbos disponíveis para dar cabo da frequência com que o ex-poderoso varão foi acusado à exaustão de repetir práticas inconvenientes. Nem adjetivos que possam sintetizar o eterno retorno dele, que certamente embatucaria Heráclito de Éfeso, ao mesmo local do, digamos, "descuido".

O doutor foi guerrilheiro, mas não há notícia de memoráveis feitos militares em sua juventude. Mais notoriedade ganhou quando foi acusado pelo ex-assessor Rogério Buratti de ter recebido propina mensal de R$ 50 mil da empresa Leão&Leão em troca de favorecimento da mesma em licitações em sua primeira gestão na prefeitura de Ribeirão Preto, de 1992 a 1996. Médico sanitarista de ofício, destacou-se na República como fiador do compromisso do candidato do PT à Presidência da República pela quarta vez consecutiva, em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva, com a estabilidade financeira e o rigor fiscal. Guindado à cúpula da campanha vitoriosa e, depois, feito todo-poderoso ministro da Economia no primeiro mandato presidencial do ex-líder metalúrgico, foi apontado como um dos frequentadores de uma mansão alugada para promover festas e outras atividades estranhas à gestão econômica. Negou sua presença, mas caiu no descrédito quando ela foi atestada pelo caseiro Francenildo Santos Costa. A acusação de ilícito aposentou o verbo reincidir para definir o feito. O prefixo re, usado para denotar repetição, já não se adequava à tentativa de desqualificar o depoimento da testemunha, crime contra o mais sagrado direito da cidadania, a igualdade. A cruel lambança valeu-lhe cargo e poder, mas não lhe custou pena alguma.

Os antigos romanos, dos quais os modernos petistas apreciam além da conta o conceito conveniente de que a dúvida sempre beneficia o réu, no caso destes apenas os réus companheiros (aos adversários eles reservam o agravamento da suspeita para a culpa), diziam há 2 mil anos que "errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico". Não passou pela cabeça privilegiada dos varões de Plutarco que uma pessoa honrada viesse a cometer o terceiro erro consecutivo, não por acreditarem no primado da virtude sobre a tentação do pecado, mas por se sentirem protegidos pela instituição sagrada da res publica (coisa pública). De patrício nenhum se admitia que fosse mais diabólico do que o próprio diabo ao se negar a preferir o erro ao acerto mais de uma vez.

Os súditos de Júlio César, de cuja mulher se exigia que parecesse honesta, não bastando sê-lo, não tiveram premonição nem imaginação suficientes para prover os costumes políticos de um brocardo próprio para os maiorais da República lulopetista. Estes reivindicam o benefício da dúvida sem a contrapartida da obrigação de exalar virtude, além de praticá-la, para que ninguém ponha reparo em suas atitudes. A Luís de Camões, fundador da língua que o pregador padre Antônio Vieira ajudou a tornar pátria, com o reconhecimento do poeta Fernando Pessoa, também faltou imaginação para forjar na fornalha do galaico-lusitano um verbo que admitisse o terceiro erro seguido, o pós-reincidir. Já que, convenhamos, não seria bastante usar o prefixo que designa a terceira vez no neologismo tri-incidir, de vez que esse mostrengo esgotaria suas forças retóricas na esponja que o PT, Lula, Dilma e o mercado ansioso pelas portas que o sanitarista lhes abre dando acesso aos subterrâneos palacianos passaram nos três escândalos por ele protagonizados.

Pois, por incrível que pareça, depois de passar quatro anos no doce exílio da Câmara dos Deputados, período em que os conselhos que deu aos barões dos balcões multiplicaram seu patrimônio por 20, o ex-prefeito e ex-czar da economia, temperado na cúpula da eleição vencida, tetraincidiu. Nem os delírios das noites de tempestade ou a saudade da pátria na Goa distante fariam o soldado caolho imaginar a possibilidade de alguém cair tantas vezes e depois mais vezes ainda ser içado de volta à tona.

O vernáculo tem sofrido com os abusos que lhe têm sido impostos pelos lulopetistas e com o esforço de guias geniais dos povos que repetem o mesmo engano para torná-lo um triunfo sobre a opressão da exaustiva necessidade de acertar. Mas muito mais do que a murcha flor latina, aqui se violentam os bons costumes republicanos, renegados e triturados na prática política da barganha amoral e interesseira. Pior do que violar a gramática é chutar o balde da ética e pisar na jaca das boas práticas de gestão.

A saída de Palocci da chefia da Casa Civil evita a corresponsabilidade de Dilma, ao contrário do que imaginava o nefelibata Cândido Vaccarezza, ao renegar o óbvio de que a informação transmitida a ela das suspeitas sobre o importante assessor a tornaria refém do que contra ele se provasse cada dia que passasse a mais como subordinado dela. À presidente da República cabe exercer o poder delegado pelo povo de maneira soberana, mas com a inevitável contrapartida da onerosa responsabilidade partilhada. O desgaste político do protagonista do escândalo fê-la adotar a antiga prática de que qualquer suspeito deve ser afastado de seu posto de mando até provar a própria inocência nos delitos de que é acusado, inversão do conceito do benefício da dúvida que restitui ao cidadão o poder de seu voto.

MERVAL PEREIRA - Recomeço


Recomeço 
MERVAL PEREIRA
O Globo - 08/06/2011

O mais importante na substituição do ex-ministro Antonio Palocci foi a tentativa de retomada do controle da situação pela presidente Dilma. Mesmo tendo se aconselhado com o ex-presidente Lula, o que a enfraquece aos olhos da opinião pública, não aceitou sua sugestão para que mantivesse o ex-ministro Antonio Palocci na Casa Civil e apenas comunicou-lhe que escolheria a senadora Gleisi Hoffmann para substituí-lo, deixando a sua marca com a escolha de uma mulher para o primeiro escalão de seu Ministério.

A escolha de uma mulher para o cargo mais influente do governo tem o simbolismo que a presidente Dilma considera importante para marcar sua passagem pela Presidência da República, e, no momento, esse ponto é mais importante do ponto de vista do marketing político do que saber se a indicada tem capacidade para exercer o cargo.

O PMDB já começa a espalhar que considera a senadora petista despreparada para a função, mas ela tem experiência administrativa e declarou que a presidente quer que faça um trabalho de gestão, o que indica que a negociação política terá que ser assumida em outra esfera do governo.

O ex-ministro Palocci não tinha a menor condição política de permanecer no comando da Casa Civil, e a decisão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de arquivar o pedido de inquérito contra ele só teve a vantagem de deixá-lo sair do governo em uma situação mais favorável do ponto de vista formal.

Do ponto de vista da atuação política, ele já perdera a parada, diante da possibilidade concreta de que a CPI do Senado fosse pedida com o apoio de senadores da base aliada e da negativa da bancada petista do Senado de lhe dar um voto de confiança.

É preciso ressaltar que a escolha da senadora do Paraná teve um requinte político: ela fora a mais veemente, na reunião com Lula, a investir contra a permanência de Palocci no Palácio do Planalto, afirmando que ele estava desgastando o governo.

Parece ter transmitido o pensamento da própria presidente Dilma, que se livrou de um dos nomes que Lula colocou próximo a seu gabinete para tutelá-la.

A senadora Gleisi Hoffmann será a única componente do chamado “núcleo duro” do governo com votos, o que lhe dará certa ascendência entre os petistas encastelados no primeiro escalão.

Mas não quer dizer que seja boa de voto: perdera anteriormente uma eleição para o Senado e outra para a prefeitura de Curitiba, tendo ocupado diversos cargos em administrações petistas, o mais importante deles como gestora da Itaipu Binacional.

Embora tenha um perfil mais técnico, o que era buscado pela presidente Dilma, a senadora teve atuação política aguerrida no Senado nestes primeiros meses de legislatura, a ponto de já ter criado uma relação desgastada com a bancada do PMDB, o que certamente lhe trará problemas agora que está na Casa Civil.

É muito provável que o governo tenha que mudar o ministro das Relações Institucionais, pois o deputado Luiz Sérgio é considerado por seus pares como incapaz de ser o protagonista dessa relação necessariamente conflituosa da base governista.

O PMDB já está reivindicando o cargo, diante do fato de que a senadora Gleisi Hoffmann representa um acréscimo de poder ao PT dentro do governo, já que Palocci tinha luz própria e representava muito mais Lula do que a máquina petista.

O crescimento petista, aliás, presumivelmente fará com que o PMDB tente assumir um papel mais ativo no governo, para contrabalançar a saída de Palocci.

O novo sócio do poder petista se apresentou no início do governo como o avalista de um projeto democrático, garantindo que nenhuma aventura petista seria apoiada por ele.

O temor de que a nova direção petista, sob a inspiração de José Dirceu, tentasse assumir o controle do governo foi amortecido com a indicação de Antonio Palocci para a Casa Civil.

Por isso mesmo, no início da crise desencadeada pela descoberta de seu rápido enriquecimento, até a oposição atacou-o de maneira suave, na esperança de que conseguisse explicar a origem do dinheiro e se livrasse das acusações que, ao que tudo indica, vieram de seu próprio lado, fogo amigo na disputa pelo poder.

Antes de nomear a senadora Gleisi Hoffmann para a Casa Civil, a presidente Dilma teve uma conversa com o presidente do PT, Rui Falcão, ligado a José Dirceu, o que fez com que os peemedebistas ficassem de orelha em pé.

O mais difícil do governo Dilma — que recomeça agora, mais com sua cara — será justamente organizar essa base aliada, que, de tão grande e tão homogênea, é mais um problema do que solução.

Uma aliança política apenas defensiva, que não tem liga programática nem projeto de governo e, por isso mesmo, é sujeita a muitas variações de humor e está permanentemente em busca de “motivos” para votar com o governo — que podem se traduzir em cargos e comissões políticas que rendam votos.

Com a saída de Palocci, veremos nos próximos meses uma disputa feroz entre os dois principais protagonistas da aliança política governista, e caberá à presidente Dilma arbitrar esses conflitos.

Ela agora começa a querer assumir suas responsabilidades de chefe do Executivo e terá que mostrar capacidade de comando num ambiente conturbado.

A senadora Gleisi Hoffmann, por sua vez, não terá o período de graça que se dá aos governantes, pois ela entrou em meio a uma crise e continuará a receber os estilhaços da artilharia oposicionista, que tem uma boa oportunidade de assumir um papel mais agressivo.

MÍRIAM LEITÃO - Curvas divergentes


Curvas divergentes 
MIRIAM LEITÃO
O Globo - 08/06/2011 

O cenário para a inflação melhorou desde a última reunião do Copom. O IPCA divulgado ontem foi de 0,47% e o IGP-DI, zero. Lá fora, o índice que mede preços de commodities caiu 5,6% desde a última reunião, e o petróleo, 7,6%. Aqui, os preços por atacado caíram 0,63%. A hora não é de baixar a guarda, é de olhar para as outras pressões.

Com números bons do IPCA e do IGP-DI sobre a mesa, o Copom se reúne para decidir os juros. A aposta geral é de novo aumento, mas pequeno, de 0,25%. No comunicado deve haver alguma vírgula ou ênfase que indique se os juros vão subir mais 0,25% na próxima reunião; mais adiante; ou não vão mais subir.

Esta é a fase do ano em que normalmente a inflação cai por causa das safras dos alimentos. Desta vez a queda foi ajudada por bons e maus motivos. O bom é que alguns preços começam a ceder pelo resultado do esforço do BC de evitar o excesso de demanda. O mau é que a economia americana que parecia que decolaria no começo do ano engasgou: menos consumo americano, menos demanda mundial, preço mais baixo.

Mesmo assim, os juros devem subir hoje. Nos próximos três meses o IPCA vai ficar baixo, bem baixo, mas no acumulado de 12 meses o índice continuará subindo (vejam no gráfico). Essa dissonância precisa ser entendida. A Fazenda pode e deve comemorar os índices mensais baixos, mas o BC tem compromisso com a inflação em 12 meses, que está subindo.

Contradição semelhante se vê nas expectativas. Nas últimas cinco semanas, o Focus vem reduzindo projeções de inflação deste ano. A taxa ficará acima do teto da meta por uns meses, mas depois cairá. A última projeção foi de 6,22%. Mas para 2012 as apostas estão acima do que o BC promete. É preciso “ancorar” expectativas, como dizem os economistas, ou seja, não deixar que as pessoas pensem que a inflação futura será mais alta. O aumento de 0,25% será o quarto do ano e levará os juros a 12,25%, altíssimos em qualquer comparação internacional. O objetivo deve ser buscar estruturalmente juros baixos.

Há dúvidas sobre o que acontecerá depois da alta de hoje. O HSBC, por exemplo, acredita que haverá parada técnica em julho e agosto. Há quem aposte em nova alta na próxima reunião. A conferir.

O cenário externo não está nada bom. Os EUA e a Europa estavam em recuperação e perderam fôlego. Nos EUA, o crescimento econômico não gera emprego. As empresas aumentam a produtividade, mas não abrem vagas. Na Europa, a crise na Grécia aumenta as contradições da Zona do Euro. As bolsas caem.

A inflação de serviços continua alta, os preços administrados continuam sendo corrigidos com base nos IGPs, que nos últimos meses está perto de 10%.

O economista da Modal Asset, Alexandre Póvoa, calcula que pelo lado das contas do governo, o superávit primário para o ano já foi 50% cumprido. Seria ótimo se não fosse resultado que depende principalmente do aumento da receita: ela subiu 17% nos cinco primeiros meses do ano, em relação a 2010, sem descontar a inflação. Póvoa está mais preocupado com 2012 porque o salário mínimo vai subir 7,5% acima da inflação, afetando a Previdência, os estados e municípios.

O PIB cresceu muito no primeiro trimestre, mas está desacelerando. Na segundafeira, a Anfavea anunciou a venda de carros em maio: alta de 10% sobre abril. Mas não é o que parece. A entidade explicou que maio teve mais dias úteis, e pela média diária houve queda de 5%. Para o presidente da entidade, Cledorvino Belini, as medidas de restrição ao crédito estão fazendo efeito. Ele diz que o crescimento do crédito ao setor estava na faixa de R$ 4 bi por mês até dezembro. Em maio, o crescimento foi de R$ 1 bilhão. A venda de carros à vista saiu de 32% do total para 38%, enquanto a venda à prazo caiu de 68% para 62%, como reflexo dos prazos mais curtos para pagamento.

O presidente da Abinee, Humberto Barbato, também acha que as medidas estão surtindo efeito pela redução dos prazos, que encarece as prestações:

— O brasileiro compra se a prestação cabe no bolso. Então o prazo mais curto está tendo efeito sobre o consumo de eletroeletrônicos. A queda da confiança dos consumidores e dos empresários reflete isso. Vamos rever nossa projeção de venda para o ano, de 11% para menos de 9%.

A desaceleração que o BC buscava está acontecendo.

PEDRO NOVAIS - Escrito nas estrelas


Escrito nas estrelas
PEDRO NOVAIS
O Globo - 08/06/2011

O que faz de um hotel um autêntico cinco estrelas? Piscina, quadra de tênis, banheira de hidromassagem? E quais são os critérios para que um estabelecimento ostente três estrelas em sua fachada? Hoje, no Brasil, não há respostas objetivas para estas questões. A consequência é que consumidores, operadores e agentes de viagens - brasileiros e estrangeiros - não têm uma base de informações, de conteúdo independente e confiável, sobre o que os meios de hospedagem oferecem em infraestrutura e serviços.

A demanda por um sistema de classificação hoteleira eficiente tem crescido no Brasil proporcionalmente ao desenvolvimento do turismo no país. Hoje, o setor representa 3,6% do PIB. A tendência é que essa participação continue aumentando, impulsionada principalmente pelo aquecimento do mercado interno e pela realização, no Brasil, de dois dos eventos esportivos mais importantes do mundo. Existe também uma demanda institucional, uma vez que, por força da Lei do Turismo, é obrigação do Estado regular a atividade turística.

O novo Sistema de Classificação Hoteleira (SBClass) é uma resposta do Ministério do Turismo a estas questões. Foi construído de forma participativa, aberta e transparente, mediante a realização de oficinas com as partes interessadas e consulta pública, para elaborar as matrizes. Os modelos de classificação adotados pelos países líderes do turismo foram fonte de inspiração para o sistema brasileiro.

Ao qualificar a oferta dos meios de hospedagem, o ministério contribui para que o Brasil alcance um novo patamar de profissionalismo, em um contexto no qual a concorrência entre os destinos é muito acirrada. Além disso, oferece uma ferramenta aos consumidores para que tenham mais segurança, ao contratar a hospedagem, pagando preço justo pelo serviço desejado.

Entre as perguntas mais frequentes que me são feitas está: "E os empresários, o que ganham com isso?" É necessário enfatizar que a adesão é voluntária. Mas há muitas vantagens em aderir ao sistema. A primeira é que somente os meios de hospedagem do SBClass poderão usar as estrelas para identificar em que categoria se enquadram. Outra vantagem é que eles serão divulgados nos sites e listas de oferta, por meio do ministério. Isso significa ter visibilidade no catálogo do turismo brasileiro, com a chancela do governo federal e reconhecimento por parte das operadoras nacionais e estrangeiras.

Tudo isso constitui uma poderosa ferramenta de marketing, principalmente nos próximos anos, quando são esperados, só para o período da Copa, em torno de 600 mil estrangeiros e uma movimentação de 3,1 milhões de brasileiros. Suas expectativas poderão ser atendidas, se optarem por um dos tipos de hospedagem previstos: hotel, hotel-fazenda, resorts, hotéis históricos, pousadas, cama&café e flats/apart hotéis.

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Fica, Ronaldo! Vai ter bolo!


Ueba! Fica, Ronaldo! Vai ter bolo! 
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/11

Porque se existe uma coisa assim que tem que ser democrática, isso é o Peru! Peru para Todos! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E, como fã do Ronalducho, vou abrir a campanha: Fica, Ronaldo! Como bola oficial da Seleção! Rarará! Fica, Ronaldo, vai ter bolo! Ou melhor: Fica, bolo, vai ter Ronaldo! Rarará!
E o Menos Menezes? Se o Menos Menezes cair no chão, nasce uma carroça atrás! Rarará! E PAC quer dizer Palocci Agora Continua? Ou a Dilma vai substituir por mais uma mulher? Uma maritaca pitbull!
E o Peru? Com a vitória do Humala, o Peru fica mais pra esquerda! Todo mundo com o peru pra esquerda! Rarará! E adoro este nome: Ollanta Humala. Ele vai ter que se resolver: ou é mala ou anta! Mas é melhor que aquela Keiko, filha do ditador Fujimori. Que mandava esterilizar as indígenas. Medo! Pânico! QUEM TEM KEIKO TEM MEDO! Rarará!
E o Humala é nacionalista e a Keiko neoliberalista. O Humala quer o Peru só pra ele. E a Keiko ia entregar o Peru pro Obama. E o Peru tem que ser democrático.
Porque se existe uma coisa que tem que ser democrática é o Peru. Peru para Todos! E eu já pedi pra mudarem o nome do país de Peru pra Perereca. Pra gente variar de trocadilho! Rarará!
E agora bullying no Palofi: o Lula disse que o Palofi é o Pelé da economia. Errado. O Palocci é o Gerson da economia. Aquele que levava vantagem em tudo!
E: "Extra, extra: Especialistas em urânio vêm para o Brasil estudar o Palocci enriquecido". E manchete do Sensacionalista: "Coritiba explicará em CPI por que aumentou quatro gols no placar em apenas 20 minutos". Rarará! No Brasil agora tudo termina em 20!
E o Chávez da Chavezuela? Sabe o que ele queria com o Faloffi? Saber como permanecer no poder mais 20 anos. Transformar quatro anos em 20! Rarará!
O Brasil é lúdico! Placa num bar na Bahia: "Vende-se SEVEJA. SERJE bem-vindo". Sensacional! E a faixa na loja em BH: "Abaixamos as calças. Jeans a partir de R$ 79,90". E mais dois para a série de predestinados. Perita da Polícia Federal: MEIGA Áurea! E a empresa onde um amigo meu trabalha tem um departamento de cobrança: Daniel MASSARICO! Socuerro! Você paga até o que não deve! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÔNICA BERGAMO - SALÁRIO ESPREMIDO


SALÁRIO ESPREMIDO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/11

O STF (Supremo Tribunal Federal) deve julgar amanhã ação de servidores de SP que pedem indenização alegando que o governo não repôs o poder aquisitivo de seus salários anualmente, como prevê a Constituição. Uma eventual vitória pode abrir caminho para que funcionários de outras unidades da Federação façam pleito idêntico ao dos paulistas.

NÃO É COMIGO

O Estado afirma que, para o reajuste anual de acordo com a inflação, seria necessária uma lei específica. O STF julgará se, ao não aprovar tal lei, o Estado incorreu em "fato omisso e ilícito". O relator é o ministro Marco Aurélio Mello, que em outros processos já disse que os governos não podem "tripudiar" sobre os servidores, achatando seus salários.

ASAS

O mexicano Ricardo Salinas, dono da rede de eletrodomésticos Elektra e do Banco Azteca, enviou ao Brasil seu melhor avião para buscar o ex-presidente Lula para uma palestra que fez nas Bahamas aos executivos do grupo, na semana passada: um Gulfstream G-IV, prefixo XA-RBS, iniciais de Ricardo Benjamín Salinas. O jato é considerado um dos mais potentes e luxuosos do mundo.

ASAS 2

Grupos que já chamaram Lula para palestras, por sinal, ficaram impressionados com o nível de detalhes e cláusulas incluídas nos contratos. O ex-presidente não costuma fazer exigências de hotel ou alimentação. Mas desce a minúcias em relação ao pagamento e, quando feito por estrangeiros, à forma de transferência do dinheiro para o Brasil.

CRISE

José Sarney teve uma crise de coluna anteontem que o deixou de cama. Ele está em tratamento com o acupunturista chinês Gu Hanghu, o mesmo de Lula.

EM CAMPO
A eleição é só em 2012 -mas o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) já tem assessoria para a sua campanha à Prefeitura de São Paulo. Ele contratou a Insight para cuidar de sua imagem.

13ª E SUBINDO
A russa Valentina Zeliaeva, 13ª no ranking das modelos que mais faturam no mundo, virá encher ainda mais o bolso na São Paulo Fashion Week.

Representada pela agência Elite, ela negocia para fazer cinco desfiles, incluindo moda praia.

FORRÓ DO RICCELLI

Gilberto Gil cantará um forró escrito por Carlos Alberto Riccelli em "Onde Está a Felicidade", filme dirigido por Riccelli e escrito por Bruna Lombardi, que também o protagoniza.

PRÊMIO DO JOÃO

O compositor Maurício Dias, que idealizou a festa de 80 anos de João Gilberto amanhã e na sexta em Juazeiro (BA), quer criar um Prêmio Internacional João Gilberto de Música. Vai pedir ao Ministério da Cultura aprovação de R$ 1,5 milhão para captar patrocínios por meio da Lei Rouanet. Ele diz que o compositor gostou da ideia.

FAMÍLIA MOSTRA TUDO
A estreia do filme "Família Vende Tudo" levou à Cinemateca Brasileira anteontem o músico Arrigo Barnabé e os atores Vera Holtz e Marisol Ribeiro. O filme, de Alain Fresnot, conta a história de uma família que tenta enriquecer incentivando a filha a dar o "golpe da barriga" em um cantor de música brega, vivido na tela por Caco Ciocler.

ARTE É OURO
A exposição "7 Quedas", primeira individual do artista plástico Vanderlei Lopes, abriu no fim de semana na galeria Marilia Razuk. João Romantini foi ver as obras, feitas de bronze e ouro, entre outros materiais.

CURTO-CIRCUITO


Jack Vartanian criou um colar de safiras para o leilão em prol da Liga Solidária, que acontecerá hoje, na casa de Daniele Brandão.

O Aberto de Golfe Feminino Kia Motors Embrase acontece hoje e amanhã no Terras de São José Golf Club.

O grupo Piap apresenta hoje no Sesc Pompeia o espetáculo "Erudito para Todos". às 21h. Livre.

A Embaixada Britânica no Brasil publicou no Facebook carta dos alunos do professor Paulo de Tarso, da escola Natália Vinhaes (BA), em que parabenizam Kate e William pelo casamento.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

DORA KRAMER - Procurar é preciso


Procurar é preciso
DORA KRAMER
O ESTADÃO - 08/06/11

Antonio Palocci pediu demissão depois que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, decidiu não abrir inquérito criminal para apurar as causas de seu enriquecimento abrupto.

A nota do Palácio do Planalto busca ligar a saída ao atestado de inocência dado pelo procurador. Mas é de se perguntar: se o parecer fosse pela abertura de investigações Palocci continuaria? Claro que não.

Notícia disso dá o anúncio imediato da substituição, indicando que a decisão da demissão estava tomada. Dependia do tempo e da forma.

Quanto ao parecer do procurador, Gurgel não viu na documentação solicitada a Palocci resquício de indício de crime.

Pareceu-lhe, no entanto, que pode ter havido improbidade administrativa, o que foge à alçada da procuradoria, mas não autoriza ninguém, nem o governo nem o Congresso nem o Ministério Público, a dar o caso por encerrado.

Tanto que no âmbito do MP do Distrito Federal já corre uma investigação para apurar a ocorrência de improbidade administrativa.

A saída anunciada, no início da noite de ontem (7), mostra que o cerco sobre Palocci foi fechado. Mas não encerra a questão do sigilo da documentação sobre as atividades da empresa Projeto Consultoria.

Tomando como verdadeira a declaração de Palocci de que todas as informações foram repassadas aos “órgãos de controle”, é de se supor que o procurador-geral tenha tido acesso à lista de clientes e à natureza dos serviços prestados pela empresa.

Se não teve, faltaram-lhe informações para atender a um item da representação apresentada por três partidos que aludia à “disparidade entre a estrutura empresarial da Projeto e a receita auferida por ela” para saber se os ganhos do proprietário foram compatíveis com a realidade do mercado de serviços de consultoria.

Caso tenha tido acesso a rigorosamente tudo, Gurgel é no Brasil, além de Palocci, a única pessoa em condições de atestar que não houve crimes de enriquecimento ilícito e tráfico de influência.

É exigir muito da opinião pública que seja dado a ele um crédito de tal monta com base em um parecer da Procuradoria-Geral e na palavra de quem, como principal interessado em esclarecer, se deixou sangrar sem se explicar a contento.

O país merece saber como o ministro-chefe da Casa Civil conseguiu tanto dinheiro em tão pouco tempo. Se é que teve mesmo clientela tão vasta enquanto era deputado federal, a que título seus clientes o pagaram?

As deduções de impostos de tais pagamentos foram feitas corretamente ou houve irregularidade por incompatibilidade dos serviços realmente prestados com as exigências da Receita?

Isso sem contar a necessidade de verificação sobre possíveis vínculos entre a atividade de consultor e a influência de Palocci no governo.

O procurador Gurgel alegou que nada faz supor que Palocci tenha se valido de “algum artifício, ardil ou mentira para fazer crer aos clientes de sua empresa que teria influência com servidores públicos para obter os negócios ou contratos”.

Ora, ele não precisaria recorrer a nenhum artifício, ardil ou mentira para convencer alguém de seu poder. Isso sempre esteve implícito.

Ficou explícito a partir do ano de 2010, em que foi o principal assessor da candidata oficial à Presidência e durante o qual auferiu o grosso do faturamento da empresa, que encerrou suas atividades com direito a receber espantosos R$ 10 milhões.

Pagamento que não faz o menor sentido, a menos que Palocci tenha aí inovado com a inclusão em seus contratos de uma cláusula de insucesso.

Por essa e outras é preciso procurar as razões pelas quais Antonio Palocci não conseguiu, ou não pôde, explicar como e por que enriqueceu no exercício da vida pública.

Desmentido
Margareth Palocci nega que tenha feito chegar a qualquer pessoa, dentro e fora do governo, que seu marido esteja exigindo do governo e do PT o mesmo tratamento dado a José Dirceu, Delúbio Soares e companhia, conforme publicado aqui.
O que não significa que pessoas de dentro do governo não deem como certa essa versão.

ELIO GASPARI - O BC vai bem, a serviço da banca


O BC vai bem, a serviço da banca
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 08/06/11

O Banco Central está com um parafuso solto. Seu diretor de administração, Altamir Lopes, recomendou à patuleia que, caso ela receba notas manchadas ao sacar dinheiro nos caixas eletrônicos à noite, deverá procurar uma delegacia e registrar um Boletim de Ocorrência.

A proposição é absurda, impertinente e facciosa. É absurda porque, se dois irmãos, João e José, saírem pela madrugada e um assaltar uma padaria enquanto o outro vai a um caixa eletrônico para sacar R$ 20, João colocará o butim num envelope de depósitos automáticos e irá para a noite. José, tendo recebido a nota manchada, deverá ir à delegacia registrar o ocorrido. Pelo menos um delegado, em Santo André, com razão, reteve a cédula.

É impertinente, porque não há norma que ampare a recomendação desse ritual. Procurando inibir as explosões de caixas eletrônicos, a banca passou a usar um dispositivo que mancha as cédulas. Para impedir que essas notas circulem, o Conselho Monetário Nacional baixou uma Resolução (n 003981). Ela diz que "as instituições financeiras, ao receberem cédulas inadequadas (...) deverão retê-las e recolhê-las ao Banco Central". Portanto, eles não podem colocar essas notas nos seus caixas eletrônicos, repassando-as a clientes que pagam taxas de R$ 1,30 a R$ 2 pelo saque.

Se os diretores do Banco Central lidam com assuntos da alta finança com a mesma ligeireza com que opinam sobre a baixa poupança, vai-se mal. Querem impor à clientela a obrigação de batalhar numa delegacia pela recuperação de um valor que lhe pertence. A recomendação é demófoba. É no andar de baixo que estão pessoas para quem perder R$ 20 ou R$ 50 significa uma refeição. Levada ao pé da letra, a recomendação deveria pedir que se fizesse um B.O. para que o banco explicasse por que colocou notas manchadas no seu caixa. Parece que a proposta também é inócua, pois a polícia informa que a bandidagem já teria aprendido a limpar a tinta derramada nas notas.

Existem no Brasil 180 mil caixas eletrônicos. Estima-se que as chances de uma pessoa receber notas manchadas sejam de três em 100 mil. Admitindo-se que sejam de três em dez milhões as chances de o freguês receber uma nota dessas fora do horário de expediente, o montante de cédulas bichadas que os caixas eletrônicos despejam diariamente dificilmente passaria dos R$ 10 mil. Se os bancos resgatassem as notas no dia seguinte, nenhum deles faliria. Sairia mais barato do que uma consultoria companheira. A troca da nota deve ser feita mediante a exibição do extrato do caixa, registrando-se a transação no cadastro do freguês. Se um cidadão recebe vinte notas manchadas num mês, será possível suspeitar que se trata de um cambista dos assaltantes.

A Febraban endossou a recomendação demófoba do BC. Perdeu uma oportunidade de defender os depositantes. Em abril do ano passado, quando o Estado do Rio estava submerso numa enchente que matou perto de mil pessoas, a veneranda guilda da banca teve um apagão moral e informou à patuleia que nenhuma conta ou dívida teria seu vencimento prorrogado. Nos dias seguintes, voltou atrás e desculpou-se. Parecia ter tomado jeito, mas teve uma recaída.

ROBERTO LUIS TROSTER - Coisas novas que são velhas


Coisas novas que são velhas
ROBERTO LUIS TROSTER
VALOR ECONÔMICO - 08/06/11
A melhoria das contas públicas é resultado passageiro. É como alegria de pobre.

A economia brasileira está atarantando os analistas atentos a seu desempenho. Por um lado, novidades auspiciosas para fazer o país acontecer, como os ganhos do pré-sal, da Copa do Mundo, da Olimpíada, dos preços elevados das exportações, da abundância de fluxos financeiros externos e das baixas taxas de juros internacionais. Não é pouco. Por outro, notícias e indicadores que parecem oriundos de um espólio superado.
Apesar do quadro conjuntural ser o ideal para crescer, os números da macroeconomia conspiram contra, com projeções de crescimento em queda e de preços em alta. Apenas este ano, as estimativas de expansão da atividade industrial caíram mais de um ponto percentual, a inflação acumulada em 12 meses já rompeu a banda superior fixada e as expectativas para este ano e o próximo estão acima da meta. Surpreendem mais ainda noticias que vêm da capital.

A primeira é o alarde da melhoria das contas públicas. Sem tirar o mérito da equipe econômica, parte do desempenho se deve ao efeito Olivera-Tanzi. Quando a inflação acelera, a arrecadação sobe mais rapidamente que os gastos. Isso acontece porque os tributos são cobrados em bases correntes e os gastos têm embutidos defasagens entre a alta dos preços e sua captura e correção pelos índices, reduzindo seu valor real. É um resultado passageiro que termina após a estabilização da inflação num outro patamar. É como alegria de pobre.

Outra é o arrefecimento do consumo popular que, independentemente da qualidade da gestão do governo, também tem um componente inflacionário. Como preços sobem antes dos salários, a renda real diminui, os gastos caem e a inadimplência aumenta. Não é só resultado das medidas adotadas, mas também consequência da inflação, uma velha conhecida dos brasileiros que quer aparecer como nova. Parecia que pertencia ao passado, mas está ocupando um espaço cada vez maior na política econômica, condicionando mais e mais suas decisões.

Até agora, as medidas adotadas para frear a alta de preços têm apresentado um preço elevado e pouca efetividade. A estratégia de ajuste gradual, já testada anteriormente, que eleva a taxa mais lentamente, faz com que ela demore bem mais a cair, aumentando o custo médio de todo o processo, enquanto que um aperto rápido impõe juros mais altos no curto prazo, entretanto, caem antes, reduzindo o tempo e o ônus de baixar a inflação. A experiência mostra que o gradualismo, além de mais caro, é mais arriscado, pois aumenta sua inércia e a vulnerabilidade a choques.

A política de crédito que é anunciada como complemento à política de juros é semelhante a outros experimentos realizados anteriormente. Os resultados não foram diferentes: mais concentração, mais inadimplência, menos crescimento e um impacto pífio na inflação. Desaceleração na economia e arrefecimento da inflação não são sinônimos, a década de 1980 é um exemplo, há outros.

Aumentaram-se as exigências de capitalização de todos os bancos para algumas operações; como só uma fração dos médios e pequenos está com um índice mais baixo, o resultado esperado aconteceu. Houve uma migração de operações para os grandes. Ilustrando o ponto, no crédito consignado, os bancos grandes, que antes da crise externa tinham um quarto do mercado, já duplicaram sua participação até agora. Enquanto uma concentração dada pelo mercado pode refletir mais eficiência, uma forçada pela regulamentação pode ser consequência de concorrência desigual. O debate da concentração bancária é antigo, até fez parte de um artigo da Constituição de 1988.

Anuncia-se com estardalhaço o cadastro positivo, todavia essa é uma ferramenta voltada para os credores; devedores deveriam ter acesso irrestrito ao mesmo e as instituições a obrigação de precificar e informar o risco por cliente e cobrar o mesmo preço para cada categoria. Uma oferta de crédito mais transparente e sensível ao risco torna a política monetária mais eficiente. É um fato descrito na literatura econômica, mas insiste-se na solução parcial do passado.

O impacto das medidas no crédito foi assimétrico. Este ano apenas, as operações menores para pessoa física caíram 4,6% enquanto que o crédito para as maiores subiu 2,3%; para empresas o quadro é semelhante, pequenas operações subiram 2,5% e as grandes 3,7%. O aperto é maior para quem tem menos. Não é exatamente uma novidade.

Houve uma deterioração na composição do crédito em 2011. Enquanto a conta garantida que tem uma taxa de juros de 106,7% ao ano cresceu 11,9%, o estoque de financiamentos com desconto de duplicatas e de promissórias, que têm taxas mais baixas, caiu em valores nominais. Na pessoa física, o quadro é mais dramático, o volume de crédito na modalidade cheque especial, que custa 178,1% ao ano, aumentou 21%, no mesmo período, o crédito pessoal cresceu apenas 6,6%. Déjà vu?

A racionalidade de contratar linhas mais curtas com taxas mais altas num momento de incerteza é discutível, mas o impacto na inadimplência é certo. Apenas este ano, segundo informações do Banco Central, os empréstimos para pessoa física com atrasos superiores em 15 dias aumentaram de 11% para 12,7%; de cada R$ 8 devidos aos bancos mais de R$ 1 não foi pago no banco no vencimento. Se considerarmos que, quando há um enxugamento de liquidez, a inadimplência se eleva antes para dívidas não financeiras; o aperto pode estar virando uma bola de inadimplência, algo que já ocorreu anteriormente e não interessa nem a consumidores, nem ao comércio, nem a bancos, nem ao país.

Os números de operações de crédito referenciais para taxa de juros também têm sinais de alerta. Apenas este ano, as concessões caíram 8%, as margens (spreads), que são as segundas maiores do mundo, aumentaram 4,2%. Com isso, a relação crédito/PIB só avançou 0,2% e pode vir a cair. Está aumentando a transferência de recursos do setor produtivo para o financeiro; no passado, um processo análogo em sua fase mais aguda era chamado de ciranda financeira, um quadro que deixado por si, só piora. É premente evitar que aconteça não repetindo padrões anacrônicos.

Uma coisa nova que não é velha poderia ser o desenho e implantação de uma política de desenvolvimento sintonizada com os tempos atuais. O potencial do Brasil não é novidade e é real. A bruma que cobre a visão do país desde a capital também é uma coisa nova que é velha.

ROLF KUNTZ - Inflação: é bom não relaxar


 Inflação: é bom não relaxar 
ROLF KUNTZ

O ESTADÃO - 08/06/11

Há boas notícias sobre a inflação, mas é melhor esperar um pouco antes de celebrar a contenção dos preços. Os mercados parecem acomodar-se, depois de meses de forte instabilidade, e o governo reforça o discurso otimista. É seu papel, mas um pouco de prudência é sempre recomendável, porque ainda há muito risco tanto no exterior quanto no País. Além disso, os novos números não apontam numa única direção. Para maior clareza, é bom começar pelas informações mais amplas e, neste caso, mais positivas.

Um dia antes da nova decisão do Banco Central (BC) sobre os juros básicos, dois dos mais importantes conjuntos de indicadores foram divulgados. Referência da política oficial, o IPCA, Índice de Preços ao Consumidor Amplo, subiu 0,47% em maio. Em abril havia subido 0,77%. Variação mais notável apareceu no IGP-DI, o Índice Geral de Preços calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Aumentou apenas 0,01% no mês passado. A alta havia sido de 0,5% em abril.

O resultado de maio, excelente, foi determinado principalmente pelos preços ao produtor, com peso de 60%. Esses preços diminuíram 0,63%, graças ao recuo das cotações das matérias-primas e dos bens intermediários.

Os preços ao consumidor entram no IGP-DI com peso de 30%. Subiram 0,51%, em ritmo ainda acelerado, mas bem mais moderado que o do mês anterior, 0,95%. O terceiro grande componente, com peso de 10%, é formado pelo custo da construção, com alta de 2,94%.

A melhor notícia embutida no índice da FGV é o recuo dos preços ao produtor. Esse dado prenuncia menor pressão sobre o varejo nos meses seguintes. Seria muito bom se a história terminasse nesse ponto. Mas os fatos são um pouco mais complicados.

A inflação vai depender no segundo semestre principalmente da demanda. Há sinais de arrefecimento da economia, mas também nesse caso os indicadores são mistos. O crédito ao consumidor cresceu menos em abril do que em março, mas ainda cresceu, segundo o BC. A renda do trabalhador vem sendo corroída pela inflação, mas aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade têm sido registrados. Importantes acordos salariais serão discutidos a partir de agosto pelos sindicatos mais poderosos. Haverá tentativas de conseguir bem mais que a compensação pela alta de preços em 12 meses. Nesta altura, o IPCA acumula uma alta de 6,55%. Poderá haver algum recuo nos próximos dois meses, mas, mesmo assim, a negociação partirá de uma base elevada. Os empresários cederão tanto mais facilmente quanto maior for sua expectativa de repasse aos preços.

Os efeitos da demanda ainda são muito sensíveis nos números divulgados nesta terça-feira. Houve aceleração de aumentos em cinco dos nove grupos de bens e serviços incluídos no IPCA. Os aumentos maiores ocorreram nos itens alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, despesas pessoais e comunicação.

Além disso, o índice de difusão - a parcela de bens e serviços com alta de preços - passou de 59,38% em abril para 64,84% em maio. Segundo Rosenberg & Associados, foi o maior número desde março, quando chegou a 68,23%. Um alto grau de contaminação dos preços ocorre quando os participantes do jogo conseguem repassar aumentos com facilidade. Isso se dá num ambiente de ampla liquidez e demanda muito ativa.

Porta-vozes do setor industrial têm procurado realçar os sinais de arrefecimento da atividade. É um discurso costumeiro, usado como argumento contra a alta de juros. Mas os últimos dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), distribuídos também na terça-feira, mostraram um cenário nada sombrio. Descontados os fatores sazonais, o faturamento real cresceu 4,3% de março para abril. Pelo mesmo critério, o número de horas de trabalho aumentou 1,5%. O uso da capacidade instalada diminuiu ligeiramente, de 82% para 81,6%, mas ainda permaneceu elevado.

Os freios aplicados pelo BC, por meio de restrições ao crédito e elevação de juros, podem ter produzido algum efeito, mas muito suave até agora. Ontem, especialistas citados pelos meios de comunicação davam como certo pelo menos mais um aumento de juros neste ano. Alguns davam como prováveis dois aumentos.

Pelo menos dois pontos parecem claros. Os efeitos da política sobre a demanda interna foram limitados e o risco da transmissão de aumentos por indexação, no segundo semestre, permanece considerável. O segundo ponto é o risco externo: é cedo para afastar a hipótese de um novo choque de preços internacionais, embora o perigo possa parecer menor, neste momento.

A inflação, dizem funcionários do governo, ficará este ano dentro do limite oficial - provavelmente abaixo de 6,5%. Mas qualquer número abaixo do teto será realmente bom?

ANTONIO CORRÊA DE LACERDA - Por onde começar a mudança na economia


Por onde começar a mudança na economia
ANTONIO CORRÊA DE LACERDA

O ESTADÃO - 08/06/11

Para a economia mundial no cenário que sucede à grande crise de 2008, ainda insolúvel para muitos países, tem prevalecido uma revolução. O Estado teve seu papel revisto para fazer frente aos enormes desafios e as políticas macroeconômicas, fiscal, monetária e cambial têm sido revistas para combater os efeitos dessa crise, corrigir suas distorções e buscar retomar o crescimento.

É curioso que, diante de tanta mudança no quadro mundial, ainda haja quem afirme - aparentemente com convicção - que não há o que mudar na política econômica brasileira. No que se refere às taxas básicas de juros, por exemplo, as explicações convencionais sobre as causas do seu elevado nível são, cada vez mais, insustentáveis. A economia do País apresenta indicadores de déficit público e dívida pública, proporcionalmente ao PIB, bem melhores do que a maioria dos países. Além disso, sermos classificados como grau de investimento pelas principais agências globais de classificação de risco deveria ser mais um diferencial.

Tomando-se as taxas de juros praticadas, há uma boa ilustração da distorção. Enquanto o Brasil oferece juros de 12% ao ano para títulos de dez anos, outros países com fundamentos macroeconômicos muito piores praticam juros bem mais baixos: Irlanda, 10,8%; Portugal, 9,8%; Espanha, 5,2%; e Itália, 4,6% - os Piigs, que enfrentam graves problemas de solvência. Mesmo a Grécia, entre os casos mais flagrantes, adota taxa de 15,9%, só poucos pontos acima da nossa.

Outra disparidade evidente está na falta de diferenciação, no Brasil, entre os juros de longo, médio e curto prazos. Se na maioria dos países as aplicações de curtíssimo prazo são remuneradas a taxas nominais muito baixas, próximas de zero, a economia nacional, por sua vez, mantém um sistema de remuneração que oferece uma trindade pouco provável nos mercados: segurança, liquidez e rentabilidade.

Para além da alegada necessidade genérica de "corte nos gastos públicos", que virou uma panaceia, o País tem uma vasta agenda de assuntos a evoluir, visando a corrigir as distorções:

criar uma estrutura de mercado que diferencie os juros de títulos de longo, médio e curto prazos;

avançar no processo de desindexação de contratos e tarifas públicas, para diminuir a rigidez e a inércia da inflação;

aperfeiçoar o sistema nacional de metas de inflação, tornando-o mais flexível no que diz respeito a prazo e indicadores a serem considerados;

e ampliar a captação de expectativas do mercado e o diálogo com os agentes, hoje excessivamente restritos ao mercado financeiro.

Sob o ponto de vista das metas de inflação em si, no sistema brasileiro há aspectos que lhe dão um relativo grau de flexibilidade, como a tolerância de 2 pontos porcentuais para cima ou para baixo do centro definido. Essa margem serviria justamente para acomodar distorções. Ocorre que nos momentos em que a inflação acumulada começa a se aproximar do teto, como há alguns meses, observa-se uma certa histeria nos mercados. Ainda mais se a política monetária ousar adotar alternativas, como as chamadas medidas macroprudenciais adotadas com coerência nos últimos meses.

A questão é o tratamento a ser dado aos choques de oferta, quando preços de commodities, por exemplo, são formados no mercado internacional e baseados não só na demanda física, mas também na especulação dos mercados futuros - especialmente na fase atual de juros baixos nos países mais ricos. Esses choques de oferta acabam sendo controlados com medidas típicas de combate à inflação de demanda. Esse processo provoca distorções, pois desestimula o nível de atividades e de investimentos produtivos, além de encarecer o custo de financiamento da dívida pública e fomentar a valorização do real.

É muito importante que o Banco Central tenha autonomia operacional. Mas a autonomia necessária não se restringe exclusivamente aos Poderes da República. Urge criar as condições para torná-lo menos refém das visões excessivamente de curto prazo do mercado financeiro. E, embora elas devam fazer parte do leque de fontes a serem consideradas, não devem se constituir no "monopólio das expectativas" observado no nosso caso.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Dúvida cruel
SONIA RACY

O ESTADÃO - 08/06/11

O próximo embate entre os bancões será pela folha de pagamento dos 160 mil servidores do Paraná. O contrato com o BB vencerá em julho.

O BB tem esperança de negociar uma renovação sem pregão, mas o governador Beto Richa tem em mãos avaliação que pode derrubar a pretensão: dada a agressividade crescente dos bancos, um leilão público pode girar mais de R$ 1 bilhão.

Dúvida 2
É que com a falta de bancos à venda, os negócios têm se concentrado em folhas de pagamento ou participações em instituições de varejo.

BB, Itaú Unibanco e Bradesco disputaram os últimos negócios e estão empatados. Itaú comprou 49% do Banco Carrefour por R$ 1 bilhão. O Bradesco ficou com a folha de pagamentos dos funcionários públicos no Berj, pagando R$ 1,8 bi. E o BB desembolsou R$ 3,2 bi pelo Banco Postal.

Cipó eleitoral


Será lançada em agosto a candidatura do muriqui - primata ameaçado de extinção, morador da Mata Atlântica - a mascote das Olimpíadas do Rio.

A proposta é da ONG Eco-Atlântica. Assinada pela Storm, a campanha "eleitoral"conta com apoio de simpatizantes de peso como Chico Buarque, Carlos Minc, Eike Batista, Marcos Palmeira, Isabel Fillardis, Ney Matogrosso, entre outros.

Premissa

Luís Paulo Rosenberg, do Corinthians, avisa. Só assinará contrato final com a Odebrecht para construir o Itaquerão depois que sair o financiamento do BNDES.

Psiu
Os fãs de Eric Clapton podem respirar aliviados. O São Paulo venceu, anteontem, mais uma ação - das sete que enfrenta-, pedindo a proibição dos shows no Morumbi. A juíza foi convencida de que os ruídos emitidos não ultrapassam os limites permitidos.

Trés belle


E Catherine Deneuve chegou cansada, ontem, a SP. O voo da diva francesa atrasou e ela desembarcou um dia após o previsto. De Guarulhos, seguiu de helicóptero direto para o Hotel Tivoli.

Para almoçar, escolheu o Fogo de Chão, da Vila Olímpia. Estava acompanhada de Jean Thomaz, da Imovision, anfitrião da atriz no Brasil.

A conferir


Se Paulo Bernardo vier a substituir Palocci na Casa Civil, há quem dê como certa a ascensão de Cezar Alvarez.

O secretário executivo do Ministério das Comunicações tem a confiança de Dilma e dos empresários do setor.

Vai entender


A porta do gigante apartamento de mais de R$ 6 milhões da Projeto, empresa de Palocci, é blindada.

Sabe-se lá por quê.

Vai entender 2

Ante o fato de que Palocci tem o apoio dos empresários, banqueiros e elite esclarecida. E de que o ministro-chefe da Casa Civil possui habilidades políticas e inteligência inconquistáveis, um expoente do mercado financeiro ontem não resistiu: "O único que não gosta de Palocci é... ele mesmo".

Tamanho o tiro no pé que o ainda ministro "se" deu. O segundo, diga-se de passagem.

Back to the future
Mal foi escolhida embaixatriz paulista da Nina Ricci, Caca Garcia já pilota hoje o lançamento do Nina L''Elixir.

A grife, que passa por uma repaginação ditada por Olivier Theyskens, volta a desfilar em outubro na semana de moda de Paris.

Na frente


Paulo Niemeyer foi anfitrião de pequeno almoço, anteontem, para comemorar o niver de FHC. Presentes desde Pedro Malan a Zuenir Ventura, que também soprou velas pelos seus mesmos 80 anos.

José Junior, do AfroReggae, está em Eldorado dos Carajás. Motivo? Gravar o programa Conexões Urbanas sobre os 15 anos do massacre.

A Maison du Luxe organiza coquetel em torno do francês Pascal Portanier, Ph.D. em luxo. Hoje, no Zwilling J. A. Henckels, nos Jardins.

Esther Giobbi lança hoje sua loja com direito a comes e bebes, no Shopping Iguatemi.

Daniela Brandão arma hoje em sua casa evento beneficente com venda de joias Jack Vartanian. Em prol da Liga Solidária.

Aldo Rebelo circulou de jaqueta esportiva e calça jeans surrada no Ethanol Summit, segunda, no Hyatt. Perfeitamente adaptado aos tempos de Código Florestal brasileiro.