segunda-feira, agosto 17, 2009

AUGUSTO NUNES

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O protetor dos amigos pecadores acha que o Brasil é um país de tolos

17 de agosto de 2009

Em junho de 2003, ao sair de uma audiência com o presidente da República, a professora de Filosofia Marilena Chauí parecia um personagem de Nelson Rodrigues: apresentou-se aos jornalistas varada de luz como um santo de vitral. Numa frase, resumiu a experiência que acabara de viver: “Quando Lula fala, o mundo se ilumina”. Na igrejinha que a companheira Marilena frequenta, pode ser. O brilho do olhar fanático é capaz de clarear um buraco negro na galáxia vizinha. No mundo dos normais, são outros os assombros que se sucedem quando Lula fala.

Os plurais saem em desabalada carreira, a gramática se refugia na embaixada portuguesa, a regência verbal se esconde no sótão da casa abandonada, o raciocínio lógico providencia um copo de estricnina sem gelo, a razão pede a proteção da ONU para livrar-se de outra sessão de tortura. Esses espantos foram reprisados nesta segunda-feira, quando Lula resolveu dissertar sobre a saia justa em que se enfiou Dilma Rousseff depois das revelações de Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal.

O padrinho da mãe do PAC decidiu que é perda de tempo o depoimento de Lina à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, marcado para amanhã. ”Seria tão mais simples e tão mais fácil que a secretária mandasse a agenda que ela encontrou com a Dilma”, caprichou no tom desdenhoso. ”Não faria nem gastar dinheiro, pagar passagem ou ir para o Congresso. É só pegar as duas agendas e ver o que aconteceu”, lembrou com o sorriso esperto do detetive que vai culpar o inocente.

O presidente acha que o Brasil é mesmo um país de tolos. Até os recém-nascidos sabem que Dilma não deixa rastros na agenda. Jamais anota conversas de alta voltagem. Sempre apaga pegadas que ficaram da caminhada à beira do penhasco. Ela demorou 20 dias para confessar que teve dois encontros fora da agenda com o Primeiro Compadre Roberto Teixeira, corretor da venda da Variglog, em busca de ajuda federal para fechar negócio o quanto antes. É claro que não registraria uma audiência concebida para convencer a secretária da Receita Federal a encerrar o quanto antes a auditoria nas empresas da família Sarney.

“Toda a vez que se começa carnaval em coisa que não dá samba, as coisas vão ficando mais desacreditadas”, continuou o improviso do dia. O que Lula chama de carnaval é qualificado de escândalo em países sérios, cujos governos sabem que só ficarão desacreditados se agirem como cúmplices dos pecadores. Nesse mundo menos primitivo, um caso desses nunca acaba em nada, muito menos dá samba. Acaba em demissão. E costuma dar cadeia.

“Mais dia menos dias vocês não me perguntarão mais sobre isso”, foi em frente. ”Mais dia menos dia o povo vai ficar ouvindo ela dizer que conversou e a Dilma dizer que não conversou”. É provável. Há sempre uma bandalheira que acabou de ser descoberta lutando por espaço na procissão das delinquências federais. Os andores não cabem todos no noticiário. Acabam esquecidos no imenso armário dos crimes sem castigo.

“Só tem um jeito”, ensinou Lula. ”É abrir a mala que ela levou a agenda e mostrar a agenda para todo mundo”. Esse é o jeito que, aos olhos do presidente, livraria Dilma da enrascada. Há outros. Por exemplo, liberar as gravações do circuito interno que documenta o entra-e-sai no Planalto, e divulgar as anotações das placas dos veículos que estacionam na garagem do palácio.

Outro jeito é a velha e boa acareação entre as partes. Lina já topou. Dilma não quer nem ouvir falar numa coisa dessas. Desde os tempos das cavernas, tem razão quem não rejeita uma acareação. É mais que uma rima pobre. É uma regra sem exceção.

FERNANDO RODRIGUES

A incerteza sobre Dilma

Folha de S. Paulo - 17/08/2009


Um fato emblemático ocorreu na semana passada. Do alto de sua estratosférica aprovação popular, Lula recebeu a direção do PSB para um jantar. Os socialistas insistiram em lançar Ciro Gomes candidato ao Planalto.
Lula ouviu. Argumentou ter preferência por uma disputa circunscrita a dois candidatos. Enxerga vantagem numa fórmula plebiscitária. Do lado governista, a ministra Dilma Rousseff, pelo PT. Do outro, quem o tucanos escolherem, José Serra ou Aécio Neves.
A direção do PSB respondeu com a tese da utilidade da candidatura Ciro Gomes. Dois postulantes lulistas anabolizariam o discurso do governo. Até porque há um nome extra na oposição -Marina Silva, possível presidenciável do PV.
O jantar entre Lula e o PSB acabou com os socialistas comemorando. Nada foi definido. Eis aí a mensagem principal do encontro. Com sua popularidade inabalada pela crise ética no Congresso, conforme mostrou a pesquisa Datafolha de ontem, o presidente poderia ter imposto a sua estratégia.
"Nós vamos só com a Dilma e ponto final", seria uma frase possível de Lula. O PSB teria de acatar.
Nada disso aconteceu. Prevaleceu o tirocínio do presidente, corroborado agora pelo Datafolha. Embora tenha se tornado uma candidata competitiva, Dilma Rousseff consolida-se também como uma grande incerteza. Seu crescimento estagnou. Seus adversários, é verdade, também têm ficado no mesmo lugar. Mas é da ministra de Lula que se espera uma disparada -ainda não realizada.
Também ainda não está claro o efeito real da entrada de Marina Silva no páreo. Ela teve pouca exposição e talvez receba o apoio de Heloísa Helena (PSOL).
Tudo somado, o momento não é dos melhores para Dilma. O faro de Lula sentiu a mudança de ares e o presidente voltou a olhar Ciro Gomes com outros olhos.

PAINEL DA FOLHA

O fiador

RENATA LO PRETE
Folha de S. Paulo - 17/08/2009

Dono da empreiteira que bancou apartamentos usados pela família Sarney em São Paulo, o empresário Rogério Frota de Araújo é o braço financeiro do PV do Maranhão. Filiado ao partido, já ensaiou voos na política via município de Imperatriz, base eleitoral do deputado verde e amigo Zequinha Sarney.
As candidaturas, entretanto, não emplacaram porque dividiriam votos com outros aliados do clã. Depois das eleições de 2004, quando adiou mais uma vez o sonho de entrar para a política, Frota aproximou-se de Fernando, o outro filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Em quatro anos, ganhou leilões e multiplicou contratos no setor elétrico.



Não dá. Segundo estudo feito pela assessoria técnica do PT, não cabe recurso de decisão tomada pelo Conselho de Ética ao plenário ou à CCJ do Senado. Ou seja: se cair na comissão a tentativa de abrir investigação contra Sarney, o caso estaria liquidado.

Veja bem. Já o presidente da CCJ, Demóstenes Torres (DEM-GO), fez um estudo detalhado dos caminhos a percorrer para levar o caso a outras instâncias. E o ofereceu ao seu partido, ao PSDB e ao nanico PSOL, para garantir que alguém recorra.

Segmentos. Extrato da pesquisa Datafolha para a sucessão presidencial mostra dificuldade da ministra Dilma Rousseff (PT) com o eleitorado feminino. Num cenário com José Serra (PSDB) e Ciro Gomes (PSB), por exemplo, a variação dela é de 21% de eleitores homens contra 11% de mulheres. Os dois rivais têm percentuais similares para ambos os sexos.

Perfil. A possível candidatura da senadora Marina Silva pelo PV é, ao menos por ora, sustentada pelo andar de cima. Seus 3% vieram de entrevistados com nível superior e que ganham mais de dez salários mínimos por mês.

Bem-me-quer. Embora filiada ao PV, a prefeita de Natal, Micarla de Sousa, fica no muro em relação à possível disputa entre Marina e Dilma: "As duas são exemplos de mulheres sensíveis e ao mesmo tempo determinadas".

Em casa. O Datafolha também mostra que no Nordeste Lula atinge o pico de potencial transferência de votos a um candidato por ele indicado: 57%, contra 32 no Sul.

Mal-estar. Otacílio Cartaxo pode ter garantido sua efetivação no comando da Receita ao validar, em depoimento ao Senado, a manobra contábil que permitiu à Petrobras pagar menos imposto. Mas o clima dentro do órgão, que já não era bom, piorou bastante.

On the table. José Serra vai lançar um programa para que os alunos do ensino médio da rede paulista façam curso extracurricular de inglês. O secretário da Educação, Paulo Renato, defende o modelo de "vouchers", mediante os quais os estudantes frequentariam escolas particulares do idioma.

Com a barriga. O estresse entre o governo e a Vale refluiu, mas quem conhece Roger Agnelli aposta que a construção da siderúrgica no Pará seguirá um cronograma conservador, de olho em 2010. Se a petista Ana Júlia não se reeleger, ele espera ver diminuída a pressão por essa obra que jamais esteve em seus planos.

Rei morto... Fracassada a negociação do PDT com Protógenes Queiroz, o PSB entrou em campo para atrair o delegado da PF. Ele reclamou que os pedetistas teriam feito oba-oba com sua filiação sem nada definido.

...rei posto. Para bater o martelo, Protógenes quer do PSB a garantia de que será candidato ao Senado, cargo para o qual diz partir de um patamar de "500 mil votos". Ele descartou o PSOL por querer uma sigla lulista.


com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

Tiroteio

"A crise chegou às ruas e não dá mais para achar que ela vai se resolver na base do esquecimento."


Do senador RENATO CASAGRANDE (PSB-ES), sobre pesquisa Datafolha segundo a qual 74% dos brasileiros defendem o afastamento de José Sarney (PMDB-AP) da presidência do Senado.

Contraponto

Linguagem de sinais Marco Bertaiolli, que administra Mogi das Cruzes, reuniu recentemente numa pizzaria paulistana um grupo de prefeitos e ex-prefeitos do DEM para discutir a chapa de candidatos a deputado federal pelo partido em 2010. Em seu discurso, Gilberto Kassab fez um apelo aos presentes:
-Formamos um time e devemos deixar interesses individuais de lado- disse o prefeito da capital.
Zé Louquinho, folclórico ex-prefeito de Aparecida, começou a falar como se tivesse entendido o recado. Anunciou que abriria mão de se candidatar, mas sem disfarçar o desejo de que Kassab imediatamente intercedesse em seu favor. Até que o próprio resolveu fazer piada:
-Para de me chutar por baixo da mesa, Zé Louquinho!

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Escolas abrem com novas medidas contra a gripe suína

- Folha: Alckmin lidera; Ciro aparece com 12%

- Estadão: Cresce gasto secreto com cartão corporativo

- JB: Transporte, drama de Santa Teresa

- Correio: Secretarias especiais esbanjam em viagens

- Valor: Cai parcela de produção exportada pela indústria

- Estado de Minas: Duplicação de rodovias acelera negócios

- Jornal do Commercio: Novo bispo condena o comércio da fé