quarta-feira, novembro 24, 2010

ROBERTO DaMATTA

Recebido por cachorros

ROBERTO DaMATTA
O Globo - 24/11/2010

Acabo de ser saudado por um até logo simpático do oficial de fronteira no moderníssimo Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston, Texas, Estados Unidos, e, depois de andar até a esteira das malas, sou farejado por cachorros.

Eles são limpos, calmos e individualistas como todo cão americano. Estão seguros por funcionários do Home Land Security impecavelmente vestidos. Em toda parte, eles cheiram as nossas malas com os olhos tristes dos bichos amestrados. Sua visão apagou o enorme cansaço de um vôo sem nenhuma novidade, exceto o seu rotineiro desconforto.

Correndo, saio do terminal internacional para o doméstico, mas eis que me defronto com algo ainda mais amedrontador. Com uma máquina de raio X, destinada a verificar se o meu corpo tão humanamente gasto e cansado, é ou não uma arma anti-humana. Já começo a tirar os sapatos em meio a uma fila enorme de gente desconfiada e silenciosa como bois de matadouro, quando vejo essa cabine de vidro com portas que rolam sobre si mesmas, pondo a nu aquilo que estava encoberto por minhas meias, camisa, calça e cueca. Sou ordenado a entrar no tal biombo. Sem sapatos, com as calças querendo cair (pois fui obrigado a tirar o cinto), sem carteira e relógio e com o meu parco dinheiro nas mãos que estico acima de minha cabeça, entro na máquina que num abraço de alguns segundos vai me desnudar para além da conta dos olhos humanos. Vejo que cheguei nos Estados Unidos e, imediatamente, me pergunto se ainda vale a pena viajar...

Volto aos Estados Unidos e à sempre simpática Nova Orleans para, dentro da pantagruélica programação da Associação Americana de Antropologia, tomar parte num encontro, destinado a discutir o impacto da obra do professor David Maybury-Lewis, o antropólogo de Harvard, falecido em dezembro de 2007 e que foi o primeiro estudioso dos Xavantes, e que teve um elo profundo com o Brasil, na antropologia nacional dos anos 60. Fui o seu primeiro orientando brasileiro e quem primeiro fez a ponte Harvard-Museu Nacional quando ele e o igualmente saudoso Roberto Cardoso de Oliveira fundaram, com recursos da Fundação Ford, o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, no fim do anos 60. Coisa tão frágil naquela época de truculências políticas, que suas iniciais (PPGAS) levavam a imaginar um pequeno teco-teco sobrevoando com valentia os turbulentos céus brasileiros quando o nosso país estava dilacerado pelo autoritarismo dos governos militares. Esta sessão congregou um punhado de alunos antigos e jovens. Interessante notar o que raramente fazemos no Brasil: a homenagem cujo ponto de partida são as ideias do professor que os discípulos levam adiante, esticando-as e criticando-as no sentido de mostrar como ele poderia ter ido mais longe com elas. Mas sem deixar de citar a obra, citação a qual, pela ética acadêmica, é um dever e uma questão de honra. No Brasil, o sujeito usa descaradamente a mesma ideia, deixando de citar sua fonte de inspiração, de modo que o trabalho do seu professor torna-se uma herança maldita, e o seu autor um hóspede não convidado, já que é mencionado a contragosto e não com o orgulho que, afinal de contas, deve ser o ponto central do nosso reconhecimento pela pessoa que os inspirou e ensinou.

Essa homenagem se associou a outras e eu cito a que foi feita ao meu querido amigo Conrado Kottak, que deu contribuições importantes na antropologia da globalização, no estudo da cultura de Madagascar, na pesquisa da televisão no Brasil (um livro a ser traduzido em português); e numa hoje memorável pesquisa da vida social de Arembepe, na Bahia; e no ensino da Antropologia Cultural, já que ele é o autor do melhor texto desta área.

Neste encontro, seus ex-alunos o homenagearam mostrando como suas ideias inspiraram novos trabalhos e como sua vida foi central para que eles ali estivessem dando de volta aquilo que é irremissível em toda relação com qualquer figura paterna ou materna.

Na minha fala, recordei o impacto de Maybury-Lewis e de Roberto Cardoso focando menos o seu lado técnico (de grandes fundadores de uma instituição de pesquisa fundamental), mas chamando atenção para a sua dimensão humana. A do encontro de dois lideres; a da sua capacidade de se deixar marcar um pelo outro; a da sua disposição de compartilhar com os alunos os seus projetos intelectuais e, de juntos, concretizar um trabalho voltado para o estudo e a pesquisa, sem colocar a instituição a serviço da velha e gasta politiquinha brasileira. Se não fosse por isso, esse programa do Museu Nacional não seria hoje um dos mais importantes e criativos de todo o mundo.

Como foi prazeroso reconhecer e testemunhar como as nossas vidas se fazem por meio de outras vidas, e essas por meio das nossas. Quantos não são tocados por nós no curso de nossa trajetória; e que privilégio enorme foi poder testemunhar vivamente que, sem aquela pessoa - sem esses maravilhosos professores e amigos - eu não estaria aqui contando essa história. O mundo, apesar de tudo, é bom. 
ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

RUY CASTRO

A namoradinha
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/11/10

RIO DE JANEIRO - Passando outro dia pelos fundos de um hospital em Botafogo -uma longa parede branca-, vi a pichação: ELEIÇÃO NÃO! REVOLUÇÃO SIM! Assim mesmo, em caixa alta e com exclamações, como se o autor a estivesse gritando para as massas, do alto de uma sacada ou de um tanque. Em baixo, a assinatura, também em maiúsculas: FRENTE REVOLUCIONÁRIA.
Ao ler isto, enterneci-me quase a ponto de derreter. Primeiro, porque -tão raro!- eram frases da língua portuguesa: "Eleição, não; revolução, sim!". (Eu teria sido mais generoso do que ele nas vírgulas, mas isto não o desabona.) Há tempos não vejo alguém usar as paredes para dizer alguma coisa. O que mais vejo, ou só vejo, são os garranchos incompreensíveis desses ágrafos que picham as alturas mais absurdas dos prédios para compensar sua carência sexual.
Mas não neste caso. O autor da pichação em Botafogo tem o que dizer. Ele não se iludiu com a recente eleição presidencial, nem mesmo com a vitória de Dilma Rousseff. Está convencido de que, como Lula, Dilma fará toda espécie de acordo com as abomináveis elites. E, no seu ardor, ele quer soluções imediatas para a miséria, a fome, os monopólios, o FMI, a questão agrária, o proletariado.
Pela natureza da pichação, vê-se que é alguém muito jovem, nascido talvez nos anos 90, quando já não tínhamos a ditadura, a luta armada, as prisões, a tortura, o exílio. Desde então, tem sido uma delícia ser jovem no Brasil. Mas ele não pode esperar. É a revolução ou nada.
Intrigou-me a assinatura: Frente Revolucionária. Haverá, hoje, tantos grupos revolucionários que já precisam se fundir numa frente? Acho que não, tudo parece tão calmo, não? Tenho um palpite. Esta feroz e desconhecida Frente Revolucionária é um grupúsculo -composto do pichador e de sua linda namoradinha, que ele ainda está tentando impressionar.

MERVAL PEREIRA

O terror e a lei 
Merval Pereira 

O Globo - 24/11/2010 

O governo do Rio está tomando providências em diversas frentes, invadindo várias favelas controladas pela facção criminosa que estaria promovendo esses arrastões, e ao mesmo tempo o governador Sérgio Cabral pediu que a Polícia Rodoviária Federal entrasse em alerta máximo, oficialmente para ajudar no controle das vias expressas como as Linhas Vermelha e Amarela, onde têm acontecido muitos ataques dos bandidos. Na realidade, as autoridades lidam também com uma denúncia de que um caminhão de explosivos estaria sendo desviado para o Rio para atentados, o que configura o caráter terrorista das ações dos últimos dias.

Esse foi um primeiro pedido oficial do governo do Rio ao governo federal, dando a dimensão da gravidade do caso, e o ministro da Justiça ofereceu até mesmo a Força Nacional de Segurança.

Essa ação nos morros é uma reação para demonstrar à facção criminosa que não haverá recuo no combate ao crime organizado.

Além da ação terrorista coordenada para acuar as autoridades, há também a bandidagem que, expulsa dos morros, está no asfalto tentando reverter seus prejuízos.

Seria de se esperar que esse tipo de crime aumentasse nas ruas da cidade, e que muitos desses criminosos fossem para outras cidades do interior do estado, onde o índice de criminalidade tem crescido.

Inclusive porque a tática do governo é avisar com antecedência que vai invadir este ou aquele morro, dando tempo para os bandidos saírem sem resistir à chegada da polícia, para evitar um banho de sangue e colocar em risco os moradores.

Isso porque a ideia principal das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) não é acabar com o tráfico de drogas, mas sim acabar com o domínio dos bandidos sobre o território das favelas.

Interessa mais a essa política liberar as favelas para os cidadãos do que propriamente impedir o tráfico e prender os traficantes.

Mas a única coisa a fazer é continuar na estratégia de ir avançando no domínio do território ocupado pelos bandidos.

Sucessivos governos deixaram esses criminosos tomarem conta das favelas da cidade e agora para alcançar uma pacificação desses territórios é preciso devolver ao estado o chamado “monopólio da força” onde os criminosos o exercem.

O Ministério da Justiça ofereceu também vagas em presídios federais para que sejam transferidos bandidos que continuam mandando ordens de dentro dos presídios estaduais, mas, se as ameaças continuarem, será preciso a ajuda das Forças Armadas.

A tendência natural do governo, qualquer governo, é tentar reduzir o tamanho da ameaça, e é por isso que o secretário de Segurança José Beltrame, que está fazendo um excelente trabalho, diz que essas ações são feitas por uma facção criminosa pequena que não se conforma com a perda de espaço para suas ações nos morros da cidade.

Pode ser, mas o que estamos vendo são ações coordenadas, como se fossem treinadas com o objetivo único de causar impacto na população.

Os métodos são de ataques terroristas, com táticas de guerrilha. Tudo indica que são pessoas treinadas, muitos indícios de que há ex-soldados cooptados pelos traficantes.

Naquele episódio da tomada do Hotel InterContinental, em São Conrado, os filmes mostravam movimentos dos bandidos muito organizados, com claro preparo militar.

“Devido à existência do controle territorial armado por narcotraficantes e milícias, a retomada definitiva, com a retirada das armas, é uma questão estratégica e não tática”, afirma um trabalho da Casa das Garças, um instituto de estudos do Rio, já abordado pela coluna, sobre as favelas do Rio.

O trabalho chegou à conclusão de que “o Estado e a sociedade civil estão presentes nas favelas. A ausência do Estado ocorre apenas em uma função: o policiamento ostensivo. Porém, esse é o ponto primordial para que todos os demais direitos e equipamentos sejam acessados”.

O estudo indica como ações prioritárias após a “retomada definitiva e a pacificação”, entre outras, a formalização dos negócios e a regularização da situação fundiária e do habite-se.

O mesmo grupo prepara-se agora para analisar as experiências de regularização de títulos em diversos países. No Rio, há uma ação bem-sucedida do Instituto Atlântico dando títulos de propriedade à comunidade do Cantagalo, um morro incrustado entre Copacabana e Ipanema.

O economista Sérgio Besserman, que já foi presidente do IBGE, também acha, como já registramos aqui na coluna, que o principal serviço público que o estado está deixando de oferecer as populações dessas comunidades é a segurança, “não a segurança de não ter crime, de não ter tráfico, mas a segurança de a pessoa poder andar livremente”.

Concordando com o objetivo básico das UPPs, Besserman acha que, “se vai ter tráfico em Botafogo, em Copacabana, no Recreio, combatam o tráfico com inteligência. Mas a rua, a praça, o poder têm que ser do povo, através do estado”.

Se a situação chegar ao ponto de o governo estadual ter de pedir a intervenção das Forças Armadas, haverá uma nova situação, isso porque o Exército ganhou poder de polícia para ações urbanas em recente reforma do sistema de defesa nacional, mas não está claro se ele pode exercê-lo nas cidades ou apenas nas fronteiras, no combate ao contrabando de armas e drogas.

A atuação das Forças Armadas nos conflitos urbanos sempre foi um tema polêmico, e, embora seja cada vez maior a certeza de que as tropas brasileiras estão preparadas para agir em favelas do Rio de Janeiro, depois da experiência de campo nas favelas de Porto Príncipe, há ainda dúvidas sobre até que ponto elas poderiam atuar na repressão ao crime organizado.

ROLF KUNTZ

Os maus sinais da inflação
 Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo - 24/11/2010

Financiar trem-bala não é função do Banco Central (BC). Combater a inflação, sim. O lembrete poderia ser inútil em outro momento, mas não agora, diante da incerteza quanto ao papel e ao poder da autoridade monetária no futuro governo. Nenhum temor é absurdo, quando o Tesouro é autorizado a usar R$ 25 bilhões como garantia financeira de um projeto ferroviário mal esboçado, contestado e de retorno duvidoso, mas defendido como prioritário pela presidente eleita. O lembrete sobre a missão do BC também é oportuno, agora, porque a inflação do feijão já era: os aumentos estão muito mais espalhados. Esse é um bom assunto para a presidente eleita e para a pessoa escalada para cuidar dos juros a partir de janeiro. Dois terços dos preços pagos pela maioria das famílias foram arrastados pela onda de aumentos, segundo a última pesquisa do IPCA-15, realizada entre 14 de outubro e 12 de novembro e divulgada ontem pelo IBGE. O efeito da onda é crescente. A alta de preços havia atingido 62,2% dos itens no período coberto pela pesquisa encerrada há um mês.
Com a nova coleta vieram, portanto, duas más notícias. Em primeiro lugar, a inflação ganhou impulso, passando de 0,62% em outubro para 0,86% em novembro, segundo esse indicador. Em segundo, as pressões inflacionárias, além de mais fortes, tornaram-se mais amplas. A aceleração é confirmada pelo exame dos chamados núcleos de inflação, calculados sem os preços mais instáveis dos alimentos e combustíveis.
Também a Fundação Getúlio Vargas apontou inflação em alta: na terceira medição do mês, correspondente aos 30 dias encerrados em 22 de novembro, o IPC-S variou 0,85%. Um mês antes o aumento apurado havia sido 0,66%. O índice de difusão, 64,8%, foi um pouco menor que o da terceira pesquisa de outubro, 65,4%, mas confirmou a tendência de aumentos bem espalhados pela economia.
Os dois fenômenos - a aceleração e a difusão dos aumentos - são sinais de pressão de demanda, segundo alguns analistas. Não há nada incomum nessa avaliação. A forte demanda é refletida também nas contas do comércio exterior. O Brasil gastou neste ano US$ 160,1 bilhões com importações até a terceira semana de novembro, 43,9% mais do que um ano antes. O valor exportado, US$ 175,4 bilhões, foi 30,8% maior que o de igual período de 2009.
Esse descompasso é em parte explicável pela valorização do real, mas o efeito do câmbio seria certamente menor, se a economia estivesse menos aquecida e a demanda interna fosse menos intensa. Além do mais, o dólar barato tem contribuído para limitar os aumentos. Sem esse amortecedor, os consumidores estariam bem mais assustados com a alta de preços. É bom levar em conta esse dado ao avaliar os indicadores de inflação.
Pelo menos dois fatores poderão afetar os preços nos próximos meses. A União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional estão mobilizados para ajudar os países da Europa em situação mais precária, como a Irlanda e a Grécia. Mas há outros vulneráveis à ação desestabilizadora dos mercados financeiros. Se a situação europeia desandar, o dólar poderá subir e o Brasil ficará menos protegido contra as pressões inflacionárias.
O outro perigo está no mercado internacional de produtos básicos, sensível tanto às variações na oferta e na demanda quanto às decisões dos especuladores financeiros. Está prevista para 2011 uma oferta global de alimentos mais apertada que a de 2010. Não haverá realmente escassez, mas a mera perspectiva de redução de estoques é em geral suficiente para elevar as cotações. Esse efeito é ampliado, e às vezes consideravelmente, quando há insegurança nos mercados financeiros e grandes volumes de dinheiro são desviados para o mercado de commodities. Isso ocorreu antes da crise de 2008 e poderá ocorrer de novo, se o risco financeiro aumentar ou se os países emergentes se tornarem menos interessantes.
Se a presidente eleita tiver uns 50% da sorte de seu antecessor, esse quadro poderá tornar-se menos preocupante nos próximos meses. Seu governo, então, será iniciado diante de um cenário externo menos sombrio. Mas ainda haverá uma coleção respeitável de riscos internos. Na melhor hipótese, será preciso enfrentar o rescaldo das atuais pressões inflacionárias, administrar um orçamento pouco flexível e com excesso de custeio improdutivo. Será necessário, também, conter a deterioração das contas externas. Se não houver uma reversão, em 2012 o déficit em conta corrente estará em 4% do PIB. Mas tudo será bem pior, em dois anos, se o caminho escolhido for o da complacência com a gastança e do descuido diante das pressões inflacionárias.

ADRIANA FERNANDES

Governo resiste em corrigir a tabela do Imposto de Renda
Adriana Fernandes
O Estado de S. Paulo - 24/11/2010

Enquanto a arrecadação bate recordes sucessivos, as despesas aumentam e renasce o movimento pela volta da CPMF, o governo reluta em corrigir a tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). O tema é explosivo, tem apelo popular, e pode colocar a presidente eleita, Dilma Rousseff, numa saia-justa logo no início do seu governo. Por quatro anos seguidos, o presidente Lula manteve uma política de reajuste anual de 4,5% da tabela para compensar a inflação. O benefício acaba no ano que vem e vai ser difícil explicar aos contribuintes que pagam o IR porque ele deve acabar, em meio a um cenário de forte crescimento da arrecadação e pressão por novos reajustes salariais, inclusive dos parlamentares, juízes e outros servidores federais.
Nos bastidores do governo, segundo apurou o Estado, já há quem aposte que o governo não terá desculpas para não renovar o benefício, principalmente depois que as centrais sindicais colocaram a correção da tabela do IRPF na lista das negociações do valor do salário mínimo. O assunto foi discutido ontem pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Planejamento,Paulo Bernardo. Por enquanto, o governo faz jogo de cena e diz que não tem condições de fazer o reajuste. Mas a resistência faz parte da estratégia de negociação. Ao final, o governo deve ceder com uma "concessão" da presidente eleita, no mesmo modelo de ação adotado pelo presidente Lula nos seus dois mandatos.
A defasagem da tabela ainda está em 64,1% em relação a 1995. Já a arrecadação do IRPF de janeiro a outubro deste ano, mesmo com a correção de 4,5%, teve crescimento real de 7,75%. Para a Receita, que sempre foi contra qualquer correção, o aumento não serve de justificativa para a correção da tabela.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Na fila
Renata Lo Prete 
Folha de S.Paulo - 24/11/2010

Enquanto Dilma Rousseff (PT) define a composição da equipe econômica e finaliza a divisão de cargos no Planalto, o PMDB consolida sua lista de indicações ao ministério da presidente eleita.
Ela é encabeçada por Moreira Franco (RJ), braço direito de Michel Temer e cotado para as Comunicações. Wagner Rossi, hoje na Agricultura, aparece como opção para uma futura secretaria voltada ao setor aéreo. Nesse cenário, Mendes Ribeiro (RS) herdaria a Agricultura. Edison Lobão (MA) voltaria para Minas e Energia e o deputado maranhense Pedro Novais ficaria como "curinga" para rejeições pontuais.

Equação A segunda vaga do Senado ainda divide opiniões. A ala liderada por Renan Calheiros (PMDB-AL) reluta em indicar Eduardo Braga (AM). Sérgio Machado (CE), presidente da Transpetro, voltou a ser cogitado.

Cota Se o ministro Alexandre Padilha, hoje nas Relações Institucionais, vier a assumir a pasta da Saúde, o PMDB deseja manter o controle da Funasa e também a vaga ocupada por Alberto Beltrame na Secretaria Nacional de Atenção à Saúde.

Vaivém A bancada do PT na Câmara, a executiva e governadores do partido vão sugerir a Dilma que ofereça a Antonio Carlos Valladares (PSB-SE) um ministério na cota petista. Tudo para promover José Eduardo Dutra, suplente do senador e presidente da legenda, já na largada do novo governo.

Aqui mando eu Um velho conhecido de ambos observa: nem mesmo José Serra teria indicado uma equipe econômica tão apagada quanto a de Dilma.

Dilma.gov.br Lançado ontem pelo governo, o "Portal da Transição" na internet exibe ainda farto material fotográfico de Dilma em eventos partidários e área reservada à divulgação das promessas feitas na campanha pela então candidata do PT.

Dote Prefeitos de 70 municípios paulistas administrados pelo DEM avisaram a Gilberto Kassab que o acompanharão em caso de mudança para o PMDB. A eles se somam 14 deputados estaduais e federais. O grupo fixou 1º de fevereiro como data-limite para a migração.

Cara... Kassab tem dois discursos distintos sobre seu plano de voo partidário. Quando articula a adesão de prefeitos e parlamentares interessados em manter boa relação com o Palácio dos Bandeirantes, garante que, uma vez no PMDB, não se comportará como adversário de Geraldo Alckmin. Argumenta até que o movimento será importante para conter o avanço do PT em São Paulo.

...ou coroa Já nas conversas com PDT, PSB e PC do B, o prefeito paulistano busca se credenciar como líder de um polo alternativo aos projetos tanto do PSDB quanto do PT no Estado.

Leite derramado Segundo análise fechada pela cúpula tucana em São Paulo, as alianças feitas para a eleição proporcional causaram grande prejuízo ao partido. A sigla estima que elegeria mais três deputados federais e dois estaduais caso tivesse bancado chapas "solteiras" para o Legislativo, em vez de coligar-se ao DEM e ao PPS.

Arsenal A embaixada da Coreia do Norte propôs à Força Sindical uma agenda de aproximação do regime de King Jong-il com movimentos sociais no Brasil. O primeiro passo será uma exposição de fotos, livros e artesanato do país com abertura marcada para o dia 6 no Palácio Trabalhador, em SP.

tiroteio
"O que um político quer num fundo de pensão? Aplicar o programa partidário?"

DO SENADOR PEDRO SIMON (PMDB-RS), criticando a disputa, da qual participam alguns de seus correligionários, por cargos e posições no governo da presidente eleita Dilma Rousseff (PT).

contraponto

Físico para o papel
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ligou para o secretário de Comunicação do PT, André Vargas, e, afetando seriedade, comentou:
-Deputado, soube que o senhor passou a ser cotado para integrar o ministério da Dilma...
-E por conta de quê, mesmo?
-Do peso, oras...
O roliço Vargas suspirou, e Bernardo emendou:
-Como o Zé Eduardo Dutra resolveu emagrecer, estão à procura de um porquinho para inteirar o trio...

DORA KRAMER

Margem de segurança 
Dora Kramer 

O Estado de S.Paulo - 24/11/2010

Antes de sair, o presidente Luiz Inácio da Silva deixará duas questões resolvidas: a escolha do novo ministro do Supremo Tribunal Federal e o caso do italiano Cesare Battisti, preso e com extradição decretada pelo STF, no aguardo apenas da sua palavra final.

Pelo menos essa é a expectativa de quem compartilha conversas com o presidente sobre esses assuntos.

A escolha do STF não significa, entretanto, que haverá chance ainda antes do recesso de fim de ano e das férias de janeiro do Poder Judiciário, de a Corte voltar à composição de 11 integrantes.

Ao que tudo indica, Lula quer ter a primazia de indicar o 8.º ministro do Supremo (um para cada ano de mandato), marca, ao que se saiba inédita, mas deixará a nomeação para ser examinada pelo Senado renovado em dois terços com expressiva maioria governista.

A cada dia aparece um nome aqui e ali, mas os dois mais fortes são o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, e o ministro do Superior Tribunal de Justiça, Cesar Asfor Rocha.

Este último com padrinho forte, o ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz Bastos, corria sozinho até que o próprio presidente começou a manifestar o desejo de nomear Adams para a vaga aberta com a aposentadoria de Eros Grau.

Pela lógica das cotações, Adams hoje está mais forte, mas o presidente ouviu ponderações de que não seria aconselhável indicá-lo porque seria o segundo advogado-geral da União (José Roberto Toffoli foi o primeiro) nomeado por ele, mas quem falou não obteve resposta positiva ou negativa.

Quanto a Cesare Battisti, ele fica no Brasil, mediante uma solução jurídica que não agrida a Justiça italiana e atenda ao governo Berlusconi. Vale dizer, que não questione a democracia nem o sistema jurídico da Itália. O encarregado de encontrá-la? Luís Inácio Adams.

Ideologia. Antes de sacramentar sua transferência do DEM para o PMDB o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, tem detalhes a acertar como, por exemplo, evitar a contestação na Justiça pelo atual partido com base no princípio de que os mandatos pertencem aos partidos.

Pela norma, a desfiliação só se justifica em caso de expulsão ou de fusão de legendas. Por isso Kassab tentou antes que o DEM aceitasse se incorporar ao PMDB.

O problema dele nem é o próprio mandato, pois teria como postergar uma decisão definitiva até o fim de sua gestão. A questão complicada são os mandatos dos seis deputados federais que o prefeito levará consigo para um PMDB cuja bancada paulista limita-se a um parlamentar.

Em tese não haveria razão para o DEM "reclamar seus direitos" na Justiça: uma ala do partido quer vê-lo mesmo pelas costas e outra não tem interesse em lhe criar dificuldades.

Mas, pelo sim pelo não, como o patrimônio é significativo, Kassab pensa em alegar divergências ideológicas agora que o DEM resolve se assumir claramente como "de direita".

O prefeito não pretende alegar ser de esquerda, mas apenas que não concorda com o carimbo.

Cipó de aroeira. A condenação de Paulo Pereira da Silva - o "Paulinho", deputado do PDT e presidente da Força Sindical - por uso irregular dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador em 2001, resulta agora de uma investigação da Corregedoria Geral da União que, na época, levou o acusado a chamar a então corregedora, Anadyr de Mendonça, de "mal-amada".

Paulo Pereira era, então, candidato a vice-presidente da República na chapa de Ciro Gomes.

Síntese. No twitter, @saoblack dá palpite no debate de cardeais sobre refundação do PSDB: "Não tem que refundar nada, o PSDB precisa tomar vergonha na cara e resgatar o seu passado".

Pode não ser o jeito mais elegante de dizer a coisa, mas traduz perfeitamente o espírito da coisa.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Aluguel de imóveis corporativos sobe na cidade de São Paulo e bate recorde 
Maria Cristina Frias 

Folha de S.Paulo - 24/11/2010

O preço da locação de imóveis corporativos na cidade de São Paulo atingiu o maior valor dos últimos anos.
No terceiro trimestre, em média, a alta foi de 7%, para R$ 102,50 o m2, segundo levantamento realizado pela consultoria imobiliária Colliers Internacional.
"Esse é o maior valor médio da história já cobrado em São Paulo. Convertido para dólares, atinge US$ 62,50 o m2. No boom dos anos 2000 e 2001, o pico de algumas regiões chegou a US$ 60", diz Sandra Ralston, vice-presidente da Colliers no Brasil.
A escassez de imóveis disponíveis para locação e o baixo volume de entregas de edifícios, reflexo da crise de 2008, são os responsáveis pelo aumento do aluguel, principalmente em regiões nobres, como a Faria Lima.
A taxa de vacância (índice de imóveis vagos) de edifícios de alto padrão fechou o terceiro trimestre em 2,8% -a menor desde o segundo trimestre de 2008.
"É um índice muito baixo para a área comercial. As taxas de vacância aceitáveis para um mercado equilibrado são de 10% e 11%", diz.
Até 2013, cerca de 1 milhão de m2 devem ser entregues na capital, segundo Ralston.
"Dependendo de como a economia estiver, o mercado vai absorver essa oferta e a taxa de vacância atingirá um equilíbrio. Os preços poderão até cair, mas a tendência é a estabilização", diz.
Entre as nove regiões pesquisadas na cidade, Itaim e Faria Lima lideram o ranking de preço do aluguel, com R$ 141,50 e R$ 131,50, respectivamente, o m2.

SHOPPING PARA QUEM NÃO TEM

Cidades sem shopping. Esse é o foco da Tenco Realty, incorporadora mineira que, além de lançar shopping em Betim (MG) e Taubaté (SP) na semana passada, apresenta outro empreendimento em Macapá e já projeta mais dois "malls" nas regiões Nordeste e Sudeste.
Nos três primeiros, que devem ficar prontos em 2012, a companhia investiu R$ 575 milhões, R$ 125 milhões só em Macapá.
"São cidades com população entre 300 mil e 500 mil habitantes que ainda não têm shopping", diz Eduardo Gribel, sócio-fundador da empresa. Ou não tinham. A Prosperitas, como informou a coluna ontem, também está construindo shoppings em Betim e Macapá.
"Nosso foco é em shoppings com média de 25 mil m2 de área locável. O de Macapá terá lojas para a classe A, mas a ênfase será em B e C." Grandes redes, como C&A, Riachuelo, Renner e Lojas Americanas, já fecharam participação no projeto.

Página visual A Campus-Elsevier lança hoje o selo Campus Media Technology, com títulos das editoras Focal Press e Morgan Kaufmann, traduzidos para o português. Serão sete livros, especializados em artes visuais, de fotografia, games e cinema. Para o primeiro semestre de 2011, está previsto o lançamento de 20 títulos, nos formatos impresso e digital.

Estaleiro A Magna Estaleiros, especializada em barcos de esporte e lazer, investe na HLV, seu braço para construção e manutenção de equipamentos de plataformas. Com a crescente demanda das petrolíferas, a empresa ampliou as instalações e o quadro de funcionários. O estaleiro saiu de uma área de 1.800 m2 para uma de 7.000 m2.

PROVADOR DIGITAL

A rede varejista de roupas Riachuelo entrou no provador do e-commerce.
O presidente da empresa, Flávio Rocha, tem projetos de médio prazo sobre a mesa para começar a vender roupas pela internet.
É possível que a operação comece em 2012.
A primeira peça desse projeto é uma página especial que permite ao cliente apenas "provar", com o auxílio de uma webcam, a roupa sem sair de casa.
O site da empresa superpõe o cliente em pé com as roupas da coleção Rio de Janeiro, de Oskar Metsavaht, da Osklen.

NÚMEROS
DA RIACHUELO

R$ 2,2 bi
faturamento bruto até outubro

17%
crescimento do faturamento no acumulado deste ano

R$ 174,3 mi
lucro líquido até outubro

118
lojas em 23 Estados

EDUCAÇÃO E NEGÓCIOS

Pelé participa hoje em São Paulo de congresso com representantes dos 800 centros de ensinos da Rede (Rede de Ensino Desportivo), da qual é patrono. Na palestra, abordará a importância da educação relacionada ao esporte.
A Rede oferece 19 cursos de pós-graduação e extensão universitária, como o de gestão profissional do futebol e o de negócios no esporte.
As aulas são disponibilizadas via internet, enquanto as avaliações são feitas nos polos de ensino.
Em 2011, a Rede vai expandir para o interior de São Paulo e do Rio de Janeiro.

MÍRIAM LEITÃO

Lógica da escolha 
Miriam Leitão 

O Globo - 24/11/2010

Alexandre Tombini tem várias qualidades, mas não está sendo escolhido por elas e sim pela suposição de que será dócil ao comando da Fazenda. Com Miriam Belchior no Planejamento e Guido Mantega na Fazenda, o PT fica forte no governo e, dentro do PT, o que está sendo fortalecido é a turma dos gastadores. O problema é que a inflação está subindo.

O importante não é o nome do presidente do Banco Central, mas sim o princípio da autonomia da instituição. E ela não está garantida, apesar das declarações da presidente eleita, Dilma Rousseff, feitas até agora. Tombini está sendo escolhido na expectativa de que com uma diretoria de funcionários públicos, sem economistas de fora, possa ser fácil executar a ideia de uma coordenação entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central.

Tombini é elogiado por ex-dirigentes do Banco Central e por seus colegas: fez uma carreira brilhante e diversificada que foi da fiscalização ao departamento de pesquisas, e ao de normas. Passou três anos no FMI sob o comando de um dos melhores quadros da burocracia brasileira, Murilo Portugal. Mas o que pesou foi o pressuposto de que ele não exigirá respeito à autonomia. Com a inflação subindo e o cenário internacional se complicando, mais cedo do que se imagina o dilema vai se colocar para o governo Dilma.

Henrique Meirelles e, antes dele, Armínio Fraga, administraram com autonomia de fato a política monetária durante os três mandatos em que vigora o regime de metas de inflação. Não existe meia autonomia. Não existe coordenação possível entre Fazenda e Banco Central porque cada um tem que fazer o seu papel. O BC defende a moeda; a Fazenda defende o Tesouro da pressão dos ministérios gastadores - às vezes em aliança com o Planejamento -; e os ministérios setoriais pressionam por mais gastos. Cada um segundo a sua natureza.

Guido Mantega nos últimos dois anos inverteu a natureza da Fazenda e foi o que mais incentivou o aumento de gastos. A racionalidade fiscal tinha algum apoio no ministro Paulo Bernardo. O Banco Central decide por um colegiado do qual há muito tempo Tombini participa, mas tinha a liderança de Henrique Meirelles. Com isso, enfrentou e venceu várias brigas na hora de aplicar o amargo remédio da elevação dos juros diante dos riscos inflacionários.

Guido Mantega não só permaneceu, mas sua equipe está sendo fortalecida. Pelo menos, um dos seus subordinados, Nelson Barbosa, pode ser ministro também. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, responsável direto pelas manobras contábeis que tornaram pouco confiáveis os indicadores de superávit primário, foi convidado por Mantega a permanecer. Miriam Belchior é o PAC no Planejamento, com todo o expansionismo fiscal que o plano significou até hoje, incluindo-se alguns projetos de alto risco de estouro das previsões de custo como trem bala e Belo Monte. O risco fiscal subiu muito com as nomeações feitas até agora para o novo governo.

Apesar dos desmentidos, muito convenientes para a equipe de formação do novo governo, Meirelles foi convidado inicialmente a ficar e a conversa ficou inconclusa. Até que houve a reação furiosa de Dilma Rousseff ao pressuposto da autonomia do BC. O relevante é que se a autonomia estivesse implícita nem Meirelles a reclamaria, nem essa conversa provocaria fúria na presidente eleita, Dilma Rousseff.

Mesmo que venha a dizer que manterá a autonomia e o status ministerial do BC, o que a presidente gostaria era de mudar a forma de operação da equipe. Mas não será possível ao novo governo submeter o BC à Fazenda por um motivo com a qual não se negocia: a realidade. A inflação está subindo forte. O IPCA-15 de ontem foi mais alto do que a mais alta expectativa: 0,86%.

A inflação de serviços está em 7,4%. Nos IGPs, a inflação saiu de -2% para quase 10% em doze meses. Há uma conjugação de fatores: preços de alimentos, pressão de cotações de commodities, contratos reajustados pelos IGPs e demanda aquecida. Num relatório da MB Associados analisando cada produto, a maioria tem pressão de alta. Sobram arroz e leite com tendência de queda. Com a demanda aquecida, inflação alta, gastos em expansão e crise externa, qualquer erro cobrará um preço alto do novo governo.

CELSO MING

O euro sob risco Celso Ming 
O Estado de S.Paulo - 24/11/2010


Aumentam as pressões dos políticos e de financistas para que a Irlanda opte por uma "solução argentina" para sua dívida. Se o caminho for esse, haverá calote. E, se houver calote, não se restringirá a esse país.

Ontem, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, quase sempre tão cautelosa, foi surpreendentemente dramática. Depois que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, fez graves advertências sobre os riscos à solta com os problemas da Irlanda, Merkel avisou que "o euro passa por uma crise excepcionalmente séria". E pediu que os credores privados se envolvessem diretamente num pacote de resgate. "Nossa moeda comum está sob risco", concluiu.

Em sua edição de ontem, o Guardian, de Londres, advertiu que a Irlanda deveria rejeitar as receitas do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), impor uma solução do tipo argentino e pular fora do euro. O New York Times avisou que começa a ser aventada a moratória da dívida como melhor opção.

O caminho argentino foi a imposição em 2002 de um calote unilateral de quase 80% aos credores. O governo Kirchner avisou: "É pegar ou largar." A maioria recolheu os cacos que lhe cabiam e voltou as costas para a dívida argentina. Até hoje, o país está praticamente alijado do mercado de títulos.

Outra ideia, menos radical, é a renegociação da dívida, aquilo que os ingleses chamam de corte de cabelo ("haircutting"). Foi a saída brasileira nos anos 80 que só desembocou numa solução final em meados da década de 90. A negociação de uma certa perda para os credores foi também o que a chanceler da Alemanha pareceu sugerir quando pediu o envolvimento dos investidores privados.

Seja qual for sua natureza, um calote traria duras consequências. Antes de mais nada, firmaria uma espécie de jurisprudência. A partir desse precedente, todos os integrantes do imenso cordão de endividados, da Europa e de alhures, entenderiam que essa é uma saída disponível. E, nessas condições, se saberia que títulos soberanos não passariam mais a mesma segurança. Fica difícil prever como o mercado financeiro lidaria com essa falta de chão.

Se os credores terão de pagar boa parte do ajuste, mais uma safra de perdas será empurrada para os bancos europeus que hoje não gozam de boa saúde. E, se novos naufrágios de instituições financeiras ficarem inevitáveis, a crise poderá ter outros desdobramentos.

Ainda em relação a prováveis perdas impostas a credores de dívidas soberanas, não dá para desprezar o impacto sobre o patrimônio de fundos de pensão e das reservas das seguradoras.

E há, também, a precária situação do euro. As advertências de que a falta de consistência fiscal e política conspira contra a solidez da moeda comum vão caindo no vazio. Até agora, não foi dado nenhum passo firme para resolver essa debilidade. E é, também, o que leva tantos consultores a sugerir que a Irlanda e outros países encalacrados em dívidas abandonem de uma vez o euro. Quando impôs perda patrimonial a seus credores, a Argentina ao menos pode desvalorizar sua moeda e, dessa maneira, aumentar a renda dos exportadores. Por não ter moeda nacional, nem a Irlanda nem os demais membros da área do euro podem recorrer a esse expediente.

ILIMAR FRANCO

Lula na globosfera 
Ilimar Franco 

O Globo - 24/11/2010

A criação de um jornal diário na internet é um dos projetos que o presidente Lula está pensando em tocar depois de deixar o cargo. Para mais de um interlocutor, ele expôs a ideia de uma publicação em português, espanhol e inglês, que teria como linha editorial oferecer uma visão positiva do Brasil. O presidente está impressionado com o alcance da globosfera. Hoje, ele concede uma entrevista para blogueiros simpáticos ao seu governo e que apoiaram a eleição de Dilma Rousseff.

O Blocão do PMDB é uma realidade
Os líderes do PT, Fernando Ferro (PE), e do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), tomaram um susto ontem, na reunião com os governadores, para tratar da pauta da Câmara. Os líderes do PR, do PTB, do PP e do PSC disseram que quem falaria por eles era o líder do bloco, o deputado Henrique Alves (PMDB-RN). Os petistas e o governo apostavam que o PMDB recuaria da formação do Blocão. Após a reunião, Henrique Alves, diante da reação de seu principal aliado, argumentou: “Vamos atuar juntos na ação parlamentar, mas não há nenhuma atitude de enfrentamento ao PT. Queremos buscar saídas políticas comuns.”

Despedida
Enquanto alguns se agarram ao cargo, e se dizem imprescindíveis, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou ontem, na Bolívia, na reunião do Conselho de Defesa Sul- Americano, que o governo brasileiro vai mudar em janeiro e que ele não permanecerá, sendo aquela sua última participação no organismo. O ministro equatoriano, Javier Ponce, presidente temporário do conselho, fez questão de elogiar seu trabalho, dizendo que sem Jobim aquela instância regional não existiria.

Gostinho
A cúpula do PP saboreia as vicissitudes do presidente do BC, Henrique Meirelles. Ele fora convidado a se filiar ao partido, para concorrer ao governo de Goiás, mas optou pelo PMDB. Na época, Meirelles queria ser o vice de Dilma Rousseff.

Símbolo
A última caravana da anistia do governo Lula, organizada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, será em São Paulo, no mês que vem. Nela, o grande homenageado será o cardeal emérito de São Paulo, Paulo Evaristo Arns.

Assistindo à briga de camarote
A turma do deixa-disso nos partidos aliados ao governo Lula diz que está na hora de baixar a bola dos líderes do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), e do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP). Ambos querem ser presidente da Câmara. O que esses deputados experientes afirmam é que os dois não têm cacife para levar as duas bancadas ao enfrentamento. Consideram artificial o atual clima de confronto.

Porta de saída
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), deve levar com ele para o PMDB os prefeitos do DEM Darcy Vera (Ribeirão Preto) e Marco Bertaiolli (Mogi das Cruzes), o ex-vice-governador de São Paulo Cláudio Lembo (DEM) e os deputados federais Walter Feldman ( P S D B ) e Wa l t e r I h o s h i (DEM), que não conseguiram se reeleger. Com a doença de Orestes Quércia e com Michel Temer na Vice-Presidência, a cúpula do PMDB quer um novo líder que assuma o partido no estado.


Foco
Embora seu nome já tenha sido defendido por petistas para a presidência do Senado, o que o senador eleito Eduardo Braga (PMDB-AM) quer mesmo é um ministério.

Fico
O secretário do Tesouro, Arno Augustin, vai permanecer na equipe do ministro Guido Mantega. Ele desistiu de assumir uma secretaria no governo de Tarso Genro no Rio Grande do Sul.

Pelo Menos um velho amigo da presidente eleita, Dilma Rousseff, foi nomeado para a equipe de transição do Executivo: Luiz Alfredo Salomão.

JOSÉ SIMÃO

Rio! Grande Queima de Carros! 
José Simão
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/11/10


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Paul McCartney caiu no Morumbi. Se fosse no Pacaembu, seria pênalti. E choveu tanto que o Paul virou água com açúcar!
E o São Paulo mudou de nome para São Paulo Delivery Clube. Porque entrega o jogo! É só discar 4!
E o brasileiro é cordial. Olha esse cartaz numa empresa metalúrgica em São Bernardo: "Se alguém ver o corno manso safado que tá usando pasta pra lavar a mão no tanque, me avise porque vou fazer ele ter pedra no rim de tanto engolir areia. Conto com todos. Gervásio".
Manda esse Gervásio pro Rio! Ou vocês param de incendiar carro ou eu chamo o Gervásio!
Riolência! Quinze carros queimados em 15 dias. São João fora de época! Ou vocês param de incendiar carro ou eu boto o Tony Ramos de sunga na Linha Vermelha!
A Al Qaeda tá passando férias no Rio? Uma carioca me disse que está se sentindo moradora do Ocidente Médio! Esses bandidos estão virados na porra, como se diz na Bahia!
A Discovery passou um documentário dizendo que o Rio é a capital da violência. De violência, gente gostosa, caipirosca, pagode, funk, calçadão, bimbaba e bronha.
Ou seja, é mais animada que Zurique. E mais perigosa que Bagdá! É o ANARCOTRÁFICO! Chama o Recruta Zero. O Sargento Tainha!
E a manchete do Sensacionalista: "Liquidação de Natal começa no Rio com grande queima de carros". Rarará! Só rindo, viu!
Tem que ter Vale Arrastão: adquire nos pontos de vendas das facções e o motorista passa sem ser importunado pelos arrastões! Bilhete Único: direito de passar ileso por um arrastão ou tiroteio num período máximo de duas horas!
Mas não é só o Rio. Olha essa manchete de Manaus: "Ladrões assaltam bilheteria durante exibição de "Tropa de Elite 2'". Rarará. Não respeitam mais nem o Capitão Nascimento! E um amigo chegou à conclusão de que, depois do dia 31 de dezembro, o Lula não vai desaparecer. VAI VIRAR ASSOMBRAÇÃO! Rarará!
E o Palófi com aquela língua plesa acaba de fazer um comercial para a Dove: "Pega um e leve DOVE". Rarará.
A situação está ficando psicodélica! Ainda bem que nóis sofre mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Yes, he can
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 24/11/10

O meio financeiro não tem mais dúvidas: Alexandre Tombini é o novo presidente do Banco Central.

Pelo que se apurou, não há tempo hábil de Dilma tentar atrair outro nome de peso que dê tranquilidade ao mercado.
Yes, he can 2
A cada dia que passa, também é maior a certeza no mercado financeiro de que Antonio Palocci será o novo ministro da Casa Civil.
Sucessão
Quem pergunta a Orlando Silva sobre as especulações em torno de Manuela D"Ávila para o Ministério do Esporte, dentro da cota "feminina" de Dilma, ouve resposta quase automática: "Acho que Manuela seria uma ótima prefeita de Porto Alegre". Já a deputada desconversa. "Não recebi nenhum convite. E Orlando é um ótimo ministro", disse à coluna.
Gol de placa
O Grupo ABC fechou parceria com a Soccerex Convenção Global, maior evento ligado ao mundo do futebol. Será seu representante oficial no País nos próximos três anos. Duas agências do ABC, a Maior Entretenimento e a Rede106, estarão à frente do planejamento, captação de recursos e implementação de projetos.
Torcida fiel
Corintianos terão de suar a camisa para comprar um exemplar do Nação Corinthians. O primeiro Collector"s Book, livro de arte da editora Toriba, de Pedro Sirotsky e Ricardo Bornhausen, terá tiragem limitada: 1.500 unidades.
O lançamento será somente no ano que vem, mas as pré-reservas já começaram. Quanto vai custar cada um? R$ 6 mil.
Before hour
Ale Campiglia recebe convidados sábado, em sua casa, antes do leilão em prol do Instituto Guga Kuerten, na segunda. A noite beneficente na Pinacoteca é pilotada por Luziah Hennessy, mulher de um dos donos do conglomerado de luxo LVMH. Os convites custam R$ 3 mil e incluem show de Gilberto Gil.
Before hour 2
A fama de "generoso" do bilionário Eike Batista chegou aos ouvidos de Luziah.
Ela quer encontrar pessoalmente o empresário. "Todos falam que o conhecem, mas ninguém ainda conseguiu me apresentá-lo. Quero ele no meu evento", falou à coluna.
Quem dá mais
Uma gravura de Tomie Ohtake, duas de Dionísio del Santo, além de doações de Maria Bonomi e Claudio Tozzi. Essa é só parte das obras que serão leiloadas hoje, no Lions Club, durante jantar comemorativo dos dez anos do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), idealizado por Márcio Thomaz Bastos. A renda seguirá para os projetos sociais do IDDD.
Fonte de cultura
Antes de partir, Lou Reed visitou, na surdina, a ainda inacabada mostra Água na Oca, anteontem. Foi com Marcello Dantas, curador e amigo de longa data.
Não vou de táxi
Faltou táxi para quem saiu do show da banda Scissor Sisters, anteontem, no Via Funchal. Motivo? A maioria dos motoristas foi ao Morumbi tentar emplacar corridas após a performance de Paul McCartney.
Na frente
A revista Dome Life, edição especial sobre Sig Bergamin, será lançada hoje. No Espaço Gourmet Siquini.
Leonardo Recalde e Renato Carioni pilotam abertura do restaurante Così na Vila Nova Conceição. Hoje.
Caroline Celico está em São Paulo para o desfile Dior Cruise 2011. Hoje, no Unique.
Esther Giobbi apresenta cerâmicas de João Pedrosa em sua loja nos Jardins. Hoje.
Sergio Valente promove o 1º Encontro Digital da DM9. No MAM, dia 6.
Daniela Cutait pilota get together, amanhã, em torno do lançamento da Farfetch.
Washington Olivetto comanda júri do Adfest 2011, festival de publicidade asiático. Em março, na Tailândia. 

VINÍCIUS TORRES FREIRE

Continuidade e continuísmo no BC
VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/11/10

Provável nomeação de Tombini para o comando do BC indica que Dilma, em parte, segue linha de Lula 2

A MUITO PROVÁVEL nomeação de Alexandre Tombini para o comando do Banco Central deve desarmar pelo menos o burburinho de cunho algo histérico a respeito do atropelamento da autoridade monetária no governo Dilma Rousseff, coisa que era dada como certa pelos porta-vozes mais estridentes do "mercado", tanto os formais como os informais.
Porém, caso confirmada, a indicação não deixa de ser um sinal a respeito do que a presidente eleita pretende em relação ao BC. Tombini era dado como sucessor de Henrique Meirelles desde pelo menos o ano passado, quando o atual presidente do Banco Central discutia seu destino na política partidária. De certo modo, Tombini é um sinal de continuidade da política monetária.
Mas de qual política monetária?
Tombini ganhou projeção no BC no segundo governo Lula, quando se tornou praticamente o "segundo" de Meirelles. Teve, pois, o aval do presidente do BC, mas não apenas. Sua ascensão foi em parte resultante do conflito que se inflamava, entre o BC e o Ministério da Fazenda comandado por Guido Mantega.
Na transição do primeiro para o segundo reinado de Meirelles, saíram do BC nomes como Afonso Bevilaqua, diretor de Política Econômica, tido como "radical", "ortodoxo", conservador" ou o insulto que se prefira. Bevilaqua tinha convicções fortes, sempre foi incisivo na expressão de suas ideias e era, francamente, detestado na Fazenda. Dentro do próprio BC, entrou em conflito com Tombini, também de personalidade forte, que seria menos "conservador" em relação a juros do que Bevilaqua. A Fazenda fez de Tombini seu aliado. O processo de mudança ganhou força em 2007.
No início de seu segundo governo, Lula tentou pacificar as relações entre BC e Fazenda, ou pelo menos quis aparar arestas. Mantega, na Fazenda, baixou o tom das críticas e passou a lidar melhor com Meirel- les, com quem, afinal, sempre teve boas relações pessoais. Meirelles, discretamente, foi mudando a diretoria do BC, substituindo quadros mais "duros" por nomes mais "pragmáticos". Com as saídas de Mário Torós e, recente, de Mário Mesquita , a transição se completou.
O Banco Central se tornou mais "heterodoxo"? Não, isso é obviamente besteira. Tornou-se menos "técnico"? Não, embora a direção conte com menos quadros acadêmicos. Tornou-se mais "pombo", "tolerante" com a inflação? É o que parte dos economistas de bancos, consultorias e do "mercado" em geral diz. O zum-zum-zum cresce em meio à polêmica sobre a necessidade de um novo ciclo de alta de juros. O mercado acredita que o BC "errou" ao interromper a alta da Selic, pois a trégua da inflação em meados do ano era apenas passageira.
A atual direção do BC parece de fato mais pragmática, mais inclinada a observar os sinais concretos dos preços, entre outros, do que afeita a acreditar em estimativas teóricas e conservadoras. Pelo menos, é o que parece até aqui.
Mas Tombini é um economista sério, bem formado; apesar de parecer tímido, é muito opinionado, assertivo e, nem é preciso dizê-lo, não gosta de inflação. E não parece nada inclinado a tolerar influência indevida na administração da política monetária. Isto é, na autonomia do BC, pelo menos no sentido que a palavra autonomia teve nos anos Lula, em especial no segundo mandato.

ANCELMO GÓIS

CACCIOLA QUASE LIVRE
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 24/11/10
 
A juíza Roberta Barrouin Carvalho de Souza concedeu progressão para regime semiaberto ao ex-banqueiro Salvatore Alberto Cacciola, 64 anos.
Condenado a 13 anos, em 2005, por crimes contra o sistema financeiro, Cacciola completou um sexto da pena em 7 de outubro de 2009.

EIKE EM CAMPO 
Eike Batista negocia para administrar o novo Maracanã, em reforma para a Copa de 2014. O empresário, como se sabe, acaba de criar uma empresa para negócios nas áreas de esporte e entretenimento, chamada IMGX, em sociedade com o grupo IMG, do bilionário americano Ted Forstmann.

ROBBEN NO BRASIL 
A CBF fecha um amistoso no Brasil, ano que vem, contra a Holanda do craque Robben.
Já estão acertados jogos na Europa contra França, em fevereiro, e Alemanha, em agosto.

DANÇA DAS CADEIRAS 
O Ministério de Lula, do qual Dilma vai herdar boa parte, será dividido em dois grupos, como diria o presidente Eurico Gaspar Dutra. 
Os “insignes partintes” e os “insignes ficantes”.

PENSANDO BEM 
A decisão de Dilma de não ir à COP-16, no México, deixa a sensação de que seu interesse pela ecologia na reunião do ano passado, em Copenhague, a COP-15, tinha... Viés eleitoral.
Naquele encontro, como se sabe, a então candidata chefiou a delegação brasileira.

KARAOKÊ NO MORUMBI 
De Ruy Castro, irreverente como sempre:
– Paul McCartney inventou, no Brasil, uma nova categoria de show: o karaokê ao vivo. É aquele em que a plateia não vai para ouvir, mas para cantar.
Faz sentido.

ROMÁRIO COM PAES 
Calma, gente! Não é o craque. É que o novo secretário de Esportes de Eduardo Paes se chama Romário Galvão, que já ocupou cargo igual em Nova Iguaçu, RJ.
Como é do PCdoB, o partido deve perder o mando de campo na Secretaria de Cultura.

DIVERSIDADE SEXUAL 
Carlos Tufvesson, como saiu aqui, está deixando a moda. 
Assumirá a Coordenadoria Especial de Assuntos da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio. Eduardo Paes quer que a cidade tenha uma secretaria para tratar da diversidade sexual. 

PARABÉNS PRA VOCÊ 
O vereador Fausto Alves, do Rio, apresentou projeto para dar ao servidor municipal uma folguinha no dia de seu aniversário, para festejar em paz com a família, os amigos...
Parece demagogia. E é.

ORDEM DO MÉRITO 
Bia Lessa, a diretora e cenógrafa, foi contratada pelo Ministério da Cultura por R$ 498.369 para concepção, criação e direção da premiação da Ordem do Mérito Cultural 2010, no dia 2 de dezembro, no Theatro Municipal, no Rio.

CRISE DA EMPADA 
Nem o Ministério de Dilma, nem os atentados no Rio. Ontem, a coluna recebeu e-mails de leitores que chiavam do apoio dado aqui à volta da azeitona às empadas da rede Casa da Empada. Uma leitora disse que o marido perdeu um dente ao morder o caroço de uma azeitona.
Alô, Casa da Empada! Tire o caroço que fica tudo certo!

JOSÉ NÊUMANNE

Unir o Brasil partido em bandas, desafio de Dilma
José Nêumanne 


O Estado de S.Paulo - 24/11/10
Em 2006, o fantasma da disputa do segundo turno contra Geraldo Alckmin, do PSDB, levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a "apelar". Tido como carta fora do baralho por culpa do "mensalão", mas depois favorito nas pesquisas, Sua Excelência contava com a vitória certa no primeiro turno e ela não veio. Foi aí que sacou do punho a carta decisiva para esmagar os adversários que nunca conseguiu desalojar do poder no Estado mais rico e mais populoso da Federação, São Paulo: o ressentimento do pobre contra o abonado, a inveja que o Zé Mané tem do seu sinhô dotô. Nunca antes na história deste país uma estratégia foi tão bem-sucedida. O mapa colorido do resultado das apurações publicado nos jornais não deixou dúvidas de que o Brasil que financia o Estado, pintado de azul, foi vencido pela banda vermelha, sustentada pela "viúva".
Institucionalmente, o mapa de duas cores nada representa. Lula teve mais votos do que Alckmin e se tornou presidente dos "dois Brasis". Fruto de sua argúcia e da enorme capacidade que tem de interpretar os anseios do povo, a estratégia deu resultado na contabilidade total dos votos. Mas produziu um efeito cascata difícil de explicar e, depois, quando necessário, de abortar. Não se trata de uma "secessão", como a que provocou a guerra civil nos Estados Unidos depois que Abraham Lincoln pôs termo à escravidão. Trata-se de algo mais profundo, mais longevo e muito mais perigoso. A semente da discórdia plantada pelo mais popular presidente da História de nossa nada exemplar República faz brotar erva daninha por todo o território nacional, sem que ele mesmo se tenha dado conta. Nem seus adversários.
Sim: José Serra, o candidato tucano que enfrentou o "poste" petista de Lula em 2010, pode até ter ouvido o galo cantar, mas nunca teve a mínima noção do lugar onde ele bateu as asas. O líder máximo, que despiu a faixa presidencial para se tornar cabo eleitoral do próprio capricho, nunca teve exata noção dos efeitos maléficos de seu investimento no difuso ressentimento social e regional do brasileiro. Da mesma forma, o ex-governador de São Paulo permitiu que sua campanha abrigasse uma reação com idêntico potencial de ódio. Para eleger a favorita o ex-líder sindical investiu contra a zelite, neologismo rastaquera que tem seu valor de face: zero. Para se contrapor ao apelo popular da inveja odienta do sucesso do outro, o ex-dirigente estudantil da esquerda se omitiu, deixando prosperar à sombra de sua candidatura a mesma sementeira de ignorância e truculência.
É isso aí. Engana-se quem pensa que preconceito é uma pretensa manifestação de superioridade. Nada disso. Muito antes pelo contrário, é o atestado cabal da ignorância de quem se considera (ou até se sabe) inferior ao alvo de seu ódio sem explicação racional cabível. O demagogo austríaco Adolf Hitler usou de sua astúcia e de sua falta de escrúpulos para explorar o que havia de mais podre e rasteiro nos porões da civilização alemã, cuja cultura produziu Goethe e Marx, Kant e Bach, Beethoven e Schiller. O holocausto dos judeus pelo regime nazista foi a mobilização do ódio provocado nas massas famintas alemãs pela capacidade de sobreviver e prosperar nas piores circunstâncias exibida pelos filhos de Israel. Os turcos são discriminados na Alemanha de hoje, 70 anos após a eclosão do grande conflito mundial, pela ameaça que sua presença significa para os nativos empobrecidos na ocupação de empregos num mercado cada vez mais competitivo.
Mayara Petruso, a universitária de classe média residente no Sudeste que sugeriu a leitores de seu twitter que afoguem nordestinos para vingar a derrota imposta pela mineira ao paulistano nas urnas eletrônicas dos grotões sertanejos, não pretendeu eliminar seres inferiores. Os vários manifestos de orgulho pau de arara que tentaram na internet responder à ofensa choveram no molhado, apesar de chuva e solo úmido serem raros no Semiárido. É inócuo rebater os argumentos dela com exemplos de gênios da estirpe de Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Augusto dos Anjos e Jorge de Lima, entre outros, por duas razões. É difícil imaginar que uma estudante do ensino superior se proponha a um genocídio, ainda que virtual, se houver na vida lido uma linha de algum tipo aproveitável de literatura. Mas, ainda assim, algo que pode ser atribuído à intuição feminina deve repetir no fundo de sua crassa ignorância a superioridade intelectual e moral destes titãs sobre os ídolos que encantam a própria mediocridade.
A srta. Petruso e os energúmenos que ecoaram propostas de teor semelhante, acobertados pelo silêncio cúmplice da oposição, esmagada eleitoralmente pelo iniciador desse movimento de segregação, que contrariou sua missão constitucional de garantir a unidade nacional, são sintomas de um mal maior. E esse mal parece recrudescer em episódios isolados, mas similares, como a agressão de um grupo de jovens por homófobos, de madrugada, na Avenida Paulista, e um tiro num manifestante da Parada Gay no Rio de Janeiro. Como os preconceitos de origem regional, racial ou de opção religiosa, a homofobia é uma manifestação de ignorância das evidências científicas da tediosa similitude entre seres humanos, animais espantosamente repetitivos em relação aos outros. E expressa ainda um temor que a psicanálise explica: no fundo, o homófobo teme a tentação da opção sexual que rejeita a pauladas.
O arrazoado acima foi exposto para preceder um apelo à presidente eleita, Dilma Rousseff. Ao agradecer à militância do Partido dos Trabalhadores (PT) pelo duro trabalho de elegê-la, ela disse que será presidente de todos os brasileiros, e não apenas dos que nela votaram. Tal verdade contém profunda sabedoria. Oxalá prenuncie que, não conseguindo patrocinar a união, ela contribua para restaurar a unidade nacional, que seu patrono debilitou para obter os triunfos dele e dela nos idos de outubros.