sábado, maio 15, 2010

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA
Diogo Mainardi

O Chamberlain de Macaé

"Um novo presidente será eleito daqui a cinco meses. 
Só ele poderá decidir sobre assuntos estratégicos. 
Em vez de atuar como um quinta-colunista 
da bomba nuclear iraniana, Lula deveria pensar 
apenas em esvaziar as gavetas de seu gabinete"

Lula foi ao baile funk de Mahmoud Ahmadinejad assim como Vagner Love foi à Rocinha. Vagner Love confraternizou com os assassinos do Comando Vermelho? Lula está confraternizando com os assassinos da Guarda Revolucionária iraniana. Vagner Love faz trabalho humanitário no morro? Lula, segundo Dilma Rousseff, faz trabalho humanitário no Golfo Pérsico. Vagner Love foi festejar os dois gols que marcou contra o Macaé? Lula está festejando os dois gols que marcou contra o Brasil.
O Brasil é uma espécie de Macaé do mundo. Isso é uma sorte. Se o Brasil fosse a Inglaterra, Lula já estaria consagrado como o nosso Chamberlain. Sempre que alguém quer guerrear, surge algum pateta tentando ser intermediário da paz. Em 1938, o primeiro-ministro da Inglaterra, Chamberlain, viajou para a Alemanha para negociar olho no olho com Hitler. Depois de alguns encontros, eles assinaram um tratado de paz, pelo qual Hitler se comprometia a ocupar apenas uma parte do território da Checoslováquia. Chamberlain voltou à Inglaterra comemorando a paz. Seis meses mais tarde, Hitler atropelou Chamberlain e ocupou o resto da Checoslováquia. Em seguida, ocupou a Europa inteira.
Se Lula é o Chamberlain de Macaé, Mahmoud Ahmadinejad só pode ser o Hitler de Macaé. Como Hitler, ele mata seus opositores. Como Hitler, ele persegue as minorias. Como Hitler, ele tem um plano para eliminar todos os judeus. Só lhe falta o poder de fogo, porque um Macaé, felizmente, é sempre um Macaé. O papel de Lula é esse: dar-lhe algum tempo para que ele possa obter uma arma nuclear. Na semana passada, um articulista do Washington Post chamou Lula de "idiota útil" de Mahmoud Ahmadinejad. O articulista está certo. Mas há outros "idiotas úteis", além de Lula. O G15, reunido neste domingo no baile funk iraniano, conta também com a Venezuela, de Hugo Chávez, com o Zimbábue, de Robert Mugabe, e com a Indonésia, de Susilo Bambang Yudhoyono, eleito pela Time, em 2009, uma das 100 personalidades mais influentes do mundo. Time é uma espécie de VEJA de Macaé.
O apoio ao programa nuclear iraniano é o maior erro que o Brasil já cometeu na área internacional. Só a vaidade de Lula ganha com isso. Ao desafiar os Estados Unidos e a Europa, tornando-se cúmplice de Mahmoud Ahmadinejad, ele pode sentir-se um tantinho maior do que realmente é. Trata-se da síndrome de Macaé. Mas alguém tem de dizer a Lula que seu tempo já se esgotou. Ele representa o passado. A esta altura, sua autoridade é meramente protocolar. Um novo presidente será eleito daqui a cinco meses. Só ele poderá decidir sobre assuntos estratégicos. Em vez de atuar como um quinta-colunista da bomba nuclear iraniana, Lula deveria pensar apenas em esvaziar as gavetas de seu gabinete. Acabou, Lula. Chega. Fim. Xô.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

A Fazenda é "X" da questão
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/05/10

Se nenhuma pedra rolar fora do caminho, Dilma e Serra devem estar juntos em Nova York, quarta e quinta da semana que vem.
Atendem a convite feito pelo Itaú para palestrar no tradicional seminário anual organizado pelo banco. Fechado para o público, o intuito da instituição financeira é o de colocar em contato investidores internacionais peso-pesados e requisitados presidentes de empresas brasileiras. Henrique Meirelles também dará palestra.
Isso quer dizer que Dilma e Serra vão comparecer à premiação de Meirelles, como Homem do Ano, quinta à noite, no Waldorf Astoria? Pelo que se apurou, o tucano tem que estar, impreterivelmente no Brasil, sexta pela manhã. Dilma fica.
Essa coluna passou dois dias conversando com altas fontes do sistema financeiro para apurar como eles percebem os dois candidatos à Presidência, qual acham melhor para o Brasil e falar sobre o bate-boca entre Serra e Miriam Leitão, do Globo, onde o candidato foi duro e inflexível.
Curto e grosso: o setor financeiro acredita que sabe o que esperar de Serra. E diz desconhecer o que aguardar de Dilma.
Ponderam, no entanto, que só saberão mesmo quais serão as linhas mestras quando um dos dois for escolhido e escolher seu ministro da Fazenda.
À Deriva
Caiu a diretoria da Bancoop. A Justiça acaba de anular assembleia que, em fevereiro de 2009, reelegeu João Vaccari Neto como presidente da cooperativa, bem como a diretoria, o conselho fiscal e suplentes.
O tesoureiro do PT, afastado do cargo no início do ano, havia passado o cetro para Vagner de Castro - que, segundo a decisão vigente, também está fora de combate. A juíza também tornou nula a prestação de contas realizada no mesmo encontro. Cabe recurso.
Back to Bahia?
Marcada para dia 29, a volta de Ciro Gomes dos EUA.
Petistas torcem para que chegue... de mansinho.
Tanque cheio
O Movimento Endireita Brasil arrumou jeito sui generis para celebrar o Dia da Liberdade de Impostos, dia 25.
Escolheram um posto em São Paulo para vender seis mil litros de gasolina livre de impostos. Tudo para mostrar o peso tributário na vida das pessoas.
Deus é 10
Paulo Bernardo, do Planejamento, baixou portaria, quinta, autorizando todos os servidores públicos federais a sair mais cedo do trabalho.
Motivo? Liberar a turma para ir a missa de abertura do 16º Congresso da CNBB.
Em nome do pai
A versão jovem de Mauro Mendonça na novela Passione, da TV Globo, será interpretada por um ator que é a cara dele. Quem?
Mauro Mendonça Filho.
Ser ou não ser?
Benjamin Steinbruch anda conversando tête-à-tête com diversos partidos políticos.
Por Paulo Skaf, Aloizio Mercadante ou ainda pensando em candidatura própria?
Gol-hospedagem
Na onda da Copa, o Ritz- Carlton bateu o martelo. O Rio vai ganhar hotel de luxo AAA.
Índio quer CD
Do Mato Grosso para o mundo: saiu o primeiro CD do grupo Brô MC"s, todinho em guarani.
Gravado em uma Oficina de Rap, com apoio da Universidade de Dourados.
Aberto 24 horas
A Secretaria de Cultura do Estado deve entrar em novo ritmo segunda-feira, quando Andrea Matarazzo assume a cadeira.
João Sayad é homem diurno. Matarazzo é diurno-noturno.
Na frente
Boleiro de carteirinha, Luis Fernando Veríssimo jurou nunca mais ir a uma Copa. Não resistiu. Parte dia 25 rumo à África do Sul. Sem levar o seu novo livro Time dos sonhos - Paixão, Poesia e Futebol, que sai em junho.
Acontece o 13º Leilão Internacional Luso-Brasileiro. Dia 22, em Araçoiaba da Serra.
A Galeria Vermelho abre, terça, exposição individual de Dora Longo Bahia.
Flávia Cintra, que inspirou a personagem Luciana de Viver a Vida, participa do lançamento do livro Vai Encarar, de Claudia Matarazzo. Segunda, em Fortaleza.
Sai a primeira retrospectiva póstuma de Francisco Stockinger. Cerca de 70 obras do artista serão expostas no Masp. Destaque para a série Magrinhas, com esculturas de até dois metros de altura.
Lucília Diniz aceitou presidir a Milesime SP, feira de gastronomia. Na categoria embaixador, Alex Atala. Nos dias 14 e 16 de setembro, no Terraço Daslu.
Executivos do ski resort Las Leñas, na Argentina, se reúnem em jantar, segunda no Figueira Rubaiyat. Lançam a temporada de inverno 2010.
Jesus Luz, quem diria, caiu no gosto das francesas. Uma enquete local revelou que o DJ é o segundo "toy boy" mais desejado na França. Só perdeu para Ashton Kutcher, o "brinquedinho" de Demi Moore.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA
Roberto Pompeu de Toledo

Talibãs de chuteiras

"A Copa do Mundo, na doutrina Dunga, é um calvário 
que é preciso escalar sem medir prejuízos, físicos 
ou morais, para fincar lá no alto o pendão verde-amarelo"

A temporada de Copa do Mundo começa mal. Logo de saída, o técnico Dunga nos ameaça com patriotismo. Nada menos do que patriotismo! Um anúncio de cerveja na televisão, no ar faz algumas semanas, já batia na mesma infausta tecla. Um desesperado Dunga, esbravejando iracundas palavras de ordem e gesticulando como um possesso, num cenário cheio de sugestões de verde-amarelismo, pregava que para ganhar no futebol só sendo "guerreiro" – no caso, "guerreiro" como os consumidores da cerveja em questão. Na entrevista em que divulgou a lista dos convocados, na semana passada, o técnico ofereceu novas manifestações de seu ardor cívico. Disse que a mãe, professora de história e geografia, o ensinou a ser patriota. Insistiu em que cada um dos jogadores convocados tem de "mostrar patriotismo". E tome expressões como "doar-se pelo país", "comprometimento", "responsabilidade". A Copa do Mundo, na doutrina Dunga, é um calvário que é preciso escalar sem medir prejuízos, físicos ou morais, para fincar lá no alto o pendão verde-amarelo.
O anúncio da cerveja, ou antes a série de anúncios, pois se trata de mais de um filme, com variações sobre o mesmo tema, já nos ensinava que Copa do Mundo é "guerra". Vai-se para um jogo do Mundial, segundo prega uma das peças publicitárias, "como quem vai para uma batalha". Alguns jogadores aparecem em cena secundando o técnico no ímpeto belicoso. "É o Brasil contra o resto do mundo", anuncia o locutor. "Vamos para a guerra juntos." As tomadas épicas exibidas a seguir evidenciam que os atletas estão prontos para a missão sagrada. "Raça", pede o locutor. Tanto jogadores quanto torcida devem se irmanar na "raça". Quando o time entra em campo, não é um time. São os marines desembarcando em Bagdá, ainda mais temíveis por se acharem anabolizados pelos teores guerreiros inerentes ao consumo da cerveja. O resto do mundo que se cuide.
O anúncio é a expressão de uma filosofia (decifre-a quem for capaz) que combina os efeitos da cevada fermentada, o nacionalismo e o bom desempenho no esporte. De quebra, explica que a Copa do Mundo não é, como pensariam os mais desavisados a respeito das competições ou dos congressos internacionais, uma oportunidade no mínimo interessante para sair um pouco da própria casca e deparar com outros panoramas, outras gentes e outros costumes, ainda que se tenha de disputar um campeonato. É a arena em que ou se fará correr o sangue do inimigo ou se deixará o próprio sangue.
Tanto o discurso de Dunga como a publicidade da cerveja obedecem à mesma concepção de futebol das torcidas organizadas. Os estádios são hoje o território delas. Os coros, as músicas e as coreografias se sucedem durante os jogos. É bonito de ver, mas é assustador cruzar com elas na rua. A noção que as congrega é a de "nação". Fala-se na "nação alvinegra", na "nação tricolor". A preferência por um clube traveste-se de patriotismo. Como exige todo patriotismo, o passo seguinte é eleger um inimigo. O inimigo é o que veste uma cor diferente e entoa um coro diferente. Que fazer com ele? Ora, inimigo se combate. Estraçalha-se, ao primeiro encontro na estação de metrô. O embate de torcidas organizadas tem causado mortos e feridos, no Brasil e mundo afora. Dunga e a cerveja endossam a mesma lógica nacionalista que as embala. A mensagem que deixam no ar é que as torcidas organizadas estão certas.
O técnico da seleção transmite uma visão sacrificial do futebol. No seu repertório, ao "comprometimento" e à "doação" soma-se a "superação". ("Superação" é palavra da moda. Por "superação" entende-se até conseguir fazer regime para emagrecer.) Na entrevista da convocação ele disse que não gosta de se pôr como vítima e que seu propósito é ser feliz. O conjunto do discurso, no entanto, aponta para o inverso. Ele é vítima de críticos que não reconhecem o valor de "todo um trabalho", por ele feito ao longo de três anos e meio com "coerência". Mas não importa. A infelicidade é o caminho pelo qual se chega ao triunfo. A alegria que pode (e em princípio até deve) haver numa disputa esportiva desaparece sob os imperativos da renúncia e da abnegação. Futebol é jogo, e jogo é brinquedo. Paulo Mendes Campos escreveu uma vez que a bola é o mais perfeito brinquedo jamais inventado. Dunga e a cerveja, com seus arrebatamentos cívicos, seu espírito "guerreiro" e sua busca de inimigos, passam longe das noções de jogo e brinquedo. Sob a inspiração deles, quem entra em campo é o talibã de chuteiras.

PAINEL DA FOLHA

Demarcação de terra
RENATA LO PRETE
FOLHA DE ÃO PAULO - 15/05/10

Ao fazer vista grossa à legislação eleitoral e aplicar a Dilma Rousseff uma superdosagem de Lula, o programa de televisão do PT tentou cumprir, mais do que qualquer outra tarefa, a de assegurar, às vésperas da realização de uma nova rodada de pesquisas, que a candidata não escorregue do patamar de 30% de intenção de voto construído até aqui.
Uma eventual queda certamente poderia ser revertida no futuro, uma vez instalada a campanha oficial, mas, a esta altura do campeonato, tornaria junho um mês mais difícil para Dilma sob pelo menos três aspectos: a) construção dos palanques estaduais; b) pressão do aliado PMDB; c) fogo amigo petista.


Com pressa 1. De um integrante do comando da campanha de José Serra (PSDB), sobre o programa levado ao ar pelo PT na noite de quinta: "Os caras já puseram todos os jogadores na frente, como se estivessem na prorrogação".
Com pressa 2. Desabafo feito recentemente por um membro da coordenação da campanha de Dilma: "maio está parecendo junho".
Erramos. Do presidente do PTB, Roberto Jefferson, sobre a associação feita no programa petista: "Certamente queriam comparar a Dilma à mãe dela, não ao Mandela. Aí alguém se confundiu na hora de escrever o texto".
Freguês. A ex-ministra não é a primeira pessoa que Lula compara com Mandela. Desde que assumiu a Presidência, ele já relacionou o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o norte-americano, Barack Obama, ao líder sul-africano.
Dois mais dois. Um curioso fez a conta e concluiu que a equipe de Dilma tem algum problema com o Google: o programa do partido afirmou que o racionamento de energia do governo Fernando Henrique Cardoso durou oito meses. Na verdade, foram nove meses e dez dias.
Espelho meu. De Serra, no Twitter, fazendo graça com o aliado que lhe dará palanque em Pernambuco: "O Jarbas Vasconcelos tem mais olheiras do que eu".
Na mão. Osmar Dias (PDT-PR) considera "injusto" afirmar que ele está negociando simultaneamente com petistas e tucanos seu destino eleitoral. Segundo o senador, o entendimento com os primeiros fracassou "porque Lula me prometeu palanque único, com PP e PMDB, para sair candidato a governador, e no final só havia o PT". "O PP já está com Beto Richa (PSDB), e o PMDB, com candidato próprio na rua."
Na mesma. Sobre o café da manhã tomado anteontem com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, Dias afirma que atendeu "a um pedido dele" e que "não mudou nada".
Na real. Quer dizer então que Dias aceitará a oferta de disputar a reeleição na chapa liderada pelo PSDB? "Ainda não decidi", responde o senador. "Mas o Serra me fez uma proposta concreta." Caso venha a aceitá-la, Dias terá a prerrogativa de indicar seu suplente e o vice de Richa, além de poder de veto sobre o outro nome para o Senado.
Em campo. Senadores pró-ficha limpa vão colher assinaturas a partir de terça-feira para tentar garantir a tramitação do projeto em regime de urgência. Eduardo Suplicy diz que, além do PT, o grupo teria apoiadores em outros seis partidos: PMDB, DEM, PSOL, PDT, PSB e PC do B.
Benefícios. A Assembleia Legislativa deve votar na terça-feira emenda à Constituição estadual garantindo aos 645 prefeitos paulistas e seus vices o direito a férias remuneradas e décimo terceiro salário. O texto, apresentado em 2007, é de autoria de um grupo de deputados liderados por Uebe Rezeck (PMDB).

com LETÍCIA SANDER e GABRIELA GUERREIRO
Tiroteio 
Se tivéssemos julgado a tempo, esse programa não teria ido ao ar. Agora vão representar contra ele. E continua o círculo vicioso. 

Do ministro MARCO AURÉLIO MELLO, do TSE, sobre o estranhamento causado pela sessão do tribunal que multou o PT e Dilma em razão do programa partidário de dezembro, mas não julgou pedido da oposição para suspender a exibição do programa de anteontem, ainda mais explícito na propaganda eleitoral antecipada.
Contraponto
Dupla jornada Na segunda-feira passada, a prefeita de Natal, Micarla de Sousa (PV), ciceroneava o ministro do Turismo, Luiz Barretto, na abertura da Nordeste Invest 2010, que atraiu 1.300 investidores de vários países à capital potiguar. De repente, alguém abordou a anfitriã e perguntou:
-E como vai a nossa Marina?
Coordenadora da campanha de Marina Silva na região Nordeste, Micarla respondeu entusiasmada:
-Chega amanhã!
Só que o homem se referia ao projeto, ainda em estudo, de construir uma marina náutica em Natal. Desfeita a confusão, o ministro brincou com a prefeita:
-É nisso que dá ficar acumulando funções...

MOISÉS NAÍM

REVISTA VEJA
Artigo • Moisés Naím


Os corações partidos por Lula no mundo

"Verdadeiros líderes sabem que há certos momentos em que 
o interesse nacional só é servido quando a defesa dos valores
universais se sobrepõe aos interesses econômicos imediatos"

Michele Asselin/Corbis
"Todos os líderes querem ser 
amigos de Lula e desenvolver 
relações próximas com ele e o Brasil. 
Lula é amigo de todos e a todos seduz.
Para depois partir-lhes o coração"

MOISÉS NAÍM 
Ex-diretor executivo do Banco Mundial 
e ex-ministro venezuelano, é diretor 
da revista Foreign Policy e Observador Global
do jornal espanhol El País, no qual escreve 
aos domingos

Em seu projeto de evitar a aprovação de sanções internacionais ao Irã, como punição à recusa do país em rever o seu programa nuclear, o presidente brasileiro agendou uma visita ao colega iraniano Mahmoud Ahmadinejad neste domingo, 16. Lula prometeu pedir a Ahmadinejad, "olho no olho", que aceite a proposta de receber urânio enriquecido de outros países, uma maneira de garantir que o material seja utilizado para fins pacíficos. O Irã usa encontros assim não para assumir compromissos, mas para ganhar tempo e escapar deles. A visita ocorre uma semana depois de o governo iraniano executar, por enforcamento, cinco ativistas políticos da minoria curda. Neste artigo, o analista Moisés Naím diz que a amizade com ditadores e aventuras diplomáticas como a de Lula no Irã são uma traição aos seus princípios democráticos, mancham o seu legado político e minam o poder de influência internacional do Brasil.
O primeiro admirador desiludido por ele foi George W. Bush. O segundo foi Álvaro Uribe. Em seguida, decepcionou Pascal Lamy, o chefe da Organização Mundial do Comércio. Depois, partiu o coração de Barack Obama. Mais tarde o de Hillary Clinton. Seguiram-se os opositores de Mahmoud Ahmadinejad, no Irã. Impôs também duros golpes de desânimo àqueles que enfrentam os abusos dos governantes de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Bolívia e que o viam como um modelo em sua luta contra a autocracia. Depois veio a perplexidade dos devotos que não entenderam como é possível que num dia ele defenda a entrada de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) e, no dia seguinte, a expulsão de Honduras. Como pode num dia denunciar com eloquência e com lógica perfeita o irracional bloqueio americano a Cuba e, no dia seguinte, liderar o bloqueio da América Latina a Honduras? Não faltaram os admiradores que esperavam que ele tivesse uma posição menos complacente com Néstor e Cristina Kirchner. Nem a surpresa de seus fãs que não entendem a que se deve sua recente paixão por missões diplomáticas suicidas, como sua solitária defesa das ambições nucleares iranianas ou sua autocandidatura como mediador entre palestinos e israelenses.
Lula no mundo
Se é verdade que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem altíssimos índices de popularidade no Brasil, nos círculos mais influentes do mundo o aplauso é menos entusiasmado. Isso não quer dizer que fora do país Lula não seja admirado. O fato de ter sido escolhido pela revista Timecomo um dos personagens mais influentes é só um dos muitos exemplos do reconhecimento internacional às conquistas de Lula. Seu protagonismo no G20 contrasta com a invisibilidade de outros latino-americanos: o mexicano Felipe Calderón e a mulher de Néstor Kirchner. Não há dúvida de que Lula e o Brasil ganharam um papel relevante e merecido nas negociações internacionais mais vitais para a humanidade: clima, energia, comércio, finanças e proliferação nuclear. Isso foi possível graças ao tamanho do Brasil, ao seu progresso social e econômico admirável, à sua democracia, à fascinante biografia de Lula e ao seu inegável carisma. Todos os líderes querem ser amigos de Lula e desenvolver relações próximas com ele e o Brasil. Lula é amigo de todos e a todos seduz. Para depois partir-lhes o coração.
Bush e Obama acreditaram que Lula seria o seu aliado na América Latina. O presidente colombiano Álvaro Uribe tinha a ilusão de que alguém com os valores e a história pessoal de Lula reagiria com indignação ao ver a avalanche de evidências demonstrando que Hugo Chávez, da Venezuela, apoia e protege as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os negociadores da Rodada Doha para o comércio internacional se frustraram com a rigidez de Lula, que – junto com outros países – levou o processo ao fracasso. Os opositores dos presidentes latino-americanos violadores das mais elementares práticas democráticas encontraram em Lula um líder que passou seus dois mandatos presidenciais ignorando-os, enquanto se entregava a frequentes e fraternais abraços com os autocratas que os governam. O povo cubano ouviu perplexo como Lula – o combatente social – explicava ao mundo que os que se suicidavam nos cárceres dos Castro, pedindo a liberdade para outros injustamente presos por décadas, não eram senão "delinquentes comuns". Os iranianos ouviram Lula explicando que seus massivos protestos contra a reeleição de Ahmadinejad lhe recordavam as rea-ções dos torcedores de futebol que se lançam às ruas quando perdem. Os milhares de mães dos venezuelanos assassinados pelo crime descontrolado, resultante da indolência crônica do governo, ouviram Lula explicar que Chávez é o melhor presidente que a Venezuela teve em 100 anos.
Tudo isso pode passar despercebido em um Brasil intoxicado pelo sucesso e apaixonado por Lula. Tudo isso será ridicularizado pelo aparato publicitário do presidente e minimizado pelo Itamaraty. Mas a conduta internacional do Brasil sob Lula tem custos. As traições de Lula à defesa da democracia; sua indiferença diante das violações de direitos humanos básicos em países governados por seus amigos; as decisões cujo propósito óbvio é demonstrar independência e que este é um "novo Brasil", que não apoia automaticamente os Estados Unidos; a busca por um protagonismo em áreas e temas em que o Brasil tem tudo a perder e nada a ganhar – essas posturas levarão à diminuição tanto da reputação de Lula como da influência mundial do Brasil.
Por que Lula faz tantos gols contra?
Os apologistas de Lula podem recorrer à famosa observação de que "as nações não têm amigos, apenas interesses". Lula concentrou-se em promover os interesses do Brasil, diriam eles. E podem corretamente acrescentar que muito mais hipócritas são as políticas americanas ou europeias do que as do Brasil. É verdade que todas as potências às vezes se esquecem de seus valores quando se trata de defender seus interesses. Mas nem sempre é assim. Verdadeiros líderes sabem que há certos momentos em que o interesse nacional só é servido quando a defesa dos valores universais se sobrepõe aos interesses econômicos imediatos. O silêncio de Lula quando Chávez impôs arbitrariamente um embargo comercial à Colômbia serve aos interesses do Brasil? Algumas empresas brasileiras lucraram ocupando o mercado venezuelano, antes suprido por companhias colombianas. Mas isso justifica a cumplicidade com a violação clara de regras que o Brasil defende? Claro que não. Justificam-se as aventuras de Lula no Oriente Médio e o seu entusiasmo pelos carniceiros que mandam em Teerã, pondo em perigo a possibilidade de o Brasil conseguir um posto permanente no Conselho de Segurança da ONU? Não.
Quando eu era garoto e me comportava mal na escola, minha mãe explicava às professoras que eu era um anjo e que a má conduta se devia à influência negativa dos meus amigos. Eu ficava quieto, mas ria por dentro, pois sabia que aquilo não era verdade. Estaria Lula rindo por dentro quando os seus admiradores explicam que ele, no fundo, é um grande democrata e que sua solidariedade fraternal com alguns dos piores líderes destes tempos se deve apenas à má influência dos que o cercam?
Nunca saberemos. O que sabemos é que um líder extraordinário chega ao fim de seus mandatos manchando desnecessariamente o seu legado histórico.

RUY CASTRO

Beleza negra
RUY CASTRO

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/05/10

RIO DE JANEIRO - Lena Horne, que morreu nesta semana aos 92 anos, em Nova York, era uma das últimas cantoras americanas da era clássica -ou seja, das que se vestiam na modista, não no brechó. Era negra, belíssima e sua trajetória diz muito da sociedade americana de seu tempo.
Os obituários falaram de como suas sequências nos musicais da MGM, nos anos 40, eram montadas de forma a poderem ser cortadas sem prejuízo do enredo pelos exibidores racistas. Para isso, bastava que não fizessem parte do enredo. Lena fazia sempre uma cantora de boate, apresentando-se para o casalzinho de protagonistas.
Não que os racistas não gostassem de artistas negros -desde que eles fossem cômicos ou caricaturais. E não havia nada de cômico ou caricatural em Lena Horne. Ao contrário, sua beleza os assustava, além de revelar a baranguice de suas patroas -quantos teriam em casa uma mulher como ela?
Com tudo isso, não acho que Lena tenha sido vítima de racismo ao ser preterida para o papel de Julie na refilmagem de "Show Boat" ("O Barco das Ilusões", 1951). Para Edna Ferber, autora da história, Julie era uma mulher ostensivamente branca que, por ter "uma gota" de sangue negro, era considerada negra. Lena tinha a pele muito clara para o mundo negro, mas seria sempre negra para o mundo branco. Ava Gardner, que ganhou o papel, teria sido uma Julie perfeita se não a tivessem maquiado para escurecê-la, contrariando Edna.
Mais grave é saber que a loura Betty Grable, musa dos soldados americanos, não podia ter sua foto colada no armário ou na mochila dos soldados negros na 2ª Guerra -ou seja, nem em pensamento eles poderiam desejar uma mulher branca. Por sorte, esses soldados não precisavam de Betty Grable. Tinham a foto de Lena Horne, muito melhor, para os inspirar.

MERVAL PEREIRA

Ilegal, e daí?
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 15/05/10


Provavelmente a repercussão do programa do PT, apresentado na quinta-feira em cadeia nacional de televisão, terá efeitos positivos nas próximas pesquisas eleitorais, mostrando crescimento da candidata oficial, Dilma Rousseff.
Seria bobagem da oposição não admitir que o programa foi bem feito, e que o fato de o presidente Lula, com sua popularidade toda, ter servido de âncora para apresentar pela enésima vez sua candidata ao eleitorado brasileiro terá repercussão favorável.

Nem mesmo os exageros, cujo ponto alto foi a comparação absurda da história de vida de Dilma com a de Mandela, devem prejudicar a boa receptividade do programa junto ao eleitorado.

As distorções apresentadas, como a paternidade do programa Luz para Todos, que nada mais é do que a reciclagem do programa Luz no Campo, do governo FHC, terão que ser respondidas nos programas da oposição.

Do ponto de vista pragmático da política, cujo único valor que importa é vencer a eleição, terá sido uma jogada de mestre. Mas terá acontecido graças a uma burla da legislação eleitoral, e com ninguém menos que o presidente da República comandando a tramoia.

É um problema duplo marcando um retrocesso institucional perigoso: um presidente disposto a tudo para eleger sua escolhida, e uma Justiça Eleitoral ineficaz, inapta a estabelecer os limites para que a disputa eleitoral se dê em condições de igualdade.

O abuso do poder político por parte do Executivo está sendo a tônica desta campanha, e oTribunal Superior Eleitoral, apesar da retórica de seus membros, não tem condições de fazer cumprir as regras que todos deveriam respeitar, a começar pelo presidente da República.

Se a única punição que o tse tem condições de determinar são as multas, e se elas não têm significado maior do ponto de vista pecuniário, somente o constrangimento moral poderia deter a escalada de desafios à lei.

Mas esse não é o caso do atual estágio da política brasileira, onde o presidente da República é o primeiro a debochar da legislação eleitoral, sem que o tse faça alguma coisa.

A ineficiência do tse fica claramente exposta no que aconteceu quinta-feira.

Quatro meses e pouco depois de uma ação da oposição contra um programa do PT, em dezembro do ano passado, a vice-procuradorageral eleitoral Sandra Cureau remeteu ao tse um parecer recomendando a punição do PT por fazer propaganda eleitoral ilegal em favor de Dilma Rousseff.

A punição proposta pela procuradora era o cancelamento do programa oficial do partido que iria ao ar na quinta-feira.

No programa anterior, Lula apresentara a candidata como “responsável” por ações do governo como o PAC e Minha Casa.

Para a vice-procuradora eleitoral, a estrutura do programa “nitidamente revela seu cunho eleitoral, ao realçar as qualidade de gestora da representada (...) Configurando espécie de propaganda eleitoral extemporânea em sua forma subliminar”.

A procuradoria, além do mais, considerou indevida a comparação do governo Lula com a gestão FHC. “Esse tipo de comparação somente se presta a realçar o caráter eleitoral da propaganda sob análise (...) Pois cuida de atacar justamente o partido do adversário político mais evidente [José Serra] da segunda representada [Dilma]”.

Não se trata de querer que o tse faça uma censura prévia, proibindo um programa partidário do PT antes de ele ser exibido.

Como a punição proposta pela primeira transgressão era justamente a suspensão do programa deste ano, é evidente que o tse deveria marcar o julgamento pelo menos um dia antes da data prevista da exibição, mais de quatro meses depois da ação dos partidos de oposição.

O que faz o tse ? Marca o julgamento para poucas horas antes da exibição, o que já é um absurdo, e faz melhor: adia o início da sessão para dar as boas vindas a um novo juiz, Marco Aurélio de Mello.

Muita gente não aceita que os senhores juízes não tenham noção de prioridades, e acredita que todas as manobras de postergação da decisão foram feitas de propósito, para que o fato consumado superasse as decisões que porventura o Tribunal tomasse.

E foi o que aconteceu: o tse aplicou sanções “severíssimas” ao presidente Lula, multado mais uma vez, à précandidata Dilma Rousseff, multada pela primeira vez na campanha, e, rigor dos rigores, suspendeu o programa eleitoral do PT em 2011.

Como certamente a oposição entrará com uma nova ação contra o programa apresentado na noite de quinta-feira, que, por todos os parâmetros, foi muito mais ilegal do que o primeiro, é previsível que o tse volte a atuar com o máximo rigor e suspenda também o programa do PT de 2012.

Seria ridículo, se não fosse trágico para a democracia brasileira. Nos meios políticos é conhecida a lerdeza da Justiça eleitoral, e é unânime a certeza de que vale a pena arriscar um programa que transgrida os limites legais, pois a punição virá sempre no ano seguinte, quando as eleições já se realizaram.

É verdade que, recentemente, dois ou três governadores eleitos em 2006 perderam seus mandatos por terem infringido a legislação durante a campanha eleitoral.

Mas é difícil imaginar que um presidente da República eleito pela maioria dos cidadãos venha a ter seu mandato cassado em meio ao governo por um delito cometido na campanha eleitoral, anos antes.

Não seria nem mesmo desejável que isso acontecesse, ainda mais que o tse inovou na sua decisão de maneira absurda, dando o governo ao segundo colocado na eleição, na suposição de que esta seria a vontade do eleitor, burlada pelo abuso do poder político ou econômico.

Num tempo de noticiário em tempo real, com instrumentos de comunicação imediata como Twitter e internet, não é possível que a Justiça brasileira continue atuando com a lerdeza que facilita a delinquência.