sábado, março 26, 2011

RUY CASTRO

Dilemas de 1940
RUY CASTRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 26/03/11

RIO DE JANEIRO - O centenário de nascimento de Assis Valente, sábado último, levou a que se lembrasse -até quando?- que Carmen Miranda recusou gravar seu samba "Brasil Pandeiro". E que, por Assis ser "apaixonado" por Carmen, sentiu-se "rejeitado" e se jogou do Corcovado (não morreu).
Vejamos. A paixão entre eles era recíproca -e platônica (os dois tinham namorado). Até ali, em oito anos de colaboração, Carmen gravara 22 músicas de Assis. Ainda gravaria uma 23ª, a insuperável "Recenseamento", dada a ela por Assis na mesma noite de setembro de 1940 em que ela dispensou "Brasil Pandeiro". E por que Carmen dispensou este samba que, gravado depois pelos Anjos do Inferno, já nasceu clássico?
Porque "Brasil Pandeiro" era uma ode à própria Carmen. Falava de seu estouro em Nova York, desde que ela fora trabalhar lá, em 1939, a convite do empresário Shubert: "O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada/ Está dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato/ Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará/ Na Casa Branca já dançou a batucada com ioiô e iaiá" -referência à visita de Carmen a Roosevelt, com o elenco do musical "Streets of Paris".
Mas Carmen não era de se vangloriar. E havia outro problema: a letra de "Brasil Pandeiro" vibrava com o sucesso de uma brasileira nos EUA. Dois meses antes, em julho, participando de um show oficial no Cassino da Urca, Carmen enfrentara o gelo da plateia de convidados da ditadura Vargas, todos de flerte com os alemães e, daí, hostis ao que soasse inglês ou americano.
Por Carmen ter dito uma ou duas frases em inglês, os muitos pró-Hitler ali rosnaram que ela voltara "americanizada". Logo Carmen, que, na hora das comidas, era do camarão ensopadinho com chuchu. Mas tal era o clima. E Assis jogou-se do Corcovado por suas tormentas pessoais, só isso.

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