sábado, novembro 29, 2008

EDITORIAL:O ESTADO DE SÃO PAULO

TENTATIVA DE INTIMIDAÇÃO

O comportamento autoritário é especialmente aberrante quando adotado por quem sempre se apresentou como inimigo do autoritarismo. O advogado e ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que fez carreira defendendo presos políticos e amealhou polpudos honorários com as milionárias indenizações obtidas para as "vítimas do regime militar", permitiu-se assumir uma atitude flagrantemente contrária à liberdade de expressão - que a Constituição consagra por ser o mais eficiente antídoto que uma democracia pode usar contra a tentação totalitária.

Greenhalgh pleiteia na Justiça o recolhimento de documentos que teriam sido obtidos por repórter do Estado sobre a guerrilha do Araguaia. Pediu a intimação do repórter Leonencio Nossa, da Sucursal de Brasília - sob pena de busca e apreensão em sua casa -, para que forneça documentos repassados por militares que participaram dos combates entre as Forças Armadas e militantes do PC do B no Pará, nos anos 1970. O pedido se relaciona a processo movido pelo advogado em 1982, solicitando esclarecimentos sobre aquela guerrilha. Já mereceu parecer contrário do procurador Rômulo Conrado, com base no argumento de que o jornalista "não é parte integrante da lide, razão pela qual não pode figurar no pólo passivo do processo".

Razões técnico-jurídicas à parte - já que é notória demais para precisar ser comentada a intenção do advogado de confrontar o princípio constitucional do sigilo da fonte, essencial para o livre exercício da atividade jornalística (art.5, XIV) -, cabe examinar os aspectos ético-políticos da questão. Não foram só os setores do Ministério Público que trabalham parar abrir os arquivos oficiais sobre as mortes no Araguaia que estranharam a atitude do advogado e ex-deputado federal pelo PT. Entidades ligadas aos jornalistas e à defesa da liberdade de expressão - como a Associação Brasileira de Imprensa, a Federação Nacional dos Jornalistas, o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal - reagiram com um misto de indignação e incredulidade ao pedido de busca e apreensão na residência do jornalista.

Greenhalgh, aliás, já havia sido recriminado por representantes do PT e assessores do presidente Lula, em 2006, por repassar para jornalistas documentos produzidos por militares que colocavam em questão a conduta do deputado e ex-guerrilheiro José Genoino - com quem disputava votos. Greenhalgh desmentiu tal versão, com a mesma ênfase com que repudiara versões sobre seu envolvimento com a Lubeca, que levara a ex-prefeita Luiza Erundina a demiti-lo de seu secretariado. E, ontem, o Estado publicou carta de uma leitora que afirma que, se há quem queira saber o que ocorreu no Araguaia, também há quem queira a elucidação do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em cujo processo Greenhalgh foi atuante, no sentido de manter uma inconvincente versão do caso.

Em nota à imprensa o advogado alega que o pedido que encaminhou à 1ª Vara Federal de Brasília "não é de busca e apreensão na casa do repórter, simplesmente". Diz que se trata de "requerimento para que se tomem providências judiciais necessárias à execução de decisão que condena a União a abrir os arquivos da ditadura referentes ao episódio denominado ?Guerrilha do Araguaia?". E acrescenta: "O objetivo é que o repórter preste esclarecimentos e auxílio aos autores da ação. O repórter tem condições de contribuir decisivamente com (sic!) a história do País, ao colaborar com (sic!) a localização e fornecimento ao Estado de documentos repassados por Sebastião Curió, autor de inúmeros delitos na ?Guerrilha do Araguaia?. A mencionada ?busca e apreensão? só ocorreria no caso de o repórter recusar-se a prestar informações à Justiça."

É realmente difícil explicação menos convincente e com mais cinismo. Sem rubor nas faces, Greenhalgh traveste de propósitos "históricos" o que não passa de uma reles tentativa de intimidação, na falta da "colaboração" do jornalista. E não hesita em agredir os fundamentos da liberdade de imprensa, certamente por supor ser o jornalista a parte mais vulnerável na questão. Afinal, sabendo que, se o repórter Leonencio Nossa possui realmente os documentos que podem enriquecer a história, ele os obteve do coronel Sebastião Curió, por que o advogado não vai diretamente a este?

CARINHA DE SAFADA

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PARA...HIHIHIHI


DE MERDA

'Napoleão Bonaparte, durante as batalhas, sempre usava uma camisa de cor
 vermelha. Assim, se fosse ferido, os soldados não notariam o seu líder sangrando, e continuariam a lutar com o mesmo ímpeto. '
 

Dois séculos
 depois, inspirado no grande general, 
Lula
 só usa calça marrom.'
 
 

ANCELMO DE GOIS

Filme antigo


O Globo - 29/11/2008
 

Todo ano, como diria Lula, é a mesma marola. A votação do Orçamento 2009 foi marcada pela comissão que trata do tema para 22 de dezembro, quase véspera de Natal. 

O texto, que define quanto de dinheiro vai para cada área do governo, tem de ser votado por deputados e senadores e antes que o Congresso entre em recesso. 

Só que... 

Já tem gente falando em antecipar a votação por causa das festas de fim de ano. 

Mas, como já aconteceu algumas vezes no passado, pode ocorrer de adentrar 2009 sem Orçamento definido.

Ingrid no Brasil 

Ingrid Betancourt, a ex-senadora colombiana ex-refém das Farc, desembarca no Rio segunda de um vôo de Paris.

Sob total sigilo, cercada de segurança, acompanhada de um diplomata francês e sem divulgar agenda.

Voando 

Para quem acha Sérgio Cabral brabo (não são muitos). 

Na briga para impedir que o Santos Dumont esvazie o Galeão, o governador, mesmo contrário à idéia, ouviu a presidente da Anac, Solange Vieira, até o fim. 

Já... 

O governador Aécio Neves, que vive o mesmo dilema entre os aeroportos da Pampulha e de Confins, não deixou Solange falar e encerrou a reunião. 

Carta aos passageiros 

Aeronautas (a turma que trabalha no ar) e aeroviários (o pessoal de terra) começam a distribuir segunda nos aeroportos o documento "Carta aos passageiros", em que criticam os patrões e anunciam seu "estado de greve". 

- Para aumentar as tarifas, a velocidade é de jato. Para aumentar os salários, é de teco-teco - protestam no texto.

Pegou mal 

A turma do cinema ficou passada, ontem, em Búzios, ao perceber que não havia ninguém da Ancine na feira de negócios Show Búzios Festival, onde se decidiram investimentos e a distribuição dos filmes com lançamento previsto para 2009. 

Estavam presentes 95% do PIB nacional da produção cinematográfica. E até Liliana Mazure, presidente da Incaa, a Ancine da Argentina, apareceu para fechar negócios e parcerias.

Ponto Final

A direção da Petrobras, que até outro dia fazia a maior farra com dinheiro, parece até a cigarra daquela fábula atribuída a Esopo e recontada por Jean de La Fontaine. É que, na época da abundância, a estatal não guardou reserva para uma hora destas.

ILIMAR FRANCO

Foi 3 x 2

 Panorama Político
O Globo - 29/11/2008
 

Sobrou para o ministro Tarso Genro (Justiça) decidir sobre o pedido de extradição de Cesare Battisti. O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) negou o pedido de refúgio, mas o placar foi apertado: 3 a 2. Sua defesa vai recorrer ao ministro. A extradição foi pedida por Romano Prodi (ex-primeiro-ministro, de centro-esquerda), e o processo é acompanhado de perto pelo atual primeiro-ministro, Silvio Berlusconi (direita).

Democratas cria editoria de crise 

O DEM criou uma página sobre a crise em seu site. Ela estimula os internautas a enviarem depoimentos sobre como suas vidas estão sendo afetadas: "Queremos saber o que você pensa sobre a crise econômica". Na apresentação, um texto explica como a crise atinge as pessoas, com a advertência: "Não vá na conversa de quem manda você consumir e gastar como antes". Diariamente é publicado o depoimento de um cidadão sobre suas perspectivas, diante da crise, para o Natal e para o ano de 2009. Com humor, o DEM alerta: "Até o Flamengo está com dificuldades para renovar o histórico patrocínio com a Petrobras". 

O céu de brigadeiro acabou. Se a Dilma Rousseff for mano a mano com o José Serra, perde. Não podemos desprezar o Ciro Gomes, ele tem 25%" - Beto Albuquerque, deputado federal (PSB-RS) 

IMPROPÉRIOS
Apesar de o governo ter aceitado negociar o fim do fator previdenciário, o presidente Lula não poupou de críticas o senador Paulo Paim (PT-RS), autor do projeto, em jantar quarta-feira com dirigentes das centrais sindicais. "Não posso permitir que quebrem o país. O Paim fica querendo se reeleger nas costas do governo", reclamou Lula. O senador tem mais dois projetos que aumentam benefícios previdenciários. 

Vôo solo 

O Democratas ainda não entrou no caso do empréstimo de R$2 bilhões da CEF para a Petrobras. Os tucanos fizeram a denúncia. O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), explica: "Eles não nos convidaram para bater junto".

Abrindo o voto 

O senador tucano Tasso Jereissati (CE) explica por que está apoiando a candidatura do petista Tião Viana (AC) para a presidência do Senado: "O PMDB usa a oposição como escada para pressionar o governo. Prefiro as coisas claras". 

Os call centers vão ter de melhorar 

O Ministério da Justiça fez pesquisa sobre as novas regras para os call centers, que passam a vigorar segunda-feira. Se declararam habilitados 85% dos bancos e 80% das operadoras de telefonia. Os melhores relatos: Unibanco e Claro. A portaria prevê que em até um minuto o consumidor terá contato com o atendente e o cancelamento dos serviços será facilitada. A multa para os infratores varia de R$200 a R$300 milhões. 

Ciro Nogueira em busca de musculatura 

Azarão na disputa pela presidência da Câmara, o deputado Ciro Nogueira (PP-PI) costura uma base política para sua candidatura. Contando com o apoio do ex-presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP), trabalha para garantir o apoio institucional do Bloco de Esquerda (PSB-PDT-PCdoB) e do DEM. Há dois anos essas forças se articularam em torno da reeleição de Aldo e foram derrotadas pelo bloco PT-PMDB, que elegeu o atual presidente, Arlindo Chinaglia (PT-SP). 

O MINISTRO Carlos Lupi (Trabalho) está irritado com o presidente do Codefat, Luiz Fernando Emediato. Ontem, Emediato negou que tenha dito que o FAT não seria usado para ampliar o seguro-desemprego. 

O PRESIDENTE do Equador, Rafael Corrêa, não contava com a reação do Brasil. Imaginava que seria tratado como a Bolívia, mas esqueceu que seu país não fornece gás natural para a economia brasileira. 

O LÍDER do PSDB, José Aníbal (SP), explica por que o governo Lula quer votar, de qualquer jeito, a reforma tributária: "O governo quer pôr o carimbo dele".

ANDRÉ PETRY

REVISTA VEJA

André Petry
O câncer que some

"Desde que a pesquisa foi publicada, minha caixa de e-mail estourou. São imunologistas dizendo que já desconfiavam da cura espontânea do câncer"

Acaba de sair do forno uma pesquisa sobre câncer de mama que dá o que pensar. Publicado pelo Archives of Internal Medicine, o estudo sugere que alguns cânceres de mama, mesmo agressivos e invasivos, podem simplesmente desaparecer. Sem tratamento. O corpo dá conta de eliminá-los. Os oncologistas já sabiam que alguns cânceres podem regredir sem tratamento, mas a pesquisa de agora sugere que a freqüência com que isso acontece pode ser muito maior do que se imaginava. Se isso for confirmado, terá tremendas implicações. Vai mudar a forma como encaramos um diagnóstico de câncer e a freqüência com que nos submetemos a exames de câncer.

A pesquisa acompanhou dois grupos, cada um com mais de 100 000 mulheres, durante seis anos, antes e depois da adoção da mamografia na Noruega, em 1996. Um grupo foi monitorado de 1992 a 1997 – e, portanto, só fez mamografia nos últimos dois anos. O outro, de 1996 a 2001, sempre fazendo mamografia. No grupo que fez mamografia regularmente, 1 909 mulheres foram diag-nosticadas com câncer de mama invasivo. No grupo que fez mamografia só ocasionalmente, a doen-ça apareceu num número menor, 1  564. Por que a diferença de 345 mulheres? Várias hipóteses foram examinadas (do uso de hormônio na menopausa à qualidade dos mamógrafos). Só uma parou de pé: 345 mulheres, ou um número próximo disso, podem ter tido um câncer de mama que se curou sozinho. Sumiu.

Falei por telefone com H. Gilbert Welch, um dos três médicos responsáveis pela pesquisa. Atencioso e didático, o doutor Welch não demonstrou nenhum entusiasmo por ter – quem sabe? – tocado num ponto que pode revolucionar a pesquisa sobre câncer no mundo. Ao contrário: estava sereno e cuidadoso. Fez questão de esclarecer duas coisas. A primeira é que a pesquisa é uma hipótese, não uma certeza, e, mesmo que venha a ser confirmada, provará que a cura espontânea de câncer de mama afeta uma pequena quantidade de mulheres. A segunda é que a mamografia permanece útil e recomendável. Faz bem, precisa ser feita e salva vidas.

Feitos os alertas, o doutor Welch sentiu-se autorizado a voar. "Desde que a pesquisa foi publicada, minha caixa de e-mail estourou. São imunologistas dizendo que já desconfiavam da cura espontânea do câncer." Welch é autor de um livro que questiona os exames invasivos, a febre pelo diagnóstico precoce, essa procura incessante pela célula cancerosa. Seu livro chama-se Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and Here’s Why (algo como "Será que devo fazer exame de câncer? Talvez não, e aqui está o porquê"). Welch diz que quem procura acha e, ao achar, acaba se preocupando com o que talvez não devesse. "Não deveríamos estar empenhados em achar todos os cânceres, mas em achar o câncer certo."

Dá o que pensar. Mas, como o "talvez" significa a diferença entre a vida e a morte, ouça seu médico, faça mamografia e siga o tratamento que for prescrito.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA

Roberto Pompeu de Toledo
Tristes trópicos

"No título de seu mais famoso livro, Lévi-Strauss, que na semana passada completou 100 anos de vida, nos convida a abandonar os estereótipos de nós mesmos"

Claude Lévi-Strauss, que na última sexta-feira, em Paris, completou 100 anos na glória de ser tido como sábio de uma estirpe que não existe mais, devemos a revelação de que somos tristes. Ela está no título do seu livro mais famoso: Tristes Trópicos. O etnógrafo/antropólogo/
filósofo franco-belga morou no Brasil entre 1935 e 1939, como integrante do time de professores franceses contratado para dar início à Universidade de São Paulo. Tristes Trópicos, um livro que, além de etnográfico/antropológico/filosófico, é também – e sobretudo – uma obra-prima da literatura, constitui-se no relato, escrito vinte anos depois, da experiência brasileira do autor.

Por que seriam tristes estes nossos trópicos? O livro não o explicita. Em entrevistas, Lévi-Strauss contou muitas vezes que, ao voltar do Brasil, começou a escrever um romance – abandonado quando se convenceu de vez da falta de talento para a ficção – que se chamaria Tristes Trópicos. Como nunca explicou por que o romance, por sua vez, teria esse título, ficamos na mesma. Viria a tristeza das boçais truculências, contadas no livro, sofridas em suas relações com o Brasil? Uma vez, em Salvador, ele fotografava meninos negros quando foi abordado por dois policiais e levado preso. "Essa fotografia, utilizada na Europa, poderia acreditar a lenda de que existem brasileiros de pele preta e de que os garotos da Bahia andam descalços", escreveu.

De outra vez – pior, muito pior –, já de volta à França, e querendo escapar do sufoco de ser judeu no regime pró-nazista de Vichy, esbarrou com a indecência do Estado Novo de Getúlio Vargas ao recorrer à Embaixada do Brasil em busca de um visto. O embaixador, Luís de Souza Dantas, que era seu amigo, já suspendia no ar o carimbo para aplicá-lo no passaporte quando foi interrompido pelo alerta de um conselheiro da embaixada – judeus não eram bem-vindos pelo regime brasileiro. Escreve Lévi-Strauss: "Durante alguns segundos, o braço permaneceu no ar. Com um olhar ansioso, quase suplicante, o embaixador tentou obter de seu colaborador que desviasse os olhos enquanto o carimbo se abaixasse. Nada aconteceu, o olho do conselheiro continuou fixado sobre a mão, que finalmente caiu ao lado do documento. Eu não teria o meu visto, o passaporte me foi devolvido com um gesto de tristeza".

Estamos numa falsa pista. Não seria por razões pessoais que um espírito como o de Lévi-Strauss chamaria de tristes os trópicos. Além disso, a permanência no Brasil, rica de contatos com os povos indígenas, forneceu-lhe a base de uma carreira de etnógrafo e de antropólogo que o elevaria à condição de um dos maiores pensadores do século XX. O Brasil foi um ponto luminoso, não de sombra, em sua centenária vida.

É preciso lembrar, corrigindo o início deste artigo, que Lévi-Strauss não foi o primeiro a farejar tristeza por estas paragens. O livro Retrato do Brasil, de Paulo Prado, de 1928, abre com a frase: "Numa terra radiosa vive um povo triste". Paulo Prado cita testemunhas tão remotas quanto o padre Anchieta, para quem esta era uma terra "desleixada e remissa e algo melancólica". Como é que pode? Não somos a terra do sol, da natureza em festa, do Hino Nacional que, caso único no mundo, tem duas vezes o adjetivo "risonho" em sua letra ("céu, risonho e límpido" e "risonhos, lindos campos") e do povo identificado universalmente como o que injetou doses supremas de alegria no carnaval recatado e no futebol brutamontes dos europeus? Estamos diante de algo incongruente, algo que não bate. Por que tristes trópicos?

Se Lévi-Strauss abandonou o romance que estava escrevendo, não abandonou o título. Tristes Trópicos, com seu "tri" que se enlaça no "tro", brinca na língua e soa como verso, era bom demais para ser esquecido. Mas não o julguemos leviano a ponto de conservar um título só por sua qualidade literária. Talvez o título lhe tenha sido sugerido pelo assombro – presente, no livro, tanto quanto na época de Colombo e de Cabral – diante do encontro entre dois mundos e duas humanidades, com o resultado, para os europeus do Velho Mundo para aqui transplantados, da nostalgia do desterro, e, para os indígenas que aqui viviam, da opressão e do aniquilamento.

Ou talvez a benemérita intenção do autor tenha sido apenas investir contra o estereótipo. Atenção: nem tudo o que é ensolarado é alegre, nem tudo o que é gelado é triste. Esse seria o aviso do grande filósofo.

DIOGO MAINARDI

REVISTA VEJA

Diogo Mainardi
2 789 toques

"Para o colunista, o essencial é eliminar qualquer sombra de ambigüidade. Dou um jeito de solucionar a crise da economia mundial numa única coluna, com um único argumento. Paul Krugman também"

Paul Krugman, o Nobel de Economia, recomenda gastar alopradamente. Eu recomendo o oposto: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? O Nobel de Economia ou o Jabuti de 1990?

Paul Krugman é colunista do New York Times. Eu sei o que acontece com ele, porque é o mesmo que acontece comigo. Uma coluna tem mecanismos próprios. A gente aprende a esgotar todos os assuntos numa tacada só, limitando-os a um determinado número de toques. Meus pensamentos restringem-se a 2 789 toques. Menos do que isso, me embanano. Mais do que isso, eu murcho. O assunto pode ser Aristóteles ou uma torneira gotejante na pia do banheiro: o que tenho a dizer sobre eles se encerra rigorosamente depois de 2.789 toques. Para o colunista, o essencial é eliminar qualquer sombra de ambigüidade. Dou um jeito de solucionar a crise da economia mundial numa única coluna, com um único argumento. Paul Krugman também. Um colunista é um Cafuringa, que corre olhando para a bola até sair pela linha de fundo. Daí a receita peremptória do Nobel de Economia: gastar alopradamente. Daí a receita peremptória do gordinho indolente: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? Nenhum dos dois. Um colunista nunca pode estar certo.

Em outubro, num artigo sobre o estado calamitoso da economia americana, Paul Krugman afirmou: "Somos todos brasileiros". Ele se referia ao fato de agora os Estados Unidos sofrerem o contágio dos mercados, como um país do Terceiro Mundo, como o Brasil. Se os Estados Unidos real-mente se transformaram num Brasil, Paul Krugman, com seus planos espalhafatosos, é o Luiz Gonzaga Belluzzo deles. E os brasileiros sabem que um Luiz Gonzaga Belluzzo sempre acaba encontrando seu Dilson Funaro. O Dilson Funaro americano só pode ser Lawrence Summers, o principal conselheiro econômico de Barack Obama. Ele concorda com Paul Krugman que a saída para a crise é inundar a economia com dinheiro público. Ele concorda igualmente que é melhor gastar de mais do que gastar de menos, sem dar a menor pelota para o rombo nas contas.

Assim como Paul Krugman, Lawrence Summers também se tornou um colunista. No caso, do Financial Times. Nessa economia gerida por colunistas, aboliram-se todos os conceitos mais simples e, por isso mesmo, intelectualmente mais enfadonhos: corte de gastos, disciplina fiscal e aumento de impostos, que implicam um período de ajuste, com arrocho salarial, desemprego em massa e quebradeira generalizada. É complicado comparar um lugar ao outro. Os Estados Unidos tomam dinheiro emprestado com juros iguais a zero, o Brasil paga 15%. Eles planejam gastar em investimentos, a gente gasta com custeio. Mas, se Paul Krugman está certo e os Estados Unidos de fato se transformaram num Brasil, o futuro da economia mundial está garantido: sairemos, com bola e tudo, pela linha de fundo.

SÁBADO NOS JORNAIS

Globo: CEF não ouviu auditores no socorro jumbo à Petrobras

 

Folha: Ação terrorista mata 160 na Índia

 

Estadão: Desmatamento avança 12 mil Km² na Amazônia

 

JB: Chuvas deixam 800 desabrigados no Rio

 

Correio: Cuidado! Bandidos estão de olho no seu cartão

 

Valor: Linhas do BC funcionam e exportador quer mais

 

Gazeta Mercantil: Fundos sustentáveis excluem Petrobras

 

Estado de Minas: À espera de um prefeito

 

Jornal do Commercio: Comércio sente os efeitos da crise