terça-feira, abril 14, 2009

CLÓVIS ROSSI

O joio, o trigo e a economia

FOLHA DE SÃO PAULO 14/04/09

SÃO PAULO - Há uma velha brincadeira sobre jornalismo que diz que o que fazemos é separar o joio do trigo, jogar fora o trigo e publicar o joio. Piadinha engraçada e, às vezes, verdadeira.
Menos no caso das previsões sobre economia. Neste caso, nem nos damos ao trabalho de separar o joio do trigo. Publicamos ambos, e o leitor que trate de separar um do outro para sentir-se bem informado. Até tive a esperança de que, com a crise e o colossal fracasso de nove entre dez economistas em prevê-la, haveria um refluxo no torneio de palpites que é dizer como será o futuro da economia. Pura ilusão. Passados uns momentos de silêncio meio envergonhado, eis que a fábrica de palpites voltou a funcionar -e em três turnos.
O mais recente palpite é o das instituições financeiras que atuam no país: segundo o UOL, elas revisaram para baixo, pela sexta semana consecutiva, a sua previsão para o PIB em 2009. Agora, chutam retração de 0,3%. Há apenas seis semanas, previam crescimento (1,5%), não retração.
O que aconteceu nesse mês e meio para uma mudança tão drástica no palpite? Nada de relevante. E nós continuamos a publicar, semana após semana, os chutes travestidos de previsão. Nem nos lembramos que o Datafolha, quando divulga suas pesquisas, informa direitinho o número de pesquisados, as cidades em que foi feita a pesquisa, a margem de erro e avisa claramente que se trata apenas do retrato daquele momento, não a adivinhação do resultado final.
Na economia não. Alguém aí sabe como cada instituição financeira faz seus cálculos?
Podem até acertar. Mas, se há um mês e meio enxergavam uma coisa e agora veem outra radicalmente diferente, como alguém pode acreditar que são realmente capazes de prever o que vai acontecer daqui a oito meses e meio, quando termina o ano de 2009?

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