terça-feira, novembro 23, 2010

AUGUSTO NUNES


Milagre brasileiro: a Petrobras enxerga um flagelado no deputado mais rico do país

AUGUSTO NUNES
VEJA ON-LINE

Promovido simultaneamente a multimilionário e flagelado, o usineiro alagoano João Lyra acaba de transformar-se num originalíssimo caso de esquizofrenia financeira que só dá no Brasil. Baseado na declaração de bens do candidato a deputado federal pelo PTB, o Tribunal Superior Eleitoral concluiu que Lyra é o mais rico dos parlamentares eleitos neste outubro: o patrimônio confessado alcança R$ 240 milhões, ou 1/5 do que possuem, somados, todos os colegas de Legislativo. Baseada em informações fornecidas pelo próprio Lyra, que apareceu por lá junto com o senador Fernando Collor para relatar os estragos provocados pelas enchentes de julho numa de suas usinas, a Petrobras Distribuidora concluiu que o deputado mais rico do país é um flagelado merecedor de atendimento urgentíssimo. E resolveu socorrê-lo com um contrato de R$ 200 milhões.
O pai de Tereza Collor ficou devendo mais essa ao aliado político que desde dezembro passado, quando emplacou a nomeação de José Zonis na Diretoria de Operações e Logística, entra sem bater na Petrobras Distribuidora. Para fechar o acerto, Lyra só precisou da escolta do amigo de infância de Lula e de uma visita de três horas à estatal. Precisou de menos tempo ainda para transformar a papelada em dinheiro vivo. Bastou-lhe dirigir-se a um banco, apresentar o contrato como garantia e solicitar um empréstimo de valor idêntico, com juros de compadre.
Teve mais sorte que seus companheiros de infortúnio. Até agora, segundo o Programa de Reconstrução do Governo Estadual, o governo federal repassou exatamente R$ 490.684.000, 00 a Alagoas, um dos Estados mais castigados pelas inundações do último inverno. As verbas foram distribuídas entre a Secretaria de Infraestrutura (R$ 250 milhões), a Secretaria de Educação (R$ 122 milhões), a Secretaria de Defesa Civil (R$ 75 milhões) e a Secretaria de Saúde (R$ 43.684). Nenhum centavo chegou às mãos da multidão de flagelados. Nenhum deles viu a cor do dinheiro. Só João Lyra.
Lula diz de meia em meia hora que governa para os pobres. Pode agora invocar o caso do flagelado que embolsou 200 milhões de reais.

JANIO DE FREITAS

Crimes de lá e de cá 
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/11/10

A conveniência da relação com o Irã não implica a abdicação, pelo Brasil, de seus princípios morais


A ABSTENÇÃO DO Brasil diante de uma resolução contrária ao desrespeito a direitos humanos no Irã, conforme proposta do Canadá no Comitê de Direitos Humanos da Assembleia da ONU, expressa muita confusão no governo brasileiro entre princípios nacionais, estratégia e política.
Para ficar em um só caso relativo a direitos no Irã, a sentença de morte por apedrejamento é absolutamente contrária aos princípios inscritos na Constituição brasileira. Logo, não pode ser senão condenada pelo Brasil em todos os foros. Não apenas porque sentença de morte, já repelida pela Constituição. Ninguém parece ter notado que a morte por apedrejamento é tortura até a morte. Pelos princípios brasileiros, crime hediondo. Se está inscrito em legislação estrangeira ou é praticado à margem de lei, não lhe muda a natureza e a hediondez.
A conveniência estratégica de boas relações com o Irã não implica a abdicação, pelo Brasil, dos seus princípios morais e constitucionais. A menos que o Irã não veja as boas relações por ótica de sua estratégia internacional, mas tão só de conveniência circunstancial. A ser assim, a estratégia brasileira, em relação ao Irã, estaria vagando no espaço, solitária.
É certo que o chamado bloco ocidental pratica políticas destinadas a minar o Irã. Pode ser verdade, também, como disse o líder iraniano Ahmadinejad na quinta-feira passada, que tais políticas não têm base moral porque, só nos Estados Unidos, há "pelo menos 50 mulheres condenadas à pena capital". Se o Brasil não tem motivos para não se incorporar ao jogo do bloco ocidental, e pretende resguardar sua estratégia em relação ao Irã, o seu instrumento não é abster-se. É agir. É trabalhar politicamente para que as partes opostas tenham maior correção em seus métodos externos e internos, e aliviem a tensão que produzem.
Confundir princípios, estratégia e política não serve a nenhum desses três fatores nacionais.

JOSÉ PASTORE

Rotatividade e descapitalização do FGTS
 José Pastore
O Estado de S. Paulo - 23/11/2010



Consta que o governo vê com preocupação o crescimento dos saques do FGTS por causa da alta rotatividade dos últimos tempos. As centrais sindicais aproveitam o ensejo para forçar a aprovação da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que limita as demissões. Na sua lógica, travando as demissões, se reduzem os saques do FGTS. O que dizer sobre isso?
De fato, a rotatividade aumentou bastante no primeiro semestre de 2010. Mas isso se deveu basicamente ao fato de 30% dos desligados (recorde) terem pedido para sair da empresa, o que não acarreta nenhum saque do FGTS. A rotatividade aumenta quando a demanda por trabalho se aquece. O empregado pede para sair de uma empresa para aceitar oferta melhor. E sobre os 70% dos desligamentos, que são determinados pelas empresas, não se justifica uma lei que impeça tais demissões?
Há uma série de circunstâncias peculiares que explicam essas dispensas. Na construção civil, terminada a obra, acaba o emprego. Na agricultura, passados o plantio e a colheita, diminui a necessidade de trabalhadores. Nos empregos do turismo, findas as férias, encolhe-se o quadro de pessoal. No comércio, contratar e descontratar seguem picos sazonais. Tudo isso sem contar os casos de empregados que provocam um acordo com as empresas para ser demitidos a fim de sacar o FGTS.
Empresas que demitem para contratar empregados por menor salário são exceções. No Brasil a demissão é cara e a admissão, mais ainda, quando se consideram as despesas de recrutamento, treinamento e adaptação. Ademais, os dados indicam que, nesta quadra de falta de mão de obra de boa qualidade, as empresas estão aumentando o salário de admissão para atrair os melhores funcionários ou para tirá-los de outras empresas - é um processo de "pilhagem". Na mesma esteira, os sindicatos laborais têm conseguido expressivos aumentos nos pisos salariais nas negociações coletivas. Igualmente importante é a elevação dos pisos estaduais.
Portanto, não há nenhuma economia no eventual troca-troca deliberado. Ao contrário, isso cria um tumulto intolerável ao processo produtivo, o que pode ser notado até na vida das famílias. Qual é a dona de casa que aceita o transtorno de trocar de empregada doméstica a cada seis meses para pagar menos? É bom lembrar que até nessa categoria os salários de admissão aumentaram de forma substancial e está cada vez mais difícil encontrar quem queira prestar tais serviços.
Saindo das peculiaridades das empresas e passando para as dos empregados, nota-se que a rotatividade incide mais entre os mais jovens, que têm poucos meses de trabalho e que recebem baixos salários. Os mais velhos têm mais tempo de firma, são mais bem qualificados e recebem salários mais altos. Isso explica em grande parte porque poucos rodam muito e muitos rodam pouco. De fato, cerca de 80% dos brasileiros estão na mesma empresa há três anos ou mais.
É ilusório querer travar as dispensas por meio da Convenção 158 da OIT. O fenômeno está intimamente ligado à dinâmica dos setores econômicos e às características das pessoas - o que não pode ser mudado pela vontade do legislador ou da OIT.
A preocupação com a "descapitalização" do FGTS é procedente, mas as causas devem ser buscadas em outras esferas. Os saques para a compra da casa própria cresceram mais de 30% no último semestre. Desastres climáticos criaram motivos de calamidade pública que aceleraram as retiradas. A lista de permissões para uso daqueles recursos é longa. E o que está na forma de projetos de lei ou jurisprudência que se firma pode aumentá-la ainda mais, como é o caso do uso do FGTS para o pagamento de escola, água, luz, IPTU, pensão alimentícia, compra de ações de estatais e vários outros motivos.
Em suma, o aumento dos saques pouco tem que ver com rotatividade ou com dispensas inevitáveis. Por isso, antes de atirar, é bom caprichar na pontaria.

DORA KRAMER

Inteligência de Estado
Dora Kramer 


O Estado de S.Paulo - 23/11/10
Nenhum Estado pode prescindir de um setor de inteligência, reza o bom senso. O presidente Luiz Inácio da Silva, no entanto, não parece compartilhar dessa constatação, já que deixou o Gabinete de Segurança Institucional se esvaziar ao ponto de ser hoje uma estrutura inerte. Não obstante, ampla.
Ligado diretamente à Presidência da República, o GSI tem entre suas atribuições a assistência ao presidente, a prevenção e articulação de crises, cuida da segurança pessoal do presidente, do vice-presidente, das famílias e respectivas moradias. Além disso, deve coordenar atividades federais de segurança e informação.
No quesito assessoramento presidencial, a medida da serventia do gabinete atualmente é dada pelo grau de relacionamento entre Lula e o general Jorge Félix: nenhum. Segundo relatos de um interlocutor frequente do presidente, ele sequer conversa com o chefe do Gabinete de Segurança Institucional.
Não porque tenha qualquer restrição a ele, mas porque não confere importância à função do general. Desde a crise dos grampos telefônicos clandestinos que resultou na transferência do então chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin, que está sob o comando do GSI), Paulo Lacerda, para Portugal, Lula desdenha dos alertas sobre a necessidade de remontagem do setor.
Corre como piada no ambiente do poder, a lembrança de que o gabinete não conseguiu prever a vaia a Lula durante a abertura dos Jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, que antes circulava na internet.
Deveria ser da Abin também a função de esmiuçar vidas pregressas e acompanhar as atividades de ocupantes do governo para prevenir escândalos.
Mas, se Lula não quer contar com uma estrutura organizada e atuante de inteligência, Dilma Rousseff tem sido aconselhada a incluir o setor de segurança institucional entre suas prioridades de governo.
@realporquinhos. Os "três porquinhos" de Dilma Rousseff, Antonio Palocci, José Eduardo Dutra e José Eduardo Cardoso, receberam o apelido pela óbvia associação aos inseparáveis alvos da cobiça do lobo mau da história infantil.
Já Edison Lobão, Marcondes Gadelha e Hugo Napoleão, em 1989 ficaram conhecidos pelo mesmo nome por causa das articulações heterodoxas para lançamento da candidatura presidencial de Silvio Santos 40 dias antes das eleições. Candidatura esta barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Posto avançado. Os tucanos de São Paulo acham ótimo que o prefeito Gilberto Kassab vá para o PMDB. Preferem ver o partido nas mãos de Kassab que sob a influência do PT.
Eles acreditam que assim o PMDB pode funcionar como uma espécie de anexo, junto com o DEM que seria comandado por Guilherme Afif Domingos, vice do governador eleito Geraldo Alckmin.
Mas há um "porém" que pode desvanecer o entusiasmo do tucanato: a disposição implícita na mudança de Kassab e a intenção explícita do PT paulista de formarem aliança futura.
Para dar combate ao grupo de Alckmin.
Maiores e menores A distribuição de gabinetes do Senado, quando não obedece à regra do pistolão, é feita mediante um "ranking" de merecimento de conforto por ordem hierárquica.
Ex-presidentes da República têm direito aos melhores. Em seguida vêm os que já foram governadores, os que já presidiram a Casa, os que foram senadores e agora voltam, os com maior número de mandatos e por último os novatos.
Isso numa instituição de representação democrática, onde o critério mais justo seria o do sorteio.
Budapeste. José Serra voltou de viagem ainda sem saber o que fará da vida política. Está, digamos, na fase das "oitivas".
Instalado no antigo escritório, Serra anda fascinado por dois assuntos: a crise monetária internacional e a Hungria, onde esteve recentemente.

MERVAL PEREIRA

O futuro de Lula

Merval Pereira
O Globo - 23/11/10

O presidente Lula dá a cada dia mais sinais de que não convive bem com a ideia de largar o poder, a começar pela explícita interferência na montagem do primeiro Ministério da presidente eleita, Dilma Rousseff, sua criatura eleitoral que vai dando também demonstrações de uma insuspeitada habilidade para lidar com os constrangimentos que a sede de poder de Lula lhe causa publicamente.



Lula, apesar de toda popularidade, já está sentindo o gostinho ruim do poder que se esvai. Na recente reunião do G-20, não apenas não lhe prestaram as homenagens que provavelmente aguardava, por ser aquela a sua última participação no fórum hoje mais importante dos chefes de Estado do mundo, como teve que ver Dilma ser mais assediada do que ele pelos jornalistas, e não apenas do Brasil.

O sinal de que a realidade do "rei morto, rei posto" é mais dura do que sua simples enunciação da boca para fora foi dado pelo magnata Rupert Murdoch, que cancelou um pedido de audiência para esperar a posse de Dilma.

O fato de que a família Lula da Silva vai se mudar de São Bernardo do Campo para a capital paulista já é um indicativo de que a nova dimensão política de Lula não cabe na cidade que o viu crescer para as homenagens internacionais, mas até agora Lula tergiversa quanto ao que vai fazer no futuro.

O Brasil oficializou sua decisão de disputar a direção geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), mas não antecipou o nome de seu candidato, procedimento inusual.

Atribuiu-se esse ineditismo à possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vir a concorrer ao posto, que sem dúvida tem tudo a ver com sua disposição de se dedicar ao combate à fome no mundo depois de deixar o governo, por meio da criação de uma ONG.

Mas é improvável que Lula tente uma carreira em organismos internacionais, embora seja certo que será a mais nova estrela do circuito internacional de palestras, o que já faz com que assessores e amigos lhe sugiram que para cada palestra milionária ? dizem que pode ganhar mais de US$100 mil por palestra no primeiro ano depois de deixar o cargo ? faça duas de graça para movimentos sociais e ONGs.

Há também diversos títulos de doutor honoris causa de universidades de todas as partes do mundo, que Lula deve receber assim que deixar o Palácio do Planalto.

Mas, para futuro desespero de Dilma, o interesse de Lula parece continuar sendo a política interna.

Lula já disse que pretende se empenhar para organizar a esquerda brasileira, apesar de já ter dito em diversas ocasiões que não é de esquerda.

Quer também ajudar a debater, dentro do PT, uma reforma política, para depois convencer os outros partidos.

Lula já deixou claro que não pretende se aposentar da política, mas é contraditório quanto a sua relação com o PT:

"Estou muito otimista. Eu tenho convicção de que nunca haverá tempo para uma pessoa que construiu a relação que eu construí, seja política, seja sindical, seja com o movimento social, seja com empresários, de ficar parado. Ou seja, eu vou ter muita tarefa. Agora, a única coisa que eu não quero é ter tarefa dentro do governo, e também não dentro do partido, que eu não quero voltar para dentro do partido".

De outra feita, Lula revelou que pretende voltar a viajar pelo Brasil. "Eu quero voltar a viajar o Brasil, porque tem muita coisa que a gente começou, tem muita coisa que foi concluída, muita coisa que não foi concluída, e eu não tenho como desaparecer da minha relação com a sociedade de uma hora para outra", comentou.

Lula mesmo tem dúvidas se está preparado para ser um ex-presidente: "Eu espero que eu esteja preparado para o dia 2. Você levantar de manhã, não ter ninguém para eu xingar, tem só a Marisa, com muito mais poder do que eu".

Numa sexta-feira, 29 de outubro, na comemoração de seu último aniversário como presidente, pelo menos nos próximos quatro anos, Lula ficou com a voz embargada e desistiu de falar, deixando claro que ainda não está lidando bem com o fato de seu mandato estar terminando. "Com toda a sinceridade, eu preferia que este dia nunca tivesse chegado", disse Lula, referindo-se ao último aniversário como presidente.

Antes, em várias ocasiões, Lula havia feito referência ao fato de que não pode se candidatar a um terceiro mandato consecutivo.

Certa ocasião, em uma solenidade no Palácio do Planalto, brincou com o vice-presidente José de Alencar dizendo que, por ele, continuaria mais tempo na Presidência, "mas o pessoal não quer, não é, Zé, e democracia é isso mesmo, temos que respeitar".

Outra dessas vezes foi em agosto, quando ele lamentou ironicamente não ter mandado ao Congresso uma emenda à Constituição que lhe permitisse aumentar o seu mandato na Presidência da República.

"Está certo que está no final do mandato, mas junto com esta lei complementar podia ter mandado uma emendinha para mais alguns anos de mandato", disse ele, ao sancionar alterações na Lei Complementar 97, que amplia os poderes do ministro da Defesa.

Ele já havia explicitado essa dificuldade em meio à campanha eleitoral, quando ressaltou que essa seria a primeira eleição, "desde que voltou (sic) as eleições diretas para presidente, que o meu nome não vai estar na cédula. Vai haver um vazio naquela cédula", disse Lula, que desde 1989 foi candidato à Presidência da República.

Em novembro, Lula disse em Moçambique, com sinceridade, que vai sentir "falta dos microfones" quando deixar o poder, em janeiro do ano que vem.

Ou não.

MÍRIAM LEITÃO

As crises são iguais
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 23/11/10


O que um país de 4,5 milhões de habitantes, com menos gente que no Rio de Janeiro, pode fazer ao mundo? Outra dúvida: como um país que foi apontado como exemplo durante anos e que cresceu em ritmo chinês pode estar em recessão, com deflação, e com risco de dar calote na dívida? Terceira questão: como negociar com um país cujo governo está caindo?

As dúvidas irlandesas derrubam mercados e preocupam. O Partido Verde disse que sairia da coalizão de governo e dois parlamentares independentes avisaram que não votarão o Orçamento. O primeiro-ministro, Brian Cowen, está resistindo mas disse que depois da aprovação do Orçamento vai dissolver o Parlamento. As autoridades do BCE, FMI e Reino Unido estariam negociando um pacote bilionário, que significa a metade do PIB da Irlanda, com um governo com os dias contados.

Esse é mais um dos inusitados desse mistério irlandês. O melhor aluno da classe está em recuperação. Por 20 anos, a Irlanda foi exemplo de disciplina fiscal: reduziu a dívida pública de 108% do PIB, em 1986, para 25%, em 2007 (vejam no gráfico). O PIB cresceu em média 7,4% ao ano de 1995 a 2007. Falava-se de milagre irlandês. O país era apontado como exemplo e havia mil explicações para o seu sucesso.

O problema é que parte do crescimento é resultado de uma bolha imobiliária. O preço dos imóveis subiu 315% de 1996 a 2007. De lá para cá, caiu 36%, tirando renda das famílias e causando prejuízos bancários bilionários.

-A crise da Irlanda em muitos aspectos se parece com a dos americanos e ingleses: uma economia que estava crescendo fortemente, com liquidez enorme a juros baixos e pouca regulação. Os bancos ficaram muito expostos a ativos imobiliários, com alavancagem excessiva. Em 2008, a bolha imobiliária estourou e tanto o sistema financeiro quanto as famílias ficaram com problemas ? conta o economista Roberto Padovani, do WestLB.

A notícia que causou espanto ontem foi o tamanho do resgate anunciado à Irlanda, de 90 bilhões, ou metade do PIB irlandês. Outro número inacreditável é a projeção de déficit do governo para este ano: 32% do PIB.

Parece até erro. Isso tudo é déficit ou dívida? É mesmo déficit, que fará a dívida subir para 93% este ano, e superar a marca dos 100% no ano que vem. Todo o esforço feito em 20 anos pelo tigre celta foi por água abaixo em apenas três anos, de 2008 a 2010.

O governo explicou que o socorro ao sistema financeiro é responsável por 20% do déficit de 2010. Ele expõe a fragilidade dos bancos, que, por um lado, foram atingidos pela bolha imobiliária e, por outro, sofreram de crise de confiança e saques dos correntistas. Do pacote, imediatamente serão repassados de 8 a 12 bilhões aos bancos, para impedir que eles fiquem sem liquidez. Desde 2008, eles já receberam 45 bi, contando a injeção de 12 bi de setembro. É o segundo socorro em três meses.

O problema é agravado porque o governo irlandês está endividado e agora ficará mais. Ou seja, o risco do sistema financeiro está se transformando em risco de dívida soberana, na medida em que os governos assumem os problemas bancários.

Em outubro, a Moody"s colocou sob perspectiva negativa o rating Aa2 da Irlanda e agora diz que o mais provável é que ela perca de uma vez o grau de investimento. Esse é um dos vários problemas da questão. Por um lado, o pacote de auxílio vai aumentar ainda mais a dívida do governo. Por causa disso, haverá diminuição do rating, que tornará os empréstimos mais caros daqui para frente. Por outro, as medidas de austeridade fiscal devem diminuir a demanda e isso pode ter reflexo no crescimento e na arrecadação do governo.

Parece o oposto da célebre frase da obra de Tolstoi "Ana Karenina", de que todas as famílias felizes são iguais; as infelizes o são cada uma à sua maneira. Os países em suas tragédias econômicas parecem todos iguais. Os bancos emprestaram irresponsavelmente, as pessoas foram ficando mais endividadas, pensando que estavam ficando ricas. Quando a bolha estoura, os ativos entram em queda livre, o governo aumenta os gastos para salvar os bancos e evitar o colapso da economia. Por causa do socorro, o déficit aumenta, os governos têm que pagar juros altos nas suas dívidas, as agências de rating rebaixam a avaliação dos países, alguma entidade estrangeira resgata o país e impõe ajustes. A dívida sobe mais ainda e os bancos exigem mais juros para rolar a dívida. Parece uma pessoa frágil com um trem vindo na direção contrária.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Camisinha do papa furô! 
José Simão
FOLHA DE SÃO PAULO - 23/11/10

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República! E mais uma predestinada: "Deputada argentina estapeia colega no plenário". Como é o nome dela? Graciela CAMAÑO! Rarará! Adorei essas deputada argentina! As mulheres tão com a macaca, viu.
E essa: "Piadas e aguardentes são atrações da terra do pai de Dilma!". Tá explicado porque o Lula escolheu a Dilma. Rarará! E esta: "Estilo de Paul McCartney sobreviveu ao tempo e lembra o Rei Roberto". Principalmente no blazer azul geladeira antiga! O blazer era emprestado do Roberto Carlos!
Mas em matéria de Beatles eu ainda prefiro a Simone EXECUTANDO John Lennon: "Hooooje é Natal! A fééélicidade!". Rarará!
E a manchete do Sensacionalista: "Violência contra a infância: depois do show do Paul McCartney, pais destroem MP3 de filhos recheados de Restart". Rarará!
E o papa Sebento 16? O rotweiller de Deus! Papa admite uso de camisinha em alguns casos. Fazer balão em forma de animal. Usar como chiclete de bola. Ou então como aquela filha dum amigo meu de cinco anos: botou suco de uva e uma pedra de gelo. Coqueteleira!
Na realidade, ele falou "alguns casos como prostituição". Já imaginou no confessionário? "Padre, eu usei camisinha." "Foi com prostituta?" "Foi!" "Então tá perdoado."
E como disse aquela feminista: "Com dinheiro no meio, pode". E sabe por que o papa deixa usar camisinha com prostituta? Porque nem a igreja aguenta mais tanto filho da puta. Rarará!
E aquele português que entrou na farmácia aos gritos: "Me dá uma camisinha que hoje vou dar uma tremenda bimbada". E o farmacêutico: "Português, cuidado com a língua". "Ah, então me dá duas." Rarará!
E o Kassab? O seu Barriga do Chaves? Vai entrar pro Guiness das Medidas Inúteis: proibiu artistas de rua na Paulista, banca de jornal no centro e gritos em feira livre.
Feirante não pode mais gritar: "Vai banana, madame?" e "Olha o peixe fresco". Vão ter que fazer curso intensivo na Suíça! Proibiu motos nas Marginais. Melhor seria ter proibido marginais nas motos. Rarará!
E proibiu tráfego de caminhão na Marginal Tietê. Só que eu fui pro aeroporto e só tinha caminhão na minha frente. E perdi o avião. Rarará! Ainda bem que nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Gestora de recursos investe em shopping em Betim 
Maria Cristina Frias 

Folha de S.Paulo - 23/11/2010

A gestora de "private equity" Prosperitas Investimentos deve anunciar na próxima semana a construção de um novo shopping no município mineiro de Betim.
Os recursos envolvidos podem ser da ordem de R$ 100 milhões, segundo a empresa, que é especializada no mercado imobiliário.
A Prosperitas, que já tem dois projetos arquitetônicos, está em fase final de negociação com proprietários de duas áreas em Betim. O contrato deve ser assinado nos próximos dias para viabilizar o início da comercialização das lojas em dezembro.
O futuro shopping center terá área construída de 75 mil m2 e área bruta locável estimada em cerca de 35 mil m2.
Estão previstos um hipermercado, seis salas de cinema e espaço de 4.000 m2 para loja de artigos para casa, externa ao shopping, mas que funcionará como âncora.
"É complicado fazer esse mix de lojas. As âncoras são importantes para o shopping fazer sucesso, mas as demais lojas, as satélites, pagam aluguel maior", diz Luciano Lewandowski, da Prosperitas.
"Se, por exemplo, uma âncora paga um aluguel de R$ 20 o m2, as satélites pagam R$ 120 o m2."
O shopping terá como público-alvo as classes B e C.
Outros investimentos do grupo em shoppings giraram em torno de R$ 100 milhões a R$ 120 milhões. Em Macapá, a gestora fará investimento de R$ 110 milhões para ter um shopping de 105 mil m2 de área construída.
A Prosperitas inaugurou em Campinas, no sábado passado, um shopping destinado à classe C e constrói outro no Rio. A companhia também tem projetos de logística e loteamentos.

SEGURO NO CARTÃO
Os cartões entraram no radar do mercado segurador. Pesquisa revela que 54% dos brasileiros possuem seguro para cobrir gastos feitos por terceiros em caso de perda ou roubo do cartão.
O levantamento foi realizado pela consultoria do setor CardMonitor.
Outras modalidades também estão ganhando destaque. Os seguros de vida estão presentes na carteira de 7% das pessoas pesquisadas.
Já os de acidentes pessoais estão em 5% dos cartões, segundo a consultoria.
"O cartão é o veículo ideal para a venda de diversos tipos de seguros, principalmente os mais simples, que só fazem sentido, do ponto de vista financeiro, se forem massificados", explica José Antonio Carvalho, sócio da CardMonitor.
A pesquisa, que será apresentada na próxima quinta-feira no 2º Fórum CardMonitor de Inteligência de Mercado, em São Paulo, ouviu 1.758 pessoas, em 11 cidades brasileiras.

FALÊNCIAS EM QUEDA
O volume de pedidos de falência e de recuperações judiciais recuou em outubro no país. Foram requeridos no mês 142 pedidos de falências, com queda de 12% na comparação com setembro, segundo pesquisa da Equifax.
Os requerimentos de recuperação judicial tiveram retração de 10% em outubro, registrando 18 pedidos.
Já o número de falências decretadas apresentou queda de 19% sobre setembro.

Fatura... A Casa & Vídeo e a Classic Corretora de Seguros lançam parceria para assegurar as compras feitas com o cartão de crédito da rede varejista. O seguro de perda e roubo do cartão garante a quitação, por exemplo, das compras indevidas.

...segura Outra opção é o serviço de proteção financeira, que assegura o pagamento das faturas em aberto em caso de desemprego ou invalidez permanente causada por acidente. Um dos alvos são os profissionais liberais, como motoristas de táxi.

COMO UMA ONDA
A norte-americana Lightning Bolt, de vestuário e pranchas de surfe, inicia nova operação no Brasil.
A marca, presente no país desde 1977 sob forma de licenciamento, vai a partir de agora ser comandada pela matriz americana.
"O potencial do mercado brasileiro de surfe é gigante. Com a economia em crescimento, o país tem se tornado muito atrativo para americanos e europeus", diz Jonathan Paskowitz, CEO da empresa, que está no Brasil.
Paskowitz é de uma tradicional família de surfistas. Seu pai, Dorian "Doc" Paskowitz, 90, considerado guru do surfe americano, terá a vida relatada em filme.
O ator Sean Penn vai interpretar o papel de Doc nas telonas. As filmagens devem começar em 2011, segundo Paskowitz.
A Lightning Bolt tem planos de abrir duas lojas no Brasil, uma no Rio e outra em São Paulo, em dois anos. As roupas e pranchas da marca serão vendidas em lojas multimarcas.

SUDESTE CRESCE EM VOLUNTARIADO EMPRESARIAL
A concentração de empresas que investem em voluntariado empresarial na região Sudeste aumentou nos últimos três anos: de 61%, em 2007, para 84%, em 2010.
A conclusão é da pesquisa recém-concluída pelo CBVE (Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial), que será divulgada no próximo dia 2, no Rio de Janeiro.
Cresceu também a participação de grandes empresas que contribuem ao motivar funcionários para o voluntariado. Era de 59% em 2007 e chegou a 73% em 2010.
O percentual de empresas que investem mais de R$ 200 mil ao ano em ações voluntárias subiu de 19% para 36% no último triênio.
Mais de 20% das companhias estão dispostas a aumentar entre 5% e 15% os gastos em incentivo ao voluntariado empresarial no ano que vem, segundo a pesquisa da CBVE.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Tropa de elite 
Renata Lo Prete 

Folha de S.Paulo - 23/11/2010

Em articulação comandada pelo Planalto, governadores desembarcam hoje em Brasília para reforçar o lobby contra a aprovação de projetos multiplicadores de gastos, em especial a PEC 300. Eles se encontrarão com o presidente da Câmara, Michel Temer, que havia prometido aos policiais colocar em votação a emenda criadora de um piso salarial da categoria, mas ouviu pedido em contrário de Dilma Rousseff.
Os governadores também querem pressionar a Câmara a concluir as votações da PEC que estende por tempo indeterminado a vigência do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza e do projeto que prorroga os repasses aos Estados previstos na Lei Kandir.

Veja bem De Temer (PMDB-SP), vice-presidente eleito, sobre a ideia do "blocão" na Câmara: "Não fiquei sabendo. E, quando fiquei, considerei pressão incorreta para efeitos de governo".
Santo... Ala expressiva do PMDB não só acolhe a possibilidade de Alexandre Padilha, hoje nas Relações Institucionais, vir a ser indicado ministro da Saúde, como o apadrinharia. Ao contrário do peemedebista José Gomes Temporão, pouco condescendente com os pleitos do partido, o petista agrada os parlamentares da sigla.

...de casa Pouco antes de iniciada a campanha eleitoral, Temporão patrocinou movimento na tentativa de desidratar as funções da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão comandado por peemedebistas. Líderes do PMDB reagiram, e as reclamações foram à época absorvidas por Padilha, que atuou como bombeiro.

Foto oficial O Planalto promoverá em dezembro um encontro de ministros e ex-ministros com Lula.

Extra pauta O presidente do Supremo, Cezar Peluso, pediu recentemente audiência a Lula, mas cuidou de avisar que a conversa não seria para tratar de reajuste salarial para o Judiciário.

Sedução O novo governo calcula contar com 57 votos certos no Senado a partir de 2011. E acredita que a maioria pode ser ainda mais ampla, caso nomes como Sérgio Petecão (PMN-AC) e Ana Amélia Lemos (PP-RS) sejam "seduzidos" para o bloco de sustentação a Dilma.

Xeque Candidato a uma vaga no ministério de Dilma, o senador Aloizio Mercadante (PT) enfrentou anteontem o atraso no embarque São Paulo-Brasília, em razão da chuva e da troca de aeronave, concentrado numa partida de xadrez em seu "tablet".

Protocolo A equipe de transição e o cerimonial do Bandeirantes montam o roteiro da posse de Geraldo Alckmin. A ideia inicial é que o evento comece às 9h na Assembleia e seja concluído a seguir na sede do governo. O tucano manifesta a intenção de acompanhar, à tarde, a solenidade em que Dilma receberá a faixa presidencial.

Atlas Em almoço com Gilberto Kassab (DEM) ontem, dirigentes do PSB, PDT e PC do B combinaram de mapear as cidades paulistas em que o "bloquinho" caminha unido rumo a 2012.

Matemática Um possível bloco DEM-PMDB na Assembleia faria Alckmin iniciar mandato sob pressão. Com 13 membros, as duas bancadas, somadas aos 28 oposicionistas, garantiriam quórum para abrir CPIs.

Batismo O bloco reduziria a margem de manobra do governo já na eleição da presidência da Casa, em 15 de março, decidida por maioria simples -48 votos.

tiroteio

"A cada dia, aparece mais um indicado de Lula para o ministério de Dilma. Afinal, de que adiantou eleger uma mulher, se o homem vai continuar mandando?"
DE ROBERTO JEFFERSON, PRESIDENTE DO PTB, sobre a influência do presidente na montagem do primeiro escalão do governo de sua sucessora.

contraponto

Reverso da fortuna

Em encontro da equipe de transição, na semana passada, discutia-se a erradicação da miséria. A certa altura da conversa, a ministra do Desenvolvimento Social, Márcia Lopes, contou que as catadoras de papel, frequentemente queixosas de maus tratos por parte dos maridos, agora dizem que, com uma presidente da República mulher, vão parar de apanhar.
Ao que Antonio Palocci emendou, brincando:
-É, mas nós não...

CELSO MING

O fator Irlanda 
Celso Ming 

O Estado de S.Paulo - 23/11/2010

O pacote de ajuda à Irlanda não parece capaz de cicatrizar as feridas da área do euro. São pelo menos três esferas quase concêntricas de alta vulnerabilidade.
São as finanças públicas dos países da periferia do euro que estão mal; são os bancos atolados em títulos da dívida pública dessas economias que já não sabem até quando poderão aguentar os ataques de desconfiança; e é o próprio euro que segue dando soluços a cada crise nacional.
A Irlanda deve receber US$ 120 bilhões para não ter de emitir novos títulos de dívida e, assim, depender do cada vez mais instável humor do mercado. Mas esse almoço não sai de graça.
A primeira contrapartida é a imposição de um regime a pão e água à administração das finanças públicas cujo efeito colateral é conhecido: redução da atividade econômica e mais desemprego. Portanto, vai doer. Se vai doer, não dá para evitar as reações políticas: greves, manifestações e desestabilização do governo.
Se tudo der certo com o resgate da Irlanda, ainda é preciso ver o que acontecerá com os outros países expostos ao mesmo risco de naufrágio, como Portugal, Espanha e provavelmente também a Itália. Se a Grécia precisou de US$ 150 bilhões e a Irlanda de mais US$ 120 bilhões, imagine-se do que não precisarão Espanha e Itália. Em todo o caso, a macroprovisão para essa finalidade instituída em maio, entre a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, chega perto de US$ 1 trilhão.


Outro risco imediato é de aumento das dificuldades dos bancos irlandeses, que já haviam perdido US$ 95 bilhões (cerca de metade do PIB da Irlanda) com a crise e que hoje estão atolados com títulos de países. No momento, enfrentam riscos cada vez maiores de inadimplência (e calote) de clientes soberanos. E esse risco será cada vez mais alto se sobrevierem pressões políticas incontornáveis que levem os governos a rejeitar políticas de austeridade. A necessidade de reforço de capitalização de um grande número de bancos europeus parece incontornável.

O terceiro nível de problemas está no núcleo do próprio euro. Na última quinta-feira, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, expressou, durante a abertura de um encontro de administradores de bancos centrais, as "graves preocupações" com a qualidade da administração das contas públicas dos países da área. E fez dramático apelo a um salto de governança fiscal dentro do bloco.

O Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) - que é o compromisso dos membros da área de não ter rombos orçamentários superiores a 3% do PIB e dívidas maiores a 60% do PIB - não resistiu à primeira crise e essa inconsistência é o principal fator de contágio dentro do bloco.

Todos os países do euro aumentaram substancialmente suas despesas, seja porque entenderam que tinham de injetar mais recursos na economia à beira do colapso, seja porque tiveram de aumentar os desembolsos com seguro-desemprego. E, como consequência da disparada dos gastos, tiveram também de turbinar suas dívidas públicas. Hoje os bancos relutam em refinanciar esses déficits porque eles próprios temem pela sua segurança.

É um quadro geral que está provocando o derretimento da consistência interna do próprio euro e que o rápido envio de socorro não consegue reverter.


Queda geral
Apesar do anúncio de socorro para a Irlanda, o nível de confiança do mercado está abalado. O tombo das principais bolsas de valores, que você vê acima, mostra que há medo generalizado de contágio na área do euro.

Desmanchando no ar
As principais moedas fortes estão se alternando em se desvalorizar uma em relação à outra. Durante algumas semanas, foi o dólar que se perdeu força em relação ao euro. Agora, é o euro que está se desvalorizando diante do dólar. Assim, o mundo vai perdendo referência de valor.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

A confirmar 
Sonia Racy 

O Estado de S.Paulo - 23/11/2010

Dentro da cota de mulheres auto-estabelecida por Dilma, surge um nome de peso para ocupar a cadeira do Ministério do Desenvolvimento Social. Trata-se da gaúcha Evelyn Ioschpe, presidente da Fundação Iochpe.


Timing
E Dilma será interrogada esta semana em Brasília... pelo Censo. O recenseador, que havia dado com a cara na porta durante a campanha eleitoral, ganhou nova chance.

Preço do sucesso
Ao que se apurou, a Inbrands pode ser vendida. Não porque não tenha dado certo e, sim, pelo motivo contrário.

O eleito?
Zé Henrique Reis Lobo almoçou ontem no Hotel Jaraguá com o vereador Police Neto, líder do governo na Câmara Municipal. E quinta, lidera reunião do diretório tucano para fechar questão em torno do nome de Police Neto para presidência da Câmara. Que tem apoio de Kassab e Alckmin.

Olhos secretos
Enquanto Ricardo Darín trabalhava sexta, sua mulher, Florencia Bas, fugiu para visitar a Bienal. À noite, jantaram no D.O.M., com Paulo Vannuchi, ministro de Direitos Humanos. Sabadão? Nada melhor que um passeio pela Oscar Freire.

Vale tudo
Corre na internet abaixo-assinado chamado "Chico, devolve (sic) o Jabuti!". Com quase 6 mil assinaturas, reivindica que Chico Buarque dê seu o prêmio literário para Edney Silvestre. É que o jornalista ocupava o primeiro lugar na subcategoria.

Só cabe um
Não estragou a festa o tumultuado esquema VIP do Planeta Terra, sábado. Mas a entrada do camarote chegou a ser bloqueada por lotação máxima. E em efeito gangorra, Alessandra Negrini surgiu simultaneamente ao sumiço do seu ex, Otto.

Fio enrolado
Wanderley Nunes entrou com ação contra a Unilever por causa de acordo assinado em outubro do 2009, associando seu nome ao xampu Seda. O acordo, que deveria durar dois anos, acabou aos trancos e barrancos em março.
O cabeleireiro alega que sua imagem ficou ligada à marca, prejudicando novas parcerias. "Não renovei com a Koleston, fiquei conhecido como o Wanderley da Seda e agora me deixaram na mão", reclama.
Jarbas Machioni, seu advogado, prevê indenização de até
R$ 20 milhões.

Enrolado 2
Indagada, a Unilever afirma ainda não ter recebido notificação judicial sobre o problema. E revela estar também acionando Wanderley pela não efetivação de negociação contratual.

Novos voos
Olacyr de Moraes prepara-se para nova investida em 2011. Só adianta, por enquanto, que será na área de mineração.

Sabor limão
O fãs de Lou Reed esperaram 12 horas para conseguir autógrafo do popstar. A distribuição de senhas, na Livraria Cultura, começou sexta às 7h30, para que fossem atendidos no fim da tarde. Nada simpático, o cantor expulsou um fotógrafo do evento: por ter lhe dirigido a palavra.


Direto do Morumbi

Para não criar nenhum mal-estar durante o show de Paul McCartney, anteontem, Juvenal Juvêncio, do São Paulo, colocou FHC e Serra em camarote vizinho ao de Sérgio Cabral. No entanto, não evitou que a salva de palmas ao ex-presidente fosse três vezes maior que para Serra e Cabral.

No camarote da Traffic, José Dirceu não teve a mesma sorte. Ao aparecer para a plateia de fora, não foi nada bem recebido.

Fernando Haddad também sentiu a fase impopular ao circular pela pista VIP. Teve que ouvir: "Prova amarela, prova amarela...".

Também no gramado, Zélia Duncan mal assistiu ao show: cochichou a noite inteira com Lenine. Parceria nova a caminho? Maureen Maggi deu-se bem. Conferiu o show quase que inteiramente sobre os ombros de um moço. Acostumada a saltar, não precisou fazer o mesmo na pista. Já Paul, é preciso dizer: o blazer que usou parecia ser dois números menor que o ideal. De qualquer forma, vale registrar a destreza com que ele se levantou ao cair no palco. Cena que, claro, já é sucesso no YouTube.


Na frente

Ben Sangari recebe quinta para a abertura da mostra Água na Oca. Baseada em eventos similares feitos em, NY, Chicago e Cingapura.

Maria Helena Cabral apresenta hoje trabalhos de Vânia Toledo e de Cristina Nascimento. Na Esencial.

Lobão Elétrico na Gant Sessions, de Beto Amaral e Pedro Igor. Amanhã, no Baretto.

A exposição de Tomie Ohtake começa hoje no instituto que leva o seu nome.

Adriana Mattos apresenta sua Impressão. Quinta, na Tripolli Galeria.

Esther e Murillo Schattan convidam para vernissage da mostra 2One. Hoje, no Mube.

O livro Vetores de uma Vocação, sobre o arquiteto Jorge Hue, será lançado hoje no Palácio das Laranjeiras.

Lou Reed partiu apaixonado. Pelo quê? A culinária tupiniquim do Brasil a Gosto.

A coleção de Oskar Metsavaht para a Riachuelo ganhou provador on-line. Quem quiser poderá experimentar roupas via webcam.

Ontem foi dia de conquista na Associação Cultural Brasil-Líbano. Comemorou-se, pela primeira vez, o Dia da Comunidade Libanesa no Brasil.

ILIMAR FRANCO

O frentão 
Ilimar Franco 
O Globo - 23/11/2010

Governadores eleitos, de todos os partidos, desembarcam hoje em Brasília. À frente Geraldo Alckmin (SP), Antonio Anastasia (MG) e Sérgio Cabral (RJ). Eles vêm pedir aos líderes partidários e ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que seja engavetada a PEC 300, que cria piso salarial para as polícias militares. Essa será a primeira ação conjunta entre os governos estaduais e o futuro governo, do qual Temer é vice-presidente. A aprovação da PEC custará bilhões.

Henrique e Vaccarezza aplaudem
Os líderes do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e do PMDB, Henrique Alves (PMDBRN), apoiam a decisão da presidente eleita, Dilma Rousseff, de não interferir na disputa pela Presidência da Câmara. “Isso é bom. Nós somos capazes de resolver as questões do Legislativo. Já foi assim na eleição de Arlindo Chinaglia (PTSP)”, comentou Henrique Alves. A não interferência do Executivo é o melhor para Vaccarezza, cuja aposta é num acordo com o PMDB para compartilhar a gestão da Câmara. “Vamos chegar a um acordo com os pretendentes no PT para que não haja confronto e aposto num acordo com o PMDB”, afirmou.

Em 2011
Quando deixar o cargo, o presidente Lula atenderá às dezenas de convites para receber títulos de “Honoris Causa” de universidades estrangeiras. E decidir para quais jornais, nacionais e estrangeiros, escreverá artigos periódicos.

Sacudida
O governador reeleito Antonio Anastasia (MG) quer colocar sangue novo no governo. Vai renovar seu time. Ele pediu a todos os secretários, subsecretários e dirigentes de autarquias e estatais que coloquem seus cargos à disposição.

Governo Dilma procura nome do mercado
A presidente eleita e o núcleo da transição estão quebrando a cabeça para escalar o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. A intenção é escalar um empresário. Mas existe muita resistência destes para aceitar a função. Todos temem publicidade negativa, pois é difícil uma empresa no Brasil que não tenha um processo na Receita e na Previdência. Além disso, o salário que o governo oferece é baixo e quando o ministro deixa a pasta, mesmo que tenha feito tudo certo, ainda vai ter de responder a algum processo.

Um encontro sem data para ocorrer
A conversa com a presidente eleita, Dilma Rousseff, cavada pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, ainda não tem data para ocorrer. A ideia ontem era que ela fosse realizada discretamente, para não provocar mais marola. No núcleo da transição prevalece a avaliação de que a confusão “foi obra de um assessor ou amigo trapalhão”, pois Meirelles seria tudo “menos primário” e deveria saber que “não se arromba a porta de um presidente recém-eleito”.

A PRESIDENTE eleita, Dilma Rousseff, está montando a equipe econômica ouvindo o ministro Guido Mantega.

INICIA hoje, em Florianópolis, a reunião anual da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro. Na pauta, o projeto da “extinção de domínio”, que permite à União recuperar bens de “laranjas” de organizações criminosas.

O DEPUTADO Mário Negromonte (PP-BA) reage: “Quando fizeram a brincadeira sobre mudança de sexo, por causa da formação do Ministério da Dilma, minha reação foi dizer ‘me respeite’. Tenho 60 anos, sou nordestino e não aceito este tipo de brincadeira”.

ARNALDO JABOR

O PMDB é coisa nossa, muito nossa...
ARNALDO JABOR

"Sem
 nós, ela não faz nada! Não pensem vocês que estamos de brincadeira. Demos um tempo no ‘blocão’ para não assustar a madame ainda, mas qualquer coisa a gente volta a ter 202 deputados, no mínimo, na Câmara. Estes soviéticos não aprendem... Tentaram enrolar o PTB, logo com quem - o cobra-criada Jefferson, que os botou para correr. E, agora, acham que vamos topar outro petebista mandando na Comissão Mista do Orçamento, como quer d. Dilma? Aquele Gim Argello, que não foi nem eleito, lugar tenente do Roriz? Sei que o plano da presidente (a) é combater nosso excesso de poder; sei que ela quer, ‘homeopaticamente’, desfazer nossos esquemas (que chamam de ‘corrupção’...) com mais ‘corrupção’ (‘similia similibus curantur’ - sei latim, meu filho). Não adianta... a gente coopta quem aparecer, principalmente esse aí que nem foi eleito, lá do buraco do Roriz...) e, se bobear, fazemos novo ‘blocão’, pois, além dos ‘nanicos’, nós temos os grandes mestres, os faixas-pretas do país: Sarney, o eterno, Renan, Jucá, o impalpável Eduardo Cunha, tantos... Eles sabem nos comandar, eles sabem o que querem... E tem mais: agora, estamos no Executivo...

Nosso comandante Temer conquistou a posição ideal que sempre almejamos: a vice-presidência. O vice é tudo. O presidente é alvo, o vice pula de lado e escapa das flechas. O presidente é culpado e o vice, observador isento. E o Temer não é o tipo de vice que ‘não aporrinha’, como quis o Serra; nós aporrinharemos, sim.

Esses comunas pensam que a gente é babaca. São séculos de aprendizado. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história.

Temos interesses, claro. Queremos cargos, muitos cargos e, no mínimo, seis ministérios importantes porque, sem nós, não tem comuna que se dê bem.

Não é assim que essa tigrada do PT fala: os fins justificam os meios? Pois é, nós somos os meios. No entanto, meu caro, os fins são deformados pelos meios e de ‘meios’ acabaremos sendo ‘fins’. Viu como sou profundo? Não há casamento sem interesse. É belo e progressista o interesse. O desprendimento, a honestidade alardeada, é hipocrisia de teóricos.

E nossos fins são sábios, experientes; são frutos de uma grande tradição brasileira que os maldosos chamam de ‘corrupção’, quando são hábitos incrustados em nossa vida como a cana, o forró, a obediência dos filhos que seguem nosso exemplo, nossos bigodes, que chamam de bregas, as ancas das amantes risonhas com joias de ouro tilintando em pescoços e pulsos, diante da palidez infeliz de nossas esposas... Vocês não entendem que isso é a cara do país? Vocês reclamam de nossa voracidade. E os milhares de famintos que invadiram o batatal do poder para comer tudo, os ex-pelegos hoje de gravata?

O PMDB é um exército de amigos unidos - qual o mal? Admire a beleza superior desse imenso patrimônio espiritual que nós possuímos, tanto em nosso partido como nas alas aliadas. É uma beleza feita de amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. E tem mais: nós do PMDB temos um projeto, sim, para este país... Um projeto muito mais pragmático, mais progressista que esses dogmas de 1917 do Dirceu e outros - abstrações ridículas como ‘igualdade’, ‘controle social’ , ‘comitês centrais’, ‘palavras de ordem’.

Nosso projeto é mais Brasil... ‘São coisas nossas, muito nossas...’, como cantou o Noel. Nosso projeto é uma girândola de malandragens, de negociatas que deixam cair pelas brechas, pelas frestas das maracutaias, migalhas de progresso. É isso: tudo que houve de bom no país foi fruto de malandragens no encontro entre o privado e o público.

Não, cara, não há corrupção no PMDB - trata-se apenas da continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos em emendas do orçamento, em gorjetas justas de empresas e burocratas, esse dinheiro sempre foi a mola do crescimento do país. Haveria Brasília sem ela? Onde estaríamos nós - na roça de um país agropastoril? Essa é a eterna verdade desde a Colônia, tão eterna quanto a miséria que sempre haverá. Querem o quê? Que fiquemos magros também, que dividamos nossas conquistas com os que nada têm, querem socializar a miséria? Quando eu faço uma piscina azul em meio à seca, não é crueldade, porque é preciso que alguém tenha piscina na caatinga para que a dor dos miseráveis seja suportável. A vida do pobre ganha um sentido hierárquico: ele está embaixo, mas se consola porque alguém vive feliz em cima.
De modo que não nos venham com papos de inclusão social. Ademais, é impossível salvá-los (como alguns poucos ainda pensam no PT). São 40 milhões de pobres chocados em quatro séculos de tradição patrimonialista da boa. Vocês verão que isso é natural, a natural ‘survival for the fittest’ (‘sobrevivência do mais forte’, como bem traduziu meu filho do MIT)...
Vamos olhar para a outra face da beleza: a alegria de ver a grande arte dos lucros fabulosos, as mandíbulas salivando a cada grande negócio fechado, o encanto dos shoppings de luxo, as velozes paixões dos cartões de crédito, o eufórico alarido dos restaurantes, os roncos de jetskis à beira mar, os gemidos das amantes no cetim, a euforia dos almoços de conchavos... Tudo isso doura o nosso progresso.

A classe dominante deste país é uma grande família, unida por laços de amizade total, mesmo que definhe sob nossos pés a massa de escravos em seus escuros mundos.

Nós somos muito mais o Brasil profundo do que esse bando de comunas que chegaram aí, com um sarapatel de ideias feitas por um leninismo mal lido e um getulismo tardio...

No entanto, sou otimista - acho, sim, que a aliança PT-PMDB poderá ser doce e linda. Mas, do nosso jeito. Tudo bem que censurem a imprensa e coisas menores (é até prático para nós...), mas, na infraestrutura de nosso passado de donatários, ninguém toca. Temos no peito o orgulho de proteger a sobrevivência da linda tradição de nossa colonização portuguesa.
O PMDB é a salvação da democracia; suja, mas muito nossa".

ANCELMO GÓIS

ACERVO DE DRUMMOND
Ancelmo Góis
O GLOBO - 23/11/10
 
O acervo de Carlos Drummond de Andrade (o que ainda estava em seu apartamento de Copacabana) foi entregue ao Instituto Moreira Salles (IMS). Parte do material do poeta já havia sido repassada à Casa de Rui Barbosa, também no Rio.
Do acervo que ficará no instituto, constam livros que lia, cartas, papéis e alguns desenhos.

SEGUE... 
O contrato não envolve dinheiro. Assinado entre o IMS e os netos de Drummond, Pedro e Luís Maurício, prevê a cessão do acervo em regime de comodato por dez anos.
“O contrato é amplo”, diz Flávio Pinheiro, superintendente-executivo do IMS. “A obra do poeta é rica, vamos celebrá-la com exposições, cursos e publicações.”

RETRATOS DA VIDA 
O filme 5xFavela, agora por nós mesmos rende frutos para os jovens cineastas moradores de favelas que o fizeram.
Luciano Vidigal, diretor de um dos episódios (Concerto para violino), dirige uma campanha de dez filmes publicitários para a Light.

EMENDA TIRIRICA 
O senador Magno Malta, por causa da polêmica em torno da alfabetização do palhaço Tiririca, vai apresentar uma proposta de emenda constitucional 
para dar aos analfabetos o direito de se elegerem.

MAS... 
Pensando bem, esta proposta é outro equívoco. Afinal, o País tem mesmo é que acabar com o analfabetismo.

OBRIGADO, LULA 
Sérgio Cabral organiza uma festa de despedida para Lula, na Praça da Apoteose, dia 20 de dezembro. O evento vai se chamar Obrigado, Lula, o povo do Rio agradece.
Zeca Pagodinho confirmou presença.

CASO SEAN 
A 15ª Câmara Cível do TJ do Rio negou o pedido dos advogados Paulo Lins e Silva e João Paulo Lins e Silva (padrasto do menino Sean) para que o americano David Goldman, pai do garoto, divulgue nota de retratação para esclarecer que “os dois não sequestraram a criança”.

SEGUE... 
Segundo os autores, David teria veiculado “notícias equivocadas” sobre a ação de guarda de Sean, “ofendendo a imagem da família, com tradição no meio jurídico há mais de 150 anos”.

LOJA DO ROMÁRIO 
Romário pôs na internet uma loja virtual para vender produtos com sua marca.
São camisas retrô de times em que jogou, DVDs e livros. O endereço é lojadoromario.com.br. O lançamento será em dezembro, com festança numa boate da Barra, no Rio.

JOÃO DE DEUS 
O finado Papa João Paulo II será oficializado hoje padroeiro do Fluminense, em cerimônia no clube. A autorização foi dada pelo Vaticano.
Como se sabe, os tricolores idolatram João de Deus, cujo cântico-tema de sua primeira visita ao Brasil foi adotado pela torcida. Dom Orani Tempesta, o arcebispo do Rio, viajou para Roma, sábado, levando uma camisa oficial do Flu com o nome “Bento XVI” nas costas.

ROQUEIRA SALGADA 
Dona Inflação soltou um “aumenta que isso aí é rock’n’roll” quando soube do preço da entrada para a pista premier, no show de Amy Winehouse, dia 11 de janeiro, na Arena Multiuso: R$ 700. Mas a meia sai por R$ 350.
Ah, bom!

VINÍCIUS TORRES FREIRE

A novelinha do Banco Central
VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SÃO PAULO - 23/11/10

Exagero sobre a transição no BC dá a impressão de que a estabilidade econômica no país está à beira do colapso


É UM EXAGERO o burburinho que se faz sobre a sucessão no comando do Banco Central. Antes de examinar o tsunami em copinho de cachaça, explique-se, porém, a novela. O comando do governo-de-transição de Dilma Rousseff vaza para os jornalistas que a presidente eleita irritou-se com o atual presidente do BC, Henrique Meirelles. Na semana passada, Meirelles fez vazar para os jornalistas que não ficaria no posto se o BC não permanecesse autônomo.
O pessoal de Dilma diz que tal atitude foi "imprópria" porque: 1) Dilma não teria convidado Meirelles, que estaria superfaturando sua saída, encenando uma despedida de "herói da resistência monetária"; 2) Ao condicionar sua hipotética permanência à manutenção da autonomia do BC, Meirelles teria armado uma cilada para Dilma. Se Mei- relles sai, ficaria a impressão de que Dilma, desde logo, quer atropelar o principado soberano do BC.
A seguir, veio a chacrinha de costume no "mercado" e de seus porta-vozes. Vieram as jeremiadas sobre o "futuro da estabilidade financeira do país" e outras demasias por ora cafonas, entre as quais os "alertas" sobre a alta dos juros no mercado futuro, uma besteira irrelevante, no caso, pois o mercado futuro de juros varia até com o clima de São Paulo; vai e volta em minutos.
A política econômica de Dilma pode até vir a não prestar. Aliás, já não é muito bom que, a um mês e pouco da posse e depois de ano e meio de campanha, a gente saiba tão pouco a respeito do que pensa a presidente. Mas, pelo bem ou pelo mal, há tumulto demais sobre algo que se conhece tão pouco.
A decisão crucial de Dilma diz respeito à limitação dos gastos do governo. Se forem anunciados planos e ações críveis de redução da dívida pública, os demais problemas econômicos ficam menores, os políticos e os de políticas. Lula raspou o cofre no seu biênio final. Gastou muito além do necessário a fim de conter a crise de 2008; a contabilidade do governo foi desacreditada.
Há contabilidade criativa no balanço do governo. Alguns bons resultados estão inflados por receitas não recorrentes. Um estudo divulgado ontem pelo economista-chefe do Santander para o Brasil, Alexandre Schwartsman, mostra, por exemplo, que o superavit fiscal "limpo" de excepcionalidades foi em média de 2% do PIB de 2002 a 2008, caindo para 0,5% em 2009-10. A meta "cheia" de superavit era de 3,3%.
É razoável a dúvida sobre como Dilma vai se comportar em relação ao BC. Mas se note que Lula interferiu no BC de modo indireto, por meio de pressões, declarações "para a galera" e de conversas com Meirel- les, conversas que redundaram na nomeação de uma diretoria menos "dura" para o BC na maior parte do segundo mandato luliano. Do mesmo modo, Lula fez o Ministério da Fazenda moderar as críticas ao BC.
Qual será o modus dilmiano? Mistério. Dilma é muito mais opinionada e "ideológica" do que Lula. Mas o que pode acontecer? Dilma cortar cabeças quando a Selic não cair ao seu gosto? Baixar decretos informais sobre o nível da Selic? A presidente arrumaria confusão em dois meses. Seria assim tão tola? Além do mais, que economista sério ficaria no BC apenas para apertar botões? Alexandre Tombini, o segundo de Meirelles? Para quem já conversou com o economista, não parece ser o caso de modo algum.