segunda-feira, outubro 26, 2009

CHRISTOPHER HITCHENS

Por que esperar para desarmar o Irã?

REVISTA ÉPOCA


Há resultado pior que a obtenção da bomba por um país que rasgou todos os acordos que assinou?


Uma contradição deve ser enfrentada por aqueles de nós que não gostam especialmente do rótulo de “neoconservadores”, mas desejariam que houvesse um termo melhor para alguém que seja a favor de uma atitude vigorosa por parte dos americanos contra Estados totalitários e agressivos. Essa contradição, muitas vezes, toma a forma de uma vontade de enfatizar uma ameaça sem causar pânico. É possível começar a ver esse argumento pelo lado oposto.

Em um passado recente, regimes de um só partido ou um só homem, na Sérvia e no Iraque, causaram problemas reais para seus vizinhos, viraram um pesadelo para seu povo e zombaram de todos os princípios do Direito Internacional, mas muitos comentaristas consideraram arriscado confrontá-los. Quem não queria enfrentar Slobodan Milosevic ou Saddam Hussein enfatizava o poder de violência que eles tinham sob seu comando. Os que pensavam em se livrar desses governos eram bombardeados com argumentos de que esses Estados eram uma ameaça letal. Assim, parabéns ao colunista David Ignatius, do jornal The Washington Post, que reproduz as descobertas de uma publicação especializada pouco conhecida, chamada Nucleonics Week. O artigo diz que “o estoque de urânio pouco enriquecido do Irã – a matéria-prima das bombas nucleares – parece ter algumas ‘impurezas’ que ‘poderiam fazer as centrífugas parar de funcionar’ se os iranianos tentarem enriquecê-lo até o grau de armas nucleares”.

Entre outras coisas, isso poderia explicar por que o Irã está negociando cinicamente para mandar seu urânio pouco enriquecido a outros países, como França e Rússia, para ser enriquecido até um grau mais alto. Tal atitude, é claro, também seria compatível com um programa “pacífico”, se ainda houver alguém que acredite que é isso o que a República Islâmica realmente quer.

A teocracia tornou o país tão atrasado que está vulnerável até mesmo a sanções ao petróleo refinado. Diferentemente da vizinha e secular Turquia, que quase não tem petróleo, mas está perto de se qualificar – ao menos economicamente – para entrar na União Europeia, o Irã continua a ser um exportador de pistache e tapetes como era quando os medievalistas sádicos tomaram o poder. Um sistema em que nada funciona de verdade, exceto a vontade dos militares, como na Coreia do Norte, acaba produzindo mísseis em ritmo irregular, assim como armas nucleares de pouca capacidade.

Mesmo assim, é o suficiente para arruinar a vida de um país vizinho, assim como transformar em piada o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Se for verdade que o Irã não está tão perto de romper uma barreira, isso não poderia sugerir que, para desarmar os mulás, agora é um momento melhor que mais tarde?

É bom lembrar que o Irã adquiriu boa parte de seu material no mercado negro, comprando por procuração e usando outros meios desonestos, antes que alguém percebesse. Isso, por sua vez, significa que seria muito mais difícil conseguir suprimentos para reposição, diante da vigilância contínua da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica. É lógico, então, que até uma pequena perturbação em alguma das principais instalações iranianas poderia atrasar o tênue programa por um bom tempo.

Nunca presenciei uma discussão sobre o que se pode fazer contra Teerã que não fosse centrada em resultados possivelmente calamitosos. Israel ataca o Irã e... bem, o resto você já sabe. Aparentemente, nada pode ser feito que não piore a situação. É como se pudesse haver um resultado pior que a obtenção de armas nucleares por um país messiânico fora da lei, que rasgou todos os acordos que assinou. Diante disso, temos o direito de pensar que, se o regime está blefando e ganhando (ou até roubando) tempo quanto às armas de destruição em massa, seria a melhor hora de aumentar o custo do desrespeito às leis e sabotar seus preparativos nucleares. Ou é melhor esperar e lutar depois, quando o inimigo tiver mesmo suas armas? Perguntar não ofende.

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