sexta-feira, dezembro 03, 2010

SANDRO VAIA

Ele precisa se mancar
SANDRO VAIA
BLOG DO NOBLAT


O “cara” está indo embora mas está deixando a casa toda arrumadinha.Vai passar a faixa para dona Dilma no começo do ano novo, mas com a consciência do dever cumprido. Afinal, como ele disse na campanha, dona Dilma é ele, ele é dona Dilma.

Ele vai ter que ir mesmo, mas não está gostando muito da idéia.No primeiro dia do último mês do ano, Franklin Martins, o seu ministro da Verdade, teve o mau gosto sádico de lembrar-lhe: “Presidente,hoje começa a contagem regressiva”. E ele: “Nem me fale nisso”.(Conforme Painel,Folha de S.Paulo,2/12/2010).

Ele vai ter que ir mesmo, mas enquanto não vai trata de ajeitar as coisas: para o ‘alter ego’ que elegeu, deixa uma reconfortadora frase-“ o governo terá a cara de Dilma”- e um desmentido factual dessa mesma frase em tempo real e em forma de herança: deixou nomeados Nelson Jobim, o herói que conquistou o Haiti em uniforme de campanha e o que tentou mas não conseguiu aumentar a distância entre as poltronas para acomodar os mais volumosos nos aviões de carreira ; Fernando Haddad, o ministro da Educação que vive tropeçando e engasgando nos exames para avaliar a qualidade de sua educação; Guido Mantega, o que combaterá a inflação censurando os preços que ousarem subir ; e Marco Aurélio Garcia, o chanceler-sombra, autor da destemida política externa que ruge para os Estados Unidos enquanto mia para o Paraguai ou a Bolívia.

Depois de 8 anos de glória e embevecimento pelo som de sua própria voz e pela profunda filosofia de suas metáforas, convencido de que é a própria encarnação do povo, Lula está fazendo a arrumação da casa para a nova inquilina, e como parte dessa arrumação quer legar-lhe também um avião de 500 milhões de reais que não nos envergonhe nos aeroportos do mundo.Afinal, o velho Aerolula (na verdade, um moderno Airbus A319CJ) que tanto nos humilha com sua escassa autonomia de vôo, já vai fazer 8 anos, e pode ser recolhido aos hangares em companhia do decrépito Sucatão em que FHC deu algumas voltas ao mundo.

Às vésperas de voltar para a planície, porém, Lula, que sai aclamado pelo povo e abraçado ao seu próprio ego hipertrofiado, nos deixa também alguns legados dispensáveis,que seria de bom tom que não freqüentassem a narrativa presidencial que ficará para a posteridade, tais como: a defesa da família Sarney como instituição da República; o truque da transformação do episódio do mensalão numa “tentativa de golpe”; o condicionamento constante do seu apreço pela liberdade de imprensa à publicação da “verdade”, como se ele fosse dono de sua única versão válida e publicável ; a repetição incessante da falácia da existência de um “preconceito das elites” contra o pobre retirante nordestino e depois operário metalúrgico que voou do nada para a Presidência da República; o desprezo às dissidências políticas perseguidas e esmagadas por regimes comandados por autocratas amigos ; e, por último, mas não menos importante, a negativa insistente de qualquer avanço histórico do País antes do advento de sua gloriosa e inatacável figura e do seu tão nunca-antes-tão-maravilhoso governo.

Como Lula mesmo disse numa entrevista a rádios comunitárias na quinta-feira, dia 2, sobre a chegada do momento de ir embora: “Preciso me mancar”.

Sandro Vaia é jornalista.

VINICIUS TORRES FREIRE

A afundação do PSDB continua 
 Vinícius Torres Freire 

Folha de S.Paulo 03/12/2010

FINDA A eleição, ouviu-se no PSDB uma conversa sobre "refundação" do partido. Como de costume, os tucanos logo trocaram bicadas por meio dos jornais, pois não haviam conversado a respeito da tal "refundação". Quase imediatamente depois, o partido caiu na sua modorra, no torpor da preguiça política característico do tucanato desde o início do governo de Fernando Henrique Cardoso, lá se vão 16 anos. Para dar um exemplo de agrado dos tucanos, mesmo o decadente, desengonçado e desorientado Partido Socialista francês tem mais sentido de urgência. Ao menos se reúne para discutir os motivos das vergonhosas surras eleitorais que vem tomando da direita e até da extrema direita, já faz década. Decerto o PS, como os partidos da social-democracia europeia, não consegue articular ideia ou prática política novas. O PSDB, pior que isso. Nem tenta.

Houve alguma grande reunião do partido para discutir o que fazer depois de mais uma derrota inglória? Inglória, pois da campanha não restou nem organização, nem programa, nem novas lideranças. Alguma discussão sobre o desastre no Rio Grande do Sul? Sobre a inexistência do partido em Estados grandes como Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia? Sobre seus governadores cassados ou quase "impichados"? Sobre a desconexão quase total do partido com organizações e demandas da sociedade?

Mais simples e de interesse mais imediato, o partido tem algum programa alternativo ou orientação crítica ao governo que está para começar? Não se trata de pergunta de interesse exclusivamente tucano. Em tese, o PSDB é a oposição restante.

Como sói acontecer depois de grandes períodos de vadiagem, o Congresso está aprovando leis importantes, mas às baciadas, na xepa legislativa que precede o período Natal-Carnaval. Por exemplo, aprovou o restante das novas leis do petróleo. Cadê o PSDB, que, aliás, dizia-se contra a mudança das leis?

Uma das leis aprovadas não é disparate pequeno. Em resumo simples, um tributo petrolífero que recebe o nome de "royalties" passará a ser distribuído segundo os critérios dos fundos de participação de Estados e municípios nas receitas arrecadadas pelo governo federal. Os Estados produtores perderão receita. Quem banca a perda? A União, o governo federal.

Em suma, acontece o seguinte: 1) parte do eventual dinheiro do pré-sal será picotado pelo país; 2) dinheiro picotado some, em vez de ser concentrado em grandes projetos de interesse nacional e geral; 3) o "fundo social" composto de recursos do pré-sal será reduzido e dispersado.

Cadê a oposição? Na praia; caçando empregos nos governos de Geraldo Alckmin (SP) e de Antonio Anastasia (MG); negociando miudezas no Parlamento. Outro projeto temerário, o do trem-bala, caiu por obra das empresas interessadas no negócio, que querem mais concessões e clareza nesse projeto mal-amanhado. Cadê a oposição, que criticou o trem na campanha?

Cadê o projeto de responsabilidade fiscal do PSDB (que, aliás, na campanha propôs doido reajuste do salário mínimo)? O governo Dilma começa em menos de um mês. Cadê o "ministério paralelo" ("shadow cabinet") do PSDB, os expoentes de cada área técnica, capazes de fazer críticas fundamentadas e acompanhar a ação do governo? Cadê?

MÔNICA BERGAMO

HORA DO RECREIO 
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/12/10

Após ler os textos da infância de Meire Cazumbá, que nasceu no quilombo Rio das Rãs, no sertão da Bahia, a artista e educadora Marie Ange Bordas teve a ideia de fotografar durante dois verões os moradores do local para ilustrar os relatos. Com as imagens prontas, pediu para as crianças locais fazerem desenhos em cima, como os que aparecem no retrato do garoto Ezequiel (foto) . O resultado está no livro "Histórias da Cazumbinha", que será lançado amanhã, às 15h, na loja da Companhia das Letras da Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

SERRA PARA PRESIDENTE
O governador eleito Geraldo Alckmin, de SP, começou a defender que José Serra (PSDB-SP) seja eleito para a presidência do PSDB. A possibilidade causa arrepios no partido em Minas Gerais. Sob a bandeira da "refundação" da legenda, os mineiros defendem que lideranças derrotadas nas eleições deste ano sejam meras "conselheiras". E que o comando da agremiação fique com o senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) ou com alguém ligado a ele.

PALANQUE PARTIDÁRIO
"Nós, que conquistamos mandato, temos espaço para nos expressar. As lideranças que estão sem mandato [caso de Serra] precisam do espaço partidário para fazer a mesma coisa", diz Alckmin.

BOA VIZINHANÇA
O governador, que tomará posse no cargo na manhã de 1º de janeiro, embarca em seguida para Brasília. Vai participar do coquetel da posse de Dilma Rousseff (PT) na tarde do mesmo dia.

CURVA
Há estimativas de que US$ 90 bilhões tenham sido enviados nos últimos anos por brasileiros para o exterior, de forma ilegal. O senador Delcídio Amaral (PT-MS), autor de projeto que anistia os donos dos recursos, diz que o governo trabalha com projeção menor: US$ 50 bilhões.

BOM EXEMPLO
Só uma das cerca de cem contas "secretas" de brasileiros que enviaram dólares para o exterior por meio do Israel Discount Bank de NY, no escândalo mais recente envolvendo evasão de divisas, tem US$ 40 milhões.

FICHA QUE CAI
Assim como Lula, também a primeira-dama, Marisa Letícia, está sentindo certa angústia com a proximidade do fim do mandato.

AGENDA BLOQUEADA
E o cabeleireiro Celso Kamura, que está curtindo férias no litoral da Bahia, já está com a agenda reservada para arrumar Dilma Rousseff na cerimônia de posse da nova presidente.

NA PONTA DO DEDO
Fernanda Young mostrou ao maestro John Neschling tatuagem que fez no dedo indicador escrito "shalom" -paz em hebraico-, durante viagem a Israel, da qual acaba de voltar. E falou o quão tocada ficou com o judaísmo. Neschling não titubeou. Disse que conhecia um rabino que a converteria na hora. A apresentadora, hinduísta, dispensou.

FÉRIAS
Wagner Moura foi convidado a integrar o elenco de "Insensato Coração" há mais de um ano e, na ocasião, disse não. Mas, com a saída de Fábio Assunção da trama, o nome do ator apareceu na lista de prováveis substitutos. "Sem possibilidade", diz sua empresária, Fernanda Ribas. O ator está de férias até janeiro e, em março, deve começar a filmar "A Cadeira do Pai", de Luciano Moura.

PEGADINHA
Circula um e-mail com o logo da Vivo e uma página que imita o site da operadora dizendo que alguns "clientes especiais" foram sorteados para ganhar um aparelho iPhone 4. O conteúdo tem um link para que o destinatário acesse um site. Tudo não passa de um vírus. A empresa de telefonia não está fazendo oferta similar e esclarece que os e-mails que envia não apresentam links.

CARAS & BOCAS
O vereador Gabriel Chalita (PSB) abriu seu dúplex, em Higienópolis, para o aniversário do novelista Walcyr Carrasco. Passaram por lá atores, escritores, o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, e o governador eleito Geraldo Alckmin (PSDB), de quem o parlamentar já foi secretário.

CURTO-CIRCUITO

Maria Rita fará shows nos dias 17 e 18, às 22h, no Credicard Hall. 16 anos.

A cantora Anaí Rosa faz show hoje na choperia do Sesc Pompeia, com participação de Raul de Souza. 18 anos.

Francismar Lamenza lança hoje o livro "Os Direitos Fundamentais da Criança e do Adolescente e a Discricionariedade do Estado", na Livraria da Vila dos Jardins.

A Comissão da Mulher Advogada da OAB-SP promove hoje, às 19h, debate sobre os direitos da mulher na sociedade islâmica, com Marcia Camargos, Luiza Nagib Eluf e Fabíola Marques. Elas analisarão o caso da iraniana Sakineh Ashtiani. O evento será na sede da ordem, na praça da Sé.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Gerson queimou a roda!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/10/10

O WikiLeaks, que vazou documentos secretos, saiu do ar. Porque ia revelar a realidade da Glória Maria


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E mais uma do Bope que saiu no Twitter: "Policial do Bope mata três traficantes e pede música no "Fantástico'". Rarará!
E aquele site WikiLeaks, que vazou 250 mil documentos secretos, saiu do ar. Porque ia revelar a real idade da Glória Maria. Rarará!
E o brasileiro é cordial. Olha o cartaz numa empresa em São Paulo: "Se eu pegar o corno desgraçado que usa minha pomada de hemorroidas, vai se ver comigo". Rarará!
Esse deveria ser o segredo do Gerson: roubar pomada de hemorroida na firma. Muito mais chocante! E mais coisas que excitam o Gerson Sexo Sujo: cheirar arroto de quibe do Habib's, cheirar pum da Dilma e da dona Marisa e o pum de "foie aux fromages" da Marta! E cheirar alpargata de garçom de rodízio do Fogo de Chão no final do domingão!
Mas diz que o segredo não podia ser muito chocante porque o Gerson é corredor patrocinado pela Goodyear! Já sei, não podia queimar a rodinha! Não pode queimar o pneu! O Gerson devia ter o patrocínio daquela desentupidora de Belo Horizonte: Rola Bosta! Rarará!
Diz que o verdadeiro segredo do Gerson era ficar vendo o Justin Bieber! Rarará! Chocante! Isso que é chocante! Aliás, essa "Passione" vai terminar em omelete: Gemma briga com Clara!
E atenção! Tá na hora de a gente batizar o novo avião da Dilma! Que vai ter a turbina reforçada para conseguir decolar com ela dentro. Eu sugiro três nomes: Airbucho, Airbruxa ou Vassourão. Ou então NIMBUS 2011! A vassoura do Harry Potter. Rarará!
Diz que precisa trocar o Aerolula porque não tem autonomia de voo. Imagine se tivesse, o Lula teria feito campanha até em Plutão!
E adorei a charge do Myrria com o Lulalelé e a Dilma Rouchefe: "Companheira Dilma, tenho mais uns nomes aqui pro ministério". "Não dá, Lula, a Anac proibiu o overbooking." Tá dando overbooking no ministério da Dilma!
E a formação do ministério: o Lula dá as cartas, o Temer dá o morto e a Dilma BATE! Rarará!
E essa: "Produção industrial bate recorde em 12 meses". Pra desespero da Miriam Leitão. Rarará!
Mais uma boa notícia e a Miriam Leitão vira torresmo! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

DORA KRAMER

Coisa de amador
DORA KRAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/12/10

Celebrado como profissional no ramo da ocupação de espaços políticos e administrativos, o PMDB não tem feito jus à fama nessa fase de formação do ministério de Dilma Rousseff. Até agora tem perdido todas as tentativas de pressionar o governo e de impressionar o público com suas jogadas.
A cúpula do partido deu-se conta disso e ontem já se movimentava nervosamente para recuperar os prejuízos provocados de um lado pela "dureza" dos petistas que formam o núcleo do poder e, de outro, pela fragilidade da propagada unidade do partido em torno da defesa de seus interesses.
Danos obviamente passageiros. Não obstante, suficientes para evidenciar que o partido não é assim tão competente nesse jogo nem está unido como quer fazer crer desde que conseguiu sentar na Vice-Presidência da República o presidente da legenda, Michel Temer, contra a vontade do presidente Luiz Inácio da Silva, que preferia ver Henrique Meirelles no posto. 
O plano de atuação da direção partidária para essa fase era fazer de Temer o interlocutor junto à presidente eleita, que seria o único autorizado a levar a ela os nomes dos "eleitos" por consenso para ocupar as cinco pastas pretendidas.
Logo nos primeiros acordes, entretanto, a sinfonia desafinou: o líder da bancada da Câmara, Henrique Eduardo Alves, propagandeou a criação de um grande bloco de partidos ditos aliados, de repercussão bastante negativa no governo. Soou ao que efetivamente era: chantagem para negociar espaços na Esplanada e no Congresso.
Temer alegou que nada sabia, Alves confirmou que agira por iniciativa própria, mas continuou na mesma linha sem ser admoestado à altura do ato. Deixou o comandante "vendido" e ficou tudo por isso mesmo. 
Em seguida, quando começaram de fato as negociações com a presidente, Temer esteve com Dilma, que, no entanto, no mesmo dia recebeu os senadores José Sarney e Renan Calheiros para negociar a parte que lhes cabia no latifúndio. O comandante, de novo, foi solapado em sua autoridade de interlocutor único.
No dia seguinte, um integrante de sua equipe de comando e candidato ao posto de ministro, Moreira Franco, deu entrevista ao jornal O Globo reclamando de que Temer estava sendo "enfraquecido" pelo governo. Se ele passou esse recibo com autorização, foi ruim. Se Moreira falou à revelia de Temer, foi pior: revelou desarticulação.
No caso do convite seguido de "desconvite" ao secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Sergio Côrtes, para o Ministério da Saúde dividiu-se o desastre: entre o comando do partido, pois ficou patente a existência de mais uma interlocução à parte e o governador Sérgio Cabral pela precipitação do anúncio sem cumprir o ritual de articulação com o PMDB.
Ou talvez não tenha se precipitado, mas simplesmente dado margem ao fogo "amigo" de petistas e pemedebistas. Políticos de expressão regional, pouco afeitos aos códigos da capital federal, são vulneráveis a esses revezes.
Em maio de 2008, quando Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente, Carlos Minc - escolhido na "cota" de Cabral - também amargou uma suspensão temporária pelo mesmo motivo: o governador comemorou e o convidado saiu falando de seus planos como se autonomia tivesse.
No caso da direção do PMDB, não se pode alegar falta de intimidade com as regras não escritas. Ao contrário: o partido domina a linguagem como ninguém. Mas, desta vez e por ora, parece vítima de outro fenômeno: a voracidade ante a fartura do banquete. 

Nem de graça. Se, numa hipótese remota, o DEM resolvesse mudar sua direção para entregar o comando ao prefeito de São Paulo, dificilmente Gilberto Kassab recuaria na decisão de se transferir para o PMDB no início do ano.
Conforme correligionários, não lhe apetece a administração de massa falida. Além de não ser politicamente vantajoso para nenhum dos dois dos gurus de Kassab - José Serra e Jorge Bornhausen - deixar o PMDB de São Paulo à deriva, disponível à influência do PT ou do governador eleito Geraldo Alckmin. 

NELSON MOTTA

O máximo, o mínimo e o possível
Nelson Motta
O Globo - 03/12/2010

Com todo seu dinheiro e tecnologia, seus serviços de inteligência e armamentos, tropas bem preparadas, bem pagas e respeitadas pela população, as policias de Nova York e de Los Angeles não conseguiram conter o tráfico e o consumo de drogas, que de ano para ano vem aumentando.

Mas conseguiram diminuir drasticamente a violência urbana e os índices gerais de criminalidade, que, em Nova York, caíram nada menos do que 76% de doze anos para cá. E o tráfico? Continua crescendo, mas não tem poder, não manda nada, nem afeta a vida do cidadão comum. Quem quer se destruir sempre sabe encontrar os meios.

Nessas cidades, que estão entre as mais ricas e as maiores consumidoras do mundo, os traficantes têm medo da policia, fogem dela e jamais a enfrentam porque sabem que vão perder. E passar longos anos na prisão, sem celular, sem visitas intimas, sem liberdade condicional com 1/6 da pena cumprida. E pior: se for policial, vai apodrecer na cadeia, porque as penas são muito mais severas para os que usam a autoridade pública para o crime.


Mesmo com armamento pesado, que podem comprar livremente em qualquer loja, as quadrilhas de traficantes que abastecem esses ricos mercados não dominam sequer um quarteirão da cidade. Agem nas sombras e no submundo, vendem pela internet, pelo correio, por mensageiros, por infinitos esquemas que conectam a fome com a vontade de comer.

Já são quinze os estados americanos que, por referendos, liberaram a venda de maconha para "fins medicinais". Basta se cadastrar com uma receita médica com diagnóstico de stress para comprar pequenas quantidades de maconha, plantada legalmente em pequenas propriedades fiscalizadas pela polícia. Os estados estão enchendo os cofres com os impostos de milhares de "bocas de fumo" legalizadas. E planejam investi-los na prevenção e no tratamento de dependentes de drogas pesadas.

Não mudou nada, a criminalidade urbana não aumentou, e o tráfico continua vendendo cocaína, crack, ecstasy e uma infinidade de novas drogas sintéticas, de fácil produção e transporte, baixo risco e alta lucratividade. 

CELSO MING

Previsibilidade 
Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 03/12/2010

Ontem, no seu último discurso ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o presidente Lula atribuiu o bom momento da economia à preservação de dois princípios ao longo do seu governo: o da responsabilidade e o da previsibilidade. Lula disse que pegou a economia toda quebrada. "Eu pensava: como vou governar um país que não tem conserto?"

É uma declaração com certo exagero e verdadeira apenas pela metade. E o que contém de verdade tem mais a ver com o comportamento do Banco Central do que do resto do seu governo.

O maior exagero é o de que pegou a economia quebrada. O Plano Real aconteceu em 1994, depois dele veio a Lei de Responsabilidade Fiscal e a adoção do sistema de metas de inflação. E este já foi meio conserto andado sobre o qual Lula preferiu não passar recibo. Perdeu uma boa oportunidade para ser mais sincero.

Um rápido exame sobre a qualidade das contas públicas mostra que, pelo menos nos três últimos anos do governo, prevaleceu a gastança e não propriamente a responsabilidade fiscal.

Mas isso não significa que o nível de previsibilidade não seja hoje maior do que era no início de 2003, quando do início do seu primeiro mandato. E, com todos os méritos para o governo Lula, isso tem de ser reconhecido.

No entanto, o grau de previsibilidade agora só é maior do que era lá atrás porque o Banco Central teve de acionar com a política de juros o que o resto do governo, com as demais políticas, deixou de fazer. Coincidentemente, o argumento da previsibilidade nunca foi enfatizado nem pela Fazenda, nem pelo Planejamento, nem por outro setor. Nos últimos oito anos, foi do Banco Central.

Do ponto de vista macroeconômico o bom nível de previsibilidade é fator determinante não só para a eficácia dos investimentos e da administração dos contratos de longo prazo. Seu impacto positivo permeia toda a economia.

A partir do momento em que empresas e consumidores podem contar com a inflação na meta, por exemplo, cai o nível de incerteza. Assim, nem o empreendedor nem o consumidor precisam fazer provisões excessivas para garantir cobertura para o fator-surpresa e para as imponderabilidades. Nessas condições, o crescimento econômico se constrói sob bases sólidas e terá como consequência o aumento do emprego e da confiança no futuro.

Dá para dizer que toda a boa gestão de negócios e de implantação de projetos consiste em reduzir ao máximo os fatores sobre os quais não há controle. Essa é a razão porque todo governo e todas as empresas bem administradas têm de trabalhar com projeções confiáveis que servem de parâmetros para a tomada de decisões. O problema é que deficiências de gestão macroeconômica e excessivas concessões ao populismo, como as que se viram nos últimos meses, aumentam o grau de risco e de imprevisibilidade e podem levar os agentes econômicos tanto a adiar a implantação de projetos como a tomar decisões de baixa eficiência.

No momento, o ministro Guido Mantega retomou o discurso da austeridade e do equilíbrio das contas públicas. É, indiretamente, o reconhecimento de que esse aperto de cinto ficou necessário porque o governo gastou demais. E é também o reconhecimento de que a disparada da despesa pública nos dois últimos anos da administração Lula, principalmente em 2010, tirou previsibilidade da economia.

CONFIRA

Recompra prorrogada
O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, não anunciou ontem a recompra de títulos públicos com que o mercado vinha contando. Em compensação, garantiu que as operações destinadas a assegurar o nível de liquidez junto aos bancos e as operações especiais de crédito seriam prorrogadas. Mas ele avisou que elas serão de caráter temporário.

Gol da Alemanha
Com isso, prevaleceu o ponto de vista da Alemanha, contrária a políticas escancaradas de afrouxamento quantitativo, tal como colocadas em prática pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Na moita?
Até há algumas semanas, o BCE havia recomprado ? 67 bilhões em títulos emitidos por países da área do euro. Como Espanha, Irlanda e Portugal encontraram certa facilidade para a colocação de novos papéis de dívida, ficou entendido que o BCE está atuando, mas que preferiu manter em sigilo o valor da intervenção.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Perfume importado e games lideram tributação no Natal 
Maria Cristina Frias 

Folha de S.Paulo - 03/12/2010 

A carga tributária dos produtos vendidos no Natal continua alta neste ano.
Perfumes importados, jogos eletrônicos e bebidas, como espumante e uísque, lideram o ranking de tributação dos produtos mais vendidos nesta época do ano, segundo levantamento do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário).
A cada perfume importado comprado o consumidor paga 78,43% em tributos.
"A tributação dos importados é maior, pois, além de eles terem todos os tributos incidentes dos produtos nacionais, ainda está embutido o Imposto de Importação", diz João Eloi Olenike, presidente do IBPT.
Nos jogos eletrônicos, um dos brinquedos preferidos das crianças, a carga tributária chega a 72,18%.
"Nos presentes eletrônicos [como games, televisores, celulares, laptops], a quantidade de tributos federais é maior que a dos estaduais e municipais. Porém, o ICMS é um dos que mais oneram o valor final, podendo alcançar alíquota de 25%", diz.
Os espumantes, presentes nas ceias natalinas, e o uísque, usado com frequência para presentear, possuem carga tributária de 59,49% e de 61,22%, respectivamente.
"A tributação dos produtos natalinos não subiu neste ano, porém continua altíssima. Uma carga tributária menor, principalmente dos importados, como o bacalhau, permitiria que mais pessoas tivessem acesso a esses produtos", diz Olenike.
O IBPT estima que a arrecadação de tributos do governo atinja R$ 1,27 trilhão neste ano, com aumento de 17% sobre o ano passado.

DASLU NA MIRA

Duas lojas da Daslu, na Vila Olímpia e no shopping Cidade Jardim, estão entre os alvos da Operação Conformidade, deflagrada na quarta pela Secretaria da Fazenda de São Paulo e pela Procuradoria Geral do Estado.
O fisco pediu à Justiça a penhora dos valores que a empresa tem a receber nas vendas com cartões de débito e crédito para garantir o pagamento de dívidas de ICMS.
Com outros débitos decorrentes de auto de infração, já inscritos na dívida ativa, a nova Daslu deve ao Estado cerca de R$ 138 milhões. A empresa original tem dívidas maiores com o Estado.
Procurada, a Daslu não comentou.
A Fazenda também acionou o Ministério Público para que entre com ações judiciais de sonegação fiscal contra mais de 600 empresas que devem cerca de R$ 1,1 bilhão.
Foram promovidas ações conjuntas de constatação de suspeitas de fraude em postos de combustíveis.

BULA NOS IMÓVEIS

No primeiro ano da estreia da farmacêutica EMS nos negócios da área imobiliária, a sua incorporadora ACS vai fechar 2010 com oito empreendimentos e VGV (Valor Geral de Vendas) de R$ 330 milhões.
"Para o próximo ano, nós devemos ultrapassar as estimativas iniciais de R$ 400 milhões", diz Silvio Chaimovitz, presidente da empresa.
A incorporadora começou as operações em janeiro com um lançamento residencial em Campinas (SP) e agora chega à capital.
Serão três empreendimentos, dois residenciais (em Pinheiros e Chácara Klabin) e um comercial (no Jabaquara), com VGV estimado de R$ 83 milhões.
O foco da companhia é atuar também na região do Grande ABC e na cidade de Santos.
"Essas regiões são importantes por estarem próximas ao porto. Com os negócios do pré-sal, vai ter muita empresa e moradores a procura de imóveis próximos às rodovias Anchieta e Imigrantes", diz Chaimovitz.

BRINCADEIRA MILIONÁRIA

A Tool & Toys, há dois meses no shopping Cidade Jardim, já vendeu R$ 100 milhões de "objetos de trabalho e brinquedos", como define o dono, Márcio Christiansen.
Entre os objetos considerados de trabalho, estão helicópteros e aviões e, entre "os de brinquedo", há iates, "jet skis", relógios e triciclos, diz.
Na loja de 1.000 m2, há um iate de 53 pés, um helicóptero, um "jet ski", dois carros de luxo e um triciclo.
A maioria dos produtos, no entanto, é consultada com uso de catálogo.
A compra não é feita no shopping, mas diretamente com o fornecedor, que oferece uma participação à loja.
Christiansen diz que as vendas no período foram beneficiadas pelo fluxo de clientes que vieram à cidade para uma feira marítima.
"O mercado de luxo cresceu 22% no Brasil no último ano", diz ele, que também é CEO da Ferretti Brasil. A marca de iates faturou R$ 320 milhões neste ano.

Faxina O setor de produtos de limpeza movimentará R$ 13,5 bilhões neste ano, alta de 11% no faturamento ante 2009, segundo a Abipla (associação das indústrias de produtos de limpeza).

Dupla O Instituto Tecnológico de Informática de Valência (Espanha) fez parceria com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) para colaborar com o observatório de Tecnologias de Informação e Comunicação. O objetivo é que os dois países possam discutir avanços tecnológicos para gerar negócios.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Que tal? 
 Renata Lo Prete

 Folha de S.Paulo - 03/12/2010

Na tentativa de acertar os ponteiros com o PMDB, a equipe de transição de Dilma Rousseff, além de confirmar hoje os nomes de Edison Lobão (Minas e Energia) e Wagner Rossi (Agricultura), levou ontem ao partido a proposta de colocar Moreira Franco, antes mencionado para Cidades, no Ministério da Previdência, dentro da cota dos senadores do partido.
Estes já haviam recusado abraçar um ministro que na verdade seria de Michel Temer. A presidente eleita, porém, resolveu insistir, sob o argumento de que o Senado não tem nome a oferecer. A compensação poderia vir na forma de mais cargos no segundo escalão.

Meio a meio O novo desenho prestigia Temer, mas também atende ao apelo da bancada do Rio, que não quer ver Moreira à frente da poderosa pasta das Cidades.

Xadrez O espaço aberto por Dilma a Jorge Gerdau no futuro governo, ainda que sem uma pasta, sinaliza tentativa de manter canal alternativo com a indústria, agora que Robson Andrade, ligado a Aécio Neves (PSDB), assumiu a presidência da CNI.

Currículo Fausto Pereira dos Santos, ex-diretor-presidente da ANS (Agência Nacional de Saúde) e agora na relação de candidatos a assumir o Ministério da Saúde, foi um dos coordenadores do programa de governo de Dilma para essa área.

Anote aí A disputa entre as correntes do PT começa a pegar fogo. Há quem aposte que, se José Eduardo Cardozo for confirmado na Justiça, Fernando Haddad poderia passar apuros para se manter na Educação. Ambos integram a Mensagem ao Partido, que tem 16% do diretório.

Copyright O Blog do Planalto acaba de inaugurar a seção "Nunca antes", que toma emprestado o bordão favorito de Lula para divulgar "as principais realizações" do mandato do presidente.

Medalha no peito Não obstante a crise do banco PanAmericano, Lula resolveu agraciar o empresário Silvio Santos com a Ordem do Mérito do Trabalho Getúlio Vargas no grau de grã-cruz. O vice José Alencar e o maestro Isaac Karabtchevsky receberam a mesma distinção.

Companheiros Em gesto inédito, Lula receberá no próximo dia 15 dirigentes do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, rival histórico da entidade do ABC, berço político do presidente.

Dupla missão Geraldo Alckmin não descarta a possibilidade de Saulo de Castro Abreu Filho acumular Transportes com a presidência da Dersa, como já ocorreu durante a gestão do então secretário Dario Rais Lopes.

Next O deputado federal Emanuel Fernandes é o favorito para ocupar a recém-concebida Secretaria de Gestão Metropolitana de SP. Segundo Alckmin, a pasta abarcará também o planejamento de aglomerados urbanos, como os de Sorocaba e São José dos Campos.

Santo de casa Presidente do PSDB de Minas, Nárcio Rodrigues deverá assumir a Secretaria de Ciência e Tecnologia do novo governo de Antonio Anastasia.

Oportunidades O PT cogita abdicar da primeira secretaria do Senado, posto a que terá direito por ser a segunda maior bancada, em troca da primeira vice. Com José Sarney (PMDB-AP) reconduzido à presidência e cada vez mais afastado da rotina da Casa, o partido aposta que o vice ficaria com um bom naco do comando.

tiroteio

"Eu não quero mais do que ninguém, só quero que seja estabelecido critério. E, se o critério for o tamanho da bancada, eu tenho a terceira maior do Senado."
DO SENADOR GIM ARGELLO (PTB-DF), sobre a disputa entre os partidos aliados por posições na futura administração de Dilma Rousseff.

contraponto

Beijo, me liga


Em recente cúpula da Unasul na Guiana, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deixava o salão uma vez encerrado o almoço oferecido aos chefes de governo participantes quando notou que não havia se despedido do colombiano Juan Manuel Santos.
Chávez retornou ao local e o abraçou, surpreendendo os presentes com o afago ao colega do país com o qual a Venezuela tem um histórico de tensões.
-Agora você já tem o número do meu telefone. Ligue sempre que quiser!

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Itaú sobe o morro 
Sonia Racy 
O Estado de S.Paulo - 03/12/2010

O Itaú Unibanco entra na tropa de choque de Sérgio Cabral. Integrantes do banco reúnem-se hoje, no Rio, com o governador e sua equipe técnica para definir um plano de instalação de várias agências. Todas voltadas para as comunidades que estão sendo pacificadas. Com lupa e em conjunto, buscam o melhor espaço perto das UPPs.

Sempre que choveu... parou
Maria Claudia Amaro, presidente do conselho da TAM, avalia que o problema do último fim de semana foi resolvido rapidamente e com eficiência. E não acredita que possa se repetir. "Aumentamos o número de tripulações-reserva para fazer frente a situações meteorológicas adversas", explicou anteontem à coluna, no mesmo dia em que a Anac liberou a aérea para retomada de venda de passagens.
E frisa: "Mesmo com o que aconteceu, a TAM permaneceu no ranking de novembro como a empresa de maior índice de pontualidade".
Pé direito
Ao assumir a cadeira que foi de Romeu Tuma, o senador Alfredo Cotait já marca um gol: a criação do cadastro positivo foi aprovada no Congresso, anteontem. Instrumento esse que revolucionará a taxa de juros no crédito.
Suspense
Apesar de José Eduardo Cardozo ser o mais cotado para assumir o Ministério da Justiça, seu telefone não tocou.
Mas, pelo jeito, tocará.
Ausência
José Machado, secretário do Meio Ambiente, parece não ter ficado satisfeito com a sugestão de Lula feita a Dilma: a de manter Izabella Teixeira no ministério. Ele não estava presente na assinatura do decreto do Macrozoneamento da Amazônia, anteontem, no Planalto.
Machado era o preferido do PT para ocupar o posto.
Nada a ver
Não se sabe Desabafo
Maurício Lopes, promotor que acusou Tiririca de falsidade ideológica, avisa: tem motivos de sobra para recorrer da decisão do juiz Aloísio Silveira absolvendo o deputado eleito. "Além da indignação pelo cerceamento à produção de provas, o juiz disse que não ficou provada a ocultação de bens à Justiça Eleitoral", contou à coluna.
E emendou: "Como poderia, se ele negou o pedido de quebra dos sigilos bancário e fiscal, apesar das evidências de ocultação?".
Por cima
Francis Coppola escolheu feijoada para almoçar, anteontem, na Faap. Depois fugiu do trânsito da cidade, na hora do rush, voando de helicóptero até a Rede Globo.
Contou ao comandante, aliás, que sabe pilotar. E bem.
Leitura tensa
Chega ao Brasil em janeiro, pela Verus, do Grupo Record, a autobiografia de Natascha Kampusch. Ela é a austríaca sequestrada e presa por oito anos em um sótão. Chocou o mundo em 2006.
Tietagem
Não são poucos os fãs que apoiam os segredos revelados pelo WikiLeaks. Só no Facebook, 360 mil "curtiram" a página do site.exatamente por que, mas Gisele Bündchen lançou enquete em seu site questionando se a usina de Belo Monte deveria ser construída. Resultado: 50,3% dos internautas disseram não.
Sem noção
Uma certa senhora do interior de São Paulo entrou na Chanel do Iguatemi e comprou, em um só dia, R$ 400 mil...

Na frente
Conforme antecipado, anteontem, no blog da coluna na internet, a Cetip - empresa responsável pelo registro da negociação de papéis do mercado financeiro - comprou a GRV Solutions. Por R$ 2 bilhões.
Bruno Caetano é o novo presidente do Sebrae-SP.
João Carlos Camargo será homenageado com festa na Hípica Paulista. Dia 17.
A exposição Georg Baselitz - Pinturas Recentes abre terça. Na Estação da Pinacoteca.
Um time de peso debate direitos da mulher na sociedade islâmica e o caso Sakineh Mohammadi. Hoje, no Salão Nobre da OAB.
Dalal Achcar e Katia Mindlin lançam Istambul - Uma Cidade Fascinante no Shopping Leblon, no Rio. Segunda-feira.
Vanessa Pedote arma festa em prol da Associação Amor Por Favor. Amanhã, no Dalva e Dito.
Escolhido para a Copa de 2022, o Catar é... bem menor que Sergipe. 

ILIMAR FRANCO

Aposta no caos 
Ilimar Franco 

O Globo - 03/12/2010

O ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoBSP) está se articulando para concorrer à presidência da Casa. A costura tem a simpatia do PSB e do PDT. O PSDB e o DEM estão sendo sondados. Aldo acenou para a oposição com o respeito à proporcionalidade na distribuição das relatorias de projetos importantes. Ele aposta no descontentamento com a formação do Ministério do novo governo para rachar a base aliada e, assim, tentar derrotar o favoritismo da candidatura do bloco PT-PMDB.

Risco de rebelião também no PP

Um emissário da presidente eleita, Dilma Rousseff, procurou a direção do PP para sondar como seria recebida, pela bancada do partido na Câmara, a manutenção do ministro Márcio Fortes (Cidades). O interlocutor da petista avisou que havia o risco de uma rebelião, como fizeram os deputados do PMDB no caso da indicação do secretário estadual Sérgio Côrtes (RJ) para o Ministério da Saúde. Os deputados do PP estão convencidos que fazem o novo ministro das Cidades. Os pepistas avaliam que o governador Jaques Wagner (BA) tem condições de emplacar no cargo o ex-líder do partido, o deputado Mário Negromonte (BA).

Foco
A presidente eleita, Dilma Rousseff, reuniu-se anteontem à noite com o futuro ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ela enfatizou que a prioridade da pasta é buscar soluções criativas para os dramas da segurança pública.

Franciscano
O PMDB da Câmara desistiu de disputar o Ministério das Cidades. Não quis colocar em risco o bloco com o PP. Por isso, o líder Henrique Alves (RN) está sendo alvo de críticas na bancada. Prevaleceu a tese de que era preciso o aval do PP.

O xadrez do PMDB
Além de Wagner Rossi no Ministério da Agricultura e de Edison Lobão no de Minas e Energia, as negociações no PMDB ontem caminhavam para que o partido fique ainda com Turismo e Previdência. O mais cotado para o primeiro é o deputado Mendes Ribeiro (RS) e, para o segundo, Moreira Franco, na cota do Senado, a pedido de Michel Temer. Em troca, os senadores do PMDB ficariam com a secretaria de Previdência Complementar.

Em causa própria
Depois de ter 50% de sua campanha à reeleição financiada por laboratórios farmacêuticos, o deputado Manoel Júnior (PMDB-PR) concedeu anteontem a Medalha do Mérito Legislativo ao presidente do Conselho Deliberativo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais, Josimar Henrique da Silva. Já Sandro Mabel (PR- GO), o das rosquinhas, concedeu a medalha à Associação Paulista de Supermercados. Ano passado, ele fez a mesma homenagem ao presidente da Associação Brasileira de Supermercados.

CASTIGO
Convidado para assumir o Ministério das Comunicações, Paulo Bernardo vai ter de aguardar para ser oficializado. Isso só irá ocorrer depois que for definido o novo espaço do PMDB.

MADRINHA
A senadora eleita Gleisi Hoffmann (PT-PR) está coletando assinaturas de apoio à nomeação do diretor de Política Agrícola da Conab, Silvio Isopo Porto, para a presidência da companhia.

MEDO
O deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA) está estudando o manifesto do Tea Party, a ala mais conservadora do Partido Republicano americano.

MERVAL PEREIRA

Cobiça
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 03/12/10


Mais uma vez o Congresso foi palco de lamentáveis demonstrações de cobiça na aprovação, na noite de terça-feira, do projeto que redefine a distribuição dos royalties do petróleo, prevalecendo no plenário a proposta do senador Pedro Simon, que distribui os royalties a estados e municípios tanto do pré-sal quanto do pós-sal pela proporção do Fundo de Participação, sem levar em conta se são produtores.

Para compensar os prejuízos, a União ressarciria, com "os royalties e as participações especiais", os estados e municípios que perderem arrecadação.

Como o sistema de partilha aprovado pelo governo para o pré-sal acabou com o pagamento de participações especiais, essa é outra disputa que teria que ser travada pelos estados e municípios produtores de petróleo.

O fim das participações especiais, aliás, é outro golpe na arrecadação dos estados produtores. Estima-se que o Estado do Rio deixará de arrecadar R$25 bilhões que seriam devidos por participações especiais no modelo de concessão anteriormente vigente.

O projeto de lei aprovado fala apenas de "royalties", que são limitados a 10% do valor da produção. Já as "participações especiais" têm alíquotas crescentes, de até 40% da receita líquida sobre a produção dos grandes campos brasileiros.

Ao não cobrar as PEs, o Estado brasileiro está abrindo mão de dezenas de bilhões de reais em tributos previstos no modelo de concessão, favorecendo a Petrobras.

Com a aprovação extemporânea e sem um debate aprofundado da mudança do sistema de concessão para o de partilha ? com a consequência da mudança da divisão dos royalties, que a partir da nova lei serão distribuídos a todos os estados e municípios por meio do Fundo de Participação ?, os estados produtores estão tendo que limitar sua luta à recuperação do que perderam, os royalties sobre o pós-sal e dos campos do pré-sal já licitados.

Esse é um direito adquirido que está sendo ferido pela nova lei. Como a votação na Câmara tomou ares de disputa de butim, sem que exista uma visão estratégica de país em discussão, e nem a questão federativa seja debatida, o mais provável é que a questão não se esgote com o puro veto do presidente Lula.

O ânimo dos senhores deputados é mesmo o de retirar o que consideram "privilégios" dos estados produtores, muito especialmente o Rio de Janeiro, que, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), fica com mais de 80% dos royalties, enquanto os municípios fluminenses podem ficar com até 75% do total destinado a todos os municípios.

Para se ter uma ideia dos ânimos regionais, quando um representante do Rio, o deputado Chico Alencar, do PSOL, apelou para o bom senso de seus pares, chamando a atenção para o fato de que "o Rio também faz parte do Brasil", foi rebatido pelo deputado Ibsen Pinheiro com a afirmação "Mas o Rio não é o Brasil", numa clara posição de contrapor supostas regalias às necessidades dos demais estados brasileiros. Ibsen foi aplaudido.

Por sinal, ele é o autor da primeira emenda que mudava o critério da distribuição dos royalties, desrespeitando até mesmo o direito adquirido dos estados e dos municípios produtores.

Sua proposta foi substituída pela do senador Pedro Simon, que mantém o mesmo espírito, mas determina que a União indenize os estados e municípios que tiverem perda com a mudança de critério, o que provavelmente servirá de base para o presidente Lula vetar a mudança, pois não há no Orçamento da União previsão para tal despesa.

Mas a proclamação de Ibsen Pinheiro contra o Rio de Janeiro soa como se o Estado estivesse tirando alguma coisa dos que não produzem petróleo.

O espírito da lei que determinou os royalties foi compensar os custos que os estados produtores de petróleo têm com a exploração, não apenas materiais, mas também ambientais.

Ao mesmo tempo, os royalties procuram também compensar o pagamento do ICMS no consumo e não na origem, o que prejudicou os estados produtores nas negociações da Constituinte.

O que ficou patente na falta de discussão séria da questão federativa dos royalties é que a política está cada vez mais baseada no toma lá dá cá, sem que haja um pensamento orgânico sobre o país para embasar as decisões do Congresso.

Para garantir um quórum alto na sessão, fizeram uma pauta que privilegiava interesses os mais variados: Lei Kandir, Bingo, microempresas e prorrogação do Fundo da Pobreza.

O deputado Miro Teixeira, do PDT, chama a atenção para o que classifica de "redução da política" à concessão de vantagens, mesmo que admita que alguns temas, como o das microempresas, são importantes.

Com esse ânimo, o mais provável é que a questão tenha que ser decidida pela Justiça, já que os deputados e senadores estão dispostos a derrubar o veto do presidente e a derrotar qualquer novo projeto que garanta os direitos dos estados produtores nos campos já em produção.

A questão básica, que é o direito adquirido garantido pela Constituição, está sendo superada pelos interesses regionais.

Ao insistir na versão fantasiosa de que foi vítima de uma tentativa de golpe no episódio do mensalão, em 2005, o presidente Lula está tentando fazer o que mais gosta: reescrever a História a seu favor, tentando lavar da imagem do PT um dos episódios mais vergonhosos de corrupção já ocorridos no país.

Como o ex-deputado federal José Dirceu, cassado no episódio e acusado pelo procurador-geral da República de ser o chefe da quadrilha do mensalão, anunciou recentemente, depois de ter tido um encontro com o presidente no Palácio da Alvorada, Lula vai ajudá-lo na campanha para provar que o mensalão nunca existiu.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

Farofa de guisado, inhame e bolo baieta

Ignácio de Loyola Brandão 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
No avião, em minha última viagem literária do ano, encontrei Pasquale Cipro Neto e Moacyr Scliar. Porém, Scliar (que tem um nome muito complicado de dizer, é preciso soletrar, como confessou à Veja a atriz Iris Valverde) não ia para o Salão e sim para o 1.º Seminário de Literatura do Sesc. No fim de minha conversa no Café das Letras encontrei-me com Rogério Salgado, que escreveu mais de cem títulos de cordel e mantém em Minas o Belô Poético. Rogério ali estava para o Encontro de Autores Paraibanos, coordenado pela União Brasileira de Escritores. Em uma mesma semana, a cidade conviveu com livros e autores os mais diferentes. O que reforça a afirmação que faço sempre: coisas mudam, fala-se e muito de livros, secretarias estaduais de Educação e Cultura agem.
Por um dia, perdi a conversa de Affonso Romano de Sant"Anna. Antes de mim, no mesmo palco do Teatro de Arena, estiveram Nélida Piñon, que, mesmo gripada, febril e quase afônica, falou e respondeu às perguntas, profissional e apaixonadamente. Também foram ouvidos Mario Prata, Silvério Pessoa, Hildebrando Barbosa Filho e Sérgio Castro Pinto, mediados pelo Linaldo Guedes. Quando o mediador desaparece, é porque mediou bem. Sua voz é a de comando, ligação com o público, ele tem a função de não deixar a peteca cair. Por João Pessoa passaram (e passearam, a cidade é encantadora, brisas suaves nos levam a esquecer o abafamento) Marina Colasanti, Fabrício Carpinejar, Arnaldo Antunes, Arquidy Picado, Braulio Tavares, Ferréz, Tania Zagury, André Vianco, Jairo Rangel. Ocorreram oficinas, contações de histórias, shows, filmes paraibanos, exposições, saraus, autógrafos, debates. Tudo num espaço cultural dos mais bem equipados que já vi no Brasil, que homenageia José Lins do Rego.
Quando entrei no 1.º Salão Internacional do Livro da Paraíba, em João Pessoa, Lana Machado, organizadora do Café com Letras, me entregou o envelope deixado pelo Mario Prata. Quando alguma coisa vem do Prata, há brincadeira no meio, afinal, convivemos há 40 anos. Era a Coquetel, revista de palavras cruzadas, da série "difícil". Percorri atento até chegar às cruzadas das páginas 26 e 27. O enunciado pedia: Fundador da Companhia de Jesus com 22 letras. Corri à resposta e ali está: Ignácio de Loyola Brandão. Dessa maneira, morri há 454 anos em Roma e há uma igreja em minha homenagem próximo à Via Del Corso. Quem for lá, aproveite, existe um bom restaurante em frente com mesas fuori, como dizem. Outro muito bom, vizinho, é o Il Falcheto, onde Araujo Neto, decano dos correspondentes brasileiros na Itália, comia quase todos os dias.
Na manhã de sábado, quando caminhava pela orla em Tambaú, percebi que me olhavam com estranheza. Estariam me reconhecendo na praia, debaixo daquele sol abrasante (que clichê!)? Até garis, motoristas de bugs e vendedores de água de coco? Então me dei conta da insólita figura que eu exibia. Como a viagem era bate e volta, não levei bermuda, maiô ou havaianas. Ao terminar o café, saí como estava. Calça branca, camiseta preta, sapatos e meia. Paulistano a toda prova. Faltava só o guarda-chuva. Eu não podia perder a manhã esplêndida, dentro de duas horas tomaria o avião de volta. Assim, caminhei como estava.
Agora, iniciei minhas férias de bienais, feiras, seminários, salões até o ano que vem. Os escritores, que nunca se encontram em suas cidades, sentam-se a falar, beber e comer pelo Brasil afora. Essa a grande marca da literatura e da vida literária nestes tempos. Como jamais aconteceu em toda a história, autores têm atravessado o País, conversado, debatido, trocado ideias e farpas, rido muito e lamentado, principalmente quando verificamos que sutilmente a censura se insinua de novo entre nós.
Na manhã do sábado, entrei no Mercado Público de Tambaú. Mercados são um dos lugares em que sentimos a cidade, o povo, vemos a alma e o coração. Em volta, os flanelinhas vestindo uma camiseta: Consultor de Estacionamento. Criatividade. Passei por dezenas de pessoas debulhando ervilhas em bacias, coisa bem do meu interior. Dentro me vi sufocado pelo perfume das frutas em pilhas orgiásticas: mangas, pinhas, gordas graviolas, abacaxis sumarentos, laranjas, bananas de várias qualidades, maçãs, melancias, acerolas, cajás amarelos (pena, era cedo para uma cajarosca), uvas, goiabas, coco-verde e maduro. Falar nisso, em Tambaú bebi a água de coco mais barata do Brasil, R$ 1,00.
Na Adega do Alfredo, junto ao Hotel Royal, almocei um risoto de carne-seca molhadinho, apetitoso, uma lisonja ao paladar, como disse um vizinho de mesa, perfeito nordestino. Pena, sendo um dos points da cidade, não consegui jantar ali. Lotado, a espera é de horas. Cheguei às 11 da noite, só me sentaria pela 1 da manhã, ninguém tem pressa por aqueles lados. Sabem viver. Paulistanamente desisti. Como é duro ser paulista. No café da manhã, meu olhar guloso tentou se decidir entre farofa de cuscuz, galinha guisada, inhame, ovos mexidos, bolo de milho, bolo baieta, cuca e pão de açúcar. Daquele restaurante fiquei com a imagem de oito mulheres que, no dia anterior, tinham chegado - segundo me contaram - por volta das 14 horas. Somente se levantam da mesa pelas 20 ou 21 horas. Todas as sexta-feiras ocupam a mesma mesa, comendo, bebendo, conversando, colocando em dia os assuntos da semana, contempladas por fotografias dos antepassados do dono do hotel, fotos do século 19 e inícios do 20, mulheres a rigor, com estolas de pele, homens sóbrios, todos elegantes, velando e zelando pela comida que ali é voluptuosa.
Na volta, da rodovia para o aeroporto, uma surpresa, lição de civilidade. O trânsito para pedestres atravessarem a faixa. Botou o pé na faixa - numa rodovia, gente! -, os carros freiam. No aeroporto novo, uma surpresa, um bom lugar para se comer é o Sabor da Terra. Quem viaja sabe que comida de aeroporto é pior do que o desconforto dos aviões que nos amassam e afligem. 

MÍRIAM LEITÃO

Conflito criado
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 03/12/10


Os estados produtores de petróleo começaram a perder quando o governo decidiu mudar o sistema de concessão para o de partilha; perderam de novo quando foram cedidos os bilhões de barris para a Petrobras e perderão outra vez, mesmo que o presidente Lula vete a emenda da nova distribuição dos royalties. Estão também sob ataque as leis, os contratos e a paz federativa.

Nem o Rio, nem o Espírito Santo são contra a ideia de que a riqueza do pré-sal seja compartilhada. E por causa dessa disposição é que se fechou um acordo numa longa reunião noturna que foi presidida e patrocinada pelo presidente Lula, no Centro Cultural Banco do Brasil.

Naquela reunião, o presidente Lula garantiu que as mudanças da distribuição dos royalties só ocorreriam com áreas a serem licitadas futuramente no pré-sal. Mas tudo o que foi feito até agora - mesmo que seja vetado - muda o passado.

Lula prometeu também que não misturaria mudança de marco regulatório com nova distribuição de royalties. Mas acabou misturando sim, por ação de aliados. Depois, o que já era ruim piorou quando o deputado Ibsen Pinheiro e depois o senador Pedro Simon incluíram emendas que redistribuíam de forma mais radical os royalties. O ministro Alexandre Padilha disse que o acordo Cabral-Lula não vale mais porque o Congresso derrubou, mas é nesse acordo que o governador Sérgio Cabral está confiando.

O presidente Lula muito provavelmente vetará a emenda Simon. Apenas porque está preocupado com a União, porque no texto da proposta aprovada pelo Congresso está escrito que a União compensará os estados produtores pelas suas perdas. É bem verdade que o texto é vago: não diz como nem em quanto compensará. Mesmo que vete, o estrago já está feito: algumas perdas já aconteceram e outras podem acontecer. O governador Paulo Hartung, do Espírito Santo, diz que o estado está mobilizado para lutar por seus direitos e está preparado para a batalha judicial que virá:

-Não temos nada contra a riqueza do pré-sal ser partilhada com todos os estados, uma parte grande ficará com a União que a distribuirá, os estados não produtores vão receber também, como negociamos. Mas o que não se pode é jogar 24 estados contra dois, não se pode é mudar contratos, do contrário estará legitimada a ideia de que se pode ver a fruta bonita no quintal alheio e ir lá pegar.

Já o governador Sérgio Cabral disse ontem o seguinte:

- Se existe uma pessoa a quem o Rio tem que agradecer é ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nem parece ser o mesmo governador que dias atrás entrou no Supremo Tribunal Federal (STF) reclamando perdas de R$25 bilhões impostas pela União ao estado na cessão onerosa de petróleo para a Petrobras. A verdade é que, a despeito de acertos nas relações entre União e o Rio, as decisões do presidente Lula na área de petróleo implicam em perdas principalmente para o Rio.

O modelo atual de concessão dá dois tipos de impostos para os estados produtores: participação especial e royalties. O novo modelo acaba com a participação especial. A alíquota dos royalties aumenta, mas a receita passa a ser dividida de outra forma. Qual? Isso é que está em discussão. Em qualquer modelo, os estados produtores perderão, mas o modelo aprovado no Congresso é uma verdadeira expropriação. Outra dúvida é: para que petróleo vale a nova regra? O ex-diretor da Petrobras Wagner Freire entende que vale para todo o petróleo no pré ou no pós-sal, ou seja, rasga contratos existentes:

-A proposta fala em todos os campos em produção no "polígono do pré-sal", isso significa que abrange o que estiver também no pós-sal. E nesse polígono estão 85% do que o Brasil produz hoje, o que significa dizer que retroage a contratos já existentes, o que é obviamente inconstitucional.

O Rio é o estado que mais perde porque ele tem outra fonte de sangria na cessão onerosa: 85% dos blocos cedidos à Petrobras pela União estão na área do Rio, 15%, em São Paulo, e nada, no Espírito Santo. Mesmo que o Rio receba royalties por esse petróleo, quando ele for extraído, não receberá participação especial. Quando foi feita a cessão, o novo marco regulatório, que acaba com a participação especial, não estava aprovado no Congresso. A aprovação acaba de acontecer agora, e a cessão já ocorreu em setembro.

O assunto é confuso mesmo, mas quem confundiu tudo, para dividir e ficar com a melhor parte foi o governo Lula, a quem, segundo o governador, os cariocas têm que agradecer.

No Espírito Santo, o atual e o futuro governador estão com outra atitude.

-O estado sempre foi colocado à margem do desenvolvimento nacional, o petróleo é nossa janela de oportunidade e não vamos perdê-la. Vamos reagir e estamos preparados juridicamente para a discussão. No volume de produção atual perdemos R$300 milhões por ano, o que é muito para nós, mas a produção está aumentando, e a perda subiria para R$500 milhões. Mas a pior perda de todo esse processo é que a solidariedade federativa, que sempre prevaleceu no Brasil, está virando um vale tudo - diz Hartung.

Há outras confusões. Tanto o Rio quanto o Espírito Santo venderam royalties à União. Como a mudança pega inclusive o que já está em produção, isso significa que está sendo redistribuído o que os dois estados já venderam. Isso vai sendo descontado dos estados. O do Espírito Santo vence daqui a três anos. O do Rio, só em 2019.

Mas o pior prejuízo é o causado pelo clima de conflito entre os entes federados que o governo Lula iniciou com esse processo.

Com Alvaro Gribel

MARCOS SÁ CORRÊA

Só falta quilombo no Jardim
Marcos Sá Corrêa 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
Não podia faltar o dedo da ONG Koinonia no projeto para entronizar as invasões do Jardim Botânico num Museu do Horto, contando a própria história do arboreto bicentenário. O museu deve ser coisa grande e urgente. Tem R$ 1,8 milhão para se instalar e quase a metade de seu orçamento reservada ao pagamento do pessoal que, mesmo trabalhando pela causa, não é de ferro.
Com essa verba, daria para fazer um programa habitacional de fina lavra para os moradores que se sentem na fila do despejo judicial. Mas a ideia, ali, não é bem essa. Patrocinada por uma rede ecumênica de doadores que inclui a Fundação Ford, a Agência Canadense de Desenvolvimento, a Igreja norueguesa e até um Fundo Mundial para o Socorro dos Primatas, a Koinonia devota seus melhores esforços ao avanço de "grupos histórica e culturalmente vulneráveis".
Recuar, portanto, não é com ela. E nós, brasileiros, temos, não é de hoje, "grupos histórica e culturalmente vulneráveis" para todas vocações catequéticas. Já era assim quando os missionários desembarcaram aqui, na proa do comércio ultramarino, para dilatar "a Fé e o Império" em nome de organizações sem fins lucrativos, como a Koinonia. Ela tem sede em Greenville, na Carolina do Norte. Mas se sente num mundo sem fronteiras, abarcando "numerosas etnias, realidades socioeconômicas, modos de vida e idades".
Busca uma "unidade multicultural" de "alcance global". Afinal, koinonia, em grego, é comunhão. E ela se declara "uma igreja em movimento pelo, para e via o poder de Deus". Instalou-se como tal no Brasil em 1994.
Desde então, parece estar em todas. Na última campanha presidencial, durante a crise de fervor religioso da candidata Dilma Rousseff, veiculou um abaixo-assinado com as promessas de voto, as queixas e as expectativas do Povo Tradicional de Terreiro. A carta criticava o conchavo da candidata "com pastores evangélicos", num "infeliz episódio". Reavivava "as denúncias e mais denúncias" sobre o "repasses de verbas, convênios e parcerias de governos municipais, estaduais e federal" a entidades pentecostais, "que não foram cumpridos ou foram usados de forma indevida, criminosa até".
Prometia-lhe o apoio da "População Negra". E agendava com a presidente um encontro formal com os representantes nacionais do Povo Tradicional de Terreiro, "após as eleições, onde a senhora, com a ajuda dos Vòdúns, Nkices, Òrisá''s, Encantados, Caboclos, Castiços e Exús, será vitoriosa".
O encontro lhe encomendaria a revisão do Estatuto da Igualdade Racial, que até agora não ouviu "a População Negra e suas demandas".
Como pode acontecer com o Museu do Horto, um dos vínculos que selaram a aliança da Koinonia com o Povo Tradicional de Terreiro foi a organização de centros de memória para o candomblé.
E, com a População Negra, funciona um pacto de apoio incondicional à titulação fundiária dos quilombos, em sua acepção mais vaga - a da semântica antropológica, que ultimamente passou a considerar quilombo tudo o que se diz quilombo. Eles já são 743, em 21 estados. A Secretaria Especial para a Promoção da Igualdade Racional - gestora do tal estatuto que o Povo Tradicional de Terreiro acha insatisfatório - estima seu número em "pelo menos" 3 mil.
A vereadora Andrea Gouvêa Vieira levantou uma ponta desse novelo, ao declarar que não é só o futuro das invasões do arboreto que está em jogo no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Talvez esteja em gestação um quilombo do Horto. Não seria a primeira semente exótica a vingar naquele espaço, onde tudo pega. Nem no Brasil, onde já prevenia a Carta do Descobrimento que a terra "de tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". 

ANCELMO GÓIS

Saudades de Paul
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 03/12/10



Piadinha que circulava ontem em Madri depois da derrota da Espanha para a Rússia na disputa para sediar a Copa de 2018.
“Depois que morreu o polvo Paul, que previu todas as vitórias da Espanha na Copa, o país só leva surras no futebol, inclusive, nos jogos contra Argentina (4 a 1) e Portugal (4 a 0).”

PERDE E GANHA...


Ricardo Teixeira, que era eleitor da Espanha, ajudou o Qatar na disputa pela sede da Copa de 2022. O emir Hamad bin Khalifa Al-Thani, assim que saiu o resultado, abraçou Teixeira e disse: – Nunca vou esquecer o que você fez pelo meu país.


ALIÁS...


O Brasil continua sendo o único país que organiza, ao mesmo tempo, uma Copa (14) e uma Olimpíada (16).
É que a Inglaterra, organizadora dos Jogos de 2012, não foi escolhida para a Copa de 2018.


SEGURANÇA EM DOBRO


Lula confirmou presença, segunda, na festa Craques do Brasileirão, no Municipal do Rio.
Mas, como o bicho está pegando na cidade, a segurança do presidente vai revistar todo mundo, e as portas do teatro serão fechadas às 20 horas.


30 MOEDAS DO PASTOR


Em agosto, o pastor Everaldo, que vinha pedindo aos fiéis orações e votos em Serra, mudou de lado, levou seu PSC a apoiar Dilma e garantiu a petista mais três minutos na TV. Ontem, o TSE divulgou que o PT doou ao PSC, na campanha, R$ 4,7 milhões.


COLEGUINHA


Fernando Gabeira, que deixa a Câmara depois de perder a eleição para governador do Rio, vai voltar às redações.
O deputado, que foi redator do JB antes de entrar na luta armada, vai fazer reportagens, fotografar e escrever artigos no Estadão e na revista Piauí.


PEDAÇO DO MARACANÃ


Sérgio Cabral ainda ganha o prêmio de marketing do ano.
No jantar, quarta, em Buenos Aires, com o governador da capital argentina, Daniel Scioli, Cabral deu, veja a sacada, uma caixa com uma pedra tirada da demolição do Maracanã.


MURO DE BERLIM...


O mimo não se compara a um pedaço Muro de Berlim, que, até hoje, é vendido em lojas na Alemanha.
Mas o Maracanã tem seu valor no mundo todo.


PRA NÃO DIZER QUE...


Geraldo Vandré, terça, foi assistir a uma palestra de Frei Betto, em Teresópolis, RJ.
O autor de Pra não dizer que não falei das flores é, hoje, um homem recluso.


A VEZ DO MORRO I


O programa Empresa Bacana, parceria da prefeitura do Rio com o Sebrae para formalizar pequenos negócios em comunidades com UPP, chegou à marca de 1.000 empresas regularizadas nas favelas do Borel, da Providência e na Cidade de Deus.
O desafio posto agora ao pessoal por Eduardo Paes é entrar no Alemão e na Vila Cruzeiro.


A VEZ DO MORRO II


Nestes dias de guerra no Rio, a Secretaria municipal de Cultura e o Ministério da Justiça lançaram um edital para financiar 300 projetos culturais de artistas miúdos em favelas e comunidades da cidade.
As inscrições, só para jovens de 15 a 29 anos, ficam abertas até 30 de dezembro.

JOÃO MELLÃO NETO

Dona Dilma

João Mellão Neto 


O Estado de S.Paulo - 03/12/10
A partir do ano que vem, estará em suas mãos o destino de nosso país. A senhora já parou para refletir sobre o que isso significa? Quase 200 milhões de pessoas clamando o seu nome - e depositando nele o seu destino e suas esperanças - e a senhora sozinha, lá no topo do morro, com os ventos da História açoitando o seu rosto... Sem dúvida, é uma responsabilidade descomunal. Perguntas incômodas hão de lhe assaltar a mente: por que eu e não outro? Será que tenho condições para me desincumbir bem do papel que me foi atribuído? Eu tenho realmente todas as qualidades necessárias para essa tarefa? Deus estará sempre me guiando, protegendo e abençoando?
Esses questionamentos são naturais. Ocorrem sempre a quem assume o poder. E não raramente, a partir deles, os governantes desenvolvem um recorrente senso místico.
Não foram poucos os presidentes dos Estados Unidos da América que relataram ter conversado com Deus. No sentido figurado ou não. Outros disseram que de madrugada, na vastidão dos corredores da Casa Branca, teriam consultado seus antecessores - cujos retratos se encontram todos nas paredes.
Aqui, na nossa mágica América Latina - onde o misticismo faz parte da cultura do cotidiano -, tais epifanias ocorrem com frequência ainda maior. É de praxe os dignitários, por aqui, afirmarem que chegaram ao poder para cumprir uma missão divina. E acreditam sinceramente nisso. O problema é que, no nosso subcontinente, as instituições são ainda muito frágeis. A gente acostumou-se a atribuir à pessoa do presidente tudo de bom e de ruim que acontece no país. É muita responsabilidade. A quem ou a que recorrer - ou evocar - na hora de tomar decisões difíceis?
Não dá, na verdade, para confiar cegamente em ninguém. Todos os áulicos que infestam a sua corte não passam, realmente, disso. São meros bajuladores. Os conselhos que eles venham a dar-lhe não são sábios nem desinteressados. Geralmente, segui-los é caminho certo para o abismo.
O jeito, mesmo, é se abrir com Deus. Somente a Ele a senhora pode expor suas dúvidas, fraquezas e inseguranças. Se, no passado, a fé ideológica lhe bastava e a munia de grandes certezas (lembra-se de sua opção juvenil pela luta política clandestina?), agora as coisas são diferentes. Se, por acaso, até aqui a senhora, intimamente, não acreditava em Deus, é melhor começar a acreditar. Ele, e só Ele, pode dar-lhe, com total isenção, as respostas de que a senhora precisa.
Não se deixe levar pelas bravatas do seu antecessor. A partir de janeiro, quem terá o poder e a responsabilidade por tudo o que vier a acontecer é a senhora. Os conselhos de Lula pouco lhe hão de ser úteis. A experiência de vida dele é única e intransferível. Não caia na tentação de imitá-lo. Lembre-se de que essa autoconfiança que hoje ele exibe foi esculpida a partir de um primeiro mandato presidencial - no qual ele só levou bordoada - e de três candidaturas fracassadas. A pele dele já está curtida. Não é o seu caso.
Por falar em Lula, por acaso a senhora já pensou no que vai fazer com ele depois de sua posse? O homem está em êxtase. Quem haverá de desligá-lo da tomada?
Não há, em nossa História republicana e democrática, um único caso em que a criatura não se tenha voltado contra o criador. E é natural que assim seja. Chorar um morto não significa querer ressuscitá-lo...
Por mais grata a ele que a senhora seja, depois que se sentar naquela cadeira as coisas mudam de figura. A caneta que nomeia e demite estará exclusivamente em suas mãos. E todo e qualquer palpite que ele vier a dar, depois disso, será recebido como extremamente importuno. Se não pela senhora, com certeza pelos seus auxiliares. Uma nova corte se formará no seu entorno, dona Dilma. E seus membros se sentirão ameaçados por qualquer intervenção que o seu ex venha a fazer.
Pois já não é voz corrente, nos meios políticos, que Lula pretende voltar em 2014? Se isso for verdade, é melhor a senhora se precaver. A candidatura natural é a sua, para postular a reeleição. A senhora comprometeu-se com ele a não se recandidatar? Isso a senhora diz agora. Com exceção de Pôncio Pilatos, ninguém jamais entrou na História por acaso.
Lula só sairá vitorioso - se for esse o seu intento - se o governo da senhora for um fracasso. Já pensou nisso?
Outro aspecto para o qual a senhora deveria atentar é com relação àqueles que estarão ao seu redor: no dia 1.º de janeiro, a senhora vai dormir no Palácio do Alvorada, em companhia da senhora sua mãe. Antes de se deitar, preste atenção aos ruídos. No palácio vizinho, o do Jaburu, estará instalado o seu vice. E, pelo que se conhece dele e de seu partido, todas as noites, por ali, haverá festa.
Ao apagar as luzes de sua residência, a senhora perceberá que logo ali ao lado as luzes nunca se apagam. Todas as noites haverá um entra e sai permanente de políticos. Enquanto eles estiverem apenas festejando, tudo bem. O problema surgirá quando eles começarem a urdir intrigas e conspirações. E isso está inscrito no DNA da categoria.
Ciente de tal circunstância, a senhora conseguirá repousar tranquila? Durma-se com um barulho desses...
Uma coisa que eu gostei na senhora foi o pensamento que atribuiu ao seu pai: "Não se deve nunca confiar nas virtudes dos homens, deve-se apostar é nas instituições."
Interessante. Quem sempre pregou isso somos nós, os liberais. Essa é a pedra fundamental de nossa doutrina. É muito auspicioso saber que a senhora também pensa assim.
No mais, além de desejar boa sorte, arrisco dar-lhe um conselho. Já vivi em Brasília muitos anos e pude acompanhar muitos presidentes. Nunca pule de alegria. Alguém tratará de lhe puxar o tapete.
JORNALISTA, DEPUTADO ESTADUAL, FOI DEPUTADO FEDERAL, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO