domingo, abril 19, 2009

JOÃO UBALDO RIBEIRO

Crise é para quem quer

O GLOBO - 19/04/09


Acordo cedo demais, fico aqui bestando à beira do terraço, com saudade do gavião Herculano , que nunca mais apareceu, e imaginando o que deve estar pensando o Redentor ali no alto. Não, melhor não procurar saber. Creio que já tenho uma ideia e prefiro ocupar a mente com outras coisas, camuflar um pouco o que não cessamos de aprontar aqui embaixo, achando que Ele não está vendo. Volto para dentro, ligo a tevezinha que botei ao lado do computador para brincar de nave espacial e que só pega as estações que ela escolhe, desta vez uma americana, especializada em notícias e comentários. Tudo bem, não discuto com aparelhos, conheço o meu lugar —que dizem os americanos aí? Ah, é mais uma matéria sobre a crise, dicas e sugestões para enfrentála melhor, oportunidades que ela abre. Aparece uma jovem senhora, radiante. Que surpresa que ela tinha tido! Imaginara que estava fazendo doação de alguns óvulos seus e recebera oito mil dólares como pagamento! A bem da verdade, peguei a reportagem no meio e a ouvi falar em ovos e não óvulos, não sei se por engano dela ou porque casais empreendedores e com boa ficha genética podem produzir (isto pelo método que une o útil ao agradável, porque, em laboratório, a coisa pode ser muito mais rendosa), vamos dizer, pelo menos um bom ovo de gente a cada dois ou três meses, ou seja, um óvulo fertilizado, com garantia de fábrica, para outra mulher implantar e gestar.
Realmente, esses americanos são danados. Daqui a pouco abrem lojas e formam cadeias como a MacKnock’erUp ou a InthefamilyWay, com promoções como o BigBosom’n’BellyBunch, em que a freguesa compra duas meninas e leva um menino grátis, ou vice-versa. Entrevistaram também um ex-vendedor de esperma para bancos do ramo desiludido com o mercado, porque, se não estou mal lembrado, levava no máximo 75 dólares pelo produto de cada — como direi? — pois é.
Embora aqui no Brasil, a esse preço, ele fosse ficar sem mãos a medir (não quis fazer trocadilho, mas ele pintou por si e aí fica, sou a favor da liberdade de expressão), nos Estados Unidos é pouco, de forma que a saída é reconhecer a superioridade feminina e juntar-se a elas.
A reportagem prosseguiu, pois somente as oportunidades com produtos do próprio corpo bastariam para várias matérias. Não dá para lembrar tudo, mas começavam pelo cabelo. Cabelo natural está pela hora da morte nos Estados Unidos, a ponto de eu ter a impressão de que uma compatriota dessas de cabelão até as panturrilhas pode pagar uma viagenzinha a Nova Iorque somente raspando a cabeça.
Lembro também o conselho de procurar informações sobre pesquisas científicas em andamento.
Muitas pagam bem a voluntários que se dispõem a dormir dentro d’água durante todo o semestre escolar, ou a não dormir absolutamente até o fim do ano, ou a tomar pílulas excelentes para o colesterol, mas que poderão causar o surgimento de mamas e quadris descomunais — nada neste mundo é sem riscos, não é mesmo? E assim por diante, somos minas de dinheiro e não sabemos. Um pouco zonzo com essa visão do futuro, finalmente desci à rua, em direção à banca de jornal. Salvatore, o jornaleiro, que nunca foi reputado pelo bom humor, não estava bem.
— Guarda qui — disse ele, levantando dois jornais. — Espia só. Porrada nos passagero de trem, que belo! Vê aqui, de chibata! Essa eu achei bonito, de chibata! Pelo meno é sincero, questo qui é sincero, chega de disfarçare, é chibata mesmo que nós vivemo tomando. Si questa merda é n’Itália, já tinham quebrato meia cidade e coberto eles de pedrada, mas aqui fica tuti tomando chibatada mesmo, daqui a poco quem reclamar que eles roubaro vai tomar palmatora ou chinelata na bunda, que é pra aprender de vez! Non reclama nada aí! Chibata na canalha pra si comportare! Non tá gostando que hoje non teve trem? Olha o teu trem aqui, mascalzone, mais vinte chibatada! Fiquei tentado a permanecer por ali mais algum tempo, porque Salvatore parecia encarnar algum antepassado anarquista e estava num dia de oratória inspirada. Mas eu tinha achado um bom assunto com a reportagem americana, um assunto bem menos baixo astral do que ficar falando mal dos governantes, como é meu feio hábito. Naqueles mesmos jornais, que comecei a abrir enquanto caminhava de volta, encontraria uma ou diversas dessas oportunidades, escondidas do olhar pouco apurado. Mas tive mais dificuldade do que previ.
Além do ramerrão da ladroagem e da formação de quadrilha não sei mais onde, tudo coisa do cotidiano monótono, só havia mesmo notícias sobre a falsificação de remédios.
Aí ficou difícil. Num país em que tem gente especializada em falsificar falsificados e piratear pirateados, como já li, não é possível achar novas maneiras de ganhar com a falsificação generalizada.
Ou não? Claro que não, o que observei assim que vi as instruções do governo para o consumidor se proteger das falsificações. É tão simples que sou capaz de jurar que em breve regulamentarão tudo e exigirão apenas a nota fiscal da compra em três vias, a receita médica que originou a compra, com firma reconhecida, comprovante de residência, folha corrida, título de eleitor em dia e certidão negativa do SPC. Pronto, não adivinharam, não? Onde é que vocês têm morado? Despachante de queixa de falsificação de remédio, é claro! Se o amigo tomar um antiácido e tiver uma crise terminal de priapismo, qual será a primeira pessoa que verá, ao despertar no hospital, depois da amputação? Seu leal despachante contra remédio falso! Em menos de um mês ele providencia a papelada e, com mais uns trinta anos na Justiça, seus herdeiros receberão o valor do remédio verdadeiro em dobro, descontada a comissão do despachante honorários advocatícios por fora. A Justiça tarda, mas não falta. Crise é para quem se entrega. E, para quem se entrega, só chibata.

MÍRIAM LEITÃO

Tempo instável

O GLOBO - 19/04/09


Alvaro Gribel é um jovem jornalista enfrentando sua primeira crise econômica. Trabalha comigo no blog. Na quinta, ele me ligou, quando eu estava a caminho do aeroporto, estranhando três notícias simultâneas: uma imobiliária americana tinha quebrado, o JP Morgan tinha dado lucro e a arrecadação do Brasil, caído. A nota no blog foi, então, sobre os sinais contraditórios dos tempos atuais.

Este é um momento da crise econômica em que surgem, diariamente, sinais bons e ruins. Os primeiros acalantam a ideia de luz no fim do túnel, já os outros confirmam a certeza de que o túnel é longo. Um tempo complexo. Não está afastado o risco de novos agravamentos, mas há uma esperança de que cada trimestre seja melhor do que o anterior na lenta pavimentação para o fim desta crise, sem antecedentes e limites.

A China deu alguns bons sinais, houve uma ligeira alta de algumas commodities e as análises passaram a ser sobre a suposta recuperação chinesa. Uma avaliação menos apressada mostra que os chineses ainda estão patinando e mantêm suas vendas com táticas de liquidação de fim de feira. A mesma tática usada pela Índia para despejar na China seu minério de ferro. Má notícia para o Brasil, que perdeu o lugar de segundo maior fornecedor de minério para a China.

Os bancos americanos têm anunciado lucros acima do esperado no primeiro trimestre deste ano e passaram pelo “teste de estresse” do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Fim da crise bancária? Longe disso. Os testes de estresse têm cenários benignos demais, alertam os economistas. Os ativos tóxicos estão todos lá, e os lucros são, em parte, fruto dos anabolizantes injetados pelo Tesouro nos bancos, à custa dos contribuintes. O sistema de crédito continua funcionando precariamente, aqui, lá e acolá.

A quebra da General Growth lembra que os Estados Unidos não venceram ainda nem o detonador original da crise, a queda do valor dos imóveis. A indústria automobilística está vendo esgotar os 60 dias que ganhou do governo americano sem encontrar amortecedores para os seus desequilíbrios. Enfim, os Estados Unidos, origem e propagador da crise atual, não removeram as crises bancária e imobiliária e nem o risco de falência da indústria automobilística. O tormento econômico está longe do fim, e não estão descartadas novas surpresas desagradáveis. Na segunda-feira, a Casa Branca vai se reunir com as companhias de cartão de crédito, onde mora um dos fantasmas dessa crise.

No Brasil, o Banco Central detectou sinais de que as medidas para dar mais liquidez aos bancos pequenos e médios – como a garantia via Fundo Garantidor aos depósitos deles – estão surtindo efeito. Mas o BC admite que o crédito ainda não se normalizou depois do brusco colapso de setembro.

O país tem a vantagem do atraso. Até agora, o Banco Central já reduziu em dois pontos porcentuais e meio a taxa de juros, liberou R$ 100 bilhões de depósito compulsório, emprestou US$ 22 bilhões aos bancos para restabelecer os créditos ao comércio internacional e às empresas com dívidas externas, vendeu US$ 14,5 bilhões no mercado a vista e US$ 35 bilhões em derivativos. Mas os juros ainda estão em 11,25% e o Banco Central continua com R$ 160 bilhões de compulsório. Os juros podem e vão cair na próxima semana, e muita munição está na mão do BC.

Novas quedas vão passar pela mudança da remuneração da caderneta de poupança, área na qual o presidente Lula e o ministro Guido Mantega têm mostrado uma espantosa imperícia. Não se especula sobre mudança na poupança em país traumatizado. Fala-se dela com clareza quando houver decisão tomada. O tema também não se presta aos contorcionismos de palanque do presidente: queda da remuneração não é proteção a poupador, é diminuição do ganho da caderneta.

O Ministério da Fazenda e o Planalto continuam fazendo uma administração discutível da crise. A arrecadação cai, e o governo amplia o gasto com medidas dadas a setores escolhidos, com fortes lobbies empresarial e sindical. Quem anunciou a queda do IPI da linha branca foi o Paulinho da Força Sindical. O ministro Guido Mantega apenas o ratificou.

A redução da meta de superávit primário era esperada. A saída da Petrobras também. Mas isso não é um sinal de boa governança, de separação entre a empresa e o governo. Está havendo um explícito retrocesso nesta área. Basta conferir dois sinais desta semana. A promessa de redução do preço do diesel foi feita pela ministra Dilma Rousseff aos caminhoneiros, em reunião no Planalto. O presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, admitiu que o preço é político. Uma empresa cujos preços são definidos desde a Casa Civil, com concordância do seu maior executivo, um militante partidário, é um braço do governo – e do partido –, e não uma empresa com critérios transparentes e auditáveis, como deveria ser uma companhia de capital aberto.

Os sinais da conjuntura também são contraditórios. Gráficos que publicamos no blog (www. miriamleitao.com) mostram isso: a produção industrial despencou, as vendas do comércio se mantiveram com apenas um pequeno soluço no fim do ano passado. No varejo, as vendas dos setores que dependem do crédito caíram, o resto se manteve ou cresceu. A queda da inflação aumentou a capacidade de compra das pessoas. Mas em junho sairá o dado do PIB do primeiro trimestre. Ele vai confirmar que o Brasil está em recessão.

INFORME JB

Esforço por um novo Código Penal


Leandro Mazzini

JORNAL DO BRASIL - 19/04/09

O senador Renato Casagrande (PSB-ES) (foto) entrega, quarta-feira, ao presidente do Congresso, José Sarney (PMDB-AP), o anteprojeto de modernização do Código Penal. Casagrande vai além. Aproveita o embalo do 2º Pacto Republicano sobre celeridade do Judiciário e pedirá a Sarney, entusiasta do assunto, que seja o relator do anteprojeto. Sarney, em contato com o presidente do STF, Gilmar Mendes, deu a entender que há esforço para o projeto andar. "O Código é de 1941 e desde então só sofreu remendos", diz Casagrande. Entre outras mudanças propostas, o senador destaca a permissão de apenas um embargo por instância e a ideia de que o júri popular ganhe mais um membro nos julgamentos, passando para oito. Será formada uma subcomissão especial para tratar do assunto.

Lula & Gonzaga Rei do baião

Depois do Parque Dona Lindu, em homenagem a sua mãe no Recife, o presidente Lula tem outra ideia cultural para a capital. Quer a construção do museu Luiz Gonzaga, de quem era fã.

Há gente que quer o museu do saudoso rei do baião no interior pernambucano, mas o presidente mandou o recado de que na capital será mais visitado.

Retorno de HH

Heloísa Helena, vereadora em Maceió e presidente nacional do PSOL, anunciou à turma sua decisão de concorrer ao Senado. Quer voltar à Casa Alta porque José Nery (PA), suplente da governadora Ana Júlia Carepa, terá páreo duro na reeleição.

Trio capixaba

Por falar em Casagrande, ele é cotado para a sucessão do governador Paulo Hartung (PMDB). No páreo, também o prefeito de Vitória, João Coser (PT), e o vice-governador Ferraço.

Tripé do PSC

O PSC definiu seus rumos programáticos para o ano: meio ambiente, previdência e a doutrina social-cristã. Para o horário gratuito na TV, as estrelas serão os 10 deputados federais.

Na praia

Com base em Petrópolis (RJ), o PSC terá diretório no Rio. Quem passa a comandar o partido é o deputado federal Hugo Leal

Time do bem

A final da Taça Rio, no Maracanã, terá um time diferente: atletas paraolímpicos e crianças com deficiência entrarão no gramado com a bandeira da campanha "Acessibilidade – Siga esta ideia".

É a crise

A CBL & Associates Properties, Inc. comunicou a seus executivos que diminuirá o número de participantes no International Council of Shopping Centers, em Las Vegas, de 17 a 20 de maio, de 50 mil para 30 mil participantes.

Bye, bye

Aliás, a CBL, que tem participações em shoppings, dá sinais de que deixará o Brasil. Rompeu com a pequena Tenco participações, de Minas, e já não descarta vender sua parte no Plaza Macaé, litoral Norte do Rio.

Concordata

E, para piorar o setor, a gigante GGP pediu concordata nos EUA. Tem 49% da Aliansce – dona de vários shoppings no Brasil .

Milhões pela fé

O pastor Silas Malafaia comanda hoje na Praça do Papa, em Vitória, concentração de um rebanho estimado em 100 mil. Com venda de 1 milhão de livros e 300 mil CDs por ano, virou a nova febre dos evangélicos.

Turma das letras

O rabino Nilton Bonder, o jornalista Xico Sá e Sergio Rouanet, criador da lei de incentivo à cultura, vão participar de 29 a 31 de maio do II Festival da Mantiqueira - Diálogos com a Literatura, em São Francisco Xavier (SP).

Cardápio francês

Até terça, a histórica Ouro Preto vai abrigar o Festival Comida de Bistrô, em comemoração ao Ano da França no Brasil.

Comandatuba

O blog da coluna acompanha em tempo real, hoje e amanhã, os debates do 8º Fórum de Comandatuba, com notícias de empresários, políticos e bastidores.

DORA KRAMER

O silêncio dos mais decentes

O ESTADO DE SÃO PAULO - 19/04/09

O Congresso não tem controles internos, os congressistas rejeitam o controle externo da opinião pública; logo, o Legislativo é um Poder descontrolado.Embora as premissas sejam corretas, a conclusão lógica é apenas teórica. Na prática, o Legislativo é controlado sim: por interesses do Executivo, por força do corporativismo, pelo domínio dos grupos de pressão, pela dinâmica do fisiologismo, pela ótica do privilégio.

Uma série de disfunções cuja origem pode (e deve) ser discutida, mas cujo resultado já é indiscutível: a completa deformação do conceito da representatividade popular. Dificilmente a um cidadão ou entidade ocorre fazer do Congresso um instrumento de transformação, seja do que for: uma situação específica ou uma causa coletiva.

Esse sentimento nasceu na instalação da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, floresceu cheio de exageros e equívocos por quase dois anos e começou a morrer no fim de 1988, com a promulgação da nova Carta.

O que é hoje o Parlamento? Não é um representante à altura da expectativa dos representados, não é atuante, sequer é um Poder transparente como reza a lenda. É, sim, vulnerável por ter se tornado acessível a interferências de toda sorte, ter aberto gradativamente mão de suas prerrogativas e, com isso, ter perdido autonomia.

O Legislativo está de pernas para o ar, cada vez mais próximo da seguinte encruzilhada: ou se moderniza e se enquadra às exigências de uma sociedade democrática, ou será uma instituição decorativa. 
Dentro da normalidade institucional - a única forma aceitável de ação - só quem pode deter esse processo de decomposição são os próprios congressistas, pois foram eles que se deixaram subtrair nas atribuições a eles conferidas.

Não debatem as grandes questões de interesse nacional, a menos que esteja em jogo alguma disputa entre governo e oposição. Não encaram com seriedade a função fiscalizadora, porque se dividem em dois grandes grupos: um defende todas as ações do governo, incluídas as erradas e, não raro, as criminosas, e outro condena qualquer coisa que faça o governo, sem distinção de qualidade ou propriedade.

As poucas tentativas de criação de espaços de bom debate e de construção de propostas referidas no bem comum acabam caindo no vazio, atropeladas por algum tipo de interesse que se faz preponderante.

Não assumem a ferro e fogo a tarefa de legisladores. Obrigam o Judiciário a preencher os vazios dessa omissão ou deixam que o Executivo faça gato e sapato das medidas provisórias, mesmo tendo o Legislativo o poder constitucional de decidir se as MPs podem tramitar ou se devem ser devolvidas ao gabinete presidencial.

Não se preocupam com a depuração interna, com a melhoria da qualidade do serviço prestado, em abrir espaços para os melhores quadros. Tudo parece virado do avesso: os líderes de bancadas, principalmente na Câmara, de um modo geral são deputados sem qualificação nem reconhecimento interno ou externo pelo mérito do exercício parlamentar.

Os melhores estão dispersos, relegados ao ostracismo, sobrepujados por personagens menores, alijados do núcleo de poder efetivo. A perda de qualidade, a ascensão do baixo clero ao cardinalato é algo tangível dentro do Congresso.

Os parlamentares têm consciência disso, sabem que enquanto prevalecerem as nulidades não há possibilidade de melhorar. O problema maior é que os deputados e senadores não envolvidos em desvios, com uma noção mais adequada do Parlamento e, por que não dizer, imbuídos de espírito público, não dão sinais de reação.
Um ou outro atua de forma isolada, faz um gesto pontual, é reconhecido, festejado, mas nada se transforma em movimento coletivo. Desse jeito, fica impossível a população distinguir quem tem qualificação de quem é totalmente desqualificado.

A proposta do ministro da Justiça, de que se diferenciem os políticos e se condenem os ruins, absolvendo a instituição do Congresso, é boa, mas inexequível no momento. Pelo simples fato de que não há uma maneira de fazer a separação. Para isso seria necessário que a banda boa encontrasse alguma forma de se destacar, mostrando à sociedade condutas e raciocínios diferentes.

"Prestigiar a Câmara e o Senado", como sugere o ministro Tarso Genro, não é solução, porque não é possível conferir prestígio a duas Casas que diariamente produzem razões para o desprestígio. 
Não são todos os que transgridem? Não. Então, não seria normal, e até indispensável, que quem não transgride reagisse?
Seria. No entanto, todos se deixam igualar. Ou se calam, como se as denúncias fossem problemas exclusivos dos denunciados, ou se associam às queixas contra as notícias dos malfeitos, sem criticar os malfeitores.

Se os bons não condenam os maus, se aceitam o papel de reféns do prejuízo socializado, deixam de ser diferentes, passam a ser cúmplices por omissão e avalizam a equivocada conclusão de que os gatos são todos pardos.

ÉLIO GASPARI

Se a viúva bobear, perde R$ 250 bilhões


O GLOBO - 19/04/09

A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) patrocina o maior avanço sobre a Bolsa da Viúva já praticado no Brasil. Ela apresentou uma emenda ao texto da Medida Provisória 449, concedendo a todas as empresas brasileiras que exportaram mercadorias e serviços até dezembro de 2002 um crédito tributário de 15% sobre o valor dessas operações. Coisa de R$ 250 bilhões. O festim beneficiará, no máximo, uns 30 mil empresários e investidores, mas custará 20 vezes o Bolsa Família, que beneficia 50 milhões de pessoas.

A Medida Provisória 449, desfigurada na Câmara, mimou os sonegadores com parcelamentos e juros maternais que, neste ano, deverão custar R$ 10 bilhões à arrecadação federal. A emenda da senadora tucana quer muito mais. Ela lida com uma daquelas questões tributárias que poucas pessoas têm paciência para acompanhar, muito menos num domingo. Na ordem geral das maracutaias há uma regra: não se meta em operações que fazem parte do cotidiano da choldra. Fernando Collor perdeu a Presidência nas rodas de um Fiat Elba. O PT perdeu a moralidade numa cueca que guardava US$ 100 mil. Maracutaia simples é coisa perigosa, mas quando ela se complica os riscos são menores. É esse o caso dos créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados.

Em 1969, o governo isentou as empresas exportadoras do pagamento do IPI. Fazia sentido, pois não se pode exportar tributo. O imposto pago na produção dos componentes de um ventilador, por exemplo, era creditado ao exportador que o vendia. A partir de 1981, o governo começou a substituir esse mecanismo, mas centenas de empresários sustentam que o crédito não foi revogado, portanto, eles devem ser ressarcidos. Foram buscar seu direito na Justiça e, passados mais de 20 anos, não há jurisprudência firmada sobre o assunto. Nas sentenças de primeira instância, quase sempre foram atendidos.

O caminho razoável para encerrar a controvérsia seria uma decisão definitiva do Judiciário. Outro, seria o do debate público da questão. Escolheu-se o pior: a emenda da doutora Lúcia Vânia tramita na rotina parlamentar, bafejada por discretas conversas na liderança do governo. Na sua página no portal do Senado não há referência à iniciativa.

O crédito tributário de 15% sobre o valor das exportações poderá ser usado para abater impostos devidos, ou mesmo passado adiante, num mercado paralelo. Entre os interessados, além dos exportadores de bens, estão as empreiteiras que operam no exterior. A festa também permitirá o embelezamento dos balanços de empresas que tomaram tombos na crise financeira.

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A SuperVia chicoteou seus jagunços

A concessionária de trens SuperVia colocou nas plataformas de suas estações jagunços que chicotearam passageiros em Madureira. A sorte faltou aos doutores quando o repórter Eduardo Torres filmou os espancamentos, na quarta-feira. Veio o escândalo, e a empresa divulgou uma nota condenando a ação dos capangas, informando que os demitira.

Deveria ser demitido também o presidente da empresa, Amin Alves Murad. Deveria ser demitido porque a verdadeira política da SuperVia foi enunciada pelo seu diretor de marketing e recursos humanos, José Carlos Leitão.

Diante das imagens dos espancamentos sua reação foi a seguinte: “Quem segura as portas é marginal. (...) Pode ter havido excessos. (...) Quem abre a porta é marginal, é crime. (...) Todos os passageiros que cumprem as regras são excelentemente tratados.

Aqueles que são marginais, prendem a porta e fazem baderna não podem ter o mesmo tipo de tratamento”.(Os jagunços chicoteavam passageiros com o trem em movimento, com as portas fechadas, e o doutor soube disso.)

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Brasil Du Barry

Prossegue o mistério: por que a Madame Du Barry, namorada de Luís XV, fugiu para Londres no início da Revolução Francesa e voltou a Paris em 1793 para ser passada na lâmina? O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) usou sua cota de passagens da Câmara para voar a Nova Iorque e Buenos Aires, sempre levando a mulher. Também usou o dinheiro da Viúva para pagar os bilhetes de três pessoas estranhas à sua família. Marquezelli é um empresário bem-sucedido no setor agrícola, tem 11 propriedades urbanas e seis fazendas. Seu patrimônio declarado vai a R$ 5 milhões. Há um ano, ele propôs uma reforma modernizadora, extinguindo todos os encargos trabalhistas, inclusive os previdenciários. Fica a pergunta: Marquezelli viaja com o dinheiro da Viúva porque é homem rico e, por isso, quer a reforma trabalhista? Ou quer a reforma trabalhista porque é homem rico e viaja com o dinheiro da Viúva?

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota solidário com os deputados e senadores que não querem abrir mão de suas verbas de transporte. Pede apenas um favor: quando eles vierem ao Rio, tornam-se clientes matutinos e compulsórios dos trens da SuperVia.

Uvas verdes

O grão-tucano Paulo Renato Souza, atual secretário de Educação do governador José Serra, condenou o projeto de substituição do processo seletivo da primeira fase do vestibular pelas notas do Enem. Segundo ele, a proposta “está mal formulada”. Admitindo-se que tenha razão, sobra uma curiosidade. O doutor Paulo Renato ficou sete anos na cadeira de ministro da Educação, criou o Enem, mas não formulou sua boa proposta para substituir o massacre da garotada. Fernando Haddad vai completar quatro anos no cargo. Mais: o comissário Tarso Genro assumiu o ministério da Educação em janeiro de 2004 e, dez meses depois, o ProUni já estava na rua. Nos dois casos, os ministros de Nosso Guia fizeram coisas que custavam pouco dinheiro e demandavam apenas a vontade de fazê-las.

Alegria pura

Quem tiver sete minutos para perder pode passar no YouTube para ver a desempregada inglesa Susan Boyle cantando “I dreamed a dream” num programa de calouros. É uma variante compacta do toque sentimental que se recebe vendo o filme “Slumdog millionaire”, sem o acompanhamento do estilo “Cidade de Deus” de direção.

ELIANE CANTANHÊDE

Procura-se um doido de pedra

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/09

BRASÍLIA - O Congresso só tem uma alternativa: ou dar ou dar um choque de moralidade. O que nos leva à séria desconfiança de que não há alternativa nenhuma.
O necessário e urgente choque esbarra em sólidos obstáculos: os presidentes do Senado, José Sarney, e da Câmara, Michel Temer, a cultura arraigada de privilégios e até o momento de crise econômica.
Sarney e Temer não têm temperamento para o confronto, fogem de problemas como o diabo da cruz e já passaram pelas duas presidências antes sem mexer um dedo para mudar as coisas. De Sarney, aliás, diz-se que ele não apenas manteve como disseminou a farra.
Qualquer solução exige medidas duríssimas, que desagradariam senadores, deputados e funcionários menos ou (principalmente) mais graduados. São 180 diretorias? Que virem 18. Pagaram horas extras no recesso? Devolva-se tudo, centavo por centavo. As notas eram de empresas do próprio parlamentar? Ele tem de ressarcir o Estado.
Mas tudo depois de uma medida crucial: acabar de uma vez por todas com a tal verba indenizatória, uma excrescência criada para compensar a falta de coragem para aumentar os salários quando era preciso. Não aumentaram e criaram essa verba, que escancarou de vez o portão dos desvios e maracutaias.
Há consenso de voltar atrás: acabar com a verba indenizatória e aumentar os salários (hoje de R$ 16,5 mil, contra R$ 24,5 mil de ministros do STF). Trocar a mentira pela verdade de cada parlamentar. Que ele viva do próprio salário.
Mas como falar em aumento de salário de deputado e senador numa hora dessas? A combinação de crise moral do Congresso com crise econômica que ameaça os empregos da iniciativa privada inviabiliza qualquer sugestão assim.
Segundo importante nome da República que não é e nunca foi parlamentar, "o caminho está aí, o difícil é atravessar a pinguela" (lançar a tese e conquistar a opinião pública). Algum doido se habilita?

DANUSA LEÃO

Por onde anda o amor?

FOLHA DE SÃO PAULO - 19/04/09

Será que as pessoas ainda se apaixonam, amam como amavam, pensam no ser amado o tempo todo?


SEMANA PASSADA estava em casa vendo TV e vi que ia passar, naquela noite, "Piaf" -que eu já tinha visto duas vezes no cinema. Não resisti e fiquei esperando, impaciente, que o filme começasse. E foi muito bom ter visto pela terceira vez, pois percebi uma coisa que tinha me escapado das duas primeiras: a música de fundo, que no filme não é cantada, é tocada quase que o tempo todo baixinho, muito sutilmente, e é uma belíssima canção, se não me engano de Raymond Asso, que se chama "Mon Légionnaire". Linda, linda, como quase todas as que Piaf cantava. E eu fico me lembrando daquela que foi uma época de ouro da música no mundo inteiro.
A partir dos anos 30, tivemos, entre compositores e intérpretes, Cole Porter, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Montand, Brel, Trenet, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Isaurinha Garcia, e mais tarde Tom, Vinicius, Chico, Caetano, Edu, Bethânia, Gal, Roberto e tantos mais, todos diferentes, mas o que podia haver de melhor, tanto assim que suas músicas são lembradas, tocadas e cantadas até hoje no mundo todo, por todas as gerações. E houve também a disc music, com algumas inesquecíveis.
Mas a partir daí, o que aconteceu com a música? Das mais recentes, não conheço nenhuma maravilhosa, de nenhum país. Qual foi o último sucesso de que me lembro? De Rod Stewart cantando canções antigas, mais nada.
Andei falando com uns jovens amigos e a explicação foi que, tendo o mundo se expandido tanto, criaram-se novos nichos de música, que são por sua vez apreciados por determinados nichos de pessoas. Curiosamente, as coisas não são mais tão universais como eram antes da globalização.
Mas não foi só isso que mudou. Até a bossa nova, as músicas -da França, dos EUA, do México, do Brasil- falavam de amores infelizes, de corações despedaçados, sendo que os tangos usavam e abusavam da figura da mãe -"la madrecita". A bossa nova fez com que os amores ficassem mais leves -nem por isso as pessoas sofriam menos por amor-, mas agora eu não entendo mais nada. Vamos ao fundo da questão: será que as pessoas ainda têm uma dor de corno, daquelas de se enfiar na cama e nem querer saber se está chovendo ou fazendo sol? A julgar pelas músicas atuais, não.
Comecei falando de música, mas agora vou falar de amor. Será que as pessoas ainda se apaixonam, amam como amavam, pensavam no ser amado o tempo todo e fariam qualquer coisa -como diz "Hino ao Amor", de Piaf, renegariam sua pátria e seus amigos se lhe fosse pedido- pela pessoa que amassem? Vamos falar de coisas bem banais: deixariam de ir a um jogo de futebol, se isso lhes fosse implorado? De ir à praia? Dariam o último pastelzinho da travessa à pessoa amada? Será que o amor está acabando?
Há muito tempo não ouço ninguém me dizer que está morrendo de paixão, nem homem nem mulher. Os homens não são muito de confessar essas coisas, mas as mulheres estão preferindo ir a uma academia de ginástica a sair com um homem com más intenções. O que é uma pena. Porque não há nada melhor do que viver uma paixão, e se ela não der certo, sofrer muito por ela.

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Crise e consequência


O GLOBO - 19/04/09

“Crise” e “oportunidade” são representadas pelos mesmos ideogramas chineses, como se ouve muito em palestras inspiradoras para empresários. Segundo a velha sabedoria chinesa o azar de uns pode ser a sorte de outros, o que para uns é desastre para outros é bênção.

Quando querem dar uma ideia da crise econômica na Alemanha durante a república de Weimar, sempre recorrem à mesma imagem: a hiperinflação era tamanha que para se comprar um pão na padaria era preciso levar marcos num carrinho de mão. O valor de tudo era medido em carrinhos de mão cheios de marcos, e eram necessários cada vez mais carrinhos de mão para carregar os marcos cada vez mais desvalorizados. Pode-se imaginar os carrinhos de mão engarrafando o transito nas ruas de Berlim. E todos se queixando da situação, dizendo que aquilo não podia continuar, que era preciso um governo forte para acabar com aquilo, que assim não dava mais etc.

Todos, menos o Kurt. O Kurt estava feliz. Enquanto à sua volta os outros perdiam dinheiro e se lamentavam, o Kurt prosperava e exultava. Sua pequena indústria crescera, e não parava de crescer. Em vez de desempregar, Kurt empregava. E enriquecia em meio à crise. Como aquilo era possível?

Kurt, claro, tinha a única fábrica de carrinhos de mão da Alemanha.

Li que em Nova Iorque tem uma empresa prosperando como a do Kurt na parábola acima. Ela faz sacolas elegantes mas simples, de aspecto neutro e sem nenhuma inscrição, para substituir as sacolas que as lojas de grife davam para seus clientes levarem as compras. Assim os clientes podem andar na rua sem o risco de serem confundidos com banqueiros de Wall Street, ou suas mulheres, gastando suas gratificações imerecidas pagas pelo contribuinte, enquanto o contribuinte pena. Crise e oportunidade.

Na Idade Média era comum os padres mandarem os pecadores jogarem cinza sobre a cabeça, em sinal de contrição, depois de se confessarem. Desenvolveu-se um rico comércio de cinza na saída das igrejas. Em todos os últimos governos do Estados Unidos tinha gente da financeira Goldman Sachs cuidando da economia. Um ex-diretor da Goldman Sachs, Henry Paulson, era o secretário do Tesouro do Bush quando a crise estourou. Receitou ajuda do governo para todos os bancos combalidos, menos para o Lehman Brothers, grande rival do Goldman Sachs, que deixou quebrar. Agora o Goldman Sachs é o primeiro dos combalidos a declarar que saiu da crise. Há quem diga que a primeiro dever de qualquer secretário do Tesouro americano, incluindo o do “Baraca”, é proteger o Goldman Sachs. Mas é o mesmo tipo de gente maliciosa que desconfiava que a igreja lucrava com o comércio de cinza.

DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: TCE encontra irregularidades em 70% dos royalties do Rio

 

Folha: Com licitação feita há 26 anos, obra de Angra 3 é retomada

 

Estadão: Investidor externo faz Bovespa liderar ganhos

 

JB: Força-tarefa contra o crack

 

Correio: O imóvel que cabe no seu bolso