sábado, agosto 06, 2011

MANOEL CARLOS - Outros tempos


Outros tempos
MANOEL CARLOS
Revista Veja - RIO

Nunca me interessei por adquirir antiguidades. Nem por colecionar qualquer coisa, como selos, moedas, caixas de fósforos, cinzeiros de hotéis, adesivos e cachimbos, para citar apenas alguns itens. Também nunca fui de frequentar clubes, ainda que seja sócio de alguns. Meu pai, em compensação, almoçava no clube, passava no clube para ver os amigos, prestigiava a programação cultural e esportiva. Esse clube, na época, era o Piratininga, no centro de São Paulo, onde também se praticava um cartea­do famoso na cidade. Ah, e frequentava o Jockey Club, atividade esportiva que nunca contou com a minha presença.
Meu pai não jogava. Pelo menos era o que ele dizia, sacando uma das frases preferidas de homens bem-comportados:
— O pior dos vícios é o jogo, pois, jogando, acaba-se por fumar, beber e… mentir!
E meu pai se dizia não contaminado pelo que ele denominava de os quatro flagelos da humanidade. E um tio rebatia, com cara maliciosa, o que parecia o resumo do seu comportamento:
— Não tenho vícios pequenos.
Até hoje penso se meu pai dizia a verdade ou se ocultava de nós, crianças e adolescentes, seu interesse pelo pano verde e pelos cavalinhos, para não nos transmitir o seu exemplo. E penso também em que possíveis vícios tio Alécio transitava, se não jogava, não fumava, não bebia e não mentia. Seriam drogas pesadas? Não, tenho certeza que não. Elas não estavam na moda e nem eram consumidas — até os anos 50 — por pessoas da classe média. Então, a frase devia ser apenas… uma frase, provavelmente para ser engraçado ou para colocar nas pessoas a curiosidade e o interesse.
Quanto a mim, jamais me interessei por nenhum tipo de jogo. Nem mesmo o futebol, paixão nacional, à exceção dos jogos da seleção e do Flamengo. Mas nem sempre foi assim.
Nos anos 60, na TV Excelsior (SP), fizemos um programa chamado Ultragol do Pelé, apresentado pelo nosso craque maior, até hoje insubstituível. Durante esse período, apogeu do jogador, já tendo participado de duas Copas (58 e 62), ele já era chamado de rei. E eu, então, um dos seus milhares de súditos, torci pelo Santos Futebol Clube. Nem era bem pelo Santos, para ser sincero, mas pelo Pelé, como quase todo mundo naquele período. Fui muitas vezes ao Pacaembu, vibrar com o jogo sincronizado e de alto nível do time da Vila Belmiro, e dei aos meus filhos, na época com 7 e 8 anos, camisas e bolas autografadas pelo rei.
O Ultragol era um programa simples: Pelé contava histórias do futebol e recebia jogadores e artistas, chegando mesmo a fazer dupla com alguns cantores. Para as entrevistas, o comando passava ao Pedro Luiz, um narrador esportivo como nunca vi igual no Brasil. Depois, para encerrar, Pelé autografava uma bola oficial, chutando-a para a plateia. Era de quem conseguisse pegar, em meio àquela algazarra, que por milagre nunca produziu um acidente. Fazíamos o programa no estúdio principal da Excelsior — que era o grande auditório do Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo, com mais de 1 000 lugares.
Quase sempre, depois do programa, saíamos para jantar num dos restaurantes da Praça Roosevelt e adjacências, como o Gigetto e a Baiuca. E, nesses fins de noite, sempre cercado de admiradores, Pelé nos contava outras histórias. Formá-vamos um grupo unidíssimo, formado, entre outros, por Álvaro de Moya, Jô Soares, Roberto Palmari, Cyro Del Nero, Jayme Barcelos, Orfeu Gregori e Flávio Rangel. Era uma época de ouro, com a TV Excelsior brilhando nem tanto em audiência — mas em espírito, em preocupação cultural. Uma emissora diferenciada, única, comandada com inteligência pelo Moya. E, para que vocês tenham uma ideia mais clara do que era o espírito da TV Excelsior, basta dizer que foi lá, naquele mesmo palco de onde Pelé chutava a bola para a plateia, que apresentamos entrevistas longas — ao vivo — com Ionesco, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Só craques. Como o Pelé.
Bons tempos!

Outros tempos!

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