terça-feira, janeiro 26, 2010

BENJAMIN STEINBRUCH

Profecias do pós-crise

folha de são paulo - 26/01/10

Todas as estatísticas já divulgadas confirmam que o Brasil atravessou bem 2009, ano de grande crise mundial. Mesmo sem crescimento do PIB, houve uma expansão do emprego formal de quase 1 milhão de vagas. Esse resultado é ao mesmo tempo negativo, por se tratar do pior desempenho desde 2003, e excepcional, considerada a calamidade enfrentada pela economia global.
A tendência de recuperação interna continua no radar de 2010. Nada contra. Mas é interessante observar que, nesse clima de expectativas positivas, começam a surgir no cenário mundial as primeiras profecias apocalípticas do pós-crise. A mais tenebrosa dessas profecias se refere à China e vem na esteira de recentes medidas tomadas pelo governo chinês, de elevação dos juros dos títulos públicos e restrição à oferta de crédito.
Até agora, está tudo bem com a China. Na sexta-feira, saíram dados mostrando que a economia cresceu 8,7% no ano passado, uma comprovação de que as medidas de estímulo ao consumo interno deram resultado em 2009. Enquanto a China caminhar a passos assim tão largos, o esfriamento dos Estados Unidos e da Europa poderá ser parcialmente compensado. Principalmente para o Brasil, porque os chineses, maiores parceiros comerciais do país em 2009, são grandes consumidores de nossas matérias-primas.
As profecias apocalípticas, porém, colocam dúvida exatamente sobre o ritmo chinês, ameaçado pela inflação e por uma bolha imobiliária. O economista Richard Duncan, citado pelo "New York Times", diz que a China tem poucas chances de manter essa cadência acelerada. Nos últimos 25 anos, o crescimento chinês se deu em razão do modelo exportador, beneficiado pelo baixíssimo custo de sua mão de obra, cuja remuneração média foi por muito tempo de US$ 1 por dia. Para atender à demanda crescente de seus manufaturados, a China trabalhou com farta distribuição de crédito e entrada de capitais destinados a investimentos industriais. Instalou, dessa forma, uma enorme capacidade de produção manufatureira, voltada para o mercado externo, que agora cortou demanda. Para compensar a queda das exportações, as autoridades chinesas decidiram estimular o consumo doméstico.
Até agora, a estratégia chinesa deu certo. Mas a aposta apocalíptica do economista é que a China não conseguirá estimular o consumo interno a ponto de ocupar toda a capacidade de seu parque industrial. Os salários são ainda muito baixos e não há como aumentá-los para incentivar mais o consumo sem risco inflacionário. O resultado disso seria um forte desaquecimento chinês. A ideia de um crescimento zero na China é assustadora para a economia global, especialmente num momento em que os dois grandes blocos econômicos, Estados Unidos e União Europeia, estão em recessão.
Há duas coisas que se pode fazer, aqui no Brasil, diante dessa profecia. A primeira é torcer (e rezar) para que ela não se realize. A segunda é preparar ainda mais a economia para um eventual momento como esse. Uma corrente de opinião muito forte defende a ideia de que o Estado deva cortar imediatamente todos os estímulos fiscais e creditícios oferecidos ao consumo e, ao mesmo tempo, elevar os juros. Isso é maluquice.
A travessia da grande crise mundial continua, confirmem-se ou não as profecias tenebrosas sobre a China.


BENJAMIN STEINBRUCH , 56, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

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